domingo, 28 de outubro de 2012

Jornal Raizonline nº 194 de 29 de Outubro de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (XV) - A memória

 
Jornal Raizonline nº 194 de 29 de Outubro de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (XV) - A memória

Já aqui tenho falado, mais que uma vez até, da importância da memória nas suas mais diversas vertentes temáticas. Também reconheço uma verdade que foi ventilada aqui há dias e em que nós não reparamos muito que é o facto de o saber hoje já ocupar lugar, ao contrário daquilo que se dizia tempos atrás.

Na verdade os fluxos de informação são tão abundantes que temos de gerir essa informação fazendo até por «esquecer» algumas coisas que entendemos que só ficam aqui na nossa cabecinha a atrapalhar.
Evidentemente que a nossa memória não tem espaço definido, mas a nossa atenção não pode estar distraída por factores colaterais cujo efeito se faz sentir nos momentos em que precisamos de direccionar a nossa mente para um dado campo ou para um dado destino.

Dentro desta economia da memória acontece por vezes alguém chegar perto de nós e dizer «mas eu já te tinha falado nisso». Pois já tinha, sim senhor, mas para encontrarmos o fio dessa meada memorial precisamos de mais elementos e isto faz-se quase espontaneamente: pergunta-se quando e onde, por exemplo, essa tal coisa nos foi dita e depois nós inseridos na memória desse mesmo ambiente ou do momento vamos lá buscar tudo aquilo que precisamos para responder: «é verdade e até falaste também em...» qualquer coisa que acaba por dar a certeza a essa pessoa que temos essa tal memória presente. Presente, sim, mas não estava logo ali.

Pois bem, dito isto nós temos a necessidade absoluta de preservar a memória do jornal até porque os elogios sobre o projecto e sobre a validade do mesmo sucedem-se, não propriamente a um ritmo alucinante mas com alguma frequência.

E sabemos que há pessoas que seguem o jornal a par e passo e que reparam nas pequenas e nas menos pequenas orientações que vão sendo dadas de acordo com o ritmo das exigências do nosso público / leitor / amigo.
 
 
 
 

 
 

UM RELOGIO FIXE - Conto de Ilona Bastos

 
UM RELOGIO FIXE - Conto de Ilona Bastos 
 
Num domingo, ao almoço, sem esperar, o Tiago recebeu do avô um magnífico relógio.
 
- Repara! - disse-lhe o avô. - O relógio tem luz no mostrador, todas as horas estão marcadas com algarismos, é à prova de água e funciona a pilhas, por isso não precisas de lhe dar corda...
- Fixe! - exclamou o menino, maravilhado. – Muito obrigado, avô. Vou andar sempre com ele.
 
E assim fez. O menino colocou o relógio no pulso, empoleirou-se ao colo da mãe para que lhe relembrasse a leitura das horas, e a partir desse dia não mais largou o relógio.
 
Na escola foi um sucesso, naturalmente, pois de todos os relógios presentes - que nos braços das crianças cronometravam mil e uma tropelias - o relógio do Tiago era o mais fantástico, o mais moderno, enfim, o mais fixe... Nunca se atrasava, nem adiantava. E ao menino não dava trabalho algum, pois nem de corda o relógio precisava, sempre enérgico, sempre dinâmico, sempre pontual!
 
E, também, assim, o Tiago passou a ser o aluno mais pontual da sua sala!
 
Ora acontece que numa noite, encontrando-se o menino a dormir, começou o relógio a sentir-se indisposto: eram os braços doridos - isto é, os ponteiros sem força; era uma forte dor de cabeça - ou seja, o mecanismo a fraquejar; eram umas tonturas tais que o ponteiro dos segundos - aquele mais veloz e mais traquinas, com uma energia ímpar - dava um passo à frente e outro atrás, sem saber se avançar se recuar.
 
O relógio ainda tentou chamar a atenção do menino, soltando pics e tics e tucs - o que nele não era nada habitual.
 
 
 
 
 

 

Coluna de Liliana Josué - A FESTA - Conto

 
Coluna de Liliana Josué - A FESTA - Conto 
 
Cheguei ao local combinado com Malú, ali estava a igreja do bairro dela. Edifício novo, pequeno e muito branco. Mais parecia uma igreja de província. Sino engalanando a pequena torre, animado mecanicamente, consequência do progresso.
 
Apesar de nova e bem tratada, parecia meio abandonada de crenças e rezas, abrindo as suas portas unicamente por marcação. As necessidades espirituais, assemelham-se lamentavelmente às físicas. Padre e médico só por marcação e a longo prazo.
 
Perdida nas minhas divagações, não percebi que Malú já me acenava da ponta do passeio. Finalmente vislumbrei a sua silhueta de altura média, mais para o baixo, bastante magra, de longos cabelos negros apanhados na cabeça com duas grandes flores a condizerem com o vestido. Era uma uma jovem mulher de beleza aciganada.
 - Olá Lígia, deu bem com o caminho?
 - Claro, já conhecia esta igreja.
 - Vamos então primeiro a minha casa…
 - Obrigada, vou com todo o prazer.
 - Eu também tenho gosto que lá vá Lígia, mas já sabe que é uma casa simples, mas arranjadinha.
 - Que importância tem isso… o principal é sentir-se bem nela. Também não sou rica, a minha casa é igualmente simples.

Malú vivia com um rapaz ainda mais novo que ela mas já tinham dois meninos, lindos e muito ladinos. O batizado do mais novo celebrar-se-ia nesse dia e por essa razão ali me encontrava na qualidade de convidada... Aquele era mais um dos tantos bairros problemáticos do nosso país, a etnia cigana predominava. Fui a primeira a chegar de entre todos os convidados. A casa, apesar do edifício ser muito antigo, com escadas de madeira meio tortas e oleado castanho a disfarçar o cansaço de tantos sapatos, galgando-a durante anos sem fim, estava arranjada e bonita, assemelhando-se a pingo de juventude atirado para suavizar tanta decrepitude.
 
