quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

OS SINOS DE SANTA MARIA - Por Miriam de Sales Oliveira

 
OS SINOS DE SANTA MARIA - Por Miriam de Sales Oliveira 
 
Durante muitos anos os sinos de Santa Maria só tocarão finados. Impossível ter alegria quando o riso dos jovens, seus sonhos ficaram sepultados debaixo de um monte de fumaça. Rostos lindos, almas lindas, uma vida a conquistar, um mundo a vencer e o que sobrou? Corpos empilhados, luto total.
 
E porque esses jovens foram assim punidos? Apenas estavam fazendo o que é dado a todo jovem fazer nesta idade de sonhos ; divertir-se, cantar, dançar, celebrar a vida.
 
Meu coração baiano chorou por eles; os sinos da minha catedral dobraram finados porque eu sou parte do género humano; a morte de pessoa é uma perda que me entristece, porque eu sou mãe, avó e ser humano.
 
Esses sinos dobraram por nós, aqui, dobraram no Rio, no Norte, no Centro, ultrapassaram as fronteiras da pátria e dobraram também pelo mundo. Pois ,em cada lugar deste planeta há um sofredor, chora-se uma perda, lamenta-se uma vida, botão de rosa que não abriu, ceifada pela fatalidade, pelo álcool, pelas drogas.
 
De quem foi a culpa? A quem deve ser apresentada a conta? São tantos os listados como culpados que isso me preocupa, capaz que não apareça nenhum. Culpa coletiva é muito perigoso, pois num monstro de cem cabeças, poucas cabeças responderão por esse verdadeiro holocausto.
 
Restam aos pais, aos avós, aos amigos, administrar a dor.
 
Durante este período ouvi, na TV, diversas entrevistas com entendidos; todos exibiam suas sapiências e ideias; técnicos, disto, daquilo, daquiloutro...
 
Mas, o bom senso me mostra que aquele local, onde 1000 pessoas dançavam e se divertiam, tinha apenas uma porta de saída de 80 cm. E, nenhuma sinalização que indicasse que a saída seria por ali.
 Aquilo não era um local de diversão, era uma arapuca mortal. Ninguém viu isso? pensou nisto?
 
 
 
 
 

 

GH - O cara! - Por Danilo Berardo de Souza - Blogue Bar do Escritor

 
GH - O cara! - Por Danilo Berardo de Souza - Blogue Bar do Escritor
 
Naquela época, eu trabalhava em uma empresa média, mas que estava crescendo, com muitos negócios. A empresa tinha departamentos técnicos e também uma área de treinamentos. Eu trabalhava de dia na área de consultoria e de vez em quando dava alguns treinamentos de noite. Era bom pelo dinheiro, mas pesava um pouco, pelo cansaço e pelo tempo longe da família e dos amigos.
 
Mas tinha o GH. GH era um cara legal, conversava com todo mundo, era muito inteligente. GH queria dar aulas sempre, todas as noites. Por causa dele, a empresa criou uma fila para os instrutores serem chamados. GH topava qualquer curso, podia ser qualquer coisa, se ele tivesse uma semana, ele dizia que virava noites e se preparava.
 
GH tinha sua própria empresa, além disso trabalhava no ministério, tinha clientes próprios. GH era O Cara! Durante um tempo, achávamos que GH ia parar com isso depois de alguns meses, mas ele não parava. Uns 5 meses depois, resolvemos querer saber porque GH trabalhava sem parar desse jeito. A primeira coisa foi saber que ele não tinha filhos, família em outra cidade e que a esposa era médica e fazia muitos plantões. Mas nada disso era o motivo principal.
 
GH tinha uma meta. Ter um milhão de reais com 40 anos. E depois ele ia curtir a vida, segundo ele. Ele sabia que tinha que se dedicar. Apesar de não concordarmos muito com ele, por ele não se dedicar nenhum diazinho para lazer ou amigos, era um plano interessante e ele trabalhava duro e honestamente por ele. Sábados e domingos ele também arrumava o que fazer e o milhão ia chegando, segundo ele. Acho que ele tinha uns 33 anos, naquela época.
 
E por mais uns dois anos enquanto trabalhei nessa empresa, quase todo dia a noite, lá estava GH para mais um treinamento, sempre feliz, ele parecia mesmo feliz com aquela escolha, apesar de nós, da equipe da empresa, termos sempre umas duas semanas livres entre um curso e outro.
 
 
 
 

 

Amores de Liceu! - Texto de Lina Vedes

 
Amores de Liceu! - Texto de Lina Vedes
 
Agosto de 1952…manhã extremamente quente!
 Imensa gente, adultos e crianças, no hall de entrada do Liceu de Faro esperando vaga para terem acesso à secretaria.

São os novos alunos, os caloiros que vão encetar o seu percurso liceal. Tinham feito exame de admissão, procediam agora à matrícula.
 Encarregados de educação vaidosos, cheios de esperança, acreditavam que a vida dos filhos seria risonha. Era um passo para o futuro, era a ambição de uma vida melhor!

Alguém sai da secretaria dando a vez a outros e informa:
 - O chefe, o senhor Lino, diz que este ano o número de matriculas femininas já excedeu, em muito, as do ano passado. Cada vez mais mulheres querem estudar!

Na secretaria todos transpiram – os que aguardam o atendimento e os funcionários, no lado de lá do balcão, na azáfama do trabalho.
 A um canto, um rapazito franzino, envergonhado, espera ser atendido mas os funcionários passam por ele e não o vêem…

De novo a porta de acesso à secretaria abre dando passagem a uma nova aluna acompanhada pelo pai e pela mãe. Chegam junto do balcão e pouco depois são atendidos.
 O rapazito olha a menina, de soslaio, acha-a maravilhosa! Continua a olhar, com o rabo do olho a observá-la, concluindo que os padrões de vida são bem diferentes dos seus…

Instintivamente ela repara nele e os olhares cruzam-se. Ele, rapidamente desvia o olhar mas ela encara-o persistente, fixa-o bem numa análise profunda.
 Pai – diz ela – dá-me a caneta de tinta permanente. Este menino precisa de ajuda.
 Pouco depois, com tudo preenchido o rapazito agradece.

