quarta-feira, 30 de abril de 2014

Santarém Cidade da Liberdade - Texto de Arlete Piedade Louro


Santarém Cidade da Liberdade - Texto de Arlete Piedade Louro 

 (Texto integrante do livro ERA NO TEMPO DE...Crónicas de Outras Epocas, lido no lançamento, pela Srª Engª. Emília Daniel Marques Leitão, prefaciadora e apresentadora do mesmo.)

 Estamos em 1147 e na madrugada de um domingo, um grupo de guerreiros comandados pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques aproximam-se a coberto da escuridão dos altos muros da cidade adormecida, que há quatro séculos está sob o jugo dos muçulmanos, e capitaneados pelo decidido capitão Mem Ramires que é o primeiro a subir á muralha para arrancar a cidade das mãos dos opressores, escrevem uma das páginas mais brilhantes e decisivas na história da cidade, ao devolvê-la aos cristãos, que a partir daí não mais deixarão que ela volte para mãos estrangeiras.

 Estamos agora em pleno período negro em meados do século XVII, com o país em poder dos espanhóis, devido ao desaparecimento sem deixar herdeiros, de El-Rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, quando o nobre fidalgo D. Manuel de Sousa Coutinho, mais tarde conhecido como Frei Luís de Sousa, intimado pelos governadores estrangeiros a entregar o palácio de sua família para servir-lhes de residência, num acção heróica, prefere incendiá-lo do que vê-lo nas mãos dos odiados usurpadores.

 Passados mais dois séculos e uma grande guerra assola o país de norte a sul, irmãos contra irmãos, filhos contra pais, uma luta ideológica entre as novas e as conservadoras ideias de dois pretendentes ao reino, D. Pedro como defensor do liberalismo e D. Miguel como defensor do absolutismo, quando emerge entre todas as lutas, um extraordinário e fabuloso militar, um digno sucessor dos guerreiros de antanho, um defensor intrépido da liberdade, Bernardo de Sá Nogueira, que ficaria conhecido como marquês de Sá da Bandeira, que entre tantas acções heróicas que o notabilizaram, uma das mais importantes foi sem dúvida a abolição da escravatura, que decretou como ministro que foi, quando em consequência das vitórias conseguidas, ocupou vários cargos no governo da Nação.


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O Imenso Encanto da Existência! - Prosa poética por Pena




O Imenso Encanto da Existência! - Prosa poética por Pena

 Retirado do Blogue Memórias Vivas e Reais

 

 à minha volta está tudo silencioso. Um silêncio que coloca o pensamento em dia.

Não reparo nas horas, nos minutos, nos segundos. A sua fluidez não a sinto. Parece que o Universo parou.

Olho. Tudo está admiravelmente no seu lugar, respeitando a minha escolha com imensa serenidade e harmonia.

Os relógios pararam há muito, num sossego que traduz compreensão e respeito. Também respeito o perpassar do tempo por mim. Não o questiono sequer. Agarro o tempo com garra de um combatente.

Aqui e ali, vejo silhuetas que permanecem estáticas esperando que suceda alguma coisa significativa e representativa para eles. São meras construções do pensamento que me fazem pensar. Amar. Viver.

Descortino a luminosidade de um candeeiro a que me aconchego. Faz-me idealizar o que vai em mim. Contribui com algo que incendeia e jorra alegria do Ser e do Estar. Diz: - Presente!

E, está presente e bem lúcido, afagando o meu existir e dar um significado plausível a tudo o que faço, digo e conto.

Histórias intermináveis de que não sei o fim! Admiráveis e sentidas. Histórias de amor às pessoas que me preenchem e transcendem. Gosto de contá-las, pondo nelas misturas de carinho e amor.

Não por serem minhas, mas pelo temor de perdê-las ou esquecê-las.

Tenho sonhos que me tornam feliz vivendo felicidade. Porque razão? Não consigo definir com precisão. Perguntem aos sonhos? Eles são puros, ingénuos e sinceros. Responderão por certo, porque coabitam mais perto de mim.


Poesia de Sylvia Beirute - ONZE PALAVRAS; BEIRUTE ; O BEIJO DE RODIN



Poesia de Sylvia Beirute - ONZE PALAVRAS; BEIRUTE ; O BEIJO DE RODIN


ONZE PALAVRAS



quisera
 crer o amor escondido no porta - malas do cérebro, uma res -
 posta que ainda pergunta /diminuem as sombras com as palavras/ e lá uma re -
 tribuição para além do recebido:
 os sentidos são o correio do corpo.

quisera crer que ligaria, claro, mais tarde, às onze e meia,
 às onze e meia em ponto, com onze,
 onze palavras mornas e a síntese do não - convergências,
 e a antítese do sim - divergências,
 frias como um cartão de crédito
 entre os dedos de um homem que procura um útero
 onde possa derrotar-se.

Sylvia Beirute





terça-feira, 29 de abril de 2014

TELINHA QUENTE 118 - Por Roberto Biscaro - Blogue do Albino Incoerente


TELINHA QUENTE 118 - Por Roberto Biscaro - Blogue do Albino Incoerente

 Numa de suas autobiografias, o ator Michael Caine conta que nos anos 1960 Londres começava a se modernizar e informalizar. Alguns restaurantes desobrigaram clientes do uso da gravata e fechavam mais tarde.

Graças ao sucesso duma rádio pirata, a sisuda BBC1 teve que abrir as pernas e tocar rock. Os Beatles/Rolling Stones revolucionavam a música. Era o balanço da Swinging London.

 A TV não ficou atrás e em 1967 chacoalhou a narrativa televisiva com The Prisoner, produzida pela ITC (hoje, ITV). Famosa pelas inúmeras teorias suscitadas devido à nebulosidade da trama e pela lealdade dos fãs através das décadas, obriguei-me a ver os 17 episódios da única temporada.

 A premissa é dada na longa abertura: um agente secreto se demite e é capturado não se sabe por quem (o mundo era então dividido entre EUA e URSS).

Desperta numa aldeia, paradisíaca, limpa, organizada, um sonho. Mas, nessa aparente utopia, os nomes foram substituídos por números, os indivíduos tiveram que se dissolver em nome do grupo, ou, antes, de uma força tirânica que os subjuga sem que percebam. Todos são vigiados ininterruptamente, tudo é planejado pra substituir a vontade própria. Lembrar um mundo que conhecemos, né?




Coluna de Mário Matta e Silva - Sophia não morreu; Nos cabelos de Eurídice; Vim de longe


Coluna de Mário Matta e Silva - Sophia não morreu; Nos cabelos de Eurídice; Vim de longe

 

 

 Sophia não morreu

 Disseram-me que eras mar
 Nas ondas me refresquei…
Disseram-me que eras lua
 Na sua gôndola baloicei…
Disseram-me que eras ave
 Nas tuas leituras voei…
Disseram-me que eras búzio
 Nos búzios te escutei…
Disseram-me que eras flor
 Os jardins acarinhei…
Disseram-me que eras sonho
 Contigo em verso sonhei…
Disseram-me que eras ternura
 A ternura eu busquei…
Disseram-me que eras vento
 Com ele no tempo viajei…
Disseram-me que era Mulher
 Como eu te admirei…
Disseram-me que eras das letras rainha
 As mãos de Mãe te beijei…
Disseram-me que eras toda Natureza
 Nela a semente deitei…
Disseram-me que eras Poeta
 Nunca te esquecerei…
Em tudo o que foste Sophia
 Ficarás para sempre… eu sei!

 3 de Julho de 2004
 (ano da sua morte)
 Mario Matta e Silva



segunda-feira, 28 de abril de 2014

Corpo-a-corpo - Texto Recolhido em «As leituras de Madame Bovary»


Corpo-a-corpo - Texto Recolhido em «As leituras de Madame Bovary»



Vai somatizar.

 E somatiza:
 A grande ruptura acontece nessa rua desgarrada em que o corpo caminha como quem marcha. Sem qualquer aviso prévio, a rugosidade de uma parede diz-lhe que está indefeso perante a morte e todos os trabalhos que a precedem. E assim, de súbito, o corpo perde afectos e deveres, rachado ao meio por um golpe de asa negra.