 
 
 

 

COLUNA DE MARIO MATTA E SILVA - Poemas- Desejo de Bonança ; AMIZADE OUTRA

 
COLUNA DE MARIO MATTA E SILVA - Poemas- Desejo de Bonança ; AMIZADE OUTRA


 Desejo de Bonança

A luta é feroz
 duma ferocidade quotidiana
 pesada, febril, porque urbana
 enfim, atroz.

E fugindo de tudo
 nada eu alcanço
 sem saber talvez até se avanço
 num dilema já em si agudo.

Eu prometo-me enfim
 sempre em forma consciente
 a força a adquirir, assim urgente
 e a esperança, sempre que ausente de mim.
 
AMIZADE OUTRA

«O amor é um desesperado desejo de amizade.»
 Mário Cesariny
 
Repara nos cantos da boca
 no rosa vivo dos lábios
 nos olhos que brilham
 e na, por vezes, louca
 forma de enlaçar os braços
 em mornos abraços
 que o corpo maravilham.

Repara na voz doce que tremula
 e nas ancas dengosas
 que se aproximam;
 na boca ávida que oscula
 no perfume das rosas
 e na insinuante brandura
 
 
 

 

Coluna de Jorge Vicente - O Documentário Baraka e a transcendência da condição humana

 
Coluna de Jorge Vicente - O Documentário Baraka e a transcendência da condição humana
 
Depois de alguns dias de completo repouso nos ares solarengos do Algarve, onde pude descansar, ler, estudar, escrever mais um pouco a minha dissertação de mestrado (que, nas últimas semanas, me tem furtado a outros estudos), sabe bem voltar a casa e poder partilhar com vocês este maravilhoso filme de Ron Fricke, datado de 1992.
 
O filme tem o nome de Baraka e foi-me recomendado por uma amiga minha da Biodanza. Em boa hora o vi. Realmente maravilhoso e, embora não seja um filme directamente relacionado com a problemática do meio ambiente em sentido estrito, está-lhe relacionada num sentido espiritual e profundamente transcendente.
 
Este filme trata da condição humana, das múltiplas particularidades que a condição humana se revela em todos os pólos do nosso universo. A paisagem branca e clara do Alasca, os terrenos inexplorados, aqueles locais ainda não visitados pelo humano; mas também as múltiplas manifestações da fé, as múltiplas manifestações da cultura humana: as religiões, a dança, o olhar de quem vive de modo natural e de quem se alimenta do que a terra dá; as múltiplas manifestações do humano como destruidor do mundo natural, seja através das cidades, das fábricas, do desrespeito pela vida de todos nós e pela vida dos nossos companheiros animais -plantas - seres vivos; as manifestações do mal seja através da poluição, da tortura, da guerra.

Tudo isso é parte do filme. Tudo isso é parte de quem nós somos. E o convite do filme é: em que mundo desejamos habitar? Que sorriso devemos levar ao mundo? Que pedaço desse mundo será sempre nosso? O que fazer para salvar a nossa humanidade e para levarmos a nossa humanidade no sentido da transcendência. Podemos fazer tanto e podemos ser tão grandes nessa nossa caminhada humana em direcção à Vida!
 
 
 
 

 

LUUANDA - De Luandino Vieira - Por Arlete Deretti Fernandes

 
LUUANDA - De Luandino Vieira - Por Arlete Deretti Fernandes 
 
As três narrativas reunidas neste livro, retratam a dura realidade dos musseques angolanos – os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. «Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era – digamos assim – o aquário onde meus personagens e eu circulávamos», afirma Luandino.
 
Apesar da dura realidade, Luandino cria personagens inesquecíveis. Como «vavó Xíxi» e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó («Vavó Xíxi» e seu neto Zeca Santos).
 
Ou o Garrido Kam’tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava («Estória do ladrão e do papagaios»). Ou «ngai Zefa» e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha («Estória da galinha e do ovo»).
 
Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem .
 
José Luandino Vieira, pseudônimo literário de José Vieira Mateus da Graça, nasceu em Portugal, em 4 de maio de 1935 e emigrou com os pais para Angola em 1938. Cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Passou toda a infância e juventude em Luanda onde frequentou e terminou o ensino secundário.
 
Trabalhou em diversas profissões até ser preso em 1959 (Processo dos 50), é depois libertado e posteriormente (1961) de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1954, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa.
 
Depois da Independência foi nomeado para a Televisão Popular de Angola, que organizou e dirigiu de 1975 a 1978; para o D. O. R. (Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA) que dirigiu até 1979; para o I. A. C. (Instituto Angolano de Cinema) que organizou e dirigiu de 1979 a 1984.
 
Membro fundador da União dos Escritores Angolanos exerceu a função de Secretário-Geral desde a sua fundação – 10-12-1975 – até 31-12-1980.
 Foi Secretário-Geral Adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos, de 1979 a 1984; e de novo Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, de 1985 a 1992.
 
Após o colapso das 1.ªs eleições em 1992 e do recrudescimento da guerra civil, abandonou a vida pública, dedicando-se unicamente à literatura.
 
Agraciado com o Prémio Camões em 2006, recusou a premiação.
 
 
 
 
 

 

O que é escravidão? - Por Ivone Boechat

 
O que é escravidão? - Por Ivone Boechat 
 
No dicionário, escravidão (denominada também escravismo, esclavagismo e escravatura) é a prática social em que um ser humano assume direitos de propriedade sobre o outro designado por escravo, ao qual é imposta tal condição por meio da força.
 
Como se poderia definir o trabalho escravo? Seria aquele em que o ser humano é visivelmente explorado pelo patrão, até à morte, visando lucro? Será aquele que se impõe ao coitado do trabalhador, tapeado pelos sorrisos, promessas, elogios, vales, destaques, bônus e a remuneração aviltante registrada na carteira de trabalho?
 
Aí vem a questão: o salário mínimo não seria a institucionalização da escravidão? Claro que ele dá direito à aposentadoria, jamais compatível com aquilo que o trabalhador investiu. Dá direito ainda aos postos médicos (sem médicos) às Escolas (faltando professores) à segurança (com muita bala perdida). Há outros direitos: direito de ficar na fila esperando dez horas pelo «atendimento médico», direito de ficar na fila do transplante á espera do coração, do rim, enfim, porque o trabalhador de salário mínimo, geralmente, não só espera, ele é o maior fornecedor de tudo isto.
 