- Sérgio, tens de levar à tua casa, tudo isto, para o teu pai assinar. Amanhã voltas e entregas a este senhor da secretaria que é meu amigo. O teu pai tem que declarar quanto ganha para poderes usufruir de isenção de propinas. Desejo-te felicidades.

Margarida e ele olham-se de novo, com amizade, um olhar cheio de brilho, ternura e entusiasmo.
 Ela volta a vê-lo, dias depois, na sessão solene da abertura das aulas, passou entre muitos!
 
 
 
 
 


 

A minha avó - Conto - Crónica de Virgínia Teixeira

 
A minha avó - Conto - Crónica de Virgínia Teixeira 
 
Lembro-me da minha avó, uma mulher forte que admirei toda a vida e que hoje se senta num cadeirão velho perto da janela partida a ouvir um pequeno radiozinho porque até a televisão deixou de lhe interessar.
 
O meu avô morreu e ela morreu um pouco com ele. E o triste é que nem posso relatar uma bela história de amor que justifique esta minha avó gasta de repente. Não se amavam da forma que os livros pedem, habituaram-se à presença e caprichos um do outro e a minha avó perdeu-se sem ele.
 
E eu, que nunca imaginei poder sentir menos admiração por ela, pela mulher lutadora, que trabalhava incansavelmente, vejo-me a sentir pena e medo. Um medo incrível de a ver partir sem vislumbrar a mulher de antes, e terror de um dia me ver espelhada nela. Ela foi forte, brava, e a luz apagou-se.
 
Adormece com o rádio ao colo muitas vezes, deita-se quase ao anoitecer porque não tem nada que fazer, vangloria-se dos vinte pares de peúgas dos netos que dobrou…
 
Ela acordava de madrugada, abria o pequeno comércio, trabalhava, fazia o almoço sempre variado, descansava um pouco, e trabalhava até à noite. Voltava e fazia o jantar.
 
Criou três filhos, cada qual com a sua particularidade, e nem do esquizofrénico algum dia a ouvi falar mal. Criou os netos quanto pôde e é justa o suficiente para ver o mal e o bem neles, por mais que se queixe de todos.
 
Sempre fui apaixonada pelas mãos da minha avó. Tem uma pele fina, manchada, toda enrugada, quase crespa, mas com um toque agradável. Costumo dizer sempre que é com as mãos delas que quero envelhecer. Acho-as realmente belas, não da forma banal como usamos o adjectivo, mas sim da forma mais pura e primitiva.
 
A minha avó está sozinha. Já deve estar deitada naquele quarto a cair aos pedaços há horas, mas de repente veio-me à memória. Sorrio sempre que penso nela. Sorriso mais feliz ou mais triste, mas sempre um sorriso. Uma mulher bonita para mim. Tem a pele toda enrugada e uns olhos pequeninos que têm um brilho diferente. Prende o cabelo ao alto num carrapito e quando era pequena divertia-me a tirar-lhe os ganchos.
 
Zangava-se comigo mas nunca meteu medo. Não é especialmente carinhosa, nenhum deles na família é, mas é justa, forte, parece inflexível até. Não abraça mas faz passar os medos porque nos faz sentir ridículos de pensar nisso sequer. E é única por isso mesmo.
 
 
 
 

 

Pânico na Madrugada - Conto - Crónica de José Pedreira da Cruz (Tico Cruz)

 
Pânico na Madrugada - Conto - Crónica de José Pedreira da Cruz (Tico Cruz)
 
Foi numa funerária o meu primeiro emprego, aonde, aos 13 anos de idade, adquiri a difícil arte da compreensão e da humildade.

Lá, no florescer da minha doce juventude, vivi as mais turbulentas e atribuladas madrugadas recheadas de desconforto frente a dor e o sofrimento alheio, o que me fazia, diuturnamente, só pensar no bem-querer.

A vida não me era assim tão prazerosa, mas tudo transcorria num harmonioso clima com os companheiros que passavam o tempo a se divertir de minhas abastadas maluquices dignas da idade.

A necessidade me impôs na obrigação de ser plantonista noturno daquela casa mortuária, onde foram inúmeras as noites em que dormi entre caixões, castiçais, coroas, flores, velas e tecidos de mortalhas; e onde, também, em muitas madrugadas tive o sono interrompido: ora para agilizar funerais: ora para fazer caixões; ora por puro medo.

Para os pernoites de plantão eu sempre contava com a companhia de dois colegas: o Joé e o Jesulino, este, amigavelmente apelidado de Jesus. Eles compartilhavam comigo das insónias: coisas já habituadas; uma vez que faziam parte da nossa atribulada rotina; e raríssimas eram as noites sem elas.

Consta-me que certa noite, ao retornar da escola, avistei de longe o Jesus triste e desolado. Estava ele só, sentado no batente da porta de entrada da funerária e visivelmente melancólico; o que me fez pensar em algo errado ter acontecido, mas... o quê?
Ao me aproximar olhei temeroso para o interior da loja e vi tudo escuro como um breu, exceto um ponto amarelado que se destacava lá na parede dos fundos e, com inevitável preocupação indaguei ao colega:
– Que houve por aqui?
– Sei lá, rapaz! Deu um estouro ai dentro, buummm, (sonorizou) – e apagou tudo – retrucou Jesus deixando-me transparecer uma certa credulidade.

– Meu Deus! – falei tapando a boca com a mão direita e acrescentei: cadê o Joé? – perguntei por perguntar, pois este sempre faltava ao plantão.
– Mandou dizer que não vem. Que tá gripado! Acho que é safadeza dele. – disse-me Jesus, deixando transparecer uma certa malícia no falar: como se tivesse ensaiado ao que me responderia.
 
