terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Criação do Mundo - Lenda Indígena (Brasil)


A Criação do Mundo - Lenda Indígena (Brasil) 

 Os índios Carajás, no princípio do mundo, viviam dentro do furo das pedras. Não conheciam a Terra. Eram felizes e tinham a eternidade, vivendo até avançada velhice, só morrendo quando ficavam cansados de viver.

 Um dia, os Carajás decidiram abandonar o furo das pedras, na esperança de descobrir os mistérios da Terra. Apenas um deles, por ser muito gordo, não conseguiu passar pelo furo da pedra, ficando nele entalado.

 Na Terra, que trazia uma escuridão sem fim, os índios percorreram todos os lugares. Descobriram frutos e comidas. Compadecidos do companheiro que ficara entalado no furo da pedra, levaram-lhe os mais saborosos frutos e um galho seco. Ao ver aquele galho seco, o índio entalado observou:

«O lugar por onde vocês andam não é bom. As coisas envelhecem e morrem. Veja este galho, envelheceu. Não quero ir para um lugar onde tudo envelhece. Vou voltar. E vocês deviam fazer o mesmo!»

E o robusto carajá voltou para dentro da pedra. Os outros continuaram a percorrer a Terra, que se encontrava nas trevas. Um menino carajá, junto com a amada, percorria a Terra em busca de alimentos. Como não havia luz, a amada sangrou as mãos nos espinhos, quando colhia frutos. O menino, na escuridão, comeu mandioca brava.


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Poesia de Maria Alvaro - O mar... ; Tensão; Nas Dunas da Ilha


Poesia de Maria Alvaro - O mar... ; Tensão; Nas Dunas da Ilha
 

 O mar...

 

 Veleiro ligeiro beija embevecido,
 excitado,
 de Tétis o seio cheio, acobreado
 e cúpido;
 E o Adamastor ora adormecido,
 prostrado,
 esquece seu furor e vira pr'o lado,
 estendido...
 Nas ondas eu sigo o seu lençol dourado
 e persigo
 estrelinhas piscando p'ra mim, deslumbrado,
 rendido...
 ...são olhos espreitando por um véu rendilhado
 e antigo
 de ninfas pintando e bordando comigo
 o meu fado...

 Maria Alvaro


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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Reflexão - Texto/Conto curto de Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto curto de Daniel Teixeira 

O terreno à minha frente está escuro, acinzentado. Parece que por ele passou labareda. E passou mesmo, digo-o a mim enquanto olho para aquele espaço tristemente defunto. Passou o fogo dos dias tórridos de um estio que não sei bem se destrói ou se purifica a terra. Ou faz as duas coisas, destrói e purifica, deve ser assim que as coisas se passam, penso eu agora.

Deve ser por isso que os traços do tractor revolveram as raízes do que quer que lá havia, e um tractor não risca os solos sem ter uma razão, uma lógica, um princípio. São assim os homens e os tractores, pensam de igual modo, pensam sempre o mesmo uns e outros.

 O homem e o tractor arrancaram ao que quer que ali havia o alimento que lhes vinha da terra e deixaram os caules de raízes expostas à sorte que se calhar todos os anos lhes é destinada. Eu não conheço os terrenos, não sei como as coisas se passam nas terras nem o que se passa dentro delas: apenas posso reflectir e é isso e só isso que faço.

 Se calhar estrumarão a terra, pode dizer-se, farão isso, entranhando-se mortos na terra e renascendo-se aos poucos aqui e ali quando as chuvas começarem a cair no composto. O solo matizar-se-á então naquele cinzento escuro com verde dos rebentos, primeiro, depois ficará tudo verde e não haverá mais cinzento queimado até ao ano seguinte.



A competência causa medo… - Texto de Irene Fernandes Abreu no Blogue Valium 50 - Macau- China



A competência causa medo… - Texto de Irene Fernandes Abreu no Blogue Valium 50 - Macau- China

A violência é o último refúgio do incompetente. (Isaac Asimov)

Não se atreva a ser «diferente» ao mostrar rasgos de compreensão, que mostrem ao «outro», que é inteligente e competente, porque a sua vida vai tornar-se muito complicada.