O que seria escravidão? Um professor ser obrigado a trabalhar em três escolas, pagar as passagens, cursar faculdades caríssimas, tentar se vestir com dignidade e chegar ao trabalho com um largo sorriso, um vidro já vazio de novalgina no bolso, levando esperança às crianças brasileiras? Ser obrigado a mentir todo dia e ensinar que tudo vai melhorar? O salário? Vá conferir a luta do professor para ganhar aquilo que ainda não é o mínimo «estabelecido» por lei para a sobrevivência... isto é escravidão?
 
Seria escravidão beber o coquetel que a mídia despeja goela abaixo da sociedade, ininterruptamente, com o gosto amargo de notícias selecionadas de tudo o que acontece de ruim, com o objetivo de manter o viciado freguês ? Quando se escuta uma avaliação fajuta, uma estatística inventada, um resultado falso, uma opinião comprada, um acordo em desacordo com tudo o que é digno, e sabe-se que isto interfere em todas as decisões do «informado» povo. Eleição fica sendo um sequestro com reféns? Será isto escravidão?
 
 
 
 

 

Bragabá - Sinfonia - A Hora da Estrela - Por Abilio Pacheco - Bragabá, Bragança: Marabá – lembrança: memória

 
Bragabá - Sinfonia - A Hora da Estrela - Por Abilio Pacheco - Bragabá,  Bragança: Marabá – lembrança: memória


Bragança: Marabá é uma cidade submersa cuja imagem vítrea permanece no côncavo de meu cristalino de vinte e sete anos. E de onde emerge a pérola do Caeté tal qual a Mesopotâmia de meia década. Se me não canso de emparelhá-las é por ser uma a matriz intacta de que fala ??talo Calvino e a outra a que nasce e traz à tona a primeira.
 
E assim passei três semanas em Bragabá. Dez minutos de caminhada rodeado por silêncios: passos rápidos em pisos irregulares, tempo quente, vento brando, calor gostoso de sol de sete e meia da manhã.

A torre da telepará marcando o caminho: inerte. Próxima, inalcançável; riscando azul e algodonévoas. UFPA descalçada, poeira e pó da entrada (sem pórtico) até a sala de aula. Camaleões nas árvores cagando e caindo sobre cadernos e alunos. Prédio ad aeternum em construção e Letras buscando espaço...

Mulheres nas portas, homens nas ruas, velhos nas calçadas, motos e motos, bicicletas... crianças correndo, jogando bola, rindo de nada e de tudo. Praça e praça: mini - bugs, pipoca, sanduíches. Praça, igreja, orla e rio. Praça: lazer. Praça: trabalho.

Praça: orla, bares, bares e barracas de tacacá. Ontem a polícia prendeu um bandido: puseram no carro com vidro sem fumê e na frente batedores em businaços. Disseram-me (eu me ouvi dizendo para mim) que aqui isso é comum. A população petrificada se recongela idêntica a outra jazente na retina fatigada.
 
 
Leia este tema completo a partir de 29/10/2012
 
 
 

 

O Leão, o meu amigo e eu - Crónica de Daniel Teixeira

 
O Leão, o meu amigo e eu - Crónica de Daniel Teixeira 
 
-Eu acerto pá. Podes crer que ele não mexe mais.
 
-Acertas uma ova, fostes atirador especial mas isso foi no tempo da Maria Cachucha, tinham as armas de carregar pela boca acabado de sair de circulação.
 
-Brincalhão...não são armas muito modernas hoje mas eram fiáveis, a gente fazia tiro a mosquitos e tudo...
 
-Ah, Ah! Isso é que era bom de ver, os mosquitos a partirem-se todos mas de rir. Deixa-te disso, eu não nasci ontem...já cá contam setenta e tal e a esta distância nem num elefante tu acertavas. Depois se fazes o barulho com a espingarda então é que ele repara em nós e a gente já não tem pernas para fugir...estás nos oitenta, tu, não!?
 
-Setenta e nove, meu caro, ainda não cheguei aos oitenta.
 
 O leão estava de facto logo ali, quer dizer a cerca de cem metros, com a sua calma toda, deslocando-se de um lado para o outro e sacudindo as moscas. Não nos tinha visto ou se nos tinha visto, como tinha a barriga cheia tinha achado que nem valia a pena incomodar-se.
 
-O que será que o gajo comeu? Parece que anda pesado, estás a ver aquela barriga toda? E é um leão não é uma leoa, com aquela barrigona também, mas que grande barrigada ele teve com certeza.
 
- Pois, se calhar é melhor a gente passar-lhe logo ao lado, não temos outro caminho e se for preciso usas tu a tua excelente pontaria quando ele estiver para aí a cinco metros de nós. Aí deves acertar, de certeza.
 
- Daqui mesmo eu acerto. Devias ter um pouco mais de confiança em mim. Isto de fazer tiro é como andar de bicicleta, nunca se desaprende.
 
 
 
 
 

 

Aconteceu comigo, acreditem - Conto de Daniel Teixeira

 
Aconteceu comigo, acreditem - Conto de Daniel Teixeira
 
Eu não acredito em extraterrestres, quer dizer, não acredito que eles existam, ou acredito que se eles existem devem ter mais que fazer do que andar por aqui, pela terra, a incomodar o próximo e a aparecer sempre como incómodos.
 
Para além do mais e para isto também parte-se de um pressuposto que não tem qualquer base nem lógica nem ilógica: ou seja, eles são sempre mais inteligentes que nós, terráqueos, o que não sendo impossível ou até extremamente fácil nalguns casos conhecidos, não garante nem pode garantir que eles, a existirem, não estejam num estágio evolutivo anterior ao nosso, sejam sumariamente povos primitivos e que ainda nem sequer tenham descoberto a roda.
 
Mas e há sempre um «mas», o que aconteceu comigo deixou-me a pensar que pelo menos existe uma possibilidade, pequena que seja, que eles existam, tal como os figuramos. A menos que aquilo que eu vi seja resultado de uma alucinação, numa altura em que era bem possível eu ter essa alucinação.
 
