quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Jornal Raizonline nº 244 de 27 de Fevereiro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira

 
Jornal Raizonline nº 244 de  27 de Fevereiro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira
Pequeno balanço pós  recomeço
 
Depois de cerca de 4 meses de interregno recomeçamos há três números (quatro com este) a publicação do Jornal Raizonline (o último número publicado antes do interregno, o 240º foi colocado na Net em 23 de Setembro do ano passado). Partimos, neste recomeço, praticamente das mesmas ideias e condições do passado.
 
A resposta dos nossos amigos e leitores vai aumentando em câmara lenta o que não sendo de estranhar neste nosso universo da Net (quem não aparece depressa esquece) permite ao mesmo tempo um maior equilíbrio no número de colaboradores habituais reforçando-se com colaborações novas que nem sempre e infelizmente temos tido a possibilidade de publicar.
 
Na verdade tentámos e vamos tentando como operação primeira na composição do jornal retirar algumas colaborações que se mantêm nestas nossas 100 páginas há mais tempo e embora esse trabalho não seja fácil porque o número de trabalhos que foram ficando é grande e a nossa renovação ronda as vinte a vinte e cinco colocações, pensamos dar por completa a volta em mais dois ou três números.
 
Até lá vamos fazendo como podemos...
 

O Filho - Por Manuel Fragata de Morais

 
O Filho - Por Manuel Fragata de Morais
 
Este conto faz parte do seu livro «Momento de Ilusão».

«E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho...e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando à luz, lhe tragasse o filho. S. JOAO - APOCALIPSE 12»
 
Há sete longos anos que o filho lhe remexia as entranhas. Não havia dúvida, há sete anos que a criança a apalpava por dentro, que lhe falava em silêncio penoso. No início da gravidez os médicos observaram-na cuidadosamente, todavia, à medida que os meses passavam, insinuaram uma gravidez psicológica. Ao décimo sete mês, uma amiga, insidiosa, propôs-lhe a possibilidade de uma barriga de água.
«Não sabes o que é, eu explico-te?...», ofereceu-se.
 
As íntimas, propuseram os remédios da terra, a visita aos kimbandas, aos adivinhos. Não haveria nada a perder, que não tentasse esconder o que é da terra. Mulher grávida há sete anos só pode ser curada com a tradição, com o debicar engasgado do galo.
 
Angustiada, cruzou as longas pernas, vestia o robe de chambre azul cor das águas e reclinou-se no cadeirão de couro da vasta sala de visitas de sua casa. Acendeu, silenciosa, um cigarro. Não queria ser apanhada em kimbandas. Isso não. Seria o perder do pudor, sabia que os rótulos se arquitectam nos vastos silêncios sociais.
 
Atirou, com displicência, o fósforo para o cinzeiro e serviu, da pequena mesa ao lado uma bebida, levando-a à boca em longos e melancólicos sorvos. Olhou para o quadro pendurado na parede oposta. Paisagem típica africana, o capim em movimento, fustigado pela brisa da tarde.
 

Ter ou não ter compromissos? - Crónica de Miriam de Sales Oliveira

 
 
Ter ou não ter compromissos? - Crónica de Miriam de Sales Oliveira
 
Essa sempre foi a minha dúvida desde garota, pois, não gosto de obrigações. Só escrevo quando tenho algo a dizer, quando me dá vontade, sem método, ou compromisso, aliás compromissos não quero nenhum com ninguém ou com nada, o bom de passar dos setenta é que você só faz o que lhe dá na telha. Direitos adquiridos, Darling!

Durante a vida a gente cria tantos laços, inventa tantas desculpas para não fazer o que quer – a casa, o jardim, os filhos, o marido, os gatos , o trabalho, todas as conspirações contra a liberdade que é o que realmente importa. No fim, a gente vira uma cópia do personagem de Tolstoi, Ivan Ilitch, aquele que perto da morte busca um sentido para a vida e percebe que ,durante uma longa vida, bem poucos momentos tiveram algum significo para ele .Sua vida foi uma mentira, sempre fazendo o que os outros esperavam dele, um indivíduo politicamente correto, mas, insosso, infeliz e irrealizado. Uma história , simples, comum, mas, nem por isso menos terrível.
 
 O bom é viver sem lenço nem documento, livre de obrigações e chatices, de desejos que você nem sabe se são seus ou se lhe foram impostos, jogando no meio da estrada pesos inúteis, sem contas a pagar ou receber, sem datas de vencimento, sem a ditadura dos cartões de crédito, sem prestar contas a não ser á sua consciência, livre de amigos que cobram atenção, que lhe pedem contas da amizade, e, lá vamos nós, empurrando o carro da vida sem saber bem porque ou para que, nem aonde quer chegar, se é que quer chegar a algum lugar.
 
 

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - Só por amor; Quando o mar me fala

 
Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - Só por amor; Quando o mar me fala 

 
Só por amor
 
 Foste ao reencontro da luz
 Sobre a terra quente,
 Onde as pedras estalavam de dor,
 Debaixo de teus pés trementes.
 Teus sentimentos translúcidos
 (sabes o que queres e porquê)
 Espreguiçaram-se suavemente
 Sobre o pecado de corpos nus
 Que ainda agora possuíste
 E te não deram nada.
 Por isso, o teu caminho tremente!
 Por isso, os teus pensamentos descoordenados!
 Poisaste a tua mão em outra mão,
 Teu olhar em outro olhar
 Refletiste...
 Foi então que o oceano levou a quietude
 Da mão que sente a tua mão,
 Do olhar que sente o teu olhar
 E o espelho do olhar
 Como gesto de ave tranquila no sossego da noite,
 Disse-te o seu amor.
 Por isso a tua falta de coragem,
 Porque queres de quando em quando
 Sentir a outra mão em tua mão,
 Sentir o outro olhar em teu olhar,
 Sentir que alguém te ama por amar;
 Só por amar.

Cremilde Vieira da Cruz
 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

The Spirit, de Will Eisner e, outros super heróis adaptados para o cinema.... - Por Se Gyn

 
 
The Spirit, de Will Eisner e, outros super heróis adaptados para o cinema.... - Por Se Gyn
 
Diante da minha paixão inveterada por histórias em quadrinhos, muita gente já me perguntou a razão desse gosto. Como um apaixonado pela coisa, respondo que as HQs (ou, como dizem os portugueses, bandas desenhadas) é uma mídia que tem sua própria forma de comunicação, unindo de uma forma muito original, história, texto, desenhos e cores.
 