Não raro temos encontrado pela nossa vida, gente incrivelmente incompetente em lugares complexos, onde deveria haver alguém mais qualificado.Encontramos inúmeros exemplos de pessoas medíocres (e até idiotas), sem talento que estão bem na vida à custa do trabalho de outrem, porque teve a sorte de ter um «padrinho» ou um «amigo»que o colocou naquele lugar…

A maior parte das pessoas encostadas em posições políticas e de chefia são medíocres e têm um indisfarçável medo da inteligência. Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista dessas posições. Eles conhecem bem as suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna às costas.

Na medida em que admiramos a facilidade com que os mais lúcidos resolvem os problemas, os medíocres passam a vida a repudiá-los, para se defenderem. E é um paradoxo angustiante! Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.




Sortido de Anedotas - Recolhidas na Net


Sortido de Anedotas - Recolhidas na Net

 Se algum dia apanharem a vossa mulher com outro gajo na cama, primeiro ouçam o que ela tem para dizer, e só depois tomem uma decisão.
 Um sujeito, voltando de uma viagem de negócios, entra num táxi no aeroporto. Enquanto se dirigem para casa, pergunta ao taxista se não se importa de ser a sua testemunha, pois suspeita que a esposa tem um caso e pretende apanhá-la em flagrante.
 O motorista concorda e, ao chegarem silenciosamente à casa, sobem pé ante pé até ao quarto. O marido acende as luzes, arranca o cobertor e lá está a esposa dele na cama com outro homem. O marido coloca a arma na cabeça do homem nu.
 A esposa grita Não faças isso! Este homem tem sido muito generoso, menti quando disse que tinha herdado dinheiro. Foi ele quem pagou o BMW que eu comprei para ti, ele pagou também o nosso iate novo, foi ele quem comprou e mantém a nossa casa na Quinta do Lago, comprou o nosso título do Iate Ténis Clube!!! E PAGOU AS COTAS DO BENFICA PARA TODA A VIDA !!!
 Perplexo, o marido baixa a arma, olha para o taxista e pergunta O que é que você faria?
 O motorista responde: Eu cá tapava já o homem com o cobertor, antes que ele apanhe uma broncopneumonia!!!


domingo, 28 de setembro de 2014

Mayyahk (Pseudónimo) - Introdução e Poesia (A CARPA - Alexandre O'Neill; Soneto a propósito da Carpa de O'Neill - Mayyahk; Reza do Chacal na Praia do Namibe - Mayyahk


Mayyahk (Pseudónimo) - Introdução e Poesia (A CARPA - Alexandre O'Neill; Soneto a propósito da Carpa de O'Neill - Mayyahk; Reza do Chacal na Praia do Namibe - Mayyahk



Introdução:

O Mayyahk é um antigo colega da minha passagem pelos Fóruns que na altura eram as mais populares das plataformas sociais e culturais.

Conheci-o (virtualmente) nos Fóruns da Clix e do Sapo e com grande colaboração dele (e menos minha) desenvolvemos, com outros intervenientes também, um longo thread que durou largos meses senão mesmo mais um ano.

Tratou-se nesse thread (para quem não sabe é um conjunto de posts sobre o mesmo assunto) de dissecar os neologismos de Alexandre O'Neill no seu Poema «A Carpa» que ele introduz dizendo que é inspirado numa colagem de Marina Obo.

Na altura não houve a lembrança de procurar essa colagem desta pintora residente em Paris, pelo que se fizeram «às cegas» análises etimológicas quase profundas sobre os neologismos que na sua grande parte eram aglutinações de palavras feitas por Alexandre O'Neill.

PS: A foto que encabeça este título é de Omar Khayyam, poeta Persa, uma vez que o pseudónimo Mayyahk acima foi obtido através da inversão do último nome deste poeta.

Mas vejamos primeiro a colagem de Marina Obo e o poema de Alexandre O'Neill e em seguida teremos dois poemas de Mayyahk, um deles dedicado à Carpa de Alexandre O'Neill:



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Poesia e Prosa Poética de Daniel Camacho - Voz; Salgadas como as ondas do mar ; Vida (prosa)


Poesia e Prosa Poética de Daniel Camacho - Voz; Salgadas como as ondas do mar ; Vida (prosa)

 
Voz - Daniel Camacho

 

 Quando ousas soltar a concavidade do teu sopro
e te inspiras na leve ternura de teu clamor,
desvendas secretos murmúrios privados da dor.
Quando o intimo aperto suplica pela tua voz
de soprano nocturno, de velhos hábitos que giram
em torno de um dos anéis de Saturno,
vulcanizas violetas sem corpo,
ofuscas as pautas, as notas situadas
duas oitavas abaixo do ritmo que escalas,
num fuso que acompanho quando sinto a eloquente
presença da tua aragem, como se sentisse a maresia
e as ondas que rebentam na areia, naquele intervalo
onde aparas os cristais que encobrem as manhãs
que esmorecem na palidez do ilustre silêncio
e que perduram sempre tão solitárias
até a alma se arrepiar numa ária
de ilimitáveis rasgos puros do pensamento.