Mas vou começar pelo princípio...
 
Eu já ali estava naquele local havia dois dias e francamente não me estava a agradar muito a espera. Não eram só as serpentes, cascavéis na sua maioria, que por ali andavam e pouco tranquilo me deixavam apesar de todos os cuidados tomados, mas era também o tempo, o meu tempo, que estava a começar a esgotar-se.
 
Os meus clientes, posso chamar-lhes assim, não me tinham dado uma hora exacta de chegada e ainda tinham de alugar um avião, o único que havia nas redondezas. O velho Smith que eu conhecia bem era o dono da aeronave e francamente sempre me recusei a «ir dar uma voltinha» com ele porque o aparelho me parecia tudo menos seguro.
 
Aliás, o próprio Smith era pouco seguro: embebedava-se amiúde, discutia com a mulher, uma loura gorducha bem mais nova que ele, ela punha-o fora de casa, ele ia beber e dormir para o avião e chegava a levar nisso dois ou três dias.
 
 
 

 
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Poesia de Emília Marcelino Daniel Marques Leitão - A Outra Metade; Voos; Valeu a Pena; Sede de Saber

 
Poesia de Emília Marcelino Daniel Marques Leitão - A Outra Metade; Voos; Valeu a Pena; Sede de Saber
 
 
A Outra Metade
 
 Ficou a minha vida pela metade
 Ali mesmo, debaixo do Capricórnio acalorado
 Na Terra da Boa Gente, pequena cidade
 Que Gama batizou, enfeitiçado.
 Calor, sol, frutos acres e coloridos
 Cheiros, sabores doces e amargos,
 Mosquitos, balidos fortes e rugidos
 Neblinas de horizontes profundos e largos.
 
Voos
 
 Voo sobre o abismo, sobre o mar
 Um voo de gansos a debandar
 Contra a brisa do vento,
 Sobre memórias sem alento.
 Voo sobre muros altos
 De preconceitos e sobressaltos;
 Vagueio, livremente, serena,
 Em viagem calma e amena
 Sobre infinitos e etéreos azuis
 De onde vejo lírios nos pauis.
 
Valeu a Pena
 
 Por mais que se tenha vivido
 Naquele engano da alma, doce e tonto
 Onde tudo parece belo e permitido…
O certo e o errado se cruzando num ponto
 Por mais que nos tenha a vida dura
 Atirado contra rochedos, feito chorar os olhos
 Naufragar o barco, romper a forte armadura
 Que julgáramos segura e sem escolhos:
 
Sede de Saber
 
 Havia uma sede profunda e subtil de aprender
 De beber em todos os livros, em todas as fontes
 Havia uma vontade infinita de saber
 De cruzar vastos e desconhecidos horizontes
 Tinha desejos de conhecer histórias de navegadores
 De continentes e países remotos, perdidos nos mapas
 Queria saber de poetas antigos e reais trovadores
 Queria cantar melodias, tocar violinos e suaves harpas
 
 
 

 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Casa dos Espelhos

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Casa dos Espelhos

 
Na varanda, uma antiga cadeira de balanço esquecida.
 No peitoril das janelas, restos de vasos de folhagens.
 Trepadeiras cerradas cobrem as colunas,
com flores coloridas misturadas as plantas selvagens.
 Entrei devagarzinho para não pisar sentimentos.
 A emoção tomou-me por inteiro, quando vi
 girassóis e hortênsias sobre as mesas.
 Tudo se reflete nos antigos espelhos de cristal,
 Como lembranças esculpidas.
 Um raio de luz teima em entrar pela vidraça.
 Algumas obras de arte permanecem nas paredes brancas
 que outrora foram pintadas com os tons e semitons
 cromáticos das flores do jardim.
 O quadro em sépia tem uma moldura que o esquadreja,
mas nele só aparece uma mancha
escura que realça mas não tem definição.
 Algumas fotos antigas com carruagens,
 Caçadores e belos cães, ali permanecem.
 
 
 


 

Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes - A COBRA E O ENFERMEIRO.

 
Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes - A COBRA E O ENFERMEIRO.
 
No meu tempo de travessias, transportando minério do Brasil para o Japão, num percurso que levava trinta dias e noites, cruzando oceanos e mares, com uma tripulação de 32 homens, tínhamos revistas, jornais, livros, enfim uma boa biblioteca sempre atualizada. Cinema, víamos duas vezes por semana.

Como em todos os grupos bem organizados existem as hierarquias, no navio não era diferente: - Comandante com os demais oficiais, sub - oficiais e subalternos. Mas o cronograma não era rígido. Havia uma boa amizade e o uso da piscina e do cinema era livre.

De repente, uma revista chamou-me a atenção porque trazia em manchete: «COBRA PICA ENFERMEIRO E MORRE». Pela foto, calculava-se uma cobra de mais ou menos um metro, e era das mais venenosas.

Impressionei-me com o retrato do enfermeiro, que pela semelhança, aproximava-se muito com o enfermeiro do navio.

Ao concluir a leitura, fui para o salão de estar dos sub - oficiais, procurar o enfermeiro, mas este lá não se encontrava. Li a reportagem e mostrei a foto aos que ali estavam presentes.

Depois da foto muito examinada, os presentes foram unânimes em achar que o enfermeiro era o nosso companheiro.

Após muitos risos e bate-papos, foi sugerido que a reportagem deveria ser dada para o enfermeiro ler.

Como ocupava apenas uma página, cortei-a e colei-a na porta do camarote dele.

O referido era uma pessoa de temperamento difícil e de rompantes.
 
 
 
 

 

UNIVERSO PARALELO - Por Marcelo Pirajá Sguassábia

 
UNIVERSO PARALELO - Por Marcelo Pirajá Sguassábia 
 
Naqueles dias, o fake do Todo-Poderoso botou as manguinhas de fora e resolveu criar seu universo genérico, plano que acalentava há tempos.
 
Pode-se argumentar que o termo «Universo», significando «todo, inteiro», não poderia comportar uma outra versão, qualquer que fosse ela, sob pena do vocábulo cair em descrédito. Mas não é a essa questão etimológica que vamos nos ater, pelo menos neste despretensioso relato.
 