 
 
 
 

 
 

A Joaninha Cansada - Conto tradicional (com alterações)

 
A Joaninha Cansada - Conto tradicional (com alterações)
 
Era uma vez uma joaninha. Pintas pretas sobre fundo encarnado, conhecem o género, não conhecem?
Bem. Como ia contando: era uma vez uma joaninha... O que ela se enfastiava quando uma menina qualquer a prendia entre os dedos, para lhe soprar a lengalenga do costume: «Joaninha voa, voa, que o teu pai está em Lisboa». Largada, depois, ares fora, a nossa joaninha refilava:
- Mas qual pai? Mas qual Lisboa?
 
O pai dela, coitado, morrera há tempos, e a cidade de Lisboa não estava nos seus projectos de viagem. Que mania!
Por isso a joaninha resolveu mascarar-se de escaravelho. Vestiu um pijama às riscas e pronto. Ninguém diz: «Escaravelho voa, voa, que o teu pai está em Lisboa». Não dá jeito.
 
Com o que ela não contava era com o Dr. Bisnaga, cientista estudioso de escaravelhos e do grande dano que eles causam à fruta e às batatas. Pois o Dr. Bisnaga viu aquele exemplar um tanto fantasista, ainda não classificado entre as suas variedades, e zás! Agarrou-o com uma pinça, meteu-o num frasquinho e ala com ele para o seu laboratório, em Lisboa.
 
Depois classificou-o. Deu-lhe um nome, por sinal o seu, «Escaravelho Bisnaguense», visto que se sentia o descobridor e, até certo ponto, o pai daquela preciosidade. Por fim, tirou-lhe o retrato, para um grande álbum de escaravelhos que estava a preparar, e foi à vida, à sua vida de incansável investigador de escaravelhos.
 
 
 
 
 

 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Jornal Raizonline nº 207 de 28 de Janeiro de 2013 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (XXVIII)- A infindável luta pela qualidade

 
Jornal Raizonline nº 207 de 28 de Janeiro de 2013 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (XXVIII)- A infindável luta pela qualidade

Desde sempre este jornal tem pautado a sua intervenção nos meios por onde anda, quer sob a forma de projecto / ideia quer sob a forma quase física deste virtualidade que estão a ler, por uma intenção dupla ou com dupla intenção.

De um lado sabemos e todos sabem que existe uma percentagem razoável de pessoas que encontram na internet democratizada cada vez mais a possibilidade de exprimirem aquilo que gostam de fazer, quer seja sob a forma de prosa ou seja sob a forma de poesia ou outras.

Ora todos sabemos também que «gostar de fazer» nem sempre equivale a um «fazer bem», e todos sabemos também que existe uma tendência quase fatal para a uniformização dos métodos utilizados.

Por vezes as pessoas, mesmo que seja quase sem se aperceberem acabam por seguir um caminho que ao julgarem bom é aquele que mais conhecem, onde mais se sentem à vontade, onde melhor acham que colocam aquilo que pensam ou sentem.

Existe assim uma tendência «natural», chamemos-lhe assim, para uma especialização em dadas áreas e em dadas formas que se julgam dominar. A partir daí vem o receio de que a «coisa» não saia bem, que a roupagem vestida de novo no acto não se coadune com a qualidade que se julga ter atingido.

Trata-se de um problema relativamente grave que encontra grande expressão sobretudo no facebook, e por razões bem determinadas: o número de frequentadores desta plataforma é enorme pelo que facilitada está a tarefa do observador / crítico e construída está com mais celeridade a sua convicção de que algumas pessoas, não se copiando umas às outras, nem tal seria possível, absorvem um dado estilo de fazer que acaba por ser aquele que com maior expressão numérica encontram.

Diz-se que a cultura é aquilo que fica depois de termos esquecido tudo o que aprendemos e aquilo que fica através de uma leitura continuada da nulidade é também isso: nada, é a nulidade.
 
 
 
 
 

 
 

COMO VIVEMOS HOJE? - Texto remetido por Helena Emília Bortoloti

 
COMO VIVEMOS HOJE? - Texto remetido por Helena Emília Bortoloti

 
Vivemos em um momento em que nossa fragilidade é evidenciada todo tempo. A vida não tem sido fácil para nenhum de nós e a sensação mais forte é a de que somos testados e lançados ao encontro de nossa capacidade de viver. Nossas mentes e emoções têm sido exigidas até quase o seu limite. Se fizermos um balanço de como eram as nossas vidas e sentimentos um tempo atrás, podemos perceber que tudo era bem mais fácil.
 
Aprendemos que a melhor saída é evitar excessos emocionais, no entanto, como evitá-los se diariamente somos colocados diante de novos desafios? O significado da palavra emoção, Pelo dicionário «é agitação de sentimentos».
 
E certamente, nós sabemos perfeitamente o que isso quer dizer. Tornamo-nos malabaristas estressados com a necessidade de cumprir metas e resultados no mundo pessoal e profissional. Precisamos vencer e nos superar a todo momentos.
 
O que não entendemos é que não existem emoções boas ou más, pois, na verdade, o efeito que causam em nós e em nossas vidas depende da maneira que lidamos com elas. Equilíbrio emocional e flexibilidade caminham juntos e exige destreza, autoconhecimento e habilidade psíquica.
Mas até onde somos livres para escolher e lidar com emoções perturbadoras como a paixão e o medo?
Como podemos superar nossos limites quando somos remetidos para esse lugar que geralmente fica escondido dentro de nós? Compreender nossos processos mentais e emocionais é o primeiro passo, pois só podemos transformar aquilo que conhecemos.
 
Conhecendo esses processos, faremos escolhas mais acertadas e ficaremos cada vez menos à mercê de forças desconhecidas por nós. Quem de nós não deseja (e eu diria que isso deve ser a metade de todos nós nesta vida) cultivar emoções serenas e saber manter o controle do desespero nas difíceis adversidades?
 
As emoções desempenham um papel fundamental nas avaliações e escolhas que fazemos. O que aprendemos a sentir (digo aprendemos por que de fato existe um padrão de funcionamento cristalizado em todas elas) influi diretamente em nossas crenças, nossa saúde e até nossa fisionomia. Algumas reações emocionais são tão arreigadas que acabam por ser desencadeadas antes mesmo de nos darmos conta delas.
 
