segunda-feira, 24 de março de 2014

Jornal Raizonline nº 246 de 25 de Março de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline nº 246 de  25 de Março de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira

Quando não se tem nada para dizer e não se inventa

O número desta semana sai com alguns dias de atraso devido a problemas de ordem técnica, o que pode parecer uma desculpa usual mas que não deixa de ser verdadeira. Na verdade, ao longo destes 245 (246 hoje) números tenho vindo a acumular no meu computador uma enormidade de exemplares de jornais e isto porque por razões de todos conhecidas não é possível manter os alojamentos online que detivemos até Agosto /Setembro do ano passado.

Daí que seja o meu querido disco rígido a arcar com tal grande embrulho. Ora, o programa que lê e faz (em termos de códigos) os jornais, teve de ser recentemente actualizado e nalguns planos deixou de ter correspondência imediata sobretudo com os jornais mais antigos (linha dos primeiros 100 sobretudo mais ou menos).

Por outro lado começou a verificar-se alguma acumulação de vírus e trojans incomodativa, embora estes fossem sempre de fraca gravidade. Assim, e para abreviar, fiz uma limpeza ao disco, repartindo quase do zero em termos de Windows, o que me levou a fazer talvez duas centenas de actualizações.

Assim, levei «nisto» cerca de uma semana, pelo menos...

Mas cá estamos esclarecendo desde logo que um dos objectivos que temos de perseguir agora, devido a razões legais, é o de anular a periodicidade. Assim, o jornal sai em dias e datas alternadas, conforme já vínhamos fazendo.

Temos notado que há mais colaborações no nosso grupo do facebook e que há pessoas que recomeçam a publicar lá os trabalhos que suspenderam no grupo não sei muito bem porquê. Na verdade, salvo em casos excepcionais, devidamente consentidos, é que vamos a outros sites buscar trabalhos assim como adoptámos por princípio apenas considerar para potencial publicação no Raizonline aqueles trabalhos que são publicados nos nossos grupos Raizonline.


 

Comentários sobre as publicações


Comentários sobre as publicações

Ao longo dos tempos temos ido guardando os comentários que são colocados no nosso Blogue de Comentário com a intenção de colocar no jornal uma vez que, por aquilo que sabemos, alguns dos autores comentados nem sempre têm a oportunidade de ir ao Blogue ver esses comentários. Aqui deixamos mais uma remessa:
 
Anónimo - 22 de mar
Anónimo deixou um novo comentário na sua mensagem «O dono do «Bazar do Waldomiro» e a duplinha sertan...»:
Obrigado Pela Atenção , As fotos São Lindas
Waldomiro
 
Liliana Josué deixou um novo comentário na sua mensagem «JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva - SA...»:
Amigo Mário
Em nada me oponho em relação à crença de cada um. Como manda o ditado «religião e política, esquecia-me do futebol» não se discutem. Até posso concordar que Saramago tem , melhor dizendo, teve, pois infelizmente e para mal do nosso país já faleceu, algumas lacunas ligadas à sua posição religiosa.
Eu sou uma grande apreciadora deste escritor, mas isso agora não vem ao caso. Não me vou alongar muito senão nunca mais me «calo», só quero dar a minha opinião em relação à Bíblia, principalmente ao Antigo Testamento. Leste realmente com atenção as partes mais fortes? Aquilo é mesmo duma crueldade aterradora, para não falar de outras coisas próprias da época.
Um Deus que é todo amor e perdão poderia alguma vez portar-se daquela maneira? A própria Igreja faz «por esquecer sempre que possível» o Antigo Testamento, redimindo-se com o Novo Testamento… enfim!
Pronto, vou acabar, apesar desta minha crítica gostei de ler o teu artigo.
Abraço amigo
Liliana Josué
 
Antonio Carlos deixou um novo comentário na sua mensagem «Poesia de Mário Matta e Silva - Obsessão; Ess' out...»:
Gostei do ritmo de sua poesia.





A hora e vez do Romi-Isetta - Texto de Cecílio Elias Netto


A hora e vez do Romi-Isetta - Texto de Cecílio Elias Netto 

 Em 1955, a indústria Romi (barbarense) construiu o carro mais inteligente que podia existir. Mas foi esmagada pela estúpida indústria de carrões.

 Foi em 1956 que surgiu, no Brasil – e fabricado pelas Indústrias Romi, barbarenses – o revolucionário carro Romi-Isetta. Era o primeiro veículo produzido nacionalmente. O visionário Emílio Romi conseguiu, em 1955 – da empresa italiana Isso, que o idealizara – o direito de construção no Brasil. Tratava-se de um veículo de praticidade espetacular, mais ainda do que o já minúsculo Fusca. O automóvel de Emílio Romi era para duas pessoas, com portas que se abriam pela frente, atingindo velocidade de até 85km/h, com consumo de combustível de 25 km. por litro.

 Seus idealizadores, ainda no pós-guerra, haviam imaginado um veículo pequeno, seguro, barato, que atendesse as necessidades de famílias pequenas, de estudantes, de operários. Tratava-se de um carro mais para circulação urbana, digamos que para uso individual. E o sucesso foi imediato na Europa. Foi como se a Isso italiana – e o barbarense Emílio Romi – tivessem previsto o que haveria de acontecer, com a desvairada fabricação de carrões imensos e pouco inteligentes. Aliás, o próprio Henry Ford – há 90 anos – advertiu e reconheceu: «A cidade está condenada».

O Romi-Isetta durou muito pouco tempo. Acho que até 1961. Foi esmagado pelo poderio das bilionárias empresas automobilísticas que se instalavam no Brasil após a abertura dada por Juscelino Kubitschek. O preço daquele desenvolvimento alucinado foi a morte da razão em favor da ambição. A realidade foi construída para um crescimento desordenado no qual a pessoa humana não foi levada em conta. Como o próprio Marx previra, o capitalismo – depois de conseguir o máximo de onde se instalou – iria em busca de novas oportunidades, novos povos, novas terras. Nos 1960, a América do Sul tornou-se cobiça internacional. Em relação à mobilidade urbana e interurbana, as grandes vítimas foram: os trens, os bondes e o Romi Isetta.

Leia este tema completo a partir de 25 de Março de 2014 carregando aqui

Dois Poemas de Mário Matta e Silva - é tempo de Primavera; Ir e voltar nas gaivotas


Dois Poemas de Mário Matta e Silva - é tempo de Primavera; Ir e voltar nas gaivotas 


é tempo de Primavera

Da clepsidra sou fã
 Mediando o tempo que corre
 E cismo pela manhã
 Que a tarde cresce louçã
 E a noite no escuro morre.
 Morre a luz do sol nascente
 Nesse tempo uma voragem
 Sinos que em som crescente
 Vêm aos ouvidos da gente
Atirados pel ‘ aragem.
 Vertido numa ampulheta
 O tempo corre veloz
 E nas cores duma paleta
 Vejo-te a forma, a silhueta
E troco olhares entre nós.
 Vem assim a Primavera
 Salpicada de mil cores
 Vai o Inverno, a noite austera
 Cresce no peito a quimera
 De ver em regaços flores.
 Ah, que garrido o teu peito!
 Saudável, feliz, contente
 Sonho com ele em meu leito
 Enluarado, sem jeito
 De afectos impertinente.
 Vêm pardais, andorinhas
 Debicando, a trautear
 E rindo vão criancinhas
 Tão formosas, de trancinhas
 Plos canteiros a saltitar.
 Nacem amores salutares
 Em gôndola o mar galgando
 Entoando teus cantares
 é o tempo de tu amares
 Quem muito te está amando.