 O seu primeiro impulso é procurar o nome da rua. Mas o medo infiltrou-se no sangue sem piedade. E a cabeça sempre foi frágil.

 Há um crime imemorial que ainda não foi lavado e o teu corpo é chamado a depor. Todos têm de prestar contas. E é por isso que todos os meses as mulheres sangram. O corpo não possui mais um eixo ao abrigo da suspeita. Todos os seus movimentos toscos para recuperar o equilíbrio são vãos. A verticalidade tornou-se uma impossibilidade. A paisagem urbana surge desfigurada. Os edifícios são de papel cartonado e nunca te tinhas apercebido disso. Nos rostos que te cruzam não decifras mais qualquer vestígio da comunidade humana. A humanidade é uma ideia putrefacta que o teu olfacto ignorou nas décadas de aprendizagem. Venderam-te tantas ideias sem corpo e agora tudo vacila. Pareces um navio em alto-mar, fustigado pela tempestade.

Estás sozinho. Metes as mãos nos bolsos em busca de conforto – não esqueces jamais os hábitos que te impuseram aos membros. Mas tens os órgãos estilhaçados e a carne traumatizada pelo pensamento que te acidentou. Um vulto de plumas que assombra os bastidores da mente. Insinua-se e foge. Deixa um rasto de pássaros embalsamados.

 O sabor a ferrugem na boca fendida. Roldanas de aço roendo os maxilares, numa pressão metálica que ameaça triturar o corpo a partir do queixo. Anos a confiar neste pedaço de carne e agora ele desconjunta-se e vai tudo abaixo.



O CULTO DA MESA - Texto de Lina Vedes


O CULTO DA MESA - Texto de Lina Vedes

 Em tempos idos, não podem ser muitos, porque não me considero velha (nasci em 1940)… cada acontecimento era festejado com um envolvimento característico. Explico melhor acrescentando que, só na altura da Páscoa, apareciam as amêndoas doces, os folares e outros. Pelo Natal, era a vez do bolo-rei, filhós, empanadilhas, peru, não permitindo o enjoo dessas novidades, tornando-as bastante desejáveis.

A situação financeira da minha família não era pródiga, seríamos remediados para menos. Não havia fome, mas contenção na quantidade considerada de luxo. Um bolo, era tão raro, que bastava a palavra para encher a boca de água e qualquer um era apreciado até à última migalha.

O pão era a base de tudo. Aos lanches ou ao pequeno-almoço, poderia ser comido com azeite e açúcar, com banha corada (levando alho, pimentão, louro, salsa, tudo frito), com toucinho cru ou cozido, frito em azeite, envolvido com leite e ovos (fatias douradas)… Fiambre, queijo, paio, mortadela ou manteiga eram produtos raros.

As frutas, só se comia, as da época. Desconheciam-se muitas qualidades hoje consideradas vulgares, como as anonas, kiwis, mangas, papaias e outras. Também existiam as frutas inacessíveis ao orçamento familiar – ananás, morangos, cerejas…

O leite, era recebido, diariamente, pela manhã e fervido. Criava uma «nata» que era retirada e colocada num recipiente com uma pedrinha de sal. Ao fim de dias era batida, energicamente, e servia de manteiga.

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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Jornal Raizonline nº 248 de 16 de Abril de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Eu e o facebook


Jornal Raizonline nº 248 de  16 de Abril de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Eu e o facebook

De esclarecer antes de mais que uma coisa é aquilo que eu afirmo a título pessoal e outra coisa pode ser aquilo que enquanto Jornal Raizonline se pode afirmar.

Dito isto gostaria de começar, a só a título pessoal, referindo que cada vez encontro menos interesse nesta chamada de moderna e promissora plataforma. E para mim, o mais importante, ou grave, para aqueles que no facebook fazem fé, é que não vejo como esta plataforma global poderá encontrar alternativa para se diversificar.

Na verdade, o facebook, ao ser como é, cobre todas as possibilidades de renovação e para além dele, neste seu campo, nada mais há a acrescentar. Em certo sentido posso dizer que assisto ao desgaste pela usura de uma plataforma que não é substituível por nada mais porque ocupou tudo.

Não será seguramente a morte de ninguém, senão do facebook como entidade múltipla de entidades, mas este sistema de interacção deixou de ser atractivo porque perdeu o sabor da novidade.

Ficarão, seguramente durante alguns anos, ou meses (isso depende do degradar da situação financeira da plataforma) alguns daqueles que por lá andam (como eu) mas a implosão desta plataforma mostra que há coisas que já se sabiam desde há muitos anos: o entediante e o tédio apoderou-se desta plataforma e nada há a fazer contra isso.

Poderá ter sido bom enquanto durou mas vão pensando nisso, na possibilidade de terem de utilizar o facebook da mesma forma que utilizam os vossos emails particulares: episodicamente.



Procissões da Quaresma - Texto de Lina Vedes


Procissões da Quaresma - Texto de Lina Vedes 

 Tive o privilégio de viver, em jovem, na actual Rua 1º de Maio, local por onde passavam quase todas as procissões de Faro.

 Ao recordá-las, principalmente as realizadas durante a Quaresma, não posso deixar de focar, o padre José Gomes da paróquia de S.Pedro, homem ímpar na organização e incrementação de procissões.

 Este padre morador no edifício, hoje intitulado Via Valadim, na Rua Tenente Valadim, ao tempo conhecida por rua dos Cavalos, durante o dia fazia vários percursos de sua casa à igreja, passando pela Rua Filipe Alistão, sempre apressado, cumprimentando à esquerda e direita.

 Cativava com a sua simpatia, os sermões eram agradáveis, versando simplicidade, conseguindo descer ao nível dos seus paroquianos.
 Não necessitava, como acontece na actualidade, de cábulas para avivar a memória, nada esquecia, porque tudo era dito com sentimento, e todos bebiam dessa honestidade, franqueza, alegria e sinceridade.

 Subia ao púlpito situado na nave central da igreja e pregava, colocando a voz com saber de mestre, criando momentos emocionantes, grandiosos e apoteóticos.
 A sua morte prematura, num acidente de viação, na estrada de S.Brás perto de Faro, foi chorada e sentida profundamente e a sua falta, deixou uma lacuna, nunca substituída.

 Dia de procissão era dia de festa e em muitas casas celebrava-se a ocasião, estreando roupa nova e engalanando as janelas com as melhores e mais ricas colchas, guardadas nas arcas.
 Muita gente vinha para a cidade, principalmente das hortas circundantes, porque era dia de desobriga de promessas, e poderemos acrescentar, que nada havia de mais útil, do que uma boa procissão, para fazer sair da monotonia habitual.

 Todas elas obedeciam e obedecem a uma ordem, um cerimonial, fácil de resumir. Abriam com o transporte de um guião enorme, levado por homens possantes, porque é difícil de equilibrar, e que consoante o objectivo da procissão, variava na cor, no tecido, no bordado.



MEMORIAS DA ILHA - Crónicas - Por Manuel Fragata de Morais - AMORES


MEMORIAS DA ILHA - Crónicas - Por Manuel Fragata de Morais - AMORES

 Os subordinados há muito que o aguardavam, impacientes, às vezes até barulhentos. Sempre atrasado, talvez pensasse que quem não chega atrasado não é reconhecido.

Coisas da infância, quem sabe, talvez alguma rejeição pela qual todos pagavam.

 A porta abriu-se e ele entrou, erecto e sorridente, como sempre. O silêncio desceu natural, enquanto todos se levantaram.

Bem, quase todos.

O Nandinho, como não ultrapassava o metro e quarenta, (precisos 140 centímetros, o bilhete de identidade estava lá para o comprovar), permanecia sentado. De pé ou sentado ninguém o percebia, portanto...

O chefe, um general aposentado precocemente, com gesto magnânimo de mão, comandou as tropas, (as minhas tropas, como ele gostava de referir em reuniões restritas) para se sentarem.

- Estou com um ligeiro atraso...

 Logo o Nandinho se levantou e, empertigado, falou:

- Não chegou atrasado, senhor Presidente Director Geral...