 E quanto aos super heróis, para me safar rápido, costumo dizer que são as velhas deidades e arquétipos humanos, vestidos como lutadores de vale - tudo, vivendo em nossa realidade, de dias atribulados - e, nesse caso, não há muito a explicar, porque a verdade está bem próxima disso.
 
A exploração do filão das adaptações dos super heróis das histórias em quadrinhos e literatura Pulp não são novidade. Acontecem desde a década de 30, do século passado – foi o caso de Flash Gordon, Tarzan. Depois, vieram Batman e, Superman.
 
Os filmes de Flash Gordon viraram filmes cult. Tarzan, vivido inicialmente por Bruce Crable (o mesmo ator que encarnou Flash Gordon), encontrou o interprete ideal num ex-campeão olímpico de natação, Johnny Weissmiller e, arrastou multidões para as salas de cinema. O Superman dos anos oitenta, bateu recordes de bilheteira.
 
Com a trilogia de Superman, vivida por Christofer Reeve, aliás – que começou clássica e, acabou meio patética e, a excelente refilmagem de Tarzan, vivido pelo estreante Christofer Lambert, a adaptação de filmes de super heróis ganhou um novo fôlego, a partir da refilmagem soturna de Batman, realizada por Tim Burton (que também começou muito bem e, chegou ao ridículo, no quarto e, equivocado filme, na mão de outro cineasta). Na época, também apareceram as adaptações equivocadas – foi o caso do Sombra.
 
 

Poesia de Mário Matta e Silva - Obsessão; Ess' outra Nau Catrineta

 
 
Poesia de Mário Matta e Silva - Obsessão; Ess' outra Nau Catrineta
 
Obsessão
 
Na observação
E no tato
 Está o teu corpo
Nada abstrato
 Tão doce e morno
 Em desafio;
 Viajo no espaço
 E é teu regaço
Suave rio;
 Vou na loucura
 De te agarrar
 Em teu encantar
 Na noite escura
 E tenho as estrelas
 Mais o luar
 Brancura nua
 No meu olhar;
 Ando por vales
 Ando por montes
 E a tua fronte
 Vem-me encantar;
 Por sob a chuva
 Piso molhado
 Aconchegado
 Eu quero ficar;
 Cresce o lamento
 Deste tormento
 Ir e voltar
 Ao som da musica
Calma e serena
 Tu vens amena
 Pra m’embalar;
 Andam enredos
Histórias de medos
 Pra t’olvidar;
 Pelas estradas
 Arborizadas
 Quero-te levar;
 Vem ao coração
 Tal depressão
 A fustigar
 E em tudo te vejo
 Abraço e beijo
 Num doce amar.
 
25 de Janeiro de 2013
(publicado na antologia
Namorar é Preciso de
14 de Fevereiro de 2014)
 

Quem somos nós, afinal!? - Texto de Daniel Teixeira

 
Quem somos nós, afinal!? - Texto de Daniel Teixeira 
 
Tenho-me deparado quase desde sempre com alguns trabalhos, que vou lendo por essa Net fora, onde a pergunta - pelo menos implícita - que surge é a já velha questão «netística» de se saber se as pessoas que se apresentam na Net e na forma como se apresentam são reais ou são diferentes da sua realidade.

Pessoalmente, e apesar de já ter entrado algumas vezes na discussão do tema, acho que essa pergunta é, pelo menos parcialmente, uma falsa questão, quando colocada exclusivamente no âmbito do raciocínio sobre a Net. Na verdade nunca ninguém é, de uma forma estável e estática, ou duradoura, da forma que o outro desejaria e idealiza em termos comportamentais na Net ou fora dela.
 
Todos flutuamos em termos de «humor», quase todos temos problemas e alegrias que condicionam os nossos comportamentos e as nossas apreciações, quase todos somos um pouco aquilo que somos e um pouco aquilo que não somos, com Net ou sem ela. Isto no que se refere a comportamentos, a formas de agir, a atitudes que se tomam.

Amos Oz, um escritor israelita, define, por outras vias e com uma outra gravidade esta situação com o seu tema a mulher à janela. Nenhuma delas, Israelita ou Palestiniana sabe concretamente o que a outra pensa, quais os seus problemas pessoais, as razões de uma estar bem ou mal disposta, enfim, não existe qualquer informação trocada entre elas, só podem imaginar-se...e o peso social e cultural tende a uniformizar esse imaginado.
 
De uma forma geral podemos dizer que tanto a mulher israelita como a mulher palestiniana, neste caso de Amos Oz, pensam uma sobre a outra aquilo que a sociedade envolvente proporciona que seja pensado. Não existe imaginação individual, se quisermos expressar-nos assim: existe sim uma manifestação individual imaginada que se enquadra nos parâmetros sociais envolventes.
 

Poesia de Virgínia Teixeira - Narciso bravio; Alvorada; Eclipse

 
 
Poesia de Virgínia Teixeira - Narciso bravio; Alvorada; Eclipse
 
Narciso bravio
 
 Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
 Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
 Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria
 
Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
 Prado frio e triste de terra quase estéril, seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
«Cresce, flor delicada como cristal», é a prece murmurada
 
E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte
 
O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
 E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…


Leia este tema completo a partir de 27 de Fevereiro carregando aqui.

Cría Cuervos (1976) (Carlos Saura) - Por Emanuella - Cinema pela Arte

 
Cría Cuervos (1976) (Carlos Saura) - Por Emanuella - Cinema pela Arte 
 
«Não acredito no suposto paraíso da infância. Ao contrário, me parece que a infância constitui uma etapa durante a qual o terror noturno, o medo do desconhecido, o sentimento de incomunicabilidade e a solidão estão presentes do mesmo modo que a alegria de viver e a curiosidade, das quais se fala bem mais.» — Carlos Saura

Escombros do paraíso infantil

Excelente elemento da fase politizada do diretor espanhol Carlos Saura. «Cría Cuervos» (1976) faz da morte, tanto pela época quanto pelo argumento, o principal constituinte de seu âmago. Filmado durante os derradeiros dias da vida de Francisco Franco, o filme, alegoricamente poderoso, evoca o esboroamento do franquismo com absoluta lucidez.
 
Ao relacionar obscuridade com infância, Saura confronta as opiniões formadas e simultaneamente desvincula a ingenuidade da conduta infantil. Por mais fulgurante que seja a atuação de Geraldine Chaplin, como as outras colaborações da atriz com o diretor com o qual manteve uma união de doze anos, um pequeno tesouro resplandece com intensidade ofuscante — Ana Torrent, com uma desenvoltura incompatível com a idade, explora seu talento enquanto
 
Saura regista a interpretação que impressiona a todos os espectadores sem exceção.
A personagem principal de «Cría Cuervos» é observadora da falência da instituição familiar.
 