21 de Março de 2014 


 

última vontade - Por Marcelo Pirajá Sguassábia


última vontade - Por Marcelo Pirajá Sguassábia

- Como era da vontade do senhor Arquibaldo Calixto, e passados 30 dias do seu sepultamento, cabe-me agora abrir este envelope, à frente de todos da família, para conhecermos o destino que se dará ao seu espólio. Posso começar?
- Corre logo com isso, doutor, que eu já estou gastando por conta o que me é de direito.

- Aos dezoito dias do ano da graça de dois mil e ... bla, bla, bla, bla, bla, bla. Ei, espera aí...
- O doutor tá ficando verde, a mão tremendo... o que está escrito nesse negócio?
- Ele... ele está dizendo aqui que deixou tudo... não é possível... deixou tudo para mim! Lendo para vocês, textualmente: «Meus filhos e minha mulher não são merecedores de consideração nem de coisa nenhuma, muito menos de herança».

Desculpem, não sou eu que estou dizendo, é o que está escrito aqui, o desejo do falecido. Que situação, a minha. O envelope estava lacrado, vocês testemunharam a abertura. Continuando: «O senhor Salustino, na qualidade de titular do cartório da cidade, vem demonstrando, perante a lei de Deus e a dos homens, que é um sujeito digno e de caráter incorruptível, qualidades que nenhum membro da minha família possui» : é constrangedor isso tudo, eu fico embaraçado...

- Continua, doutor.
- Bom, o texto avança e entra em pormenores que denigrem muito cada um de vocês. Acho que não é o caso de prosseguir...
- Começou, agora vai até o fim. Vamos ver até onde chegou aquele velhote filho de uma...



Prosa poética de Ilona Bastos - A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros


Prosa poética de Ilona Bastos - A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros


A escrita em mim


 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
 Mas, que fazer? E é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
 Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
 Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.


ASSINAR NO LOBO - Crónica de Gociante Patissa


ASSINAR NO LOBO - Crónica de Gociante Patissa

Alguém asseverou certo dia que «do imposto e da dívida, o ser humano não se livra».

Com tudo o que há de discutível nas frases feitas, parece ser inquestionável a fatalidade que a citação supra encerra, bastas vezes faísca para o azedume nas relações humanas. Devíamos mesmo emprestar dinheiro? Mas, do lado oposto, vem a questão: e se fôssemos nós a precisar? A resposta seria seguramente um evasivo «depende do caso».

Como já abordado, há uma correlação entre a dívida e o conflito no sistema de valores dos Ovimbundu. Vamos aos adágios: «Pesinsa panyãle ongolo, pukamba panyãle ofuka»(o joelho dá cabo da esteira, a dívida dá cabo da amizade) e, ainda, «olevalisa eye onjaki»(quem empresta é o conflituoso). Como a dialéctica é lei, temos a expressão «walevalisa wasolekisa»(Quem empresta reserva), só usada quando o final é feliz.

 Qualquer dia surgirá uma lenda a explicar quem foi o primeiro caloteiro mundial. Até lá, continuamos a ser esse universo representativo, com os ingénuos (vítimas da sua sensibilidade ou dimensão humana), os que nunca erram (devem, fingem que esquecem ou dizem não gostar que se lhes cobre, mas exibem bens mais caros do que o valor devido), bem como os honestos (raros). Há ainda os avalistas (por cuja credibilidade uma terceira parte obtém crédito). E é nesta última classe que nos atemos hoje.

 Ora, estamos em finais da década de 90 do século 20, com o mercado de trabalho difícil, tendo em conta a instabilidade política e militar. Pouco investimento do sector privado, baixos salários na função pública, o maior empregador de todos os tempos. E o mês dura uma eternidade, quando se ganha pouco. A dívida passa a ser o meio-termo.



Poemas de Liliana Josué - PRIMAVERA - TRILOGIA



Poemas de Liliana Josué - PRIMAVERA - TRILOGIA


 UM

 Verde, muito verde, tanto verde...
 e a vontade de viver torna-se sede
 porque nasceu a minha Primavera
 e a esperança em mim se enrola como hera
 num hino tocado por trompetas
 revelando o mundo em novas facetas.

Azul, muito azul, tanto azul...
 num esvoaçar macio de brando tule
 lá pelos céus. Respiração Divina
 que no Seu sopro tudo marca e assina
 gotejar de crenças num amanhã
 renovação do Ser em esperança sã.

Rosa, muito rosa, tanto rosa...
 é poema cantado ou mesmo prosa
 que a Primavera traz no seu regaço
 num esvoaçar de pomba pelo espaço
 estimulando a fecundação do mundo
 no seu grávido sopro tão profundo.

Branco, muito branco, tanto branco...
 proposta dum Universo são e franco
 nas por aí espalhadas brancas flores...
 (aglutinação de todas as cores).
 Perfume etéreo em almas doloridas
 esperança de cor no incolor de vidas.


domingo, 23 de março de 2014

Poesia de Arlete Piedade - A primeira andorinha; Amanhecer


Poesia de Arlete Piedade - A primeira andorinha; Amanhecer

A primeira andorinha

Hoje vi a primeira andorinha do ano!
Pressenti-a antes de ver as suas acrobacias
entre as chaminés e os beirais dos prédios
as pontas esguias das suas asinhas pretas
e o branco puro da sua barriguita fofa
a velocidade e elegância com que voava!

Pareceu-me que andava a tentar localizar
o antigo lar! - O mesmo do ano anterior
Mas as paredes foram raspadas e pintadas
os ninhos deitados abaixo sem compaixão!
Eram um lar senhores! Lar de andorinhas!

Aqueles simpáticas avezinhas recordam-se?
Que alegram os nossos céus e casas no verão...
Elas chilreiam, volteiam, fazem os ninhos
trazem pequenos pedacinhos de barro no bico
um a um, depositam e constroem a casinha
fica só um pequeno buraquinho que é a porta
e depois forram por dentro com as suas penas!

Deve ser bem fofo e quentinho o lar da andorinha!
Em seguida põem os ovinhos e chocam com carinho
Até que um dia uns pios anunciam a chegada!
Os bebés romperam a casca! E têm que comer
para crescer, ser fortes, voar, e com os pais regressar!

Passar o inverno em Africa e mal se anuncie a Primavera
Regressar aos mesmos lugares! Saudar os velhos amigos!
E recomeçar o eterno ciclo da vida, e das estações!

Estou alegre! Afinal há Primavera! Vi hoje a primeira andorinha!

Arlete Piedade


O Direito e o Avesso - Crónica de José Pedreira da Cruz


O Direito e o Avesso - Crónica de José Pedreira da Cruz

Foi numa tardezinha quente de um trinta e um de dezembro, a bordo de uma barcaça e bem acompanhado, que realizei um passeio náutico entre a cidade do Rio de Janeiro e Niterói, numa espaventosa e reluzente viagem de estupefata beleza pela encantada Baía de Guanabara onde, vivenciei, sem dúvida, um dos mais belos e agradáveis momentos.

Na popa da embarcação assistíamos deslumbrados a um belíssimo final de tarde de um último dia de ano, enquanto uma agradável brisa soprava suavemente esvoaçando os nossos cabelos no ar.

Me envaideci com a radiante beleza do momento, o quê não nos permitia a mudes. Por isso comentávamos de tudo expostos às vistas: das aves marinhas sobrevoando suavemente sobre nossas cabeças; dos rastros de espuma deixados pelos aero-barcos; dos gigantescos aviões indo vagarosamente em direção à pista; do esplendor da ponte sobre o mar; do espetacular pôr-do-sol por detrás da metrópole; da beleza encantadora da Ilha Fiscal; do bonde do pão-de-açúcar rasgando as nuvem; da magnitude e esplendorosa visão do Cristo Redentor abraçando a cidade; das luzes de holofotes riscando o céu; da silhueta dos enormes navios próximos e à distância; dos turistas a bordo com suas falas incompreensíveis; da alegria dos jovens, no saguão cantando canções alusivas ao Ano Novo; das batucadas no salão inferior da nau, repleta de passageiros e, por fim, da nostalgia irradiada pela canção francesa «Sur le ciel de Paris» magnificamente executada no acordeom de um artista anônimo que animava os passageiros, o quê resultou num respeitoso silêncio de todos, que, agradecidos com a belíssima canção, agraciaram o músico com uma espetacular salva de palmas no exato momento em que a embarcação era atracada no cais do porto.
Foi uma tarde de encantamentos.