O FANTASTICO NA PROSA ANGOLANA - Por Manuel Fragata de Morais - ISAQUIEL CORY - O ULTIMO FEITICEIRO


O FANTASTICO NA PROSA ANGOLANA - Por Manuel Fragata de Morais - ISAQUIEL CORY - O ULTIMO FEITICEIRO

 Quem for a Catete, via Luanda, há-de encontrar, nos arredores de Mazozo, bem junto à dita estrada nova, em contraposição à outra, velha, inteiramente abandonada ao capim e aos passos infatigáveis dos camponeses locais, um embondeiro outrora majestoso, caído, derrotado pelas forças humanas da destruição. Foi a partir daí, dessa paragem que o povo chama do «Embondeiro Caído», que fui vencendo o longo percurso ravinado até à sanzala que viu os meus pais nascerem.

Ao longo do caminho seco e pedregoso, inadvertidamente, fui espantando os animaizinhos que se banhavam de sol.

Com as costas húmidas e encurvadas de cansaço e os olhos semicerrados parei, finalmente, diante de Mazozo. As primeiras casas, de pau a pique, estavam espalhadas, separadas umas das outras por largos e extensos de terreno coberto de capim. Galinhas e respetivas crias andarilhavam de um lado para o outro, à cata de alimentos. As únicas criaturas humanas visíveis eram algumas crianças de tronco nu, descalças, que se moviam com extrema lentidão.

Se em Luanda já notara uma certa lentidão no jeito como a vida se desenrolava, comparativamente a Londres, agora em Mazozo esse «não ter pressa» de nada, essa maneira rotineira e lenta de viver, dava-me a impressão de estar diante de um écran gigante com as imagens a passarem em câmara lenta. Interroguei-me se um écran desses, colocado em Mazozo, causaria o mesmo efeito que numa cidade. Captariam, os telespectadores locais o tempo e o ritmo diferente das imagens? Se as suas vidas já eram lentas não lhes ficaria melhor as imagens em câmara lenta?

Por breves momentos as crianças olharam-me com muita curiosidade mas depois retornaram às suas lentas brincadeiras. Chamei uma delas, que se aproximou devagar.

- Tudo bem? Onde é que mora o velho Chico Maria?

- O feiticeiro? – A criança, dos seus nove anos, falava num tom próprio dos naturais de Catete e denotava no seu português um forte sotaque kimbundo.

- Sim – respondi.





O soldado desconhecido - Crónica de Daniel Teixeira


O soldado desconhecido - Crónica de Daniel Teixeira 

 Naquele dia o Narciso chamou-me, ia eu passando em frente à Igreja dos Capuchos, em Faro, que estava de portas abertas o que era sinal de que havia lá um defunto a ser velado. Ele estava à porta da Igreja quando me viu e disse-me para ir ali «ver aquilo» e aquilo era um defunto no caixão vestido com um pijama de hospital.

Eu conhecia o moço, disse-me ele, mas eu não o consegui conhecer, não porque estivesse desfigurado mas porque não conhecia mesmo mas o Narciso insistiu que eu conhecia sim, que era um moço que morava para os lados do sítio do Escuro e que ajudava a Tia Adélia, a dona da taberna, a arrumar as grades das cervejas e noutros trabalhos mais pesados que ela já não podia fazer porque já era velhota, a Tia Adélia, e era viúva.

 Eu praticamente nem conhecia também o Narciso, ele é que me conhecia a mim, pode parecer estranho mas é mesmo assim, ele falava-me sempre como se fossemos conhecidos de longa data e eu não me lembrava de alguma vez o ter encontrado senão num dia em que ele foi receber uma renda de uma casa ao escritório porque a gente tinha ficado encarregados de receber essa renda e naquele dia apareceu ele e não a mulher dele como era costume e ele então disse: «Então és tu que estás aqui? Vê lá que a minha mulher nunca me disse que eras tu que aqui estavas!» e ficou muito admirado disso mas eu também não conhecia a mulher dele assim como ele pensava que eu a conhecia e nem ela me conhecia assim como ele pensava que ela me conhecia.


Os Carvoeiros de Lisboa - Crónica de Daniel Teixeira


Os Carvoeiros de Lisboa - Crónica de Daniel Teixeira   

Eu praticamente nasci ao lado de carvoarias aqui em Faro, não propriamente aquecido pelo calor das brasas, mas tinha um vizinho que era carvoeiro e que morava duas ou três portas ao lado da minha e que por sua vez tinha um armazém de carvão no Beco Ataíde de Oliveira, o senhor Faneca, onde eu ia comprar o carvão que fazia falta lá em casa e não era só em alturas específicas de churrascadas e coisas assim.

Tínhamos um forno na casa onde morávamos na altura e a minha mãe, montanheira de raiz, cozia muitas vezes o nosso próprio pão e por ausência de lenha usava carvão.

Para além disso havia os fogões a petróleo antes do gás se vulgarizar e o dito era também comprado maioritariamente na carvoaria. A mercearia da esquina também tinha petróleo à venda, num bidão encimado por aquelas bombas manuais, iguais àquelas que mediam o azeite, mas dava mais jeito comprar o carvão e o petróleo no mesmo sítio.

 Bem, antes de avançar para Lisboa, é preciso fazer notar uma coisa que normalmente é pouco difundida: algumas pessoas, sobretudo relacionadas com a venda de material energético ou com ele relacionado ou com uma incorporação grande de energia no seu fabrico, viram os seus stocks valorizarem-se exponencialmente durante o período da 2ª guerra mundial e, em parte por via disso, penso, o senhor Faneca era considerado pelo menos remediado.

Tinha casa própria, o que era uma raridade naqueles tempos mas continuava com o seu carro de mula a vender carvão de porta em porta. O carvão tem pó, como se entende, e o pó é preto como se deve saber ou calcular, pelo que o senhor Faneca quando regressava a casa depois de um dia de vendas e negócios, todo enfarruscado, entrava pela porta do quintal, despiria logicamente a roupa de trabalho, lavava-se e só depois entrava em casa. Eu não assistia a essas operações, como será claro, mas passado algum tempo do seu regresso a casa ele aparecia ou à janela ou à porta da frente impecavelmente trajado o que fazia adivinhar o seu percurso anterior.




 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

William Faulkner, A Fábula - Recolhido em contra mundum e ípsilon


William Faulkner, A Fábula - Recolhido em contra mundum e ípsilon


« Então fica com o mundo — disse o velho general. — Eu reconhecer-te-ei como meu filho; juntos fecharemos a janela sobre esta aberração e trancá-la-emos para sempre. Depois abrir-te-ei outra num mundo que nem César nem sultão nem khan alguma vez viram, que nem Tibério nem Kublai nem todos os imperadores do Leste alguma vez sonharam, nem Roma ou Baiae, um mero depósito para a rapina de salteadores e bagnio para uma derradeira exaustão de estruturas terminais dos seus axónios antes de regressarem aos seus desertos sombrios para arrancarem mais de um ou enfrentarem no lar as facas contratadas dos seus subalternos imediatos e ávidos para os curar da necessidade de ambos.» 1

 Poucas vezes um dos mitos fundadores da cultura ocidental terá sido reencenado com a força subversiva que encontramos neste livro tardio de W. Faulkner. Este é um romance que transporta para o século XX algumas das estruturas narrativas fundadoras do Ocidente: a figura do Filho, (o cabo — um Cristo obscuro e relutante) e a figura do Pai (o general — um todo-poderoso que funda o seu poder na recusa do próprio poder) são os centros de um relato de matriz bíblica complexo e perturbante.

Iniciado em 1944, em plena barbárie da Segunda Guerra, Faulkner regressa neste livro ao cenário da Grande Guerra para desenhar um exercício de resistência passiva: na manhã da batalha, diante da ordem de avançar, todo um regimento se imobiliza nas trincheiras. Pouco pode a máquina de guerra contra a vontade da não acção. Mais do que Bartleby, há aqui uma subversão da ideia de poder e de civilização. Viralmente multiplicável, mais destrutiva do que a própria destruição, a inscrição do indivíduo e da vontade no interior da máquina de guerra coloca a nu a natureza da civilização.




 

 

TEMPORARIO 12-Destin Cretton- E.U.A. - 2013 - Recolhido em Cine Clube de Faro


TEMPORARIO 12-Destin Cretton- E.U.A. - 2013 - Recolhido em Cine Clube de Faro



 FICHA TECNICA

 Realização: Destin Cretton
 Interpretação: BrieLarson, Franz Turner, John Gallagher Jr.
 Ano:2013
 Duração: 96 m
 Origem: E.U.A.