Após um longo espreguiçamento, o godzinho de araque estalou os dedos, escovou os dentes, juntou todo o seu ímpeto empreendedor e partiu cheio de vontade para a intrincada missão. Começou concebendo o firmamento, que depois de ficar pronto demonstrou não ser firme o suficiente.
 
Sim, amigos. O firmamento apresentava sérios e incontornáveis problemas de encaixe, não se fixava corretamente sobre o espaço infinito e jamais passaria pelo menos rigoroso dos controles de qualidade. Eram ainda visíveis rachaduras de natureza estrutural, evidenciando erros básicos de cálculo.
 
Nosso criador do mercado paralelo não se deixou abalar por esse primeiro contratempo e pôs-se a fazer as estrelas, tarefa que o manteve entretido por umas dezasseis longas horas, que teriam sido bem gastas se a empreitada chegasse a bom termo. Mas qual não foi sua surpresa ao constatar que todas elas nasceram cadentes (ou decadentes, como queiram), já que não paravam no já citado bambo firmamento.
 
 Leia este tema completo a partir de 29/10/2012
 
 
 

 

Eu dou esmola - Por Ana Paula Freitas

 
Eu dou esmola  - Por Ana Paula Freitas
 
Quem acompanha o blog sabe que o trem é um assunto recorrente na minha vida. Sei que me despedi dele, mas um imprevisto fez com que eu voltasse a frequentá-lo.
 
Não nas mesmas tristes circunstâncias, porque agora os horários são alternativos e a viagem, portanto, mais tranquila. Mas aqueles que têm o prazer de andar de trem sabem que neles vende-se de tudo: caneta, bolsinha, palavras cruzadas, livro de pintar, culinária alternativa, régua, tabuada, cerveja e Coca-Cola…
 
Também pede-se tudo, sob todos os pretextos possíveis nesse mundão véio de deus: «preciso dar de comer pro meu filho», «minha mãe não tem uma perna», «minha vó engravidou e agora vão morar 16 pessoas na nossa quitinete»…
 
Acontece que, dia desses, um rapaz usou um argumento meio pesado pra pedir dinheiro.
Ele entregou um papelzinho que, na frente, dizia:
«Na vida existem coisas simples e importantes…
E quando você virava, lia-se:
«…simples como eu e importantes como você!»
 
 
 
 
 

 

Uma lição de vida - Contado Por Irene Fernandes Abreu - Macau - China

 
Uma lição de vida - Contado Por Irene Fernandes Abreu - Macau - China   
 
 
Numa grande empresa na Finlândia, corre uma espécie de lenda entre os seus empregados, que tem sido transmitida aos novos que entram, como uma lição de vida.
 
Então a história passa-se com um dos engenheiros inspectores, que naquele dia estivera muito ocupado e só ao fim do expediente e de todos terem saído, é que conseguiu arranjar tempo para inspeccionar uma determinada câmara frigorífica, que são autênticos salões em dimensão.
 
Mas porque teria uma avaria qualquer, a enorme e pesada porta fechou-se prendendo-o assim, dentro da imensa câmara.
Aflito, bem bateu na porta com toda a força, gritou por socorro, mas ninguém o ouviu, todos já tinham saído para as suas casas e era impossível que alguém pudesse escutá-lo, uma vez que esta zona ficava bastante afastada dos escritórios e da entrada da fábrica.
 
O engenheiro estava preso dentro daquela caixa forte gelada, com temperaturas abaixo dos zero graus, condenado a morrer congelado.
E assim, passaram-se três infindáveis horas! Apesar do fato de trabalho térmico o proteger um pouco, o seu corpo começou a ficar debilitado, as forças abandonavam-no devido à insuportável temperatura e a sua visão começava a ficar turva, pois apercebeu-se como num sonho, a porta a abrir-se e o segurança da empresa a entrar na câmara gelada, resgatando-o assim, duma morte certeira.
 
 
 
 

 

DIOGUINHO, O HOMEM TERROR - Por António Carlos Affonso dos Santos - Acas

 
DIOGUINHO, O HOMEM TERROR - Por António Carlos Affonso dos Santos - Acas
 
Tal como antigos semideuses da mitologia greco-romana, coexiste uma infinidade de versões sobre a vida e a morte de Dioguinho, «o homem terror». Dioguinho foi o maior bandido de todos os tempos na região da Alta Mogiana, interior de São Paulo, que basicamente fica circunscrita à região de influência de Ribeirão Preto.
 
O bandido Dioguinho, ou Diogo da Rocha Ferreira, nasceu em Botucatu (SP), em 09 de outubro de 1863 e morreu (ou desapareceu) em terras da Fazenda Tatuca, à época fazendo parte do município de Jataí (SP), hoje cidade de Luis Antônio (SP), região de influência de Ribeirão Preto; em 01 de maio de 1897; portanto faleceu com apenas 34 anos de idade! E como deixou estórias!!!!!
 
Passaram-se 113 anos e até hoje só o fato de falar nele, provoca arrepios de quem vive na região onde ele atuava. Dioguinho era filho de um comerciante e de uma dona de casa, embora eu tenha encontrado um sem-número de registos, onde se dizia ser ele filho de um rico fazendeiro. Pelo que concluí, não passam de balelas!
 
Dioguinho, que era agrimensor (ver N. A.), trabalhou também, entre outras, nas regiões de Cravinhos e São Simão. Foi casado e morou por uns tempos em Vila Mato Grosso de Batatais, hoje Altinópolis (SP), onde ele tinha amigos e protetores. No entanto vivia uma vida nómada, por ser um peregrino fugitivo.
 
Ele trabalhava em levantamentos topográficos nos lugares onde estavam sendo construídas, à época, as primeiras linhas de trens no interior de São Paulo e de Minas Gerais. Por este motivo há referência de sua presença em São Sebastião do Paraíso e Uberlândia (ambas em Minas Gerais), assim como em Sorocaba, Itu e Porto Feliz (SP), lugares muito longe da sua área de atuação como bandido.
 