Favela em morro do Rio de Janeiro - Crónica de Antônio Carlos Affonso dos Santo (ACAS)


Favela em morro do Rio de Janeiro - Crónica de Antônio Carlos Affonso dos Santo (ACAS)

Lá, no alto do morro da favela, onde o vento faz a curva e encosta o lixo e onde o antigo riacho vira esgoto a céu aberto, o pobre Manduca aguarda a chegada do Papai Noel. Ele nunca havia visto o bom velhinho, no entanto ele queria acreditar que o bom velhinho existia. Ele se aplicou na escola e ajudou todas as pessoas que precisavam de sua ajuda; em que pese o corpo franzino, a pouca estatura para um menino de doze anos: ele queria muito ganhar um presente!

A periferia, o lixo urbano, com seus barracos de madeira, papelão e lata e suas casas de blocos de cimento barato, sem reboco, refletia o pisca-pisca das estrelas distantes. Do alto do morro, Manduca contempla as luzes da cidade, lá embaixo, refletida nas águas do Oceano Atlântico. Lá, em meio daquelas luzes, ficava o hospital onde sua avó; a única pessoa que realmente importava, estava internada com pneumonia!

Aquele seria o primeiro Natal do Manduca sozinho no barraco, sem sua avó. Sem sua avó, sem comida, sem dinheiro, sem amigos que se importassem com ele. De início ele tinha fé que a mãe do Tiziu, seu melhor amigo e vizinho, o convidasse para comer.

O Ipê que não queria ser Poste - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas


O Ipê que não queria ser Poste - Texto de Antônio Carlos A. dos Santos, Acas 

 Um poste de luz, feito do tronco de uma árvore cortado nos matagais do estado de Rondônia (Brasil), localizado pelas coordenadas (Google Earth => 8047´24”S, 63052´44”W), ou seja; na Avenida Jatuarama, em Porto Velho, capital do estado de Rondônia, foi notícia durante o ano de 2010. E o motivo foi surpreendente: o poste foi colocado numa Avenida no ano de 1994.

Cheguei a pensar que a foto mostrada nos vários sites de informação pudesse ser uma montagem de computador, ou qualquer truque do gênero. Não é o que aconteceu com o poste florido! Na estação correta, em que os ipês florescem em Rondônia, fez surgir suas flores para calar quaisquer suspeitas de mágica ou enganação, tão comum na internet.

O que quis dizer esta árvore ao seu algoz, aquele que a decepou, copa e galhos, sem o menor remorso e que a deixou tombada como se morta estivesse? E se foi, aparentemente transmutando a sua utilidade de viver para uma função secundária de um mero suporte de fios de cobre, numa rua qualquer de uma cidade pouco conhecida dos brasileiros do sudeste, centro oeste ou nordeste. Só sei dizer que a carga de energia era muito grande; a energia da vida, que fez com que as veias abertas se fechassem de novo. O movimento de sobe e desce da seiva rica persistiu. A ordem forte das raízes recém-criadas pela força da Natureza, para suportar o peso da tragédia, fez-se novamente.

O reordenamento e o aprendizado da casca para realizar fotossíntese, foi recriado. A reconexão dos eixos neurais da planta se reinventou adrede. O reaprendizado natural que o infortúnio ensina, aconteceu. A fisioterapia da suave reabilitação deu-se, em meio ao desassossego do ineditismo do evento. A redução do gasto de energia com a respiração, voltou a crescer.



Segunda-Feira ao Sol (2002) - Fernando León de Aranoa


Segunda-Feira ao Sol (2002) - Fernando León de Aranoa

Texto Recolhido em Cinema Pela Arte - Emmanuela


 Fernando León de Aranoa, com seu filme «Segunda-Feira ao Sol», lança luz sobre os batalhadores, pessoas que conheceu, que «falavam sobre o trabalho não como algo que gera riqueza, mas como uma coisa de muito valor. Algo com alto valor que você não pode maltratar nem falar mal ou transformá-lo em algo precário.»

Trajetórias errantes

E é com a exibição de uma real amotinação de trabalhadores injustiçados que o espanhol Fernando León de Aranoa inicia sua ficção sobre o colapso empregatício que afeta uma cidade portuária ao norte da Espanha.

Em «Segunda-Feira ao Sol»(2002), filme colecionador de prémios, Aranoa revela com extrema consciência uma grave deficiência socioeconómica da Espanha, constantemente mantida oculta pelo título de país de primeiro mundo. Javier Bardem, com uma aparência surpreendente, destaca-se com uma primorosa atuação.

Santa é o seu personagem, homem incorruptível com um adormecido espírito de liderança, o mais notável do grupo de errantes no breu do capitalismo excludente. Santa foi um dos muitos funcionários do estaleiro desativado assentado em terreno valioso, atualmente em processo de preparação para a construção de luxuosos hotéis e condomínios à beira-mar, excelente fonte de lucro para investidores do estrangeiro.

Partindo da crise de uma exclusiva classe trabalhadora, «Segunda-Feira ao Sol» centraliza uma questão independente: a perda da identidade social em razão da improdutividade. Distantes da abstemia mais comum em bem-sucedidos, os companheiros desempregados sempre se reúnem em alguma hora do dia no bar do Rico (Joaquín Climent), outro ex-operário do estaleiro, mas que encontrou esse meio, modestamente lucrativo, de investir sua rescisão; dinheiro polémico já que existia um movimento, defendido por Santa, de não condescendência, de negação à assinatura dos documentos de demissão.


A Cidade - Texto de Maria José Vieira de Sousa


A Cidade - Texto de Maria José Vieira de Sousa

Recolhido em Livres Pensantes

 

«A escrita tem as suas próprias leis de perspectiva, de luz e de sombras, como a pintura e a música. Se nasces com elas, perfeito. Se não, aprende-as. Em seguida, reorganiza as regras à tua maneira.» Truman Capote

 A Cidade

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 Vista da Ponte, a Cidade parece intemporal e sem dúvida fascina-me o seu casamento com o rio e com o mar num braço aberto , mas foi sempre assim. Nunca passou esse fascínio para dentro dela. Acabrunhava-me a sua traça virada de costas para o rio e anulada qualquer ligação com o Mar pela muralha intransponível de prédios gigantescos enfileirados para o turismo em massa da sua Praia.

 Há,contudo, uma certa emoção ao contemplá-la da Ponte, principalmente à chegada, apresentando-se imponente com o seu reflexo nas águas do Rio e deixando soltar uma paz adormecida na sombra de tanta casa anónima que vista deste ângulo não é possível identificar.

E é esse anonimato que explica a minha relação com a Cidade e vinte anos da minha vida. Não foi um caso de amor e muito menos de paixão que me levou para a Cidade. Era mais um lugar para viver que acumulava privacidade com um elemento paisagístico natural imprescindível para mim, a AGUA.

 Não tinha muito dinheiro nem sequer conhecia o mercado imobiliário. Tinha vindo para o Sul e, como as praias estavam desertas , emprestaram-me uma casa numa Vila, à beira mar, situada perto da Cidade. Era um empréstimo a prazo, pois no Verão teria de sair.