Pai e mãe, fracassados como marido e mulher, morrem em um pequeno espaço de tempo. A casa grande, que já demonstra sinais de decrepitude (a enorme piscina vazia e imunda), tem a morte tão presente que parece impregnada por miasmas. Os olhos expressivos da criança olham fixamente para a porta do quarto do pai ainda vivo, na cama com uma mulher casada.
 
Os sons que saem do recinto são assustadores, o homem agoniza e com o tempo saberemos que a menina espera mais que um simples flagrante.
 
 

Poesia de Ilona Bastos - Consegues ouvir?; Amizade; Amigo

 
Poesia de Ilona Bastos - Consegues ouvir?; Amizade; Amigo    
 
 
Consegues ouvir?
 
 Shiuuu... escuta...
 Deixa-me ouvir o grasnar dos patos no jardim,
 o tocar da folha seca, caída da árvore, a chocar na laje,
 o murmurar das águas que brotam das fontes, risonhas,
 o cantar dos pássaros, a namorar, através dos ramos,
 o vozear das crianças, no relvado,
 o som diluído e vago da cidade, que ora soa a mar distante,
 ora guincha, alerta, no buzinar do trânsito,
 ora ruge, como leão, na passagem de um avião...
 
 Shiuuu... escuta...
 
 Consegues ouvir, também?
 
 Ilona Bastos
 
 
 
 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Histórias da Vida Real - Crónicas por Martim Afonso Fernandes - CAMPEONATO DE FUTEBOL

 
 
Histórias da Vida Real - Crónicas por Martim Afonso Fernandes - CAMPEONATO DE FUTEBOL
 
 
Quarta-feira. Dia de campeonato catarinense de futebol. O Imbituba

Atlético Clube era prejudicado pelos árbitros quando jogava contra clubes de cidades renomadas e de maior poder aquisitivo. Para a segunda divisão de futebol a Federação determinava que os jogos fossem disputados as quartas-feiras e domingos.

Os jogos das quartas-feiras em Imbituba tinham as melhores rendas e a maior quantidade de espectadores. Estava a ocorrer uma partida de futebol entre o time de Imbituba e o de Concórdia. Ambos estavam bem colocados, mas o Concórdia não podia perder o embate.

Qualquer que fosse o adversário de Imbituba, o Juiz já estava preparado  para que o resultado fosse empate no máximo. A casa estava cheia. As empresas liberaram os trabalhadores mais cedo para assistirem ao jogo.
Os dois times tinham jogadores de bom nível profissional. Iniciou-se a partida, o Imbituba atacava e dominava o jogo. O resultado do primeiro tempo foi zero a zero.

No início do segundo tempo o árbitro começou a prejudicar o Imbituba, quando este aproximava-se da área e o gol era ameaçado. Como o árbitro é autoridade dentro do campo, cabe aos espectadores julgarem seus procedimentos.

Leia este tema completo a partir de 27 de Fevereiro carregando aqui.

 

JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva - SARAMAGO: UM ATEU PERVERSO

 
 
JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva - SARAMAGO: UM ATEU PERVERSO
 

Passeio-me com a Bíblia por entre as mãos e vou viajando, de parábola em parábola, durante a jornada crepuscular dos nossos dias, atento à polémica em volta do escritor Saramago.
Reparo nas reacções e confrontos com as palavras deste assumido ateu, mais do que ao seu livro agora editado, CAIM, e sinto quanta perversidade existe na sua acalorada afirmação de que a Bíblia «é um manual de maus costumes».
 
Tenho por mérito conhecer-me como um crente pouco participativo mas leitor atento da Bíblia e do antigo e novo Testamentos, mas não é por isso que não posso ajuizar do comportamento de um português que auto se «exilou» nas Canárias.
 
A maior acusação que posso fazer às afirmações de Saramago é a de que a forma e conteúdo das mesmas são de um desajustamento enorme face ao nível intelectual que se lhe exige. Mostrou Saramago, nestes últimos dias, ser um ateu perverso dada a forma perigosamente fanática com que se arroga das suas conclusões.
 
Nada mais fácil poderá ter feito para negar a Deus, escrevendo-o com minúsculas e opondo-se à sua existência, reinventando a sua não existência. Quanto a Caim, os escritos dos primeiros tempos (Antigo Testamento) mostram à saciedade que é do mal e do bem que se fala, que é destas duas forças que se vivenciam pela humanidade de que se «verseja».
 
Caim, frente a seu irmão Abel, detém o poder do mal, e lemos assim na História da Bíblia esta passagem: «(…) Caim porém guardou rancor no coração, e um dia, tendo convidado o irmão a ir passear com ele ao campo, arremeteu ao inocente Abel, e matou-o.»

Leia este tema completo a partir de 27 de Fevereiro carregando aqui.

 



Sobre a Música lá fora - Por Eugénio Lisboa

 
Sobre a Música lá fora - Por Eugénio Lisboa
 
Recolhido em Livres Pensantes
 
«Não é infrequente serem as virtudes mais profundas de um autor as principais responsáveis pelo seu (ainda que relativo) esquecimento ou ... provisório abandono. As virtudes cardeais, observava Montherlant, isolam. E, entre nós, o autoapagamento dos discretos e dos nobres é pesadamente facturado pelos que tomam, de roldão, os palcos, as luzes da ribalta e as buzinas da autopromoção.
 
Tem-se visto, vê-se todos os dias. E a náusea que nos assiste não é obstáculo à continuação dos que aos trinta e pouco já publicam a sua Obra Reunida e dirigem, com autoridade e desplante, a orquestra que promove lá fora a cultura indígena: com mais ou menos falta de conhecimento, mas com muito brio e uma corte sempre prestável e afável.
 
Saul Dias, pseudónimo literário de Júlio Maria dos Reis Pereira, foi toda a vida um discreto, cantando, com pudor, nos interstícios do silêncio, e vivendo, com igual pudor, nas dobras do retiro. Na pintura, no desenho, na poesia, foi sempre o bardo de uma eloquência discreta e subtil, talvez, por isso mesmo, mais secretamente forte, ainda que menos ruidosamente visível.
 