Ao que parece, ele ficava trabalhando longe da Alta Mogiana (região de Ribeirão Preto), mas quando era chamado (por carta), ele ia e fazia o serviço e voltava a trabalhar. As várias indicações de que ele era também um «Oficial de Justiça», não parece ser verdadeira, porém um topógrafo; ainda que protegido por fazendeiros influentes (alguns eram políticos), não teria condições de contratar um advogado para defendê-lo. Ainda mais um advogado com o prestígio e a estatura de um Ruy Barbosa; somente uma grande influência entre magistrados abalariam Ruy de sair da Bahia ou do Rio de Janeiro, para defender um bandido em São Paulo. Por isso, é bem provável que algum juiz o tenha usado nesse mister, uma ou outra vez.
 
 
 
 

 
 
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Página de Virgínia Teixeira - Sobre defesa dos animais - Começou a temporada do tráfico de papagaios (Texto e Fotos de Fabio Pellegrini)

 
Página de Virgínia Teixeira - Sobre defesa dos animais - Começou a temporada do tráfico de papagaios (Texto e Fotos de Fabio Pellegrini)
 
As viagens entre MS, origem dos papagaios, até as cidades de SP, onde são comercializados, duram mais de 10 horas, amontoados em caixas em porta-malas de carros ou mesmo sob os assentos.
 
Com a primavera, período de reprodução dos animais, inicia-se também o trágico ciclo do tráfico de animais silvestres, principalmente psitacídeos, como o papagaio -verdadeiro, espécie mais traficada a partir de Mato Grosso do Sul, para abastecer o mercado ilegal do estado de São Paulo.
 
O processo tem início em acampamentos, assentamentos e pequenas propriedades rurais nos municípios de Batayporã, Bataguassu, Ivinhema, Novo Horizonte do Sul, Anaurilândia, Três Lagoas, Santa Rita do Pardo, Nova Andradina e Brasilândia, além de Naviraí e Mundo Novo, a leste do Estado.
 
Os sitiantes são contratados por traficantes oriundos do interior de São Paulo, que oferecem, em média, R$ 30 por animal. Muitas dessas pessoas recrutadas são crianças e jovens que capturam os animais ainda filhotes ou ainda no estágio de ovos.
 
 Maioria dos papagaios chegam desidratados e debilitados pois não recebem água nem alimentos durante o transporte feito pelos traficantes.
 
Leis que não ajudam
 
Em um dos casos, dois homens, de 30 e 40 anos, foram abordados pela polícia em uma rodovia vicinal com 38 filhotes de papagaios no veículo. Os traficantes não foram presos em flagrante, pelo fato de, conforme a legislação brasileira, ser um crime de menor potencial ofensivo. Porém, segundo a Polícia Militar Ambiental, eles responderão por crime e poderão ser condenados à pena de 6 meses a um ano de detenção. Cada um também foi multado em R$ R$ 9.500,00.
 
 
 

 

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - FICOU NO CAMINHO; MARASMO; «MEA CULPA»

 
Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - FICOU NO CAMINHO; MARASMO; «MEA CULPA»    
 
 
FICOU NO CAMINHO
 
 Encontrou caminho longo e duro
 Na madrugada das serras.
 As ervas cresceram,
 Sugaram a terra.
 Ficaram as pedras,
 Ervas entre as pedras,
 As pedras do muro.
 Ficou no caminho,
 Falando sozinho,
 Ditando palavras,
 Seus sonhos de linho.

 
MARASMO
 
 Atormentam-me as vertigens do sol
 Num vaivém constante,
 Que até parece assustado.
 é prenúncio de mau tempo!

 é o crepúsculo,
 A agonia das horas,
 A agonia do dia,
 E não descansa em paz,
 Não se aquieta.

 
«MEA CULPA»
 
Não há mais nada que te diga.
 Não há mais nada que me digas.

 é véspera de terça-feira
 E todas as luzes se apagaram;
 Até aquelas da esperança
Que a semente deitada à terra
 Germinaria.
 Não germinou.
 Não germinou,
 Porque não tinha que germinar.
 De certo, a semente,
 Porque era antiga,
 Perdeu todas as propriedades,
 Enquanto fomos perdendo faculdades.
 De certo, não haverá terça-feira.

 
 
Leia este tema completo a partir de 29/10/2012
 
 
 

 
 

Poesia de Sanio Aguiar Morgado - Restos; Página vazia; Versos inexistentes

 
Poesia de Sanio Aguiar Morgado - Restos; Página vazia; Versos inexistentes
 
 Restos
 
 Estes pedaços de poesias,
como restos de gavetas,
junto-as em estrofes
feitas sem alma, de proveta.
São amores sentidos,
aquelas saudades que tenho,
uma tarde húmida afastada e
que não tem neste caminho.
 
Página vazia
 
 Não há uma só
 página preenchida, no
 livro de nossas vidas,
 onde só o tempo marcou.
 Não houve grandes
 emoções entre nós,
 foram poucas alegrias
 e também pouca dor.
 
Versos inexistentes
 
 Versos que talvez inexistam
 e sequer alguém os tenham feito,
 imprevisíveis e mesmo imperfeitos,
 mas que sinto dentro do meu peito.
 Se estou certo de os escrever,
 outros também, estarão bem perto,
 pois todos andam a procurá-los
 no mesmo escuro deste deserto.
 
 
 
 

 

Karolina Felipe - Culinária e Doçaria - Peru desossado com farofa de frutas secas; Rabanada tradicional com calda de vinho do Porto; Colomba Pascoal; Panetone Caseiro

 
Karolina Felipe - Culinária e Doçaria - Peru desossado com farofa de frutas secas; Rabanada tradicional com calda de vinho do Porto; Colomba Pascoal; Panetone Caseiro
 
 
 Peru desossado com farofa de frutas secas
 
Ingredientes:
 
 1 Peru desossado (aprox. 2,5kg)
 3 colheres (sopa) de margarina
4 folhas de couve-manteiga
 1 xícara (chá) de vinho branco seco
1 xícara (chá) de suco de caju
 Farofa de frutas secas
 200g de bacon em Cubos Perdigão
 100g de margarina
4 pães franceses amanhecidos picados
 2 maçãs verdes com casca em cubos
 1 xícara (chá) de damasco seco picado
 1 xícara (chá) de uvas passas escuras
 
Modo de Preparo:
 
 Descongele o Peru conforme as instruções da embalagem. Reserve.
Para a farofa, em uma panela, frite o Bacon, junte o damasco, a uva passa e refogue. Coloque em um refratário e reserve.
 