 Aprendi alguns anos mais tarde que a privacidade e o anonimato são fantasmas de outro tempo e de outra cidade que não esta . Foi contudo já muito tarde essa minha descoberta, não evitando todos estes acontecimentos que continuam vivos na minha memória.




Os sons dos 80: Tropicalíssimo - Texto recolhido no Blogue Bairro do Oriente


Os sons dos 80: Tropicalíssimo - Texto recolhido no Blogue Bairro do Oriente

 Depois do êxito da telenovela «Gabriela, Cravo e Canela», inspirada na novela homónima de Jorge Amado no Portugal dos anos 70, as portas ficaram abertas para uma «invasão» de produtos da cultura brasileira.

Cultura salvo seja, pois algumas dessas telenovelas eram verdadeiros enlatados que pouco ou nada tinham a ver com a nossa realidade ainda um tanto ou quanto cinzentona, mas outro «produto»que chegava do outro lado do Atlântico era a música.

A música brasileira, quer na sua vertente da MPB ou da bossa-nova, era considerada «subversiva»pelo antigo regime, mas começou a ganhar expressão entre nós nos finais da década da revolução, e por meados dos anos 80 era um fenómeno de popularidade. Os artistas brasileiros chegavam à Portela, onde eram recebidos em apoteose, diziam que «adoravam Portugal», e arranjavam sempre um parente português, mesmo que fosse distante, para ganhar ainda mais simpatia entre o público lusitano. Vamos recordar aqui alguns destes artistas do país irmão.

 E começamos logo por cima, com o Roberto Carlos, um cantor que - e pasme-se - tem agora 72 anos de idade, e mais de 50 de carreira. Aquele que foi nos anos chamado de «o rei do ié-ié» era nos anos 80 um charmoso quarentão, e tinha o particular de quase todos os seus álbuns terem o seu nome: «Roberto Carlos». Só mudava mesmo era o ano, e um dos seus maiores sucessos no nosso país foi o de 1985, que ficou conhecido por «Verde e Amarelo».


sábado, 22 de março de 2014

Pais abandonados - Texto de Irene Fernandes Abreu


Pais abandonados - Texto de Irene Fernandes Abreu

 Hoje em dia não compreendo o desamor dos filhos pelos pais. Com uma enorme indiferença «atiram»os pais para os «lares de terceira»idade, e muitos deles nem sequer se dignam visitá-los ou preocuparem-se mais com a sua sorte.

Noutras situações, são abandonados nos hospitais! Embora isso aconteça ao longo do ano, acentua-se quando se avizinham as férias de verão, as Festas do Natal e o Fim do Ano. Contudo, o abandono não ocorre só nas quadras festivas. Ao longo de todo o ano há idosos «esquecidos»pelos seus familiares directos nos hospitais e em lares da terceira idade.

Responsáveis hospitalares garantem que sim; - «há idosos que são trazidos às Urgências devido a alegadas indisposições ou falhas de saúde e que, uma vez constatado o falso alarme, não têm quem os receba de volta, porque se descobre que são falsos os dados de identificação fornecidos na recepção aquando da entrada».

Esta é a nova sociedade? Que esperam quando chegar a vez deles? Exemplos destes, são um incentivo para os próprios filhos lhes fazerem o mesmo.

Mais estranho ainda, são os casos verificados com famílias de boa condição social, gente sem dificuldades económicas e que, apesar disso, se escusam a manter em casa idosos a que estão ligados por laços directos de sangue.


Os preceitos do Baldão - Por José Francisco Colaço Guerreiro


Os preceitos do Baldão - Por José Francisco Colaço Guerreiro

Recolhido em Património

Em volta de uma mesa sentam-se os cantadores, normalmente juntinhos e sobre a mesma dispõem-se os copos e coloca-se o mais.Buscam posições , procuram parceiros, trocam olhares fugidios, disfarçadamente miram a aparência dos concorrentes, tossem, pigarreiam , limpam a garganta, passam sugestivamente a mão pelo pescoço e invariavelmente lamentam-se pela sua fala que hoje para nada presta.

 Tenho estado tão constipado....se calhar até nem canto, é costume dizerem.

 Mas cantam sempre, é uma desculpa adiantada para qualquer falho ou para iludir os outros se eles se fiarem nas queixas.

Entretanto, todos se aconchegam, ajeitam-se nos lugares para darem largueza ao tocador. E a campaniça começa a retenir a moda da marianita do principio ao fim. Sempre assim foi e assim será . Tal como o rumo das cantigas segue obrigatoriamente o percurso inverso ao sentido dos ponteiros do relógio. Um preceito. Uma regra que ficou estabelecida desde o início deste cante para que cada vez que se juntam não tenham de estar a preocupar-se com os pormenores da volta.

Mas depois dos primeiros acordes, os olhares fixam-se na boca e os sentidos nos dizeres do cantador que é o mão. Cresce a tensão, aumenta o desejo, redobra o frenesim e o silencio do principiante é insuportável. O tocador que já percorreu a moda ponto por ponto então sustem-se , já não abala , pisa as cordas com os dedos esquerdos e desata a repetir a chamada com a unha acrescentada do polegar direito fazendo soltar a viola ganidos de impaciência . Chegados aqui , o cantador já sem saída , ganha fôlego, fecha os olhos, enterra a boina e lá vai.



A moça do parque - Conto de Jorge Sader Filho


A moça do parque - Conto de Jorge Sader Filho 

 Inventam muitas histórias engraçadas neste mundo.
 Talvez algumas sejam verdadeiras, talvez não, nunca se sabe onde mora a verdade, aquela que todos procuram e poucos encontram.

O fato é que numa cidade grande, e aqui não se diz qual, havia um parque de árvores frondosas, brisa fresca, lago e um pequeno bosque. As mães levavam a criançada para brincar e tomar Sol. Casais de namorados sentavam-se nos bancos e trocavam confidências e carinhos. Mas o bosque não era muito frequentado. Estava quase sempre deserto.



Segundo dizem, uma bela moça abriu um romance, sentada num banco perto do bosque e ficou absorta na leitura agradável.
 Um rapaz de excelente aparência, muito bonito mesmo, sentou-se num banco próximo e ficou olhando. A moça percebeu de imediato, e reparou na beleza do espectador desconhecido. Este, calmamente, fez um gesto e se encaminhou até a leitora.

Sendo moça de cidade grande, naturalmente que permitiu que o jovem sentasse ao seu lado, e logo estavam conversando. O livro foi para dentro da bolsa grande.
 Não se sabe o que falaram antes. Sabe-se que a moça estava encantada com o seu admirador.

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações - Por Daniel Teixeira - A estranha leveza do bucólico


Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações  - Por Daniel Teixeira - A estranha leveza do bucólico

 Para mim, e para a larga maioria das pessoas, penso eu, dissertar sobre a desertificação humana de espaços não implica que o estudante se debruce exclusivamente sobre aquilo que podem ser consideradas as razões para que a tal de desertificação humana (sócio - económica) tenha tido lugar.

Desertificação existe em qualquer lado, sendo que nuns locais pode ser mais dramática nos seus resultados do que noutros. Aqui em Faro (cidade do Algarve cercada por mares e rias, campinas e um pouco de serra baixa) é recorrente o debate sobre a desertificação que se verifica na tradicional e histórica Baixa Farense.

Tradicionalmente e psicologicamente acoplada ao pequeno comércio, são relativamente poucas as pessoas que não atribuem ao surgimento das grandes superfícies e consequente deperecimento dos pequenos negócios habituais o actual estado (lastimável) em que a mesma baixa farense se encontra. Contudo aqui será necessário saber o que nasceu primeiro, se o ovo populacional se a galinha comercial.