 SINOPSE

 Num centro de acolhimento para adolescentes problemáticos, o dia-a-dia é vivido entre dramas, traumas e também algumas vitórias. A acompanhá-los está Grace (Brie Larson), uma supervisora dedicada e comprometida com a sua missão. No entanto, debate-se com os seus próprios fantasmas e, apesar de contar com o apoio incondicional de Mason (John Gallagher Jr.), seu colega e namorado, tem extrema dificuldade em confiar nos outros.

Um dia, dá entrada na instituição Jayden (Kaitlyn Dever), uma jovem tão dotada quanto potencialmente violenta. A força da ligação que se cria entre elas, associada a um acontecimento inesperado na vida de Grace, vai desencadear a libertação de que ela tanto precisa para se pacificar com o passado e, assim, conseguir abraçar o que o futuro lhe reserva.

 Escrito e realizado pelo norte-americano Destin Cretton, o filme acumulou várias distinções, incluindo o prémio para Melhor Actriz, para Brie Larson, no 66.º Festival Internacional de Cinema de Locarno.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Lisboa, 2 de Setembro - Retirado do Blogue «As leituras de Madame Bovary»


Lisboa, 2 de Setembro - Retirado do Blogue «As leituras de Madame Bovary»



Oslo, 31 de Agosto.
Não falta ali nada. Um homem de 34 anos perdido, ex-toxicodependente tenta regressar à vida. Recomeçar do zero é impossível, os outros e ele próprio não perdoam. Os outros que também estão no mesmo barco à deriva, e que não admitem que alguém esteja mais partido que eles. Todos fodidos, náufragos pouco solidários: importa manter a farsa e seguir andando. O homem é apenas a baixa mais evidente, a braços com um problema comum que excede a heroína. A droga nunca é o problema. Antes a solução. Existem outras: o trabalho, a televisão, o casamento, os filhos, blá-blá.

E qual é o problema do homem, afinal? O problema é ter nascido numa época descomplicada, obrigado ao sucesso e à felicidade. E é ser demasiado inteligente, ver e dizer o que não pode ser visto nem dito. Ter desprezado a idiotia da felicidade para aprimorar um talento que não pode cumprir porque quando nos pomos a cismar mais do que os outros caímos no buraco e então, é o ver-se-te-avias para tornar a subir e regressar ao mundo dos vivos.

 Falta ali tudo. Naquele olhar descrente de quem sonhou uma vida diferente, uma vida mais próxima do extraordinário, da beleza, e soçobra todos os dias perante a realidade chã, crua e pobre. As pessoas e as coisas opacas, incapazes de devolver qualquer sentido.

«São coisas que nunca se mostram nos filmes: o sentimento de não saber porque é que estamos perdidos, apesar de termos vidas confortáveis ou de virmos de famílias privilegiadas.»

«Nos meus filmes, tenho falado sempre da «dupla vergonha» de fracassar, ao não se conseguir fazer aquilo para que se tem talento no contexto de uma vida privilegiada num dos países mais ricos do mundo, e de não ter razões de queixa. Fracassar na Noruega é uma dupla vergonha: com o mundo como está tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?»



Um bom livro é difícil de encontrar - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Um bom livro é difícil de encontrar - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»

Como no amor, talvez existam livros que se impõem como paixões maiores, diminuindo a eventualidade de arrebatamentos fátuos.

Tenho lido muito. Quando me deito na cama para descansar os ossos dos múltiplos alugueres quotidianos e ler, é como se o tempo se dilatasse de forma milagrosa. E às vezes, consigo ler um livro inteiro nessa hora. No entanto, jamais pouso numa palavra para voar e adormeço invariavelmente como que envolta numa tristeza pós - coital, não sabendo o que fazer desse novo silêncio que fica após cada livro. Nem sabendo como o nomear: deserto, morte ou paz?

Sinto-me uma leitora insípida, frígida como uma estátua. E é tão difícil viver sem um livro bonito. A vida parece mais absurda e os dias surgem aflitivamente habituais, como se toda a hipótese de uma cumplicidade se tornasse insustentável. Tento entender as razões desta esterilidade. A primeira que me ocorre é culpar o Crime e Castigo de Dostoiévski. O meu livro mais amado. Durante anos temi a sua leitura, dezenas de vezes li o primeiro capítulo e dezenas de vezes desisti, tomada por um mal-estar que passava das letras para a minha pele.

Foi na sequência de um desgosto amoroso que consegui ter força para me confrontar com a revolta de Raskólnikov. Rodion Romanovitch Raskólnikov, ainda hoje não consigo dizer o seu nome sem me deliciar com a sua subtil aspereza. Nunca me senti tão próxima, tão fisicamente solidária com uma personagem como nesse Outono. Com o coração em carne viva, nada importava, porque todas as noites me reunia nos teus braços, Ródia, e era-me impossível não te amar no teu desacordo íntimo com o mundo e orgulho ferido.

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O universo (também) conspira a favor... - Texto de Edvaldo Rosa


O universo (também) conspira a favor... - Texto de Edvaldo Rosa 

 Volto às letras para dar ciência a outros sobre certos mistérios da vida...
 O cenário, terminal interestadual de ônibus de Taubaté, numa tarde quente, onde existe uma estátua de Monteiro Lobato, junto aos seus personagens clássicos...

 Os presentes, todos de passagem no local, eu, minha esposa, que diante da estátua, presenciamos a chegada de três jovens, um menino e duas meninas...

 O fato, o jovem faz uma leitura de poemas de Carlos Drummond de Andrade, e éramos a sua inesperada platéia...

 Terminada a declamação do jovem, pedi licença, tomei Carlos Drummond pelas mãos, e declamei o seu poema «No meio do caminho» , tomando a liberdade, com imodesta ousadia, de apresentar uma improvisação a partir dele... E por fim nós nos apresentamos!

 Quanta emoção tomou conta de todos os presentes!

 Estava diante de três jovens que comungam entre si a possibilidade de uma vida inteira, cheias de desafios, vicissitudes, mas também de possibilidades de progresso.
 Aqueles jovens são sementes de esperança nesta terra continental chamado Brasil! – Como tantos outros!
 Jovens que se aproximando de mim, e tomando ciência de minha lide com as letras, bendisseram a providência, o acaso, o universo, pelo encontro inesperado!




E às vezes tenho receio da vida. Da Minha Vida! - Prosa poética por Pena


E às vezes tenho receio da vida. Da Minha Vida! - Prosa poética por Pena

Retirado do Blogue Memórias Vivas e Reais

As flores. A harmonia. A pacatez. O silêncio, fazem-me sentir e pensar. Numa tranquilidade de encanto e pureza. Que faz a «triagem»do meu Ser.

Tenho a certeza que «Habito» um Universo. Um Firmamento feito de preciosas e fantásticas pessoas perfeitas. São como estrelas cintilantes. Majestosas. Resplandecentes de brio e intensidade extraordinária. De uma sensibilidade marcante. Constantemente doce. Muito terna.

Tenho um receio imenso da vida. Da minha vida. Dos afectos que me transmitem. Sentidos. Presentes. Adoráveis e magnificentes. Que desmaiam no que sou num choro sentido de gratidão sincera.

Ajo sempre com o coração «entalado»no seu lugar preciso de apreço. Em que «construo»e me preocupo em executar poesias singelas, sem ser um poeta a sério. Que brotam do meu sentir com esforço. Esconderei sempre os meus versos em mim. De encontro ao meu peito. São meus.

Deliciosamente meus. Se os divulgasse rir-se-iam deles. Sei disso. Tenho um receio imenso da vida. Do que possam apurar. Do que possam desvendar. De entender que a poesia que faço não é poesia. Nunca serei um poeta, sabem?

Escondo-me. Escondo a poesia que sai do meu eu apressado. Oh, como ambicionava mostrar tudo o que possuo? Tudo, mesmo.

A poesia que «construo» dedico-ma. Não extrai o meu coração porque não pode? Direcciono-a ao meu esquecimento porque «entro» nela. Não sei sequer se vive de sobriedade. Bom - Senso. Se revela a minha Alma que vive a sonhar. Sonha, isso tenho a certeza. Sim? Absoluta.