Na mesma panela, refogue a margarina e junte os pães, as maçãs, o sal e a pimenta, deixe dourar. Acrescente o cheiro verde, o bacon e as frutas secas reservadas.
 
 Recheie o Peru com metade da farofa e costure. Coloque-o em uma assadeira untada com margarina e forrada com as folhas de couve-manteiga, besunte-a com a margarina e regue-a com a mistura de vinho branco e suco de caju. Cubra-a com papel alumínio e leve ao forno médio (220ºC), pré-aquecido, por aproximadamente 2 horas. Retire o papel alumínio e deixe dourar por 30 minutos. Sirva com o restante da farofa.
 
Dica: para que as maças não fiquem escuras, depois de cortadas deixe-as imersas em água com açúcar até o momento do preparo.
 Bom apetite!
 
 
 
 
 

 

Blogue Alcoutim Livre - José Varzeano - O burro, precioso auxiliar para a sobrevivência do povo alcoutenejo

 
Blogue Alcoutim Livre - José Varzeano - O burro, precioso auxiliar para a sobrevivência do povo alcoutenejo
 
Como as coisas mudam quase sem darmos por isso!
Na década de 60 do século passado e mesmo na primeira parte da seguinte, no concelho de Alcoutim e em muitos outros do país, o burro ainda fazia parte de toda uma organização familiar rural como peça indispensável para a obtenção da sobrevivência do núcleo familiar constituído de uma maneira geral por prole dilatada.
 
Ao núcleo original juntavam-se quase sempre os avós de um lado ou de outro quando já não podiam trabalhar. A existência de um idoso tinha grande importância no equilíbrio familiar, onde a sua presença impunha respeito e o seu conhecimento da vida era transmitido aos netos em estórias, parábolas, regras de conduta ou conhecimentos empíricos.

Estávamos no final do ciclo, pois a debandada dos montes dos jovens e homens em idade de trabalho já se tinha iniciado para as cinturas industriais de Lisboa e Setúbal a que se seguiu o litoral algarvio com o desenvolvimento do turismo, que ia recrutando os braços de que careciam.
 
Ao recuarmos no tempo (o concelho de Alcoutim foi aumentando de população até meados da década de 50 do século passado) ainda é mais notória a ajuda dos animais de carga e sela, com destaque para o burro, pois tratava-se do parente pobre dos equídeos, com vantagens para a sua fácil adaptação a terrenos ásperos, ao seu preço e manutenção mais acessíveis.
 
A agricultura de subsistência praticada no concelho de Alcoutim onde as máquinas não podiam chegar por inúmeros motivos como económicos, vias de comunicação e acidentado terreno, entre outros. Poucas eram as pessoas que não se dedicavam à agricultura de subsistência e isto em terrenos pobres como são os do concelho de Alcoutim constituídos à base de xisto.

O burro tinha várias funções. Como animal de sela transportava as pessoas aos sítios mais inóspitos devido à sua rijeza de unha. Levava as pessoas onde necessitavam de fazer os trabalhos ou a qualquer outro sítio onde precisavam de se deslocar, ao monte vizinho, à aldeia ou à vila. A existência dos rossios, espaços comunitários, possibilitava o seu «estacionamento» e onde existia quase sempre algo para o animal comer. A «estalagem» na vila ou em Martim Longo destinava-se a gente mais endinheirada.

Os poços comunitários dos montes ficavam quase sempre um pouco afastados, pois enquanto os edifícios se situavam numa posição cimeira, estes ficavam nos vales onde beneficiavam das toalhas freáticas, facilitando assim a existência do precioso líquido, indispensável à manutenção do ser vivo.
 
 
 
 

 

Lendas - Alma Penada - A alma penada de odelouca - Recolhida no Centro de Estudos Ataíde de Oliveira

 
Lendas - Alma Penada - A alma penada de odelouca - Recolhida no Centro de Estudos Ataíde de Oliveira
 
Havia uma senhora em Odelouca que tinha nove irmãos. Quando os pais morreram todos foram herdeiros. Ela herdou como um qualquer dos irmãos e dividiram as terras. Mas à noite ela ia, tirava o marco dela e punha mais desviado. No outro dia punha mais desviado.
Havia lá uma senhora que se chamava Palmira e disse-lhe assim, comadre não faça isso, que isso não se pode fazer, roubar terra.
 
A outra respondia comadre nesta vida bem passar que na outra ninguém nos vê penar.
 
Acontece que ela morreu e então à noite, pelas partilhas (eu era miúda pequena) e a gente só ouvia era ais. Eu dizia assim, coitadinha, quem é, avó? Filha, cala-te. Mas avó, mas quem é que está chorando?
Cala-te, filha, não digas nada.
 
Uma bela noite estávamos jantando favas (era a primeira vez que se comia favas naquele ano) e então ouvimos um choro para o lado dum lameiro. Era um lameiro muito grande, muito grande, e quem vinha de noite de Portimão, carvoeiros e outras pessoas, quando passavam por ali às vezes as bestas atolavam-se e só puxadas é que conseguiam safar-se. Parecia que vinha daquele lado o choro, uma agonia tão grande que se comovia o coração.
 
Diz a minha avó assim para um filho solteiro que tinha: filho vamos lá ver que foi alguém que veio de Portimão, eu ouço também uma criança chorar, é alguém que caiu além na lama e não se dá tirado.
 