 
 
 
 

 
 
 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho
 
 
 A Quem muito amei

Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.
 
Bolinhas de sabão

A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas!!!
 que voam nas asas do vento.
 
Sementes de Amor
 
 Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.
 E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.
 Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.
 
 
 
 
 

 

A (ausência) de fiscalização do som automotivo – o que fazer? - Por Se-Gyn

 
A (ausência) de fiscalização do som automotivo – o que fazer? - Por Se-Gyn
 
 
O uso de som automotivo em Goiânia, é um espanto, de tão agressivo e desrespeitoso que é. Os abusados, utilizando um ou mais veículos – com sistemas de som interligados ou, não, que não medem os limites para a satisfação de sua vontade egoísta, estão fora de controle.
 
E a população vê, indefesa, o seu direito à paz, sossego e descanso agredido diariamente, sem que os órgãos públicos encarregados do cumprimento da lei façam aquilo que devem fazer – controlar os excessos e compelir aos condutores e proprietários de veículos ao seu cumprimento.
 
E o entendimento do desafio relativo à fiscalização do uso do chamado «som automotivo» começa pelo exame da regulamentação constante do Código de Trânsito Brasileiro - CTB.
 
Foi estabelecido no Art. 228 do CTB que se o caso for de uso no veículo de «equipamento com som ou volume / ­ frequência não autorizados pelo CONTRAN», o que inclui os aparelhos emissores e amplificadores de sons e aparelhos de rádio comunicação.
 
A fiscalização e a a autuação pela prática da infração de trânsito correspondente, ­ classificada como «grave», fica a cargo do órgão de trânsito municipal ou rodoviário – no caso do município de Goiânia, a Agência Municipal de Trânsito e, quanto ao Estado de Goiás, a Agência Goiana de Transportes e Obras – AGETOP, sucessora do DER-GO.
 
O legislador, de tendência municipalista, partiu do princípio de que e que o uso de som automotivo se constitui numa prática que desafia as regras estabelecidas no CTB quanto ao comportamento do condutor do veículo na via de trânsito. E em tal caso, a tarefa de fiscalização só poderia ser atribuída aos órgãos municipais e rodoviários, que tem competência reservada para tanto.
 
O problema começa na execução da política de fiscalização de trânsito. Em Goiânia, por exemplo, são praticamente desconhecidos os casos de autuação pela infração de trânsito em questão, de parte da AMT.
 
 
 
 
 

 
 

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XLIV - Por Daniel Teixeira - Os contrabandistas no Monte

 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XLIV -  Por Daniel Teixeira - Os contrabandistas no Monte

Já aqui tenho referido que o meu avô fez contrabando durante a sua idade adulta, talvez até aos 40/50 anos sensivelmente e eu quando comecei a conhecê-lo já ele tinha deixado essa actividade. Para o efeito de ter largado essa actividade em muito terá contribuído o facto de quase ter morrido após uma queda de uns rochedos quando fazia uma travessia, queda essa que resultou num ligeiro afundamento da parte posterior do crânio, situação essa que foi tratada em casa, à base de pensos e pachos de água fria com rodelas de batata.

Na foto mais pequena tentei fazer notar esse traço de junção no crânio, partindo logo sobre o centro das sobrancelhas. Tenho uma outra foto do meu avô tipo passe, mais nítida, mas o simpático fotógrafo fez o «favor» de a retocar nesse ponto. De qualquer forma o que interessaria mais referir aqui seria que a metodologia de tratamento na altura era do género «ou safa-se ou morre» porque não havia mesmo outra alternativa. Safou-se...

O meu avô e a minha avó numa das suas visitas a Faro, anos 60, talvez, quando morávamos numa casa tipo quinta (dentro da cidade de Faro). O luto da minha avó nunca foi tirado após o falecimento da sua filha e minha tia nos anos 50/60.
 
Ora e voltando ao contrabando, numa das minhas crónicas eu referi que ainda faltava contabilizar a o impacto que esta actividade (ilegal) teve no fortalecimento das relações entre as populações raianas, portuguesas e espanholas, neste caso. Ora estudos sobre este factor e outros com ele relacionados já foram feitos por antropólogos e por departamentos de antropologia de Universidades Portuguesas e Espanholas, só que a matéria parece ser pelo menos um pouco controversa e o andamento destes estudos tem sido relativamente lento.

Cito: (...) O contrabando era, assim, «forma de viver, de sobreviver sempre no fio da navalha, sempre nos limites sem nunca saber quando do outro lado estaria a Guarda à sua espera. Eram quilómetros e quilómetros percorridos sempre a pé, dentro de água, no meio do escuro, à procura do sustento», salienta na introdução à obra (de Luís Filipe Maçarico - 2005) João Miguel Martins, vereador da Câmara Municipal de Mértola.
Luís Filipe Maçarico entrevistou ao longo de vários meses antigos contrabandistas e guardas-fiscais reformados que actuaram na raia de Mértola. Um trabalho que se estendeu até Espanha, ouvindo alguns raianos de Paymogo, El Almendro e El Granado. (...)
 
 
 
 
 

 

Blogue Alcoutim Livre - Escreve: M Dias - Os cheiros e os sons da minha infância!

 
Blogue Alcoutim Livre - Escreve: M Dias - Os cheiros e os sons da minha infância!

 
Recordo os cheiros e os sons da minha infância e conservo deles uma memória viva e doce.
 
A vida na serra, proporciona-nos experiências de tocar, cheirar, ouvir, manipular o que é mesmo natural, autêntico! Os cheiros, os sons e as texturas que a natureza nos oferece na sua espontânea naturalidade em cada estação do ano, (excluindo alguns poucos cheiros e sons desagradáveis que também não esqueci, como o cheiro do pocilgo, ou da matança do porco, e o som dos trovões e dos foguetes), as minhas memórias sonoras, tácteis e olfactivas são doces recordações.
 