Observava André Gide que «arte mais subtil, mais forte e mais profunda é aquela que não se dá, logo às primeiras, a ser reconhecida.» No tempo da presença e no discurso dos anos que se lhe seguiram, Saul Dias / Júlio só deu, de comparável à intensidade do seu empenho, a nobre firmeza do seu nobilíssimo apagamento.
 
Eloquente e retórico, pelo menos numa primeira fase (que não sempre), seu irmão José Maria furtava-se aos outros por via do truque duplo de um retiro físico no (então) remoto Alentejo e de um jogo de máscaras com que se esquivava mesmo quando parecia que se entregava.
 
 

O ORACULO - Um Conto / Crónica - Por João Furtado

 
O ORACULO - Um Conto / Crónica - Por João Furtado 
 
Foi o Gregório quem levou aquele livro, o copo e um dado, recordo como se fosse hoje, por duas razões. Uma porque o dado era de fundo vermelho e pontos brancos, a cor que fazia lembrar o equipamento do Benfica. A outra razão é a rivalidade entre mim e o livro, para todos o livro dava uma resposta sonhadora, menos eu. Definitivamente, o «ORACULO DE NAPOLEAO» não quis nada comigo.
 
Chegou como uma novidade lá em casa, era o livro da sorte e todos queriam saber a sua sorte. Desde as minhas irmãs até o meu pai, mesmo ele que era pouco dado as novidades ficou entusiasmado. Todos queriam saber o que seria seu futuro.
 
Pegavam no copo, colocavam o dado dentro do copo, agitavam o copo em movimento giratório enquanto proferiam a frase que o Gregório nos ensinou que era «Oráculo de Napoleão, Oráculo de Napoleão, diga-me….». Num movimento rápido embarcavam o copo sobre a mesa. Viam qual o número que coube a sorte e no livro, procuravam a resposta. As perguntas eram as que previamente se viam no livro.
 
As minhas irmãs, a minha mãe e o meu pai ficaram todos satisfeitos com as respostas obtidas e estavam ansiosos para continuarem o jogo. Pelo menos estavam a viver uma vida de ilusão por algum momento.
 
Chegou a minha vez e queria que eu me despachasse o mais rápido possível, para continuarem a perguntar. Todos tinham mil perguntas a fazer e queriam a resposta.
 
Tinha pouco mais de sete anos. Era a idade de fantasias e a pergunta devia ser sobre algum brinquedo ou outra fantasia de criança, mas eu não perguntei se ia conseguir uma bola no próximo Natal. Não quis saber se o Pai Natal olharia para mim, já que nos outros seis anos da minha vida ele nunca se lembrou de mim. Bem, mesmo que quisesse perguntar, não sei se a pergunta estava no livro.
 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Jornal Raizonline nº 243 de 19 de Fevereiro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira

 
Jornal Raizonline nº 243 de  19 de Fevereiro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira
As minhas memórias mais próximas (LXIV) - Pequeno balanço pós  recomeço
 
Depois de cerca de 4 meses de interregno recomeçamos há dois números (três com este) a publicação do Jornal Raizonline (o último número publicado antes do interregno, o 240º foi colocado na Net em 23 de Setembro do ano passado). Partimos, neste recomeço, praticamente das mesmas ideias e condições do passado.
 
 Perdemos durante este período alguns colaboradores, nomeadamente muitos daqueles que publicavam no nosso facebook e ao mesmo tempo verificamos noutros, que nos enviavam directamente (para o email) trabalhos, que a sua própria produção, nos blogues que detêm quando é esse o caso, tem sido mais esparsa.
 
 Talvez seja um fruto de época, como se usa dizer, mas de uma época em que a crise acaba por fazer também os seus estragos em termos de produtividade criativa e a disposição para escrever ou poetar se ausenta quase ao ritmo dos cortes nos salários e pensões.
 
 A vida não está fácil e mesmo quando não se sente directamente na pele o problema em toda a sua amplitude acaba-se por se ser contagiado pelo depressivo ambiente envolvente. Não há arte sem alguma tranquilidade psicológica, embora se saiba também que alguns dos melhores escritores conhecidos (sobretudo nos clássicos) tiveram penas duras e conseguiram ultrapassar por cima as suas situações pessoais acabando por produzir o maior número de obras primas de que há memória.
 

No mês do Amor, mais uma estória de Amor - Por: Dulce Rodrigues

 
No mês do Amor, mais uma estória de Amor - Por: Dulce Rodrigues 
 
O amor comanda o mundo, e este seria muito melhor se os seres humanos seguissem o postulado de praticar o amor em vez da guerra.
 
Mas o amor incontrolado e irracional – a que chamamos paixão – pode ser tão devastador quanto a guerra. A História da humanidade é fértil em amores sublimes e paixões devastadoras. A que vos vou contar hoje inspirou, tal como o amor de Pedro por Inês, um monumento de grande beleza arquitectónica, a que deu igualmente o nome – o Mausoléu.
 
Segundo nos conta a História, Mausolo foi rei (também chamado sátrapa) da satrapia de Cária, no sudoeste da Asia Menor durante o 4° século A.C. (de 377 a 353). Em determinado momento, Mausolo desapareceu e, apesar das incessantes buscas da sua esposa (e irmã) Artemísia II*, ninguém conseguia encontrá-lo. Artemísia julgou-o morto e mandou então construir, em Halicarnasso (hoje Bodrun, na Turquia), um templo sumptuosíssimo em sua memória. ´
 
 

O MENINO XICO - Texto de Lina Vedes

 
 
O MENINO XICO - Texto de Lina Vedes
 

Nasceu puro e continuou pela vida fora, mantendo a ingenuidade de menino com um sorriso amplo, olhos brilhantes de alegria, a transmitirem aos outros que a vida deve ser encarada de maneira singela e descontraída.
 
 Nunca perdeu essa vontade de rir, pondo a alma a descoberto com humildade sem ser submisso, com despreocupação mas sem descuidos.
 
Vivia o presente como uma dádiva diária, esquecido do passado e sem se preocupar com o futuro, acreditando plenamente no poder dos sorrisos, da dança, da música. Era aí que ele encontrava a sua verdade, o seu sentido de justiça, de paz, de sonhos, de imaginação…e construía os seus castelos.
 
Não era ambicioso, a sua vida era simples, sem complicações, ganhava o dia-a-dia como moço de fretes, vivendo na bendita ignorância da competição, afastado das preocupações e dos aborrecimentos causados pelo desejo de subir na vida, atributo abraçado por todos os homens.
 