E na verdade isto é quase como a Bíblia: primeiro foi o verbo humano. E por mais que seja difícil sustentar esta tese o certo é que o comércio foi crescendo à medida que as pessoas se concentravam nos iniciais passeios públicos e que um factor terá influenciado o outro em reciprocidade. E depois foi também o ovo populacional que se foi indo embora obrigando o pequeno comércio a ir progressivamente e em reciprocidade fechando as portas.

Bem argumentaram os pequenos comerciantes em carência, contra a besta monopolista, trazendo argumentos daqueles de puxar ao coração, mas esses argumentos não sustiveram, provavelmente nem por um segundo, o movimento que se desenhava havia já bastante tempo e que a necessidade de adaptação obrigava a ter tido em conta.


Restos de Carnaval-Escreve: Clarice Lispector


Restos de Carnaval


Escreve: Clarice Lispector



Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete.

Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

 No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

 E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. E à porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Epifanias de uma alma pequena - Texto retirado de «As leituras de madame Bovary»


Epifanias de uma alma pequena - Texto retirado de «As leituras de madame Bovary»

Acredito na existência da alma. Acredito porque já senti a minha a querer partir-me o peito algumas vezes. Uma alma curiosa e inquieta e não aceita confinar-se a nada, recusa convenções e devoções e nem sempre obedece aos meus desígnios.

 As vantagens e as despesas de uma alma deste tipo são conhecidas. O bem e o mal coincidem no mesmo ponto, a imaginação empática. Gosta-se demasiado de visitar e imaginar toda e qualquer alteridade, pois o que interessa é abarcar a vida nas suas múltiplas manifestações e contradições.

 Uma vez ofereceram-me um workshop de Reiki. Acontecia a um sábado e, apesar da generosidade da oferta, o corpo clamava por praia. Após uma longa hesitação, acabei por me levantar bem cedo e ir ao workshop, de algum modo convencida que se não abdicasse de um dia de Verão, a minha alma estaria condenada a um materialismo opressivo. Aguentei a manhã e a tarde no workshop, contrariando ora a minha vontade de fugir, ora o riso convulsivo.

 No entanto, o reiki acabou por me oferecer duas epifanias. A primeira aconteceu durante o workshop. Todas as mulheres que frequentavam o mesmo, à excepção de mim, tinham alguma doença complicada. Uma deles ficou indignada, quando um dos mestres lhe deu a ler o significado espiritual da síndrome de Crohn: parece que só acontece aos lambe-cus. E foi então que a certo momento, eu vi, eu soube: as quatro mulheres que ali estavam, tinham trocado o sol e os pés descalços sobre a areia, porque estavam perdidas e precisavam desesperadamente de um sentido para a vida. Eu inclusive.

 A segunda aconteceu no dia seguinte ao workshop. Depois de iniciada ao reiki, há que meditar uma hora durante 30 dias. Nunca consegui meditar mas como as mãos aqueciam realmente, decidi tentar. Pus o CD com os sininhos e comecei os exercícios sentada na cadeira. Quinze minutos depois estava deitada na cama a aldrabar todos os exercícios e fui forçada a ser sincera comigo. Admiti que não conseguia meditar, que o reiki fazia muito bem a muita gente mas a mim só me tirava os pés do chão para a cama e que durante o tempo que ali estivera, não conseguira esvaziar a mente pelo constante lamento de estar a desperdiçar tempo que podia gastar a ler. Senti-me muito mais leve depois disto e aproveitei a vela para alumiar a leitura dessa noite e meditar nos pensamentos e acções das personagens que então me ocupavam.


Leia este tema completo a partir de 25 de Março de 2014 carregando aqui

IMPUNIDADE DOS TITULARES DE CARGOS PUBLICOS - Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor


IMPUNIDADE DOS TITULARES DE CARGOS PUBLICOS - Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor 

 Os regimes democráticos, com todas as suas admissíveis virtudes, são os que oferecem menos defesas em relação aos abusos do poder. Por vezes não há meios de defesa contra uma injustiça que a opinião pública não reprove.

Porquanto, o corpo legislativo, o poder executivo, a força publica e, nalguns casos, os juízes, representam essa opinião publica, ou são o seu reflexo. Porém, em Portugal ainda não se chegou a este extremo…

O Povo, quando escolhe os seus representantes, devia ter presente o seguinte:

- Não são tiranos apenas aqueles que desrespeitam a vida, a honra e a fazenda dos governos, arrastando-os para guerras injustas, ofendendo-os nos seus sentimentos, gastando em proveito particular, ou em necessidades não justificadas, o produto dos impostos estabelecidos para defesa de interesses comuns.

- Tiranos, são igualmente os governantes que se eximem ao cumprimento dos seus deveres funcionais.

 A crise actual do Estado acha-se ligada a inúmeras omissões dos titulares de cargos públicos, no que concerne à verdadeira realidade que, sendo em seu desbeneficio tentam, por todos os meios, esconder das vistas daqueles que os elegem. Há-de pôr-se o problema da legitimidade do poder quando a independência política se não acha garantida por incúria, ou quando a criminalidade atinge níveis que afectam a tranquilidade publica, ou quando grupos não reconhecidos pelo poder, ou «testas de ferro» deste, estabelecem e cobram, sob «coação», «impostos revolucionários», com tal regularidade que a obrigação moral de pagar os impostos estaduais se porá em dúvida.


Wenceslau de Moraes nasceu há 160 anos - Texto de João Botas


Wenceslau de Moraes nasceu há 160 anos - Texto de João Botas 

 
 Em Maio celebram-se os 160 anos do nascimento de Wenceslau de Moraes, um dos mais importantes autores portugueses que trataram literariamente assuntos ligados ao Oriente, em especial o Japão.

Na fotobiografia de Wenceslau de Moraes, da autoria de Daniel Pires, edição Fundação Oriente, 1993, esta imagem abaixo (da Biblioteca Central da Marinha) está na pág. 64 com a legenda «Oito oficiais em uniforme de Verão. O escritor é o último à direita».

O livro refere detalhadamente o percurso de Wenceslau de Moraes e as embarcações onde prestou serviço. Refere também, que o escritor passa a pertencer à Escola Naval a 4 de Fevereiro de 1879 e a 12 do mesmo mês é promovido a Segundo-Tenente e que a 16 de Novembro do mesmo ano começa a exercer na canhoneira Quanza, comandada por Carlos Maria da Silva Costa, que por certo deverá estar na imagem.

Wenceslau José de Sousa de Moraes, ou Venceslau de Morais, na ortografia moderna nasceu em Lisboa em 1854. Foi escritor e militar da Marinha Portuguesa tendo prestado serviço em Moçambique, Macau, Timor Português e no Japão.

Viajou pela primeira vez até Macau em 1885 onde se estabelece sendo imediato da capitania do Porto de Macau e professor do Liceu de Macau desde a sua fundação em 1894. Durante a sua estadia no território casa com Vong-Io-Chan (Atchan), mulher chinesa de quem teve dois filhos, e estabeleceu laços de amizade com Camilo Pessanha (veja-se os dois em Macau nas duas fotos abaixo).



EU E TU, Bernardo Bertolucci, Itália, 2012


EU E TU, Bernardo Bertolucci, Itália, 2012

 
Texto Recolhido em «Cineclube de Faro»


SINOPSE
Lorenzo é um jovem solitário de 14 anos, diferente dos outros. Um dia, engana os pais e falta a uma viagem escolar para realizar o sonho de se esconder numa cave abandonada do prédio onde mora. Durante uma semana, pode finalmente evitar todos os conflitos e as pressões e comportar-se como um adolescente dito normal. A chegada inesperada da meia-irmã Olivia vai mudar tudo.