No Verão o cheiro das searas ceifadas, dos funchos, e junto do barranco os aloendros floridos, dos figos a secar ao sol, o som das pegadas das bestas e do linguajar dos donos que as conduziam, dos chocalhos do gado que à tardinha regressava aos currais, o zumbir de uma mosca no silêncio no quarto quando dormíamos a sesta (conhecida por folga), o cantar das cigarras em dias de muito calor e dos grilos à noite ao serão, o canto do galo ao amanhecer e da galinha quando acabava de pôr o ovo, dos cães que ladravam e corriam desenfreados atrás de um pobre gato, e o cheiro da terra molhada, quando ocasionalmente «desabava» uma trovoada de Verão.
 
Chegava o Outono com os seus tons amarelados, muitas árvores já despidas, as primeiras chuvas, sempre insuficientes que mal faziam correr os estreitos regatos, a terra com manchas pretas das queimadas e o cheiro da lenha a arder, fazendo subir curvilíneas colunas de fumo no ar. Por essa altura começavam as lavouras e nesses anos ainda se ouviam as charruas e o lento caminhar das bestas a sacudir as orelhas, quando as peganhentas moscas as incomodavam.
 
Cheirava a terra lavrada, e muitas dezenas de passarinhos procuravam aí o petisco que saía da terra remexida. Ouviam-se asas de grandes bandos a bater! As primeiras azeitonas eram apanhadas e pisadas (britadas) para daí a poucos dias, frescas e saborosas serem consumidas, muitas vezes só com pão e tantas vezes serviam de almoço, ou merenda!
 
 
 
 

 

POESIA DE LILIANA JOSUE - Poesia I ; Poesia II ; Poesia III

 
POESIA DE LILIANA JOSUE - Poesia I ; Poesia II ; Poesia III
 
 
 Poesia I
 
 Humanizar a poesia
é dar-lhe dimensão;
 a dimensão do Homem
 logo, está certo
 pois nele há tudo
 na proporção do infinito.
 Terra, Fogo, Mar e Ar
 são poesia
 porque estamos lá também.

 
Poesia II
 
 Transcendência poética?
que é isso?
 ela existe porque o poeta quer
 por isso é que encontramos poetas e não poetas.

Uma pedra pode ser poesia
 sem dúvida
 mas porque alguém a vê ou sente
 dessa forma.

Aquela ideia, quanto a mim patética
 de que ela «é» só por si
 não tem sentido.
 A poesia está no espírito que crê

 
Poesia III
 
 O que é a Poesia…?
 o que se vê?
 o que se sente?
 o que se vê e sente?

Poesia é grito
 é raiva
 é susto!

Poesia é amor
 é paixão
 é carne!

 
 
Leia este tema completo a partir de 28 de Janeiro carregando aqui.
 
 

 

 

EU CAPRICORNIO... - Dueto Poético de Deth Haak e Arlete Piedade

                      
 
EU CAPRICORNIO... - Dueto Poético de Deth Haak e Arlete Piedade
 
 
EU CAPRICORNIO...
 
 Cadencioso em vírgulas de amor precipitado,
 Na aura atmosférica buscar o amado, lavrando
 A terra disseminando letras, em amor adubando
 Abecedário. Bordando exclamações no amor conquistado...

 
Capricórnio... O refrescar da brisa brava
 De osculados abarcamentos adejados,
 Estratagemas valsados, nadando montanhas
 Imagéticas, dos lúdicos oceanos acutilados.

 
Alma verte línguas incandescidas, nos vulcões
 Platinados em emoções esquecidas, nas lições
 Esquivadas. Fogueira do amor em brasa viva!
 Tórrido na corrosiva natureza envolve a vida...

 
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Capricórnio...senhor de dragões em chamas,
 campeador de causas alheias, negras tramas
 triste coração dolorido que lágrimas derramas

 
Capricórnio...fraterno de seres sem temores
ternamente acaricias da noite, os moradores
 solidão é a tua companheira de lutas e dores

 
Capricórnio...vencedor das trevas, habitante
 das altas montanhas, de enigmas, intrigante
 de pobres e tristes mortais, solícito ajudante

 
Capricórnio...nobre e perseverante guerreiro
 sem hesitar, ofertas tua amizade, por inteiro
 de tantos amigos, és o preferido, o primeiro

 
 
Leia este tema completo a partir de 28 de Janeiro carregando aqui.
 
 
 
 

 
 

Poesia - Por João Furtado - Continuo com o mesmo porte; O Mercado da Praia; Pregões no Mercado

 
Poesia - Por João Furtado - Continuo com o mesmo porte; O Mercado da Praia; Pregões no Mercado
 
 Continuo com o mesmo porte
 
Era hoje disseram que proferiram os Maia
 Até o Cristo no Seu mais um Nascimento
 Vendo o homem cabisbaixo, com pouca alegria
 Ele… Caiu um pouco no esquecimento!
 
Afinal nada mudou e o mundo continua
 Na verdade… Nem sei se não acabou
 E u sempre distraído e vivendo na lua
 Nem reparei… No mundo onde agora estou…
 
O Mercado da Praia
 
O Mercado de Praia
 é mais que um mercado
 Tem bebé deitado
 No berço que é pedra fria
 Num reparador sono dormindo
 Enquanto a mãe continua vendendo
 Para o sorriso e a alegria
 Dos irmãos ainda crianças
 Cheios de imaginações e crenças
 
Pregões no Mercado
 
 Vendeira
 
Freguês compre, compre limões
 São baratos, apenas vinte escudos
 São bons e são quase dados
 Freguês compre limões por tostões!
 
 Pastor
 
 Tu vendes e vendes bem os limões
 Mas eu vendo a Paz, queres a PAZ
 Veja e compra se és digna e capaz…
Quero ver a Paz em todos os corações!
 