Quando jovem, vivia na rua da Madalena e procurava trabalho na Estação dos caminhos de ferro, no Largo das camionetas, nas tascas, nas pensões, em casa comerciais, nos barcos da doca, no largo onde hoje está o Hotel Eva, local dos carroceiros de mudanças.
 
Carregava nas costas ou à cabeça tudo o que lhe encomendavam, mantendo o seu passo gingão e o infindável sorriso que lhe escancarava a boca.

Leia este tema completo a partir de 19 de Fevereiro carregando aqui.

 



A visita - Conto de Daniel Teixeira

 
A visita - Conto de Daniel Teixeira
 
O homem que eu procurava era muito magro, disse-me a Ana quando me indicou a casa dele, e parecia estar muito doente, acrescentou. Sim, devia estar, foi só o que disse à Ana mas a Helena quando me falou que eu devia ir visitá-lo tinha referido em voz muito baixa e comovida que ele devia estar muito doente, em final de vida, pensava ela.

Exilara-se para ali para estar em paz consigo mesmo e a sós consigo mesmo e quando ela lhe telefonara ele dissera-lhe que não queria que ela, a Helena, fosse lá a sua casa. Talvez não quisesse que a filha o visse assim, acho eu mas a mim recebeu-me bem quando lhe disse que ia a mandado da Helena.
 
Talvez fosse por isso que eu via ali nele, perante mim, um alheamento, uma indiferença, um olhar vago, um olhar que queria dizer que agora tanto se lhe dava que o visitassem ou não.
 
A Helena devia ter percebido que ele lhe tinha dito para não o visitar querendo que ela fosse lá vê-lo, porque é assim que as coisas se passam muitas vezes, ele não queria que ela o visse mas queria vê-la a ela, queria despedir-se dela, dizer-lhe adeus ou para sempre ou até um dia.
 
Depois foi pouco mais que um minuto o tempo que esteve comigo, nem sei ao certo mas foi tudo muito rápido. Talvez tivesse muita coisa em que pensar, pensei eu, as pessoas quando estão a morrer vêm todo o seu passado e um passado com muitos anos tem de ser repensado em muito menos tempo. Só há aquele tempo que resta para repensar tudo, ou as coisas mais importantes, talvez seja só isso, só se deve pensar nas coisas mais importantes.
 
 
 

Explicação sobre a Elsa e eu - Conto de Daniel Teixeira

 
 
Explicação sobre a Elsa e eu - Conto de Daniel Teixeira 
 
Depois de um muito longo período em que nada tenho escrito, em que não tenho escrito de facto, como estou a fazer aqui e como se costuma entender o que é escrever, hoje resolvi escrever-vos.
 
E hoje posso fazê-lo desta forma assim porque a Elsa vai estar fora uns dias. Ou talvez vá estar ausente para sempre. Na verdade eu nem sei para onde ela foi. Acho que ela me disse onde ia mas eu não me lembro bem.
 
Certo é que ela vai ficar fora pelo menos uns dias, a Elsa, isso eu sei porque ela arrumou as suas coisas numa mala e num saco e isso só se faz quando se está fora uns dias, pelo menos uns dias ou quando as pessoas se vão embora para sempre.
 
Talvez a Elsa tenha partido mesmo para sempre, mas como já disse isso eu não sei, e é para mim agora uma possibilidade como outra qualquer: ela ter partido por uns dias ou por semanas ou para sempre. Neste momento isso não é muito importante ou é pouco importante.
 
Talvez tenha ido ver a mãe ou tenha ido para casa da mãe, ela falou-me nisso há tempos, disse-me que talvez precisasse de um tempo para pensar sem eu estar por perto e que a casa da mãe dela era boa para isso, para ela pensar sem que eu estivesse perto.
 
Mas francamente não me lembro ao certo daquilo que ela me disse esta manhã logo cedo. Era mesmo muito cedo e talvez por ser muito cedo eu não tenha entendido porque estou acordado até muito tarde, escrevendo e não escrevendo, conforme vou explicar em seguida.
 
 
 
 

Poesia de Pedro Du Bois - Vírus; Paixão; Chá

 
Poesia de Pedro Du Bois - Vírus; Paixão; Chá   
 
Vírus

O vírus vive (morre) onde ataca. Destaca
a fragilidade aberta ao contato. Vivencia
o ato da disputa: o revés não o aniquila.
Feito paciente no horário determinado.
O corpo não permite ao vírus a entrada.
Cede no cansaço de anos de batalha.
O vírus permanece na oportunidade.

Paixão

a paixão devora olhos e corações
de épocas e sentidos com que
passamos horas e dias frios
para chegarmos a esse tempo
e encontrarmos o vazio
de não havermos encontrado
a pronúncia exata das palavras
na maneira certa de dizer
estamos aqui e a paixão
permanece em nossos olhos
embaçados em lágrimas
de reconhecimento
como naquelas horas
e como serão em futuros
tempos de mãos entrelaçadas
 
 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Morte, o Tempo e o Velho - Conto por Mia Couto

 
 
A Morte, o Tempo e o Velho - Conto por Mia Couto 
 
Transcrição integral do conto «A Morte, o Tempo e o Velho» do livro «Na berma de nenhuma estrada» de Mia Couto
 
O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
 
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
 
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
 
- Esta é a morte - disse o homem apontando o cão. E acrescentou - Sou eu que a passeio pelo mundo.

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Sou pássaro de fogo - Por Abílio Pacheco

 
Sou pássaro de fogo - Por Abílio Pacheco 
 
O título poderia ser «impossível não se apaixonar por Paula Fernandes». O leitor já deve ter percebido que sou meio avesso a títulos longos. Talvez já tenha percebido que procuro e prefiro os curtos e inusitados.
 
Mas eu não sou pássaro de fogo. O título – o leitor que ouve rádio, assiste tv e aquele que gosta de música sertaneja já deve ter percebido – o título é um verso de uma das canções interpretadas por Paula Fernandes.
 
A cantora foi vista por mim pela primeira vez – e acredito que pela primeira vez por muitos – no show de fim de ano de Roberto Carlos (em 2010) (foto) e nos incessantes e saturantes noticiários televisivos.
 
Falar dos dotes físicos da moça seria repetir o que o leitor já ouviu. Seria também trazer para esta página o apelo da sensualidade já tão banalizado por aí. Seria, então, fugir do propósito dessas crónicas: oferecer ao leitor algo só encontrado aqui.
 