Não sou um poeta. Sou somente um poeta de mim. Vive. Reage. E é.


 È às Vezes Tenho Receio Da Vida. Do choro poético da minha vida.
 Creio que faço bem em a esconder. Sim! A poesia! A poesia que faço só para mim.



Canalhas estão sempre presentes - Texto / Crónica de Jorge Sader Filho


Canalhas estão sempre presentes - Texto / Crónica de Jorge Sader Filho

 
O mundo tem conhecido, ao longo dos tempos, uma série de homens que passam destruindo tudo e todos.

 Não tenho intenção de fazer história, e muito menos a capacidade para tal fato. Sou apenas um observador atento.

 Como surgem estes símbolos do mal, geralmente deificados pelo povo? Não é muito difícil a resposta, embora sempre incompleta. O momento em que passa determinado povo é propício ao aparecimento deste tipo canalha. Ao fundo, o espírito de símbolos guerreiros escondem a revolta do povo, que procura solução em verdadeiros falsários e oportunistas espertos.

 Todo canalha tem a sua hora e a sua vez. Ele não surge do nada, mas de situações quase sempre esperançosas de grande melhoria. Quem não conhece os nomes de Júlio César, Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler, Mussolini, Stálin e tantos outros? Que foram estes homens? Todos símbolos do mal, da crueldade, da tirania e, sobretudo, da vaidade. Mas, por incrível que pareça, todos gozaram de grande prestígio da massa, no tempo em que se encontravam no poder. Alguns são idolatrados até hoje, como Napoleão. O corso matou grande parte da juventude francesa, dilapidou o Tesouro e é ainda reverenciado por muitos franceses como herói nacional.

 Passando para tempos mais recentes, os exemplos também se multiplicam. Castro tomou o poder em Cuba heroicamente, mas o sonho tomou a sua mente e ele não admite outro em seu lugar, até hoje. Tem seus seguidores. O cretino Hugo Chávez, inculto e idiota como o seu parceiro nacional Luiz Inácio, licitamente assumiram o maldito poder que corrompe as mentes. Ambos, convém lembrar, contam com o apoio de grande parte da população.

Este fato nada significa. Enquanto mantinha Auschwitz em plena matança, Hitler também era admirado pelo povo alemão. O mito Stálin está ressurgindo na Rússia com força espantosa, atemorizando o presidente Vladimir Putin, antigo diretor - geral da KGB, o serviço secreto do mundo comunista.


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Poesia de Maria da Fonseca - Na Primavera; Sinais da Primavera ; O Cantar dos Passarinhos


Poesia de Maria da Fonseca - Na Primavera; Sinais da Primavera ; O Cantar dos Passarinhos   


Na Primavera



Sol e chuva a alternar
 Neste sábado feliz.
 Nosso clima a amornar.
 No jardim, lindo matiz.

 Verde relva colorida
 Por espontâneas singelas,
 Viva, farta, acontecida,
 Ao olhar pelas janelas.

 Enquanto as flores se movem
 Ao sabor da viração,
 Os meus olhos se comovem
 Ao ver o melro no chão.

 A buscar o seu sustento
 Por entre a folha crescida,
 Sinto que apesar de atento,
 Não encontrará comida.

 Costuma saltar ligeiro,
 Quando se apara a folhagem,
 E correr, sendo o primeiro,
 A aproveitar da vantagem.

 Mas com o corte fatal
 As florzinhas partirão.
 Bem pouco tempo afinal
 O belo Sol louvarão.

 Mãe natureza é assim
 Neste cantar de poeta.
 Nem mesmo no meu jardim
 A harmonia é completa!

 Maria da Fonseca



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sábado, 5 de abril de 2014

Jornal Raizonline nº 247 de 5 de Abril de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Aquilo que interessa


Jornal Raizonline nº 247 de  5 de Abril de 2014 - COLUNA UM -  Daniel Teixeira - Aquilo que interessa

Aquilo que interessa a este jornal, segundo os retornos  que vou tendo e coleccionando é de facto ir fazendo deste jornal um jornal cada vez melhor, tendo sempre como ideia basilar prestar um serviço de qualidade aos nossos leitores. Não temos muitos...

Quer dizer, não temos tantos leitores como tivemos nos nossos tempos iniciais, em que o jornal era uma novidade, em que nalguns casos descurámos por vezes a qualidade dos trabalhos publicados em favor do número alcançável de leitores e em que tivemos um circuito pouco renovado de novos aderentes, uma vez que os que tínhamos eram, em certa medida, bastantes.

O caminho por onde temos ido enveredando desde há algum tempo pretende corrigir uma rota antes seguida que se pontuava por circuitos fechados que se foram estreitando em amplitude e número à medida que o tempo ia passando.

Tivemos no nosso jornal casos muito diversos em que a resposta dos nossos colaboradores desse tempo não correspondeu àquilo que esperávamos: quer dizer, se temos a agradecer a muitos dos nossos colaboradores também temos que reprovar alguma falta de solidariedade de alguns que, na nossa ingénua lógica, seria expectável.

Não há mundos ideais, sabe-se desde há muito, e por aqui também se sabia isso, mas mantivemos sempre a esperança de que haveria uma possibilidade ainda que pequena de obter uma melhor resposta de alguns dos nossos colaboradores de então. Nem sempre aconteceu.

Esta nossa, ainda que lenta, viragem para um público maioritariamente mais compreensivo e com uma maior qualidade, tanto nos trabalhos apresentados como no apoio que nos dão, acabou por se tornar imperativa, porque na verdade sentimos que não se justificava estar a manter uma qualidade menos boa no jornal, ainda que mantivéssemos uma qualidade global razoável, pelo menos, intercalando nas publicações trabalhos de maior qualidade com outros de menor qualidade.




 

Cornélio Pires - Um caipira ilustre - Autoria: Cecílio Elias Netto


Cornélio Pires - Um caipira ilustre - Autoria: Cecílio Elias Netto

Quando se fala em folclore, fala-se, também, de alguns caipiras ilustres. Cornélio Pires foi um deles. Poeta, humorista, folclorista, trovador, músico, repentista, Cornélio Pires nasceu em Tietê (SP) em 13 de julho de 1884, falecendo em São Paulo no dia 17 de fevereiro de 1958. Por sua vontade, foi sepultado no Cemitério Municipal de Tietê.

De família pobre e protestante, era, porém, descendente de figuras ilustres como Pedro Taques e Brás Cubas. Viveu a infância em bairro rural onde aprendeu as primeiras letras com professores particulares. Para sobreviver, exerceu as mais variadas atividades: ordenhava vacas, entregando o leite na cidade, foi caixeiro, aprendiz de tipógrafo, mestre-escola, agente de negócios, rábula, revisor, professor de ginástica, oleiro, plantador de algodão, comerciante, industrial, sempre ganhando muito pouco.

Ainda criança, montou um circo em sua própria casa. Era naturalmente engraçado, sendo lembrado, pelos que o conheceram, como uma figura quase cômica. Ele próprio se retratou: «feio, de testa curta, cabelos à Gorki, nariz pequeno e arrebitado, maxilar inferior saliente, beiçudo e de olhos muito azuis, uns olhos de criança.»


Foi levado a São Paulo, em 1904, por uma tia, Belizária Ribeiro – viúva do escritor e filólogo Júlio Ribeiro («A Carne») – que lhe garantiu os estudos. Foi na casa da tia que escreveu «A Musa Caipira», com a qual estreou na vida literária ainda que seus primeiros trabalhos tenham sido publicados no semanário «O Tietê».

Colaborou, nesse tempo, com a famosa revista «O Malho», do Rio de Janeiro, onde sua irreverência chamou a atenção dos críticos. Trabalhou, ainda, na revista «A Cigarra» e em jornais de São Paulo, Santos, Botucatu, São Manuel e Piracicaba. 




 

A lenda da Prímula ou Primavera - Texto de Dulce Rodrigues



A lenda da Prímula ou Primavera - Texto de Dulce Rodrigues 

 A Primavera é anunciadora de renascer e com ela assistimos, com efeito, a um recomeço do ciclo natural das estações. A Natureza acorda da letargia a que a submeteu o Inverno, maravilhando-nos com uma profusão de cores – as das flores.