 
 
 
 

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ritos de Iniciação ou de Passagem existentes em Moçambique - Por Julio Silva (Etnomusicólogo do espaço moçambicano)

 
Ritos de Iniciação ou de Passagem existentes em Moçambique - Por Julio Silva (Etnomusicólogo do espaço moçambicano)
 
Os ritos de iniciação nas zonas rurais , são determinados por cerimónias especiais que determinam a aceitação na sociedade rural. Estes ritos são estruturados por um simbolismo forte por todo o mundo rural , que fornece imediatamente a sua legitimidade .
 
Em várias partes de Moçambique ( províncias , distritos e localidades ) existem cerimónias que são muito semelhantes em vários locais, mas com procedimentos distintos variando as suas culturas locais. Temos no mundo rural cerimónias completamente diferentes e interessantes no seu contexto cultural e até em algumas localidades podemos encontrar cerimónias secretas, longe do olhar de estranhos. De uma forma geral os ritos tem como base os seguinte procedimentos:
 
- A primeira cerimónia está ligada ao nascimento, onde é enterrado o cordão umbilical , momento em que os pais apresentam a criança aos seus antepassados directos para serem reconhecidos como parte da linha dos seus ancestrais, onde o nome escolhido será prenunciado de forma solene. Os curandeiros nas zonas rurais , são uma parte importante nestas cerimónias.
 
- A segunda cerimónia , que são os ritos de iniciação , é feita após o rapaz ou rapariga se tornarem aptos para a procriação. Este Rito tem como regra fundamental , o juramento de manter em segredo toda a aprendizagem. Existe como base nesta cerimónia o ensino da obediência cega aos adultos e o não questionamento das imposições dos mais velhos. As danças , os cantos e as musicas tradicionais são uma obrigação permanente durante todo o tempo em que a cerimónia é realizada.
 
«Em relação às mulheres», acontece no momento do surgimento da primeira menstruação, momento em que a rapariga começa a tornar-se apta para a procriação e desta forma o primeiro passo de preparação para o casamento.
 
Em alguns distritos o som dos tambores é que anuncia o surgimento da primeira menstruação, sendo motivo de festa que se pode prolongar durante vários dias.
 
 
 
 

 
 

NOVAS REGRAS DO JOGO - Por Marcelo Pirajá Sguassábia

 
NOVAS REGRAS DO JOGO - Por Marcelo Pirajá Sguassábia 
 
Está causando alvoroço no setor de informática a recente determinação da presidência da república de obrigar a nacionalização temática de todos os videogames e games para computador. Para quem desconhece a medida provisória, a mesma estabelece que, no prazo de seis meses, os jogos electrónicos terão de ter seus personagens e enredos adaptados para o contexto do folclore brasileiro e suas lendas.
 
Ao justificar a medida, a presidência apoia-se no argumento de que as nossas crianças e adolescentes, debruçando-se sobre seus consoles com heróis e vilões estrangeiros, acabam por esquecer completamente o rico elenco de figuras do nosso folclore – hoje relegadas a pequenos comentários nos livros didáticos do Ensino Fundamental.
 
Atenta ao prazo final determinado pela nova lei e buscando antecipar-se à observância das regras, a EA – Electronic Arts promete para as próximas semanas o lançamento do Cuca Soccer, com os maiores craques do mundo devidamente metamorfoseados com cabeças e caudas de jacaré. Já a Sega trabalha na substituição do porco-espinho Sonic pela Mula sem Cabeça, mudando também os cenários das diferentes fases do jogo para a amazónia, o pantanal matogrossense, as serras gaúchas e a chapada diamantina.
 
Microsoft e Sony optaram por entrar com recurso contra a medida provisória, por entenderem que a mesma acarretará uma vertiginosa queda nas vendas e no interesse do público pelos produtos adaptados. Os dois fabricantes atentam ainda para o fato de que o leque de personagens lendários brasileiros não é tão extenso, o que acabaria por restringir o número de títulos nas prateleiras e a criatividade dos desenvolvedores. «Ficamos limitados basicamente ao Boitatá, ao Saci Pererê, ao Neguinho do Pastoreio, ao Curupira e às já citadas Cuca e Mula sem Cabeça».
 
 
 
 
 

 
 
 

Poesia de Pedro Du Bois - MALDADE; FRONTEIRAS; MORRER

 
Poesia de Pedro Du Bois - MALDADE; FRONTEIRAS; MORRER
 
 MALDADE
 
 Traz a sina
 a sanha
 a peçonha do desencontro:

 
o veneno inoculado
 no escasso esforço
 de se dizer ausente.

 
(Pedro Du Bois, inédito)
 
 FRONTEIRAS
 
 Marco a distância: crio fronteiras
 e as armo em cercas farpadas.
 

Reservo espaço ao póstero. Sigo
 os passos menino moço remoçado
 e impeço sua saída. Pergunto pela
 identidade: faço ver a necessidade
 das explicações. Armo minha fala
 no descaso do eterno (ou quase)
 vigilante. No peso a responsabilidade
 rompe o estribilho. Minha fronteira
 exige permanências.

 
 (Pedro Du Bois, inédito)
 
 MORRER
 
 Na obviedade
 esqueço a importância: sei
 dos selvagens não contatados

 a secularidade na datação
 civilizada: aos selvagens restam
estações monitoradas por satélites

 em estradas abertas
 ao progresso o óbvio acompanha
 a máquina: a mortandade acontece
 antes do contato.

 
(Pedro Du Bois, inédito)
 
 
Leia este tema completo a partir de 28 de Janeiro carregando aqui.
 
 
 

 
 

Crónica de Ilona Bastos - A menina Amélia

 
Crónica de Ilona Bastos - A menina Amélia 
 
Hoje pus-me a pensar na menina Amélia com carinho. Nunca a conheci, e penso que nem lhe vi nenhuma fotografia. E, no entanto, aquele precioso tom alaranjado que cuidadosamente escolheu para pintar as nuvens, perto do horizonte, como fundo a um delicioso castelinho, numa aguarela que ladeia, garbosa, o espaldar da minha cama, é a exacta cor que escolhemos para pintar o nosso quarto, e que nos envolve todas as noites, todas as manhãs e sempre que queremos repousar ou sentir, apenas, o especial aconchego da alcova.