Meu segundo contato com a apaixonante Paula, muito embora eu a tenha escutado antes sem dar muita trela, foi depois que publiquei «sertanojo» – crónica que provocou reações afetivas e exageradas favoráveis e contrárias além de muitos comentários bem equilibrados.
 
 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Poemas de Manuela Pittet - à toa...; Saudade...

 
 
Poemas de Manuela Pittet - à toa...;  Saudade...          
 
 à toa...
 
Nascem dias
em que o Sol se chama Saudade...
 
Nascem saudades
em que o Sol se chama Ausência.
 
Eis-me entre apeadeiros
onde o embarque me estende a mão
e os abraços me abrem o caminho
rumo à não - saudade...
 
E um dia...
Apago os versos
onde não te leio
fechando as portas da palavra
e abrirei as janelas de mim
onde aprendo a me ler
à toa... As páginas onde Estou
no livro: Eu Sou
de todas as viagens...
 
Poesia, musa
Tela de Renoir
rostos entre rostos
Sem Rosto!
Serei apenas a presença
que de minha ausência
fores ainda capaz de criar!
 
Na pureza de tua alma
num simples instante de lembrar
renascerei no teu amar
ao te criar os dedos
para me pintares
crescem-me os braços de abraçar
à toa neste existir
e sorrio feliz neste voar...
 
Manuela Pittet
in: «Rostos de Amor»

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Inesperado Encontro - Conto por Maria Petronilho

 
Inesperado Encontro - Conto por Maria Petronilho 
 
Ele estava sentado num ramo caído.
 Era magro, grisalho, e segurava um raminho com que ia desenhando enigmáticos sinais no chão. Parecia absorvido no meio cinzento, uniforme, em que o englobavam a terra e o céu.
 
 O colete era castanho. A camisa verde azeitona. As calças estavam rotas, manchadas, queimadas nas bainhas. Os dedos dos pés saíam da biqueira das botas.
 Eu viera caminhando ao acaso pelo campo, deixando o caminho pedregoso que me balançava os ossos a cada passo. Cansava a monotonia daquela cor única, tom sobre tom de cinza, até onde a vista alcançava.
 
 Quando dera com a pequena figura, estava já tão perto dela que me sobressaltei, por inesperada e porque por pouco a não pisei. Mas ele nem pestanejou. Continuou desenhando no chão com a ponta do galho.
 
 Discerni estrelas e folhas entre sinalefas. Um respeito enorme me invadiu. Queria meter conversa, perguntar-lhe quem era, o que fazia… mas sentia um nó na garganta.
 Magoava-me porém a sua absoluta indiferença.
 
Jamais imaginara que fossem reais e não lendas; que existissem em terras do sul, pois tudo o que lera sobre eles se passava em setentrionais lugares, de abetos, aceres, veados de galhadas descomunais disputando os seus haréns sobre tapetes fofos de folhas carmim e ouro, verdes relvas, riachos cantantes que em breve seriam fitas de gelo.
 
 

As vizinhas - Conto por Arlete Piedade

 
 
As vizinhas - Conto por Arlete Piedade
 
Era nos arredores do aeroporto de Luanda que a casa alugada do casal de enfermeiros, se situava, numa rua sossegada, em que a única casa vizinha se situava a cerca de 200 metros, separada por uma extensão de terreno baldio, sem nada que impedisse a vista, a não ser aquelas centenas de metros.
 
Os enfermeiros tinham-se conhecido em Lisboa, no hospital onde ele já trabalhava e ela fora colocada, concluído que fora o curso de enfermagem, há cerca de 10 anos antes. Daí ao namoro e ao consequente casamento fora um percurso normal e habitual naquele tempo, em meados da década de cinquenta do século passado.

Para trás tinham ficado as terras de origem de cada um, no interior centro do país e a infância e juventude passadas naqueles tempos de dificuldades que nós hoje dificilmente conseguimos imaginar.
 
Eles tinham crescido no tempo da guerra e sabiam dar o valor ás dificuldades que os pais tinham passado para criar uma casa cheia de filhos, onde muitas vezes a imaginação e algumas ervas do quintal, eram os únicos ingredientes disponíveis para o jantar.
 
Assim quando o enfermeiro recebeu uma proposta para ir trabalhar para Angola, contratado pelo governo, e sem previsões de quando poderia regressar a Portugal, a hipótese mais viável foi apressar o casamento e propor levar consigo a esposa, também enfermeira. Assim, foram os dois com contrato para ??frica, sem saberem as dificuldades que os esperavam, mas confiantes nos seus conhecimentos, na sua juventude e no amor que os unia.
 
 

COLUNA POETICA DE MARIA PETRONILHO - Preciso a vela de um barco; Em busca de uma centelha; Envelhecendo  

 
COLUNA POETICA DE MARIA PETRONILHO - Preciso a vela de um barco; Em busca de uma centelha; Envelhecendo 
 
Preciso a vela de um barco

Uma vela larga e branca
Habituada à salmoura
Preciso secar o pranto
Levar para longe a tristeza
Vagueio só à deriva
Sou a naufraga da vida
Nada vislumbro no céu
Tragam-me a vela de um barco
Aonde sufoque o pranto
E me leve para longe
Do rasto deste momento
Que me traz em desalento
... Preciso as asas de um anjo!

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

Coluna de Daniel Teixeira - Nadine Gordimer e James Amado, convergências em duas obras. (Análise de Daniel Teixeira)

 
 
Coluna de Daniel Teixeira - Nadine Gordimer e James Amado, convergências em duas obras. (Análise de Daniel Teixeira) 
 
Estive a ler, recentemente, James Amado e Nadine Gordimer. Em primeiro lugar devo acrescentar que não conhecia nada sobre a obra de James Amado e que sobre Nadine Gordimer também pouco conhecia, embora a minha atenção sobre ela tenha sido despertada pelo Prémio Nobel da Literatura de recebeu em 1991.
 
Em segundo lugar, e ainda sobre James Amado, soube que faleceu por estes dias, o que lamento e me faz perguntar também porque razão eu, aqui em Portugal, não sabia nada sobre James Amado, embora a contra capa da edição da Europa América (1977) nos possa revelar alguma coisa sobre este escritor  e sobre o romance ao qual só agora tive acesso.
 
Claro que o problema podia ser meu, posso não estar ao corrente mas dificilmente este argumento será suficiente porque mesmo no Brasil as referências a James Amado não são abundantes, se excluirmos a edição das Obras de Gregório de Matos que preparou e deu a conhecer ao público de língua portuguesa. A obra de James Amado a que tive acesso é «O Chamado do Mar», aquele que foi o seu primeiro romance.
 