PREMIOS
Festival de Cinema de Cannes – Selecção Oficial – Fora de Competição
Lisbon & Estoril Film Festival - Selecção Oficial – Fora de Competição
TRAILER

CRITICA
Cineasta com uma obra que se desenvolve ao longo de meio século, o italiano Bernardo Bertolucci nunca deixou de lidar com os dramas mais íntimos da juventude: assim volta a acontecer no admirável «Eu e Tu», estreado em Cannes/2012.

Há uma obsessão central no cinema de Bernardo Bertolucci. Tem a ver com a juventude e poderemos, talvez, resumi-la numa pergunta: como é que os jovens refazem, ou renegam, as heranças dos pais?

Afinal de contas, encontramo-la disseminada por histórias tão diferentes como a do filho revoltado de «Antes da Revolução» (1964), a do filho à procura da herança política do pai em «A Estratégia da Aranha» (1970), ou ainda, claro, a dos filhos errantes nas paisagens urbanas de Maio 68 evocadas em «Os Sonhadores» (2003).

«Eu e Tu» demorou algum tempo a chegar às salas portuguesas (foi um dos grandes acontecimentos de Cannes/2012, extra-competição), mas ainda bem que chegou. Estamos, de facto, perante um objecto fundamental no interior dessa lógica filial do cinema de Bertolucci, contando a história insólita do diálogo secreto de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) com a sua meia irmã Olivia (Tea Falco), por assim dizer tentando preencher a ausência dos adultos.


sábado, 8 de março de 2014

Jornal Raizonline nº 245 de 9 de Março de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira

 
 
Jornal Raizonline nº 245 de  9 de Março de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira
 
Quando não se tem nada para dizer

Quando não se tem nada para dizer e se tem que preencher uma crónica as palavras vão aparecendo como que por magia.
 
A magia, como todos seguramente sabem, tem uma larga participação conhecida ou reconhecida de ausência de intervenção causal, menos visível, menos conhecida da maior parte das pessoas. Diz-se que é magia, por princípio, embora as coisas possam ir evoluindo ou regredindo, a algo que acontece não se sabe muito bem como nem porquê. A magia é...mágica. Acontece.
 
Há que ter em consideração as deturpações dos termos iniciais que são feitas pela comodidade terminológica: um mago pode hoje ser um mero ilusionista (que usa truques de forma a parecer que é «magia»), nem sempre com sucesso, parece ser reconhecido.
 
Sobre estas palavras que vou dizendo desde o princípio é bom relembrar que eu comecei por dizer que não tinha nada a dizer, mas, como podem verificar já disse aqui uma série de coisas.
 
Falta-me a experiência técnico/científica para desenvolver estas questões em toda a sua profundidade, mas também nestes tempos que correm, falar nisto ou noutra coisa qualquer pode ser tão empolgante como ler uma má poesia ou uma má história e acabar dizendo aos autores que aquilo que fazem é simplesmente maravilhoso, o que acontece muito. E aí não se trata de magia mas sim de hipocrisia.
 

Triste fado - Conto de VIRGINIA TEIXEIRA

 
 
Triste fado - Conto de VIRGINIA TEIXEIRA  
 
Há pessoas a quem o fado é a tristeza e a espera. São pessoas a quem o olhar húmido é mais belo do que o risonho, e a quem um esgar de dor se torna com o tempo num sorriso apreciado por todos. São seres de olhar perdido mais além.
 
Ela sempre foi fadada à tristeza. Eu adivinhava-o no rosto da criança pequena que ajudei a criar, e sempre soube mais do que os outros o significado daquele olhar perdido no além.
 
Verdade seja dita que não quis crer e muitas vezes me repreendi por apreciar a beleza da menina quando as lágrimas se derramavam abundantes pelo rosto abaixo. Mas a idade traz sabedorias que temos de aceitar e na altura eu já a acalentava com mais doçura do que aos outros, mesmo que fosse ela a que menos retribuísse o carinho oferecido.
 
Era uma menina magra, de uma delicadeza de postura que contrastava com a pele morena e o cabelo rebelde. Nunca se deixava apanhar pela escova, ganchos e pregadores de cabelo, como as irmãs, e passava os dias em correrias com os meninos, tanto com os irmãos e primos como com os filhos dos que trabalhavam na casa.
 
Eu sempre cá vivi, fui à cidade poucas vezes e foi aqui que construí a minha vida. Não sei nada do mundo longínquo, nem sinto falta desses saberes estrangeiros.

Leia este tema completo a partir de 9 de Março carregando aqui.

Coluna de Manuel Fragata de Morais - Momento de ilusão - Contos

 
Coluna de Manuel Fragata de Morais - Momento de ilusão - Contos
 
CARTAS

Minha Genoveva,
 
 Senta-te para que não caias de surpresa, já que é a primeira vez que nos falamos e poder-te-á ser, ou não, agradável o que vou contar.

Quando o meu bisavô foi para as Africas, já lá vão precisamente 98 anos, certamente ninguém pensou na sua aldeia que voltasse, mas foi o que fez, como talvez saibas. Deixou aí filhos com uma lavadeira negra, um deles o teu avô, de nome Miguel Gomes, só isso é que sei. Parece que vivia em Benguela e o teu pai ou a tua mãe, cujos nomes não conheço, se ainda forem vivos, por certo saberão confirmar o que digo. Sou, pois, tua prima afastada, sendo o nosso bisavô o mesmo, já que ele aqui tornou a fazer filhos, tendo-se casado com a minha bisavó, D. Engrácia Gomes.

Fique muito feliz quando recebi do consulado português em Luanda a indagação se por acaso um tal José Armando Gomes seria aquele que estivera em Angola de 1900 a 1930 e cujo assento de baptismo de um filho, Miguel Gomes, constava na paróquia do Carmo em Luanda. Acho que terás sido tu a inquirir, pois foi esse o endereço que me foi fornecido.
 
O resto, é este primeiro contacto. Manda-nos fotografias tuas e da família, explicando tudo muito bem, quem são e como estão.

O retrato que anexo, é do Augusto, meu marido, eu e o nosso filho Tobias, tirado no jardim zoológico o ano passado, quando fomos a Lisboa de férias. Por acaso tirada ao lado dos elefantes, quando ainda não sabíamos que tínhamos parentes em Africa, vê lá.

Tua prima que te adorará conhecer um dia.
 

A dor e o Optimismo - Por Irene Fernandes Abreu

 
 
A dor e o Optimismo - Por Irene Fernandes Abreu
 
Uma amiga de longa data começou a adoecer e, os médicos ainda não diagnosticaram com exactidão o problema e nem sabem como a tratar, apesar de alguns exames e muitas observações, começou por perder o andar, não consegue segurar nada nas mãos, sente-se frágil e só. Ainda está nos sessenta…
 
Operaram-na à coluna, correu bem, fez fisioterapia e depois, amparada pelo andarilho recuperou o andar, o optimismo voltou. Mas por pouco tempo, porque ainda não consegue segurar nada nas mãos e para as tarefas mais básicas, precisa de ajuda. Embora acompanhada com os filhos e uma empregada, sente-se só e perdida nesta sua incapacidade, porém a esperança da sua cura fala por ela, no brilho do olhar e nos planos que tem para a consulta de novos médicos e tratamentos.

Ao olhá-la, dei por mim a pensar no que somos e no que poderemos ser quando inesperadamente, e seja qual for a idade, certas doenças nos atacam e o pior, quando a ciência ainda não tem resposta para elas.
 
 

Crónica de José Pedreira da Cruz - Em busca de um pesadelo

 
 
Crónica de José Pedreira da Cruz - Em busca de um pesadelo 
 
Todo indivíduo que nasce nas regiões mais carentes do Brasil carrega consigo o sonho de um dia pisar em terras cariocas ou paulistanas e lá adquirir uma vida melhor e, quem sabe, até tornar-se rico.
 