Sobre a outra mesinha de cabeceira, do lado de lá da cama, está também um quadro da menina Amélia: o dos barcos de uma vela, deslizando pelo rio em pincelada larga, com seus timoneiros e uma carga verde, de algas. Serão, então, moliceiros, as embarcações livres, de popa erguida, em bico, que acompanham os nossos sonhos.

Para o corredor, foi o quadro dos telhados vermelhos e paredes geométricas, com uma igreja no topo, muitas manchas de branco e verde, e um céu nublado e suave. Colocámos-lhe uma moldura verde, moderna, que reavivou espantosamente o conjunto.

Finalmente, na sala de jantar está uma pintura em tons bege, que mal sei descrever se a não estiver a observar. Com a sua palmeira e denso arvoredo, fica bem junto dos Monet, embora me pareça criar pouco contraste. Mas, como todos os outros quadros, tem o meu inteiro apreço.

Todas estas pinturas são da menina Amélia, amiga da tia Celeste que nunca conheci. Penso que morreu relativamente jovem, de forma inesperada, quando submetida a uma operação simples. Lembro-me de a tia Celeste falar disso com mágoa, sobre o desaparecimento da sua amiga menina Amélia, cujos quadros pendurou na salinha verde, a menos pretensiosa da casa, aquela onde raramente entrávamos, mas que era, provavelmente, a divisão onde a tia Celeste se sentia mais à vontade.
 
 
 
 
 

 

Conto de Ilona Bastos - Fauna & Flora: No ar fresco da manhã

 
Conto de Ilona Bastos - Fauna & Flora: No ar fresco da manhã 
 
Por volta das oito horas, a dona subiu a persiana, abriu a porta da janela de sacada e permitiu à cadela preta, sua companheira de quinze anos, que saboreasse o ar fresco da manhã.

Depois, dirigiu-se à cozinha para confeccionar o pequeno-almoço. E a cadela preta, no seu andar difícil de cãozito doente, acompanhou os passos, também não muito ágeis, da idosa senhora.

Não se sabe ao certo quando aconteceu - se quando, do frigorífico, a dona retirava o pacote do leite ou a manteiga, se enquanto cortava o pão e o colocava na torradeira, ou, ainda, se no momento de abrir a gaveta e escolher os talheres... - a verdade é que a cadelinha preta regressou à sala, para sentir um pouco mais da brisa matinal.

Como fazia, havia tantos anos, ergueu o focinho por entre as traves da janela e aspirou os mil aromas que lhe chegavam da vizinhança: da figueira farfalhuda, carregada de figos, pequenos mas maduros; das flores silvestres que, em coloridos tufos, guarneciam o jardim do largo; da família de gatos que se alojara no casebre abandonado; do cocker spaniel do sexto andar, também ele a farejar a chegada do Outono e a sentir a sua presença...

A cadela preta semicerrou os olhos, que já tão pouco viam, e deixou-se embalar pela frescura da manhã - tão agradável depois de uma infinidade de dias e de noites em que um calor insuportável a incomodara, a impedira de dormir, de comer, e chegara mesmo a fazê-la sentir-se doente. O seu jovem dono vira-se obrigado a transportá-la ao hospital veterinário, onde a acompanhara durante vários dias de internamento e tratamento intensivo.
 
 
 
 

Poesia de Maria da Fonseca - Em Busca da Felicidade ; Gaivotas ao Sul; à entrada de casa

 
Poesia de Maria da Fonseca - Em Busca da Felicidade ; Gaivotas ao Sul; à entrada de casa   
 
 
Em Busca da Felicidade
  
«Um sonho louco é este nosso mundo»
Onde queremos viver e sonhar.
Felicidade é algo mais profundo
 Que na vida sonhamos alcançar.
 
O espírito procura vagabundo,
 Busca ansioso tudo divisar
 Do alto pico até ao vale fundo,
 Como chama viva em pedra de altar.
 
Mas se o mistério está na nossa vida,
 A insistente procura será vã
 Como ao vento suster folha caída,
 Como evitar que nasça o amanhã.
 
Gaivotas ao Sul
 
 Gaivotas da costa sul,
 Deste meu amado mar,
 Lindas, brancas e felizes,
 Voando pra me encantar.
 
Saudade, trazia tanta,
 De vos rever, figuradas,
 No suave azul do céu,
 A pairar, iluminadas.
 
à entrada de casa
 
 Teu nome, eu não conheço,
 Mas perto de mim floris.
 Olho-te com muito apreço,
 E sinto que me sorris.
 
Como duma mariposa
 De asas tom acastanhado
 Surgem três pétalas rosa
 Em contraste bem marcado.
 
No outro dia não 'stão,
 Por isso não as encontro,
 Mas à tarde voltarão,
 Dar-se-á nosso recontro.
 
 
 
 
 

 
 

Poemas de Ilona Bastos - Chorarei; Aos caracóis; Noctívaga

 
Poemas de Ilona Bastos - Chorarei; Aos caracóis; Noctívaga
 
 
 Chorarei
 

 Digo-te como me sinto -
à beira das lágrimas.
 Prestes a iniciar um choro
 Que não cessará, nunca mais.
 
Vou esquecer os lábios
 E o sorriso, que não é meu.
 Vou ignorar as maçãs
 Do rosto, que abandonei.
 Vou franzir o sobrolho -
Tudo o que de mim controlo.
 
Vou semicerrar os olhos
E entregar-me ao pranto,
 Como a um rio caudaloso,
 Que nasce de fonte recôndita,
 Nas entranhas do coração
Apertado, e pelas veias se expande,
Subindo, descendo, vertendo
 Do lago do meu olhar.
 
Aos caracóis
 
 
 é preciso que se entenda:
 O meu cabelo é aos caracóis!
 Por isso não posso ser prática -
Linear, avançada, organizada!
 
é necessário que se compreenda:
 Quando entregue a si mesmo,
O meu cabelo rebela-se e revira-se,
 Indiferente a modas e convenções,
 E se tentam impor-lhe ordem,
 Ergue-se, pujante, resoluto,
 Ostentando um volume grandioso
 Que esvoaça ao vento e resiste à chuva.
 