Sobre Nadine Gordimer o volume que li é «O Conservador», que obteve em 1974 o Booker Prize (inglês) e em 1975 o prémio francês Grand Aigle D'Or.
 
Ora um e outro romance, de dois autores colocados geograficamente distantes têm, na minha opinião muitos pontos de análise que lhes são comuns, daí ter-se despertado também em mim esta vontade de escrever sobre ambos de uma forma que não pretende funcionar (nem podia) como análise literária no sentido estilístico e valoração artística.


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Poesia e prosa de Arlete Deretti Fernandes - Alquimia (Poema) ; Cheiro de Manacá (Prosa)

 
 
Poesia e prosa de Arlete Deretti Fernandes - Alquimia (Poema) ; Cheiro de Manacá (Prosa)
 
Alquimia

Como forte luz que cintila, sinto-te arder.
 Em torno de ti giram meus pensamentos,
 Como a mariposa em volta da lâmpada
 Atraída pelo brilho que me faz aquecer.

Alento e força me ofereces como o oxigénio
 Que entra em meu sangue e dá-me a vida.
 É um composto de amor, de aroma doce,
 Este que se desprende do riso de tua boca,

Do teu gosto, teu perfume, da roupa que vestes,
 Da água em que lavas teu rosto.
 Melhor ainda a alquimia quando me despes.

E sinto a mistura do meu e de teu corpo,
 Da pele, dos poros, do cheiro de amor,
 Transformação completa, clarão abrasador!
 
 

Tocha humana - Conto / Crónica de José Pedreira da Cruz (Tico Cruz)

 
 
Tocha humana - Conto / Crónica de José Pedreira da Cruz (Tico Cruz)
 
Para aquelas pessoas, aquele não seria um dia comum como um outro qualquer. Havia muita tristeza entre elas e o motivo era dolorosamente visível: a despedida de mais um que partia para terras distante; somando-se, com ele, o terceiro a se ir.
 
Não chore, minha gente! Eu voltarei são e bem de vida. Garanto! – foi o que todos ouviram daquele filho que ora repetia a mesma fala antes dita por outros irmãos na hora do adeus.
 
- Antenor, se avexe! Temos que ir embora. - disse-lhe o irmão Cícero, acrescentando um aconselhamento de irmão para irmão: não foi fácil eu viajar mais de dois mil quilómetros só para vir te buscar, meu irmão! A vida, aqui neste lugar, é mais difícil do que em qualquer outro lugar do mundo. Aqui não tem nada, minha gente! Lá onde eu moro, tenho de tudo que se possa querer. Você viverá bem, meu irmão, pois o dinheiro para quem trabalha, jorra, entendeu? - e concluiu proferindo: mano, você terá sucesso!
 
A cabeça de Antenor estava feita. Ele enfeitara-se com as palavras do Cícero - o irmão mais velho -, a quem cabia-lhe obediência e respeito, e decidira ir embora custasse o que custasse.
 
Até o grande amor por Juliana - carinhosamente chamada de Ju -, que ele mantinha lapidado desde a mais tenra infância, agora estava fragmentado em outro plano: primeiro, ele iria ganhar bastante dinheiro no Sul e depois voltaria para casar com ela. Esta, agarrada a seu braço desmoronava-se em soluço e lágrimas.
 

A Máquina de Joseph Walser: Gonçalo M. Tavares - Por Sylvia Beirute

 
A Máquina de Joseph Walser: Gonçalo M. Tavares - Por Sylvia Beirute 
 
O romance A Máquina de Joseph Walser, do escritor português Gonçalo M. Tavares, é um livro pertencente à tetralogia O Reino (editada em Portugal pela Caminho), também apelidada de Os Livros Pretos, em razão das capas de fundo totalmente negro e com letras brancas, prenúncio do ambiente que se pode encontrar nos quatro livros.
 
Destes livros, o meu preferido é Um Homem: Klaus Klump, e confesso que Jerusalém, sendo inegavelmente um bom livro (vencedor do Prémio Saramago), me desiludiu um pouco, talvez por não ter encontrado nele tanta poesia como em Klaus Klump e Joseph Walser (e mesmo Aprender a Rezar na Era da Técnica), e pela escrita muito mais directa e menos reflexiva.
 
Este A Máquina de Joseph Walser é um bom livro acerca da solidão e isolamento nas suas múltiplas faces e consequências. A relação com a máquina com que há muito o protagonista trabalha, conjuntamente com a misteriosa colecção que possui num quarto fechado a sete chaves, vai muito para além do óbvio, prendendo-o singularmente a uma realidade, sem a qual, a partir de certo momento, e alterado o que subjaz à sua substância, não conseguirá viver.
 
Há como que, a meu ver, um reconhecimento de uma infelicidade estável, que se torna inofensiva, uma empatia com esse destino, a aceitação do dia-a-dia.
 
 
 

TENHO FRIO - Prosa poética de Joaquim Nogueira

 
 
TENHO FRIO - Prosa poética de Joaquim Nogueira 
 
«…tenho frio, tenho mesmo muito frio… sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma… dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto… sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser... sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam... o frio que sinto faz-me tremer… não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos... as estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração...
 
é tudo em vão... todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem... e é apenas a minha imagem... mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar... e desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir… não é dilema não saber o que aí vem… sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo...
 
deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir… é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua… tenho frio, tenho muito frio… sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão… é um copo vazio como eu e também está frio… peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado… mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito…
 
 
 
 

O Quartel dos Mouros e a Capitania dos Portos - Texto recolhido no Blogue Macau Antigo - João Botas

 
 
O Quartel dos Mouros e a Capitania dos Portos - Texto recolhido no Blogue Macau Antigo - João Botas

 O Quartel dos Mouros (conhecido por «Soi Si Chong») albergou durante muitos anos a Capitania dos Portos, mas nem sempre foi esse o seu uso. Inaugurado em Agosto de 1874 - incluído em 2005 na lista de Património Mundial do UNESCO - foi projectado pelo arquitecto italiano Cassuto (outras fontes indicam trata-se de um projecto do Barão do Cercal) começou por alojar a Companhia dos Mouros do Corpo de Polícia de Macau, polícias de origem indiana.
 
O edifício é uma mescla de influências: neo-árabe, neo-indiano, construído na base da colina e virado para o Porto Interior. Albergava cerca de 200 homens e tendo em conta a época da construção e o clima local ficou conhecido por ser bastante arejado. Em relação ao projecto inicial procederam-se a algumas alterações: nos pontos mais altos do edifício - extremidades e centro - as «torres» ou torreões não têm uma cúpula como estava previsto.
 