Este é o anseio de milhares de pessoas que aos poucos vão se deslocando de suas origens e esperançosos desembarcam no destino de suas aspirações e tão logo se mortificam na desilusão que os espera e passam a vagar pelas ruas como verdadeiros nómadas suburbanos: sem eira e sem beira, e foi neste contexto que conheci João da lata.
 
O frio era um dos mais impiedosos das últimas décadas e naquela inesquecível meia-noite de julho, lá estava eu com dois amigos, como voluntários, na Praça da Sé, marco zero da metrópole, tentando minimizar o sofrimento alheio com sopa quente, pão-de-forma e peças de vestuário adquiridas de terceiros.
 
Logo após anunciarmos que iríamos distribuir roupas e alimentos, verifiquei que muitas pessoas acorriam em minha direção, ai aflorou-me um sentimento de tristeza, mui tormentoso, ao me ver frente àquele quadro de inumanidade bem na sala de visita de uma das cidades mais prósperas das Américas.
 
A exuberância das ricas edificações, protegidas com suntuosa iluminação pública, nada tinha a ver de formosura frente à realidade da miserabilidade que me deparei e que me fez lembrar das personagens do romance O Príncipe e o Mendigo, de Mark Twain que, de tão dramáticas e sofridas, me fez relê-lo por várias vezes.
 

SACCO & VANZETTI – Um Erro Irreparável - Por : PEDRO LUSO DE CARVALHO

 
 
SACCO & VANZETTI – Um Erro Irreparável - Por : PEDRO LUSO DE CARVALHO
 
No dia 23 de agosto de 1927, nos Estados Unidos, Sacco e Vanzetti foram executados na cadeira elétrica, por um crime que não cometeram. Nos autos do processo, nenhuma prova da autoria do crime. Sete anos, foi o tempo que a justiça levou para condená-los, a contar do recebimento da denúncia do promotor de justiça pelo juiz.
 
Nesse lapso de tempo, protestos da comunidade intelectual norte-americana se sucediam, inconformada com a sentença condenatória dos dois humildes italianos. Milhares de pedidos de clemência foram encaminhados por eles, aos quais se somaram tantos outros pedidos do mundo inteiro. Mas, tudo foi inútil. A sentença condenatória teria de ser cumprida para servir de exemplo ao povo, para que se distanciasse do anarquismo e do comunismo.
 
Depois que foi publicada a sentença condenatória de Sacco e Vanzetti, que culminou com a morte de ambos na cadeira elétrica, o sonho americano de uma sociedade justa e igualitária encontrava-se por terra. Aí, começaria o desencanto de parte do povo sensível à justa aplicação da justiça e do tratamento igualitário de seus cidadãos.
 

Crónicas da Infâmia - Do ( Des)amor - Por Maria José Vieira de Sousa

 
Crónicas da Infâmia - Do ( Des)amor - Por Maria José Vieira de Sousa
 
Recolhido em Livres Pensantes
 
Portugal foi sempre o meu país e a minha pátria. Todavia, creio que país e pátria já não são coincidentes, nem tão pouco complementares. Não sei se alguém o afirmou. Digo-o, apenas porque senti.
 
Um país preenche e ilustra um mapa. Uma pátria habita e adorna um coração.
 
A guerra começa quando se pretende apô-los e se descobre que essa pátria não veste aquele país e esse país não tem corpo para aquela pátria. Ficar sem pátria é, então, ter um coração apátrida. São os laços que se quebram num coração que passa a sobreviver sem essas amarras.
 
Assim ficou o meu coração. Apátrida de um país que me dá a nacionalidade. Apátrida de um país que me inclui na população residente. Apátrida de um país que existe ausente de mim. E nessa ausência, tento descobrir o que fez deste Portugal um país de tantas pátrias expatriado.
 
Confirmo, atónita, que foi também uma outra ausência. A maior talvez, porque é uma ausência vital - a ausência do amor. Sem ele, a infâmia vinga.
 
O amor, sentimento exigente, volatilizou-se adquirindo uma forma estranha que enviesa os dias e as gentes deste país. Arredou-se, em degeneração profunda, dando lugar ao (des) amor.
 

DIA DA MULHER - Recolhido em Arferlandia

 
DIA DA MULHER - Recolhido em Arferlandia
 
Decidi, no dia da MULHER, lembrar BLIMUNDA.
JOSE SARAMAGO trata as personagens femininas de forma especial, numa critica criativa aos seus diferentes comportamentos. BLIMUNDA, a MULHER nascida do seu imaginário, em «Memorial do Convento», estaria (hoje) com toda a certeza a comemorar o:
 
«8 de Março Dia Internacional da Mulher»
 
- Factos da história: -
 
No dia 8 de Março do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas para as 10 horas diárias. Estas operárias recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como «Dia Internacional da Mulher». Em 1977, as Nações Unidas proclamam o dia 8 de Março como o:- Dia Internacional dos Direitos da Mulher e da Paz.

 

Doutor Joaquim Magalhães – récitas do 6ºano - Texto de Lina Vedes

 
 
Doutor Joaquim Magalhães – récitas do 6ºano - Texto de Lina Vedes 
 
Na década 50, vivíamos um regime sisudo e intolerante que pretendia encaminhar-nos para a OBEDIENCIA absoluta e nos obrigava a travar todos os sentimentos de AMOR e atracção sexual.
 
 Para os nossos superiores, professores, pais e até padres, a FELICIDADE não existia, exerciam a autoridade como segredo do poder, numa verdadeira atitude repressiva.
 Todos eles eram «donos» do saber e da razão, em todas as circunstâncias, exigindo de nós, submissão. Se não se aceitasse o caminho indicado por eles, seríamos excluídos da sociedade.
 
 Na escola apontavam-nos, como exemplo a seguir, as façanhas de heróis que morreram na defesa da Pátria. As aulas de História ou de Organização Política não focavam o essencial, não eram esclarecedoras e muitos de nós vivíamos no analfabetismo político, julgando-nos os «melhores do mundo» (ensinavam-nos isso) …
 
O Dr. Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, um algarvio de adopção, professor de Português e Francês, era totalmente compreensivo, sabedor e respeitador da dignidade dos alunos. Não usava violência física nem moral para manter a ordem.
 
Como pessoa, todo ele era coração, nunca deixando escapar durante as aulas, uma boa poesia, ensaiando-a, permitindo que alunos mais vocacionados a representassem para deleite de todos.
 Procurava todas as oportunidades para ler poesia francesa, iluminando o nosso espírito apático, inculto, pouco esclarecido nesse âmbito.
 

Polonaise - Por Marcelo Pirajá Sguassábia

 
Polonaise - Por Marcelo Pirajá Sguassábia 
 
- Este ré bemol realmente está um atentado ao ouvido. Faz tempo que está desafinado desse jeito?
- Mais de ano. Vou deixando, evitando esbarrar nessa tecla quando toco, pra não acabar com a música.
 
- O problema é que agora não segura mais afinação. Vou ter que trocar a cravelha. Se o senhor me chamasse assim que notou que estava desafinado… Que curioso, nunca atendi cliente no carnaval. Ninguém chama pra afinar piano nesses dias. Já tinha até planejado uma semaninha em Teresópolis, com a família, quando o senhor ligou. Piano em casa já é raridade hoje em dia. Gente querendo tocar no carnaval, então… Pleyel, esse piano aqui é uma lenda.
 
- Tem quase vinte anos comigo. Estava encostado no porão de um convento. Uma das madres tocava de vez em quando. Ela morreu e o instrumento ficou parado, até que deu cupim e resolveram vender.
 