 De entre essas flores, distingue-se a prímula. O nome botânico desta flor vem da palavra latina primula, que significa «a primeira» e indica que esta planta é uma das primeiras a florir na Primavera em certas regiões mais frias. Mas também se lhe chama «primavera», nome que vem do Latim primo vera e que significa «no princípio da Primavera».

Existem várias lendas associadas a esta flor, mas a que vos vou contar refere-se sobretudo a uma variedade espontânea, de cor amarela, cuja forma como as flores se apresentam dispostas na planta faz lembrar um molho de chaves.

 Segundo a lenda, São Pedro – o guardião da porta do céu – estava um dia muito sossegado a fazer a sua sesta, quando ouviu um barulho vindo da porta das traseiras. Alguém estava a tentar entrar no céu por essa porta, em vez de usar a porta da frente, da qual ele tinha as chaves.

 Ainda um pouco estremunhado, São Pedro levantou-se e foi ver o que se passava. Mas estava de tal modo ensonado, que o molho de chaves lhe caiu das mãos e foi parar à terra. Então – ó milagre – o molho de chaves criou raiz e daí surgiu uma linda planta com flores amarelas.

 Como se estava na Primavera e essas foram as primeiras flores a aparecer, ficaram a chamar-se primaveras ou prímulas. Como se diz que nasceram do molho de chaves de São Pedro, em alguns países existem variantes do nome: na Alemanha chamam-se também «pequenas chaves do céu»; na Inglaterra são conhecidas por «flor das chaves»e também por «planta de Pedro»; na mitologia nórdica, a flor era dedicada à deusa Freya, a Virgem das Chaves, mas quando esses países do norte da Europa se tornaram cristãos, o culto foi transferido para Nossa Senhora e a planta passou a chamar-se «Chaves de Nossa Senhora» e também «Chaves do Céu».




Poesia de Virgínia Teixeira - Nevoeiro; Dragão


Poesia de Virgínia Teixeira - Nevoeiro;  Dragão  

Nevoeiro

 Ela pensa que no nevoeiro denso vai encontrar o que procura
 Pensa que nas nuvens gordas de irritação se esconde um abrigo
 E que ao mergulhar no nevoeiro cinzento vai encontrar uma cura
 Acha que as nuvens escuras a podem esconder de todo o perigo

 Ela pensa que no mar calmo de nuvens celestiais vai encontrar o que procura tanto
 Não percebe que o nevoeiro, gordo de saudade e revolta, carrega apenas profunda tristeza
 Ela não sabe a agrura que cobre de fel as nuvens curiosas, como um angustiado manto
 Elas que, curiosas e alvas, desceram do Céu para espreitar, em busca de um mundo de beleza

 E se viram aprisionadas à lama do mundo desleal, sujas e manchadas de Humanidade
 Mas Ela… Ela não sabe, Ela não ouve os lamentos, não cheira a dor que vagueia pelo ar…
Ela, cega de esperança e desespero, abre os braços sem hesitar, e reza por Liberdade

 Ela salta sem temer, porque o peito já não tem lugar para o receio nem quer duvidar
 E quando se encontra no ventre do nevoeiro, escuro e fétido, sabe que encontrou
 Ali, naquele ventre estéril Ela encontra o Nada que procurava, a paz por que tanto ansiou…

Poesia de Arlete Piedade - AMANHECER; A NOITE!; MOMENTOS


Poesia de Arlete Piedade - AMANHECER; A NOITE!; MOMENTOS 

 

 AMANHECER

 

Depois de uma noite escura
 chega sempre o amanhecer
 a infelicidade encontra cura
 na alma límpida a florescer!

 Transparece doce esperança
 nas cores do céu ao alvorecer
 a madrugada traz a confiança
que em breve o sol irá nascer!

 Chispam raios de luz colorida
um espectáculo cada manhã
 Deus nos dá, sem pedir nada...

 a amizade cura toda a ferida
 amigo irmão, amiga tua irmã
 juntos esperando a alvorada...

 Arlete Piedade Louro.


Tão linda que é a Paula - Conto de Daniel Teixeira


Tão linda que é a Paula - Conto de Daniel Teixeira 

E é assim como vou dizer que as coisas se passam e devo logo dizer que há muito tempo que não escrevo, assim como estou a escrever agora e que não sei se vou conseguir dizer tudo o que quero, mas vou tentar, vou tentar ser claro, vou tentar fazê-los compreender como as coisas se passaram, todas as coisas, desde que conheci a Paula.

E é linda, ela, muito linda e ainda hoje acho que ela é linda mesmo que não a possa ver lá onde ela está todos os sábados, precisamente às dez horas da manhã, quando vou vê-la. Quer dizer eu posso vê-la, posso olhar para ela, posso ver se a sua face se alterou e posso saber até que ela hoje é ainda mais linda, sempre mais linda, porque isso é possível, é possível que uma pessoa linda seja cada vez mais linda, mas isso não posso descrever aqui porque embora a veja não posso vê-la como me vejo a mim mesmo e nem sei se ela me pode ver a mim.

Tenho que imaginar a Paula e só posso imaginá-la assim, cada vez mais linda sem a ver vendo-a na mesma. Não me explicaram isso e deviam explicar como é que aquele vidro grosso que nos separa todos os sábados, às dez horas, infalivelmente às dez horas, porque é que aquele vidro grosso não me deixa vê-la mesmo, assim como me vejo a mim.

 Deviam explicar isso às pessoas, acho eu, deviam dizer quem vê quem através daquele vidro grosso e se nenhum dos dois pode ver o outro. Deviam explicar isso muito bem, deveriam dizer-me a mim e eu não sei se eles não me disseram a mim e não explicaram também à Paula. Por isso acho que eles não devem ter explicado a nenhum de nós como as coisas se passam.


A Mulher na cidade do homem - Texto de Sophia Mello Breyner Andresen


A Mulher na cidade do homem - Texto de Sophia Mello Breyner Andresen

Retirado de Livres Pensantes 

  «[...] Quando olhamos para o passado vemos que a contribuição da mulher no mundo da criação é muito limitada. As leis, a filosofia, a matemática, a pintura, a arquitectura, a escultura, a música foram quase exclusivamente criadas por homens. A mulher aparece nalgumas artes como intérprete, raramente como autora.

 Isto «parece mostrar» que a capacidade criadora da mulher só existe em planos secundários ou subsidiários.
 Mas há uma excepção que nos coloca no centro do problema.
 Esta excepção é a poesia.

 Sapho, Emily Brontë, Emily Dickinson, Louise Labé são poetas na plenitude da criação. Para além do tempo e das mutilações, um fragmento de Sapho conserva aquele poder de invocação total que é a marca de fogo da grande poesia. E da nossa época não poderei deixar de citar Edith Sitwell, Nelly Sachs, que este ano recebeu o prémio Nobel, Gertrude Von Le Fort, que é um dos grandes poetas da transcendência, e Cecília Meireles que é um dos cimos da moderna poesia brasileira.

 Esta excepção que a poesia é coloca-nos no centro do problema por duas razões: porque nos esclarece sobre a situação da mulher, porque nos esclarece sobre a natureza e a vocação de humanidade total da mulher.

 A poesia é a arte que menos depende da contingência. Para escrever um poema é preciso ser poeta e depois basta um papel e um lápis.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Dentes Alvos - Conto de Daniel Teixeira


Dentes Alvos - Conto de Daniel Teixeira

 Eu acho que há sempre um sinal, um pormenor, um detalhe ou mesmo uma conversa que guardamos na memória primeira que temos de uma pessoa, de um acontecimento ou de qualquer coisa.

Deve haver, penso eu, no nosso cérebro e na nossa organização das memórias assim como que um elo de ligação escondido que desperta espontaneamente quando se fala de alguém, de um caso, de uma coisa ou quando não se pensa em nada, mesmo. E é quando essa memória, esse indício, aparece por acaso, não sendo nunca um acaso.

E esse sinal ou esses sinais aparecem, no nosso entendimento, como se não devessem estar ali. Mas estão ali, connosco, e vêm não se sabe como nem donde.