 Mas, voltemos ao início do século XIX, mais precisamente a 2 de setembro do ano de 1822, dia em que foi nomeado o primeiro Capitão do Porto de Macau, sendo então colocados sob as suas ordens um cabo e seis sipaios (soldados de origem indiana) para o desempenho das funções de Agentes da Autoridade Marítima.
 

Poesia de Arlete Piedade - Amizade; Amanhecer

 
Poesia de Arlete Piedade - Amizade; Amanhecer
 
 
Amizade
 
 
 Amizade não se rege pela idade
 nem olha á cor de pele diferente
 não importa se é longe a cidade
 onde mora esse amigo da gente!
 
 Amizade não liga ao continente
 ou se tem uma travessia de mar
 amigo é um ser-se transparente
 uma forma desprendida de amar!
 
 Não importa o tempo decorrido
 anos, meses, dias, pois o amigo
 acorre lesto, ao nosso chamado...
 
 amigo é o nosso irmão escolhido
 outro sangue, mas bem acolhido
 na casa onde também é amado...!
 
Arlete Piedade
 
 
 
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Rainha morta ou a estória de amor de Pedro e Inês - Dulce Rodrigues

 
 
A Rainha morta ou a estória de amor de Pedro e Inês - Dulce Rodrigues
 
(Artigo originalmente publicado em inglês no Boletim da OTAN de Fevereiro de 1998)
 
Muitas são as estórias que começam por «era uma vez...», mas a que vos vou contar tem um princípio diferente porque «esta é uma outra estória...»

E se escolhi contá-la em Fevereiro, o mês dos namorados... bom, tanto melhor, pois trata-se de uma grande estória de amor que atravessou as fronteiras do tempo e se tornou eterna – a estória de amor de Pedro e Inês.
 
Dom Pedro de Portugal era neto de Dom Dinis e da Rainha Santa Isabel, e filho de Dom Afonso IV de Portugal. Naquela época, muitas das querelas que existiam entre Portugal e os vários outros reinos da Península Ibérica, em especial com Castela, acabavam de um modo geral por contratos de casamentos entre dois membros da nobreza dos reinos em questão.
 
Mas nem sempre estas alianças políticas resultavam, e foi o que aconteceu de 1336 a 1338. Segundo o que tinha sido acordado entre Portugal e Castela, Dom Afonso IV daria a sua filha mais velha, Dona Maria, em casamento ao Rei Afonso XI de Castela; por seu lado, o Príncipe herdeiro de Portugal, Dom Pedro, casaria com a Infanta Dona Branca, prima irmã do rei de Castela.
 
Por razões políticas, contudo, o casamento de Dom Pedro e Dona Branca foi anulado, tendo sido acordado um novo contrato matrimonial, desta vez com Dona Constança, filha de um nobre castelhano e opositor do rei de Castela.
 
A situação não agradou ao Rei Afonso XI de Castela, que mandou aprisionar Dona Constança, impedindo-a de ir para Portugal, embora o casamento com Dom Pedro já tivesse sido legalmente assinado por procuração. Dom Afonso IV, que se tinha sempre esforçado por viver em paz com os vários reinos da península, sentiu-se por sua vez ofendido e, embora com uma certa relutância, resolveu tomar partido contra Castela, aliando-se ao rei de Aragão.
 
 
 
 
 

Ganhões - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro

 
Ganhões - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro 
 
Os descantes partiam da vila como um murmúrio, subiam de tom ao passar das cercas e prolongavam-se caminhadas fora.
 
Durante a jornada, os mais afoitos e os ganhantes na arte, davam a deixa do começo e todos os outros pegavam depois na moda, aberta ao improviso dos requintas, sempre aconchegante para o conjunto, por isso repetida até à exaustão, no troar do coro que unido como as vozes, avançava no êxtase seara dentro. Por ser bálsamo e dínamo, o cante era envolvente das gentes e do trabalho. Por ser fio condutor, continuava a unir os corpos mesmo já depois, altas horas, no encosto de um balcão onde o vinho se emborcava, também ele uma ajuda dissolvente para as mágoas.
 
Necessidade, amparo e vicio, tudo isto a moda era.
 
 Lá bem no fundo do nosso tempo, os contornos da memória perdem-se , numa mistura de paixão e sons, imagens e situações, apenas emergindo cantares e gestualidades que de uma forma atávica os homens agora vão repetindo, como sina sua como eco da tradição.
 
E tal como se lembram as letras e se perpetuam as vaias, iguaizinhas desde há séculos, também se veneram os seus intérpretes. Menos do rijo , na interioridade das recordações , mas sempre com um véu sublime de admiração e estima, pronunciam-se palavras quase mágicas que são nomes de pessoas que cantaram como os rouxinóis e que, apesar de tudo e só por isso, nunca serão esquecidos.

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A ESCOLA - Por José Francisco Colaço Guerreiro - Recolhido em Património

 
A ESCOLA - Por José Francisco Colaço Guerreiro - Recolhido em Património
 
A escola era a primeira grande contrariedade da nossa vida. Se calhar, foi assim desde sempre e até há bem pouco tempo, quando a moçada inverteu as regras e passou a dominar, exigindo com gritos e prantos, tiranizando com rebeldia e desassossego.
 
Mas dantes, a escola era o verdadeiro desmame, o largar as saias, o caminhar sozinho, balsa às costas, para aprender a ser homem, numa caminhada que se completava mais tarde, depois das sortes, a marchar em pelotão, espingarda às costas.
 
Os primeiros gatafunhos eram feitos numa pedra de ardósia encaixilhada a madeira de cor natural que depois ia escurecendo e ganhando lustro com passar do tempo e dos dedos, às vezes besuntados de agarrarem o pão com banha salpicada de açúcar. Os lápis eram da mesma pedra , muito redondinhos e afilados, do tamanho de um palmo, forrados a papel numa das pontas, num axadrezado verde, vermelho ou azul, de tons desbotados, talvez pela cola.
 
Quando se acabavam os compradiços, faziam-se de talisca, raspados à faca e rolados no chão para os adelgaçar e lhes arredondar a forma. Usava – se como acessório um frasquinho de remédio vazio, para encher com água e depois molhar num farrapo com que se limpava a escrita. Era esse o bom proceder, mas muitas vezes acontecia usar-se o cuspinho e a manga da blusa para o mesmo efeito.