- Personnalisé pour Frédéric Chopin!*
- Que foi que você disse?
- Aqui, escrito em grafite num selo, perto do pedal.
- Quer dizer o que isso aí, moço?
 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Mocidade Portuguesa - Crónica de Tózé Brito

 
 
Mocidade Portuguesa - Crónica de Tózé Brito

Recolhido em Vieira Calado - Blogue «O cão Merdock»
 
Afinal...não era só no Liceu de Faro

Sabe-se agora que... naquele tempo da Era Merdockiana, também em outros liceus do país, os mestres dos mestres (vulgo Benfeitores - presumindo-se que tudo o que faziam, era a bem do povo, por desígnio superior e era bem feito – não confundir com os Reitores dos liceus, pois esses, por razões óbvias, eram escolhidos a dedo...) ministravam fielmente aos subordinados as orientações vindas do S.enhor, auto-proclamado Supremo Chefe.
 
Porque destaco o S do senhor? Não sendo saudosista, ainda hoje guardo como relíquia a «fivela», com a qual apertava o cinto dos calçanitos de caqui, na qual «em relevo» está gravado o S de senhor.
 
Qual sumo sacerdote do templo (chamado Portugal) ele, o Senhor, zelava pelas boas maneiras e bom comportamento de oito milhões de almas, dizendo que muitas eram impuras e com desvios comportamentais. Outros, seus contemporâneos com idêntica formação básica, ministravam, fora dos liceus, prédicas recheadas de erudição clássica prè-vertida pela suprema sabedoria do mestre, por isso venerado como um verdadeiro senhor.
 
Em pura alegoria, era como se uma oliveira ou uma cerejeira aspergissem sermões, tentando assim alimentar os famintos de conhecimento.

Leia este tema completo a partir de 9 de Março carregando aqui.

AS ORIGENS DO MERDOCK - Vieira Calado

 
 
AS ORIGENS DO MERDOCK - Vieira Calado 
 
Poucos, muito poucos, lhe conheciam a paternidade, ou a proveniência.
Mas diziam uns moços que às vezes apareciam junto ao Liceu, que o Merdock era seu conterrâneo. Segundo eles, o cachorro teria sido nascido e criado nas Campinas, - um lugar rural e isolado -, filho de mãe perdigueira e pai incógnito, provavelmente rafeiro – a avaliar pelas características físicas que patenteava.
 
Foi a progenitora quem lhe ministrou a instrução primária, as primeiras letras, por assim dizer. Extremosa mãe, como todas as mães, ensinou-o a coçar-se e a ganir, a estar sempre atento e a esquivar-se, a latir (mais tarde, a ladrar, mas só quando fosse necessário…), e a caçar.
 
A tenra infância do canito foi igual à de tantos outros – sem grandes sobressaltos, nem grandes mistérios. Apenas o que a Mãe Natureza vai trazendo todos os dias, aos jovens. Conheceu os animais domésticos e os répteis, aprendeu a distinguir os insectos inócuos, dos irritantes, maçadores, e invejou os pássaros. Várias tentativas fez para alcançá-los, procurando erguer-se nos ares, até ao céu que não entendia bem, tanto alegre e fagueiro, quanto brumoso e triste.
 
Ainda muito novo, se viu confrontado com a fatalidade da despedida, apercebendo-se de que todos os irmãos tinham partido para outros lugares, talvez outras vidas, outras lides.
 
 

Um pequeno matador - Por Cecílio Elias Netto - Viver vive-se vivendo (11)

 
Um pequeno matador - Por Cecílio Elias Netto - Viver vive-se vivendo (11)
 
As almas são bordadas com filigranas estranhas. Nunca, talvez, haveremos de saber qual o segredo, mas é como se, ao abrir os olhos para o mundo – escapando do aconchego do útero – a criança já visse a história escrita por antecipação. Conforme a alma que recebe, tal será a sua caminhada.
 
Para escritores, os céus tecem almas de porcelana. Frágeis. Uma brisa pode transformá-las em estilhaços. E, de estilhaço em estilhaço, lá se vão essas almas construindo histórias pessoais.
 
Contei-o muitas vezes, conto sempre, mas parece, ainda hoje, não bastar-me conta-lo. E é como se o primeiro estilhaço de alma ainda me acompanhasse. E, então, lá estava eu, nos meus seis anos de idade, transformado em pequeno matador. Eu, matador – eis como me vi, como ainda me vejo. E, nas minhas mãos trémulas, um passarinho também trémulo, aquele tremor de medo ou de morte de que, ainda agora, não me esqueço. E, em minhas mãos, a mancha de sangue, gotículas apenas, mas o sangue da morte, o sangue do inocente.
 
Matei o passarinho. E de maneira tão gratuita e sem sentido e sem explicação que aquela morte me acompanha. O nome de um outro amiguinho meu, filho da lavadeira do Hotel Lago, era Zezo. Um dia, uma de nossas vizinhas – impaciente, infeliz, envenenada de seus preconceitos arianos – enxotou-nos do muro onde estávamos pendurados, talvez fugindo dos «bandidos» ou querendo encontrá-los.
 

Perda de ser amado - Por Albert Camus- Recolhido em Livres Pensantes

 
 
Perda de ser amado - Por Albert Camus- Recolhido em Livres Pensantes
 
«Perda de ser amado, incerteza daquilo que somos; são as ausências que segregam as nossas piores dores. Podemos ser idealistas, mas precisamos do tangível. E é numa presença que julgamos encontrar a certeza. E, embora a não amemos, pelo menos vivemos nessa necessidade.
Mas o que é espantoso, ou o que é triste, é que essas faltas nos trazem o remédio ao mesmo tempo do que a dor.
 
Reconhecemos que a certeza adquirida - o ser amado - obstruía uma grande parte do possível, que vemos agora puro como o céu lavado pela chuva. Da lassidão nasce a disponibilidade .Ser é parar. Mas não vivemos para parar. Quando estamos disponíveis procuramos de novo, enriquecidos pela dor. E este impulso constante cai para ganhar forças. A queda é brutal, mas recomeçamos sempre.
 
Quando um interesse da nossa vida se esboroa aos nossos pés, transferimos para uma nova, para passar a outra, e assim por diante sem desfalecer. Incessante necessidade de crer, perpétua projecção para a frente - havemos de representar muito tempo esta comédia iniludível. Todavia, alguns jogam este jogo lastimável nos momentos decisivos. Contemplam as suas vidas inteiras para se convencerem de grandeza. Agita-se neles uma frágil esperança: quem sabe? A recompensa ...ou então...
 
Mas porquê falar de comédia e de jogo? Nada do que é vivido é comédia. As nossas mentiras mais cínicas, as nossas hipocrisias mais vis, merecem o respeito ou a piedade que se deve a cada coisa viva. Entretanto, é possível , com efeito, que a nossa vida seja construída por nós. Mas se devemos acreditar que viver não é senão criar, há neste gesto que provoca o nosso esmagamento uma singular e refinada crueldade.
 
Não é fácil acreditar que, na ausência de uma providência que contabilize as suas dores, o homem - heautontimorumenos - faça a sua própria provisão de desespero. E é inevitável que o idealista , por mais impenitente, esqueça a sua filosofia diante da morte de um filho.
 
Mas há homens que julgam tudo ter perdido com a morte da mulher. Apercebem-se de que , a partir dessa infelicidade, uma nova vida vai começar. E por mais que essa vida seja feita de renúncia e de desgosto, o patetismo de uma existência semelhante ainda os consegue fascinar. E é assim que está certo - uma vez que podemos , a cada instante, pôr termo à vida: podemos não viver.
 
Pode dizer-se, em relação a certos homens, que em todas as circunstâncias, felizes ou não, é sempre preferível morrer em vez deles. Mas a partir do momento em que vivem, são obrigados a aceitar, tanto o ridículo como o sublime. Não nos enganemos, porém! Pode-se sempre descobrir o ridículo no sublime - do contrário existem poucos exemplos.