Tenho sempre dito que o nosso sistema mental funciona assim um pouco por cábulas, por indícios, por pequenos detalhes, por pequenas coisas que abrem a porta ou a gaveta onde está guardado o grosso da nossa memória de cada caso, caso a caso.

Só que essas cábulas, esses indícios que despoletam o resto daquilo que vamos pensar a seguir são assim como que um segredo da nossa mente, um mistério que só ela, a nossa mente, sabe interpretar. Nós não, não sabemos isso, conscientemente nem damos por nada e tudo se passa por um processo que nos ultrapassa.

Acho que é bom referir isto antes que comece a contar esta minha história, e é bom que saibam também que aquilo que acontece com todos nós é isso, uma coisa assim.

Por isso me lembro que me lembrei da Aline por causa dos seus dentes brancos, dos seus dentes extraordinariamente alvos e lembro-me que senti logo em seguida a ideia de que ela fumava. Via-a aliás, vi a Aline ali ao pé de mim a fumar.

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Poesia de Pedro Du Bois - Ultrapassagem; Vidraças; Províncias


Poesia de Pedro Du Bois - Ultrapassagem; Vidraças; Províncias    



 Ultrapassagem

 

 Ultrapasso
 a mediocridade inerente
 ao tempo: discorro
 sobre o tema
 arbitro
 sentenças e ouço na música
 os compassos derradeiros.

Vergo a madeira
 em extremo gesto.

A forma na conformação
 da hora ultrapassada
 em proezas. Ouço
 o recado e o apago.

(Pedro Du Bois, inédito)



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A Fita Branca (2009) - Texto Recolhido em Cinema Pela Arte


A Fita Branca (2009) - Texto Recolhido em Cinema Pela Arte

«O holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura.» — Zymunt Bauman

 Castigo e crime?

 Quero contar os fatos estranhos que aconteceram na nossa aldeia. Talvez eles possam esclarecer uma série de acontecimentos que sucederam neste país, revela a voz vacilante do narrador, pronto para compartilhar suas reminiscências.

A adoção do explícito para o andamento do tão comentado «A Fita Branca” (2009) não é uma meta para Michael Haneke, diretor que prima por expor sem tergiversações a tão disseminada perversão humana.

Se em «Caché» (2005) é a possibilidade do perigo iminente que faz o passado do protagonista vir à tona, agora o passado é o próprio ambiente, é o campo de ação do medo e do perigo aterrorizantes. Os derradeiros dias de tranquilidade de um vilarejo alemão prestes a ser afetado pela Primeira Guerra Mundial são suprimidos. Um acidente incompreendido, envolto em mistério, posicionado como evento introdutório, é perfeito para reter a atenção do público.

E é apenas o começo, o limiar de um tempo funesto. Aqui, na micro-sociedade de outrora, estão presentes importantes figuras responsáveis pelo bom funcionamento da engrenagem social, como o barão, o médico, a parteira, o pastor protestante e o professor, e como não poderia faltar, ao redor de todas elas está um grupo de crianças, todas tão opressas quanto curiosas. Cabe ao espectador analisar a desordem psicológica muito bem organizada por Haneke.



 

Poesia de Liliana Josué - QUIS ; MENINA/MULHER




Poesia de Liliana Josué - QUIS ; MENINA/MULHER

 QUIS

 Quis fazer um poema alegre para te dar
 mas o eco das memórias
 agarrou-me o peito
 como febre delirante
 dum tempo de esgar doente

 Quis oferecer-te o puro branco do esquecimento
 mas a aranha preta do pensamento reapareceu
 e os dias cinzentos voltaram
 como sombras rastejantes
 roubando aquele momento
 em que o sol brilhava tanto

 Quis que voasses feliz
 na tenra idade e em adulto
 tal mérito não consegui
 porque a infeliz sombra doentia
 barrou meu caminho até junto de ti

 Mas, queres vir comigo agora mesmo
 num constante e doce abraço
 olhar os pássaros, as flores, o mundo
 e ambos de mãos dadas, renascidos
 vivamos esse instante eternamente.

 Liliana Josué



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Queria ser o teu sonho - Texto de Joaquim Nogueira


Queria ser o teu sonho - Texto de Joaquim Nogueira 

«…Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso… a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim… brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras… a beleza em ti não residia nem morava … era!…

A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar… a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade… e tu, demoravas… da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam… e a tua cama, ansiava pela tua presença… e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo… levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença… olhaste de soslaio e sorriste… sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria…


A estranheza - Conto de Daniel Teixeira


A estranheza - Conto de Daniel Teixeira

 O Vasconcelos vivia numa habitação toda em madeira – tinha-me dito o homem já com ar de reformado que andava por ali e tinha uma enxada – e era em madeira polida, vi eu depois, era em madeira polida e brilhante, onde o sol batia naquela hora em que lá fui e onde quase se via a nossa imagem na parede.

Era uma casa que parecia não ser uma casa ali posta para que pessoas vivessem nela e se sentissem bem embora tudo estivesse bem, tudo estava certo e a casa era perfeita mesmo, bonita, mas mesmo assim dava aquela sensação de ser provisória. Não parecia um lar, não era um lar mas quem ali vivia talvez visse nela um lar, não sei, nunca soube.

 Depois, quando o vi a ele, Vasconcelos, quando o vi tal como ele era fisicamente, a sua casa acabou por se tornar também tão esquisita quanto ele, coisa que eu talvez nem reparasse ou não pensasse muito nisso se ele tivesse uma figura normal.

Talvez por ser em madeira, por estar implantada sobre estacas, por se verem as suas fundações logo ali, por elas darem aquela sensação de nudez estrutural, aquela sensação de vazio, aquela sensação de ser, não sendo, uma casa.

Aquela casa não parecia uma casa onde pudesse viver outra pessoa senão ele mesmo, o Vasconcelos e ele, com a sua quase nudez, talvez ele a considerasse um lar. Mas nunca lhe perguntei e nunca fiquei com a sensação de que ele pensava isso. Acho que não, que não pensava isso.

A estrutura de uma casa como a estrutura de uma pessoa devem ficar escondidas pelos tecidos, pelos acabamentos, ficando assim tudo o que é das suas fundações coberto e de forma a que se veja aquilo que faz de uma casa uma casa e de uma pessoa uma pessoa. Uma casa e uma pessoa devem mostrar a sua forma, não os seus ossos. 


Poesia de Abilio Pacheco - Retrato II; Andança; Habitação; Habitat; Construção


Poesia de Abilio Pacheco - Retrato II; Andança; Habitação; Habitat; Construção


Retrato II

A Cecília Meireles

Eu também não tinha este rosto
assim tenso, assim denso, assim calvo,
nem olheiras e rugas
nem cabelos alvos.

Eu não tinha estes olhos de agora
tão rubros, tão turvos, tão vagos,
nem esta mão incerta,
nem dedos fracos.

Mal venho notando esta mudança
que lenta, constante e suave
do espelho vem desbotando
a minha face.



Ciganos - Conto / Crónica de VIRGINIA TEIXEIRA


Ciganos - Conto / Crónica de VIRGINIA TEIXEIRA 

A erva cresce selvagem em ambas as margens do rio. Naquela zona parece alargar o caudal do rio e as margens separam-se mais, e o som do povo, tão ruidoso e alegre, não chega a galgar a outra margem.

Parecem parte da natureza, não são vistos nem ouvidos, e sentem-se seguros para ali ficar algum tempo. Montam as tendas com os panos envelhecidos mas ainda coloridos e distribuem as tarefas pelos homens, enquanto as mulheres se juntam na tenda maior e aquecem a comida nas grandes panelas que parecem vibrar quando são retiradas da caravana.

 As crianças brincam na beira do rio, fascinadas pelos seixos e peixes que abundam naquela margem, e ajudam os anciãos a pescar.

Seguem sempre o rio, não sabem já se por hábito apenas, e quando o começaram a fazer, mas não se recordam de o fazer de outra forma. Seguem o rio e descansam nas margens, onde podem banhar-se e lavar a roupa e as louças.

Ficam alguns dias, depois partem. Geralmente vivem das feiras ambulantes onde as mulheres se dedicam à leitura das palmas das mãos e ao Tarot, e os homens gritam pregões chamativos para vender peças de artesanato e roupas feitas por eles mesmos.