 
 
 
 

 

Poesia de Materre Artiste - meus seios te viram; C'ést trop tard; fome de ser; abertura

 
Poesia de Materre Artiste - meus seios te viram; C'ést trop tard; fome de ser; abertura


meus seios te viram

meus seios te viram
 ao dobrar a esquina
 pularam em festa
 sob a transparência
 do tecido fino
 manhã doce

 
C'ést trop tard

Quel fou de baiser!
 M'a arraché la bouche
 M'a fait la langue étourdie
 Et mes dents... peu

Le même baiser, fou
 Qui m'a fait plus noire
 N'a bougé la scène

 
fome de ser

não me olhe feio
 cara feia é fome
 já dizia minha avó

que morreu na ilusão
 de ver sua cara perecer

 
abertura

abri meus olhos
 abri minha boca
 abri meus braços

 
 
Leia este tema completo a partir de 29/10/2012
 
 
 
 

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

 
Visita à Casa Memorial do Dr. Sun Yat-Seng - Por António Cambeta (Macau e Tailândia)
 
A casa Memorial do Dr. Sun Yat Sen, sita na Rua Silva Mendes no. 1, foi originalmente a residência em Macau do Dr. Sun Yat Sen, fundador da República da China.
 
O Dr. Sun passou mais de quatro décadas de sua vida dedicado a derrubar a dinastia Ching e estabelecer uma China democrática. Durante seus esforços revolucionários, ele veio para Macau muitas vezes e foi o primeiro a introduzir a medicina ocidental em Macau.
 
O irmão mais velho do Dr. Sun. Sun Mei, comprou uma casa na Rua de S. Lourenço para sua família, e esta casa serviu igualmente como residência do Dr. Sun sempre que este vinha a Macau. Essa casa foi mais tarde demolida.
 
Após a revolução de 1911 e o estabelecimento da República da China em 1912, o Dr. Sun em 1918 tinha uma pequena casa de estilo ocidental construída na vila de Tin Lung (hoje Rua de Silva Mendes) como sua residência em Macau. Ele usou esta casa de tempos em tempos, até sua morte, em 12 de março de 1925.
 
Em 1930 as lojas de dinamite do Governo de Macau  no que é agora Travessa de Tunal explodiu. Muitas casas vizinhas, incluindo a residência do Dr. Sun, foram destruídas.
 
 
Leia este tema completo a partir de 29/10/2012
 
 

 

Poesia de Abílio Pacheco - Inteligência Artificial; A demanda do Pássaro Azul; Luzes da Cidade; Elegia da Noite

 
Poesia de Abílio Pacheco - Inteligência Artificial; A demanda do Pássaro Azul; Luzes da Cidade; Elegia da Noite
 
 Inteligência Artificial
 (ou Pinóquio pós-moderno)
 
Minha fada cor de céu,
 Por mil pares de anos
 Repito-te o mesmo pedido:
 Faze comigo o que fizeste
 com o filho de Gepeto.
 Mas, acima de nossas cabeças
 
A demanda do Pássaro Azul
 
 Pela floresta de grutas e rochedos,
 noite a dentro, vida a fora, ambas inteiras,
 comigo meus cães, meus gatos, meus medos e desejos
 e do candeeiro, a luz, em corpo esguio de mulher.
 Onde o pássaro azul?
 No cemitério? No vale? Nalgum arvoredo?
 A coruja sábia... silente.
 Os mortos sonsos... sabentes.
 O pássaro em canto algum da floresta,
 
Luzes da Cidade
 
 A Charles Chaplin

Deambulo em trapos pelas ruas...
 E vejo você, serena e cega, alva e bela,
 com uma cesta plena de flores claras.
 Súbito amo-te! como uma criança a outra.
 
Elegia da Noite
 
Entre penumbras e sombras
 sobras e restos de cores
 de luzes ausentes...
 abertas asas de ave em
 secreto luar de estrelas
 : vives!
 Entre orvalhos de aurora
 
 
 

 

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIX - Por Daniel Teixeira - Resumo crítico do que tenho escrito nesta rubrica


 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIX - Por Daniel Teixeira - Resumo crítico do que tenho escrito nesta rubrica

Depois do que escrevi na última crónica sobre a (in) evolução do conceito de vizinhança e embora reconheça que faz parte do meu ser tentar lutar na minha medida pela sua boa memória anterior, ainda que reconheça também a sua impraticabilidade no presente, gostaria de esclarecer alguns aspectos que no curto das crónicas nunca cabem.

Tenho feito parte de todo um conjunto de iniciativas e sites (até mesmo no facebook da moda) cujo objectivo, ainda que não confessado nem programado de antemão, pretende encontrar uma plataforma de entendimento entre o passado e o presente no que se refere a formas de estar e relacionamentos.

A antropologia cultural, que desde muito novo me cativa, é para mim mais do que a mera recolha de elementos e anotações sobre acontecimentos: para mim esta disciplina tem uma função socialmente importante se tivermos em conta que ela deve procurar funcionar como um elemento de conhecimento do passado e do presente  que sejam ambos ao fim e ao cabo reconhecidos no mesmo campo expressivo. Quer isto dizer que não se faz antropologia (seja ela a cultural ou outra) que tenha como objectivo único ser um inventário estático do passado ou do presente.

Porque é que eu tenho de uma forma geral retratado as pessoas que conheci em Alcaria Alta, por exemplo, como pessoas que perderam batalhas? Nunca tem sido porque a culpa, a fundamental culpa seja delas, dessas pessoas. Retrato a situação que conheci no tempo em que a conheci e o tempo era de derrota. Falei de algumas tentativas quase todas ou mesmo todas frustradas em que alguns procuraram encontrar nesgas de esperança e confiaram nas suas ambições até que chegaram à altura em que não podiam confiar mais e que só a fé os fazia mover dado que os resultados eram já nulos.

Na sua grande parte, tal como eu e os meus familiares, tivemos de partir e a tal nesga de oportunidade que foi negada àqueles que ficaram acabou por ter o seu lugar nas cidades, na emigração em geral, num outro lugar. O esgotamento dos meios locais foi-se esvaindo como água numa peneira.

O que eu procuro recordar é a luta, a capacidade de luta, que essas pessoas que foram ficando, ou as que regressaram depois de estadias mais ou menos prolongadas e se confrontaram com a necessidade de viverem um pouco melhor, mas nunca aquele viver bem que almejavam. E é essa capacidade de luta que faz falta agora neste mundo todo que é o nosso e que augura novas batalhas perdidas todos os dias.