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sábado, 27 de setembro de 2014

Poesia de Liliana Josué - Três Momentos de Natureza Morta; Menina / Mulher


Poesia de Liliana Josué - Três Momentos de Natureza Morta; Menina / Mulher

 

Três Momentos de Natureza Morta



Empregada Doméstica



Maria, moça pequena e pernas roliças
 Avança decidida p’lo amplo mercado.
 Apalpa maçãs, tomates; escolhe hortaliças
 De semblante muito entendido e concentrado.
 Sem mais nem porquê surge-lhe a lembrança clara
 Do estúpido quadro na casa dos patrões:
 Que coisa tão sem graça e mesmo assim tão cara...
 Natureza Morta... ali, tudo aos trambolhões!



Um Casal Feliz



Certo casal mudo, quedo e talvez feliz
 Coabita numa casa muito arranjadinha.
 Ela, à noite, vê Morangos com Anis
 Ele, lê o jornal encostado à almofadinha.
 Ensonados e cada um no seu pijama
 vão p’ro branco quarto. Ela boceja, ele arrota
 E adormecem, pois p’ra mais nada serve a cama.
 Quadro perfeito duma Natureza Morta.



Futebol na TV



Entram todos muito apressados no café
 O grande desafio já tinha começado
 Exaltado alguém berra: - Belo pontapé
 Até o apresentador grita desgrenhado.
 A casca do tremoço o chão do café criva
 A cerveja nos copos espumosa exorta.
 Imagem ilusória de Natureza Viva
 Quadro bem concreto de Natureza Morta.

 (Poema temático para Antologia da Tertúlia Mensagem - Do Sonho Se Fez a Palavra)


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Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho


Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 



A Quem muito amei

 

 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes



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Poemas de Denise Severgnini - Quebra a mudez, dizendo eu te amo! ; Alma Outonal


Poemas de Denise Severgnini - Quebra a mudez, dizendo eu te amo! ; Alma Outonal



 Quebra a mudez, dizendo eu te amo!

 

 Quebra esta mudez atroz, dizendo eu te amo
 Este silêncio absoluto em ti é muito torturante
 Rompa as vestes afônicas quando te eu chamo
 Três palavras apenas, para sentir-me importante

 Silente, tu segues... E, impassível, vais adiante...
 Eu, angustiado, meu pedido indulgente, clamo
 Quebra esta mudez atroz, dizendo eu te amo
 Este silêncio absoluto em ti é muito torturante

 Como viver uma relação tão sem esparramo?
 Carece diálogo para um amor seguir relevante
 Conecta teu coração com o meu, eu proclamo.
 Junto a mim, experimenta a sensação amante
 Quebra esta mudez atroz, dizendo eu te amo...

 Denise Severgnini




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Viva a Itália, viva Garibaldi!!! - Por Arlete Brasil Deretti Fernandes


Viva a Itália, viva Garibaldi!!! - Por Arlete Brasil Deretti Fernandes

Três horas da manhã.

Pasquale tinha bebido todas, mesmo assim trocando as pernas acertou o caminho de casa. Enquanto caminhava estabelecia seu monólogo e oferecia seus brindes: - Per Baco! Per l´Itália, l´ Itália, Garibaldi!!!

 No caminho encontrou um vira-latas e disse-lhe:
- Tu, figlioli dum cane.
E Pasquale cantava a canção «Dall´Itália noi siamo partiti».

Ele entrou em casa, sem problemas, a porta sempre ficava encostada. Colocou na antiga vitrola uma música italiana e dirigiu-se ao quarto de dormir:

-Levanta, Colomba, vamo festejare L’Itália, Garibaldi.

 E ela obedecia. Para não incomodar-se mais