Por vezes, nas terras onde têm sorte, são chamados a actuar com os seus instrumentos e animar festas com a música que, apesar de considerada profana, é apreciada por grande parte dos boémios e burgueses cansados das normas sociais. 



quinta-feira, 3 de abril de 2014


ANTON TCHEKHOV - Mestre do Conto - Por : PEDRO LUSO DE CARVALHO

Escrever sobre Anton Pavlovitch Tchekhov, um dos escritores mais importantes da narrativa ficcional do género conto, de todos os tempos, poderia parecer pretensão demasiada caso o ato de escrever sobre ele não se constituísse em homenagem ao génio da história curta, como de fato se constitui esse preito.

Sendo assim, sinto-me à vontade para falar um pouco da sua vida e obra, começando por L. N. Tolstoi, o grande literato russo autor do épico Guerra e Paz, dos extraordinários romances Ana Karenina e Ressurreição, e do excepcional conto A Morte de Ivan Ilitch, que afirmou ter sido superado por Tchekhov como escritor na técnica da ficção, e por ter ele criado novas formas de escrever.

A vida de Tchekhov pode ser contada com maior ênfase a partir dos sacrifícios pelos quais passou quando criança, quando trabalhava por horas seguidas no armazém de seu pai, dormindo pouco e vendo sua saúde debilitar-se. Do seu pai lembrava-se das noites em que obrigava aos seus filhos a participar de cânticos e ofícios religiosos e da escravidão no armazém.

Até a idade de dezanove anos Anton Tchekhov viveu na cidade de Taganrog, pacata localidade no sul da Rússia, onde nasceu no ano de 1860. Após ter concluído o Liceu mudou-se para Moscou, três anos depois que sua família havia se mudado para a capital russa; aí passou a morar com a família numa casa velha desprovida de qualquer conforto, sem um único quarto, e localizada num dos bairros mais pobres da cidade.




 

 

Visita às Igrejas - Texto / Crónica de Lina Vedes


Visita às Igrejas - Texto / Crónica de Lina Vedes 

 Pela Páscoa, na altura da Semana Santa, era tradição, e toda a cidade se envolvia nela, visitar as igrejas de Faro, na quinta-feira à noite.

 O circuito percorrido era quase imposto, com naturalidade, devido à localização das igrejas a visitar – S.Pedro, Misericórdia, Sé, S.Francisco, Pé da Cruz, Carmo.

 Poder-se-ia iniciar por qualquer delas, indo para a esquerda ou direita, caminhando em carreirinha, uns atrás dos outros, encontrando outros, no mesmo percurso, em sentido contrário.

 Partindo da Misericórdia, passávamos o Arco da Vila, subíamos a R. do Município, atingindo a Igreja da Sé, com o largo iluminado a receber os farenses. Saindo da Sé íamos junto à Escola do Magistério Primário, actualmente desactivada, para o Largo das Freiras, hoje Praça Afonso III, sendo à data, o Convento de Nossa Senhora da Assumpção, um edifício fechado, descaracterizado, um armazém de cortiça. Passávamos debaixo do Arco do Repouso, que tinha 2 ou 3 habitações no seu interior, atravessávamos o Largo de S.Francisco em direcção à Igreja do mesmo nome.

 Após a visita, continuávamos pela R. dos Caçadores 4, cortávamos na R. Bocage até à Igreja do Pé da Cruz. Saídos do local, percorríamos a R. Pé da Cruz para alcançar a Pontinha e, onde actualmente existe o edifício da Comissão de Coordenação da Região do Algarve (CDR), era um descampado escuro. Algumas vezes, esse espaço serviu para a montagem de um barracão o «Teatro Desmontável»que muito animou os amantes de espectáculos.

E à Pontinha, virávamos para o R. Vasco da Gama, cortávamos para a Batista Lopes, derivávamos para a R. do Alportel junto do edifício dos Correios antigos, até ao Largo de S.Pedro. Atravessávamos o jardim e o Largo do Carmo, para a Igreja do mesmo nome. Descíamos, de novo, e encaminhávamo-nos para a R.Filipe Alistão, depois da visita a S.Pedro.


Poesia de Albertino Galvão - Primavera é poesia; Moinhos...


Poesia de Albertino Galvão - Primavera é poesia; Moinhos...

 
Primavera é poesia

 Há grilos, cigarras, em coro, cantando
essências e aromas invadindo casas...
 Cegonhas airosas em ninhos se amando
 no alto de postes em planícies rasas

 Há sol e há vida! Há prazeres indecisos
 remando´loucuras em mar sem marés...
 Há bocas esquivas de beijos e risos
 e mãos atirando um adeus dum convés

 Por ser primavera há orgias, odores
 Há paixões e cio agitando brasas...
 sopros de vento namorando as flores
 Luar e relento colorindo asas

 Há doces sorrisos em lábios molhados
 línguas com línguas, enroscadas, dançando...
 há sonhos acesos, amores encalhados
 desejos, sem par, à deriva, boiando

 Há um parto que acontece... que alegria!
 Pai e mãe que se comovem...que emoção!
 Com palavras se criam versos... poesia...
 Primaveras dum poeta em floração

 Abgalvão(21/3/2014)



quarta-feira, 2 de abril de 2014

Saudade


Saudade
Recolhido em Livres Pensantes

 «L’expression d’un sentiment est toujours absurde» Paul Valéry

 Regressar ao meu país é sempre um exercício de profundo prazer e de grande emoção. Senti-o inúmeras vezes. A sensação de retorno ao chão que nos é familiar supera a alegria do filho pródigo que regressa a casa.

Não foi um abandono. Não foi uma deserção. Não foi um malquerer. Não foi uma desilusão. Não foi um ponto final e nem sequer uma interrupção. Foi tudo e desse tudo nunca foi nada.

Foi um sair para voltar. Foi um deixar para retomar. Foi um adeus para acenar. Foi um partir para regressar. Foi um interromper para recomeçar.

E recomeçar é amar. E amar é redescobrir. E redescobrir é sonhar. E sonhar é estar aqui.

Aqui, com as palavras que se soltam sem comando . Palavras que acorrem para redesenhar uma saudação. Palavras que pretendem apelar. Palavras que gritam e acenam: estamos aqui. Sejam bem-vindos.

Neste espaço que esteve vazio, mas nunca ausente, retomo o meu país.

O meu país de dias claros e sol dourado ausentou-se. No entanto, o meu país permanece inteiro, igual ao dia em que parti. Cinzento, crispado, mergulhado numa Primavera chuvosa que pretende anunciar um Abril distante onde o sonho comandou e a utopia se esfumou.



A Religião - Texto de Miguel Carvalho, in Aqui na Terra


A Religião - Texto de Miguel Carvalho, in Aqui na Terra


«Foi no habitual mês de festas, romarias e regressos dos emigrantes para as vacances que o País se pôs a cantarolar o Pimba, já lá vão quinze anos. A moda pegou. E logo o termo foi adoptado para catalogar, a bem ou a mal, a nova roupagem da cantiga popularucha, de rima fácil, brejeira, provocadora.
 
A velha canção melosa e delicodoce ganhou então mais frenesim, baloiço de ancas e atrevimento. E à conta disso, Miguel Gomes, 34 anos, realizador, andou por Arganil, a recolher imagens de arraiais e festas. «Já filmei uma banda que tinha um bebé de seis meses em palco», diz o cineasta, apostado, nesta fase, no registo documental para o seu filme Aquele Querido Mês de Agosto.

 O melodrama é inspirado numa cantiga do mítico Dino Meira. O fundo musical é pimba. Ou, como prefere Miguel, «a música ligeira, romântica que se faz por aí». Para este trabalho, já ouviu mais de 300 canções e até ficou fã do grupo Diapasão. «Não tenho um olhar maldoso sobre este universo. Os sentimentos das pessoas que ouvem e gostam destas músicas são tão intensos e complexos como os de quem ouve Bach».

Se assim não fosse, Carina António, de 22 anos, nunca iria em peregrinação até à Palhaça, por ocasião das festas da Senhora da Memória. De óculos, cara redondinha, a jovem viajou de Santarém até àquela freguesia de Oliveira do Bairro numa noite de segunda-feira para assistir ao seu enésimo concerto de Tony Carreira, o quebra -corações do momento.