Noctívaga
 
 
 Desacelero os movimentos,
 Os meus braços movem-se
Suavemente, como numa dança,
 Escuto o silêncio e os sons da noite,
 
Concentro-me no roçar do lápis
Sobre o papel,
 No arfar da minha respiração,
 No correr dos automóveis, ao longe.
 
 A lucidez da noite invade-me,
 Agora que devo deitar-me e dormir…
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sete Dias com Marilyn (2011)

 
Sete Dias com Marilyn (2011)
 
 
«A princesa havia agora tentado dizer ao mundo que era uma prisioneira. Essa era a verdadeira mensagem que Marilyn havia querido passar. E, naturalmente, era exatamente isso que todos aqueles homens gananciosos queriam que ninguém ficasse sabendo.» — Colin Clark em My week with Marilyn
 Marilyn Monroe por Michelle Williams
 
 Um garoto comum e a maior estrela do cinema mundial envolvem-se em um breve caso de amor — até parece o tema de um romance fictício. «Sete Dias com Marilyn» (2011) do diretor Simon Curtis conta o real envolvimento de Marilyn Monroe com o jovem Colin Clark, terceiro assistente de direção de Laurence Olivier durante as filmagens do filme «O Príncipe Encantado» (1957).
 
Sob a alegação de que não poderia desvelar o caso com Marilyn ainda em vida, Colin transforma sua aventura romântica em livro após muitos anos, espécie de tributo concedido à atriz que ele afirma ter mudado sua vida.
 
A atuação de Michelle Williams é uma inequívoca confirmação de seu talento, ao incorporar uma Marilyn em busca de reconhecimento profissional, Williams atinge o fascínio da arte da representação, enfeitiça seus espectadores.
 
E é óbvio que a preparação para esse tipo de papel requer coragem e extrema dedicação.
Marilyn Monroe trata-se de um ícone de abrangência global e a atriz que aceita o desafio de vestir sua pele em uma produção artística está inevitavelmente sujeita a receber críticas severas.
 
No desempenho de Michelle Williams, fisicamente tão diferente de Monroe, nota-se facilmente que a naturalidade é uma qualidade que sobeja, reverbera no sorriso deslumbrante, na suavidade de uma voz melíflua e nos atrevidos meneios do quadril.
 
Sem nunca descambar para o caricato, a tão crível Marilyn de Williams prima justamente por essa naturalidade, evidência de seu conforto com o papel e principal componente da irresistível sensualidade exalada.
 
Por mais que as lembranças idílicas de Colin Clark não resultem em um roteiro de estimulante complexidade, a destrutiva dualidade de Marilyn surge sólida nas cenas conferindo certa consistência ao drama. Grande parte do êxito da protagonista está na compreensão dessa dupla personalidade da celebridade que encarna integralmente, a contrafação esplendorosa de Norma Jeane apresenta-se completamente exposta.
 
 
 
 
 

 
 

Poesia de Dulce Saldanha - Contigo e Sem ti; Ciúme; Meus passos

 
Poesia de Dulce Saldanha - Contigo e Sem ti; Ciúme; Meus passos
 
 
Contigo e Sem ti
 
 Contigo os meus beijos tomam forma
 d'um coração repleto de amor
 na cascata que jorra e se transforma
 na tela digna de qualquer pintor

 
Sem ti a minha vida era vazia
 é como a água que secou na fonte
 no céu a minha estrela não luzia
 nem via o pôr do sol no horizonte

 
Ciúme
 
 Sentimento que destrói
 que fragmenta,
 que corrói,
 dilacera o coração,
 é uma faca com gume
 que tem nome de ciúme
 chega a ser obsessão

 
é dor,
 raiva
 e amor,

 
Meus passos
 
 Meus passos pelos quais acerto o passo
 seguindo os teus passos p'lo caminho
 à espera dos teus braços, num abraço
 que mostrem teu amor e teu carinho,

 
Mas nas veredas que sigo sozinha,
 fico pensativa a meditar
 se é esta devoção só sina minha
 se na verdade eu não te deva amar

 
 
Leia o texto completo a partir de 28/01/2013 carregando aqui.
 
 
 

 
 
 

Poesia de Gilberto Lima Siacsa - Cabelos Brancos; Pão Nosso de Cada Dia; Ano Novo Vida Nova

 
Poesia de Gilberto Lima Siacsa - Cabelos Brancos; Pão Nosso de Cada Dia; Ano Novo Vida Nova 
 
 
Cabelos Brancos
 
 Caramba dos meus cabelos!
 Os meus cabelos começaram a virar brancos…
 Sim cabelos a virar brancos como a neve!

Os meus cabelos brancos é sinal da velhice
 é o fruto dos meus cinquenta e cinco anos

Chorar para quê!
 Se os cabelos brancos não tem paragem!

é tempo de dizer
 Meu querido velho de cabelos brancos
 A minha vez chegou
 é o fim do circuito e do brio da juventude
 
Pão Nosso de Cada Dia
 
Falta o pão á minha boca
 De tanto procurar o que comer
 Engasguei-me,
 Esfomeado estamos
 Porque,
 A algibeira está furada,
 A aldeia poupa emprego,
 As pessoas almejam trabalho!

O meu ordenado ficou reduzido a metade!
 Os impostos tiraram o pão da minha boca…

Por isso,
 Falta o pão á minha boca
 
Ano Novo Vida Nova
 
 O meu primeiro tudo
 De tudo…
Do ano novo,
 Ano novo, vida nova de luta e de esperança!
 Ano novo de estrela cantando,
 Ano novo brilhando como estrela d`alva,
 Ano novo suave como a lua nova, do meu primeiro tudo,
 O meu primeiro tudo,
 Do dia novo de lua nova,
 Do ano novo…
 Dia de alegria e felicidade,
 Dia novo de sacudir o corpo e mente,
 Ano novo da lua nova,
 Do meu primeiro tudo,
 Pintado de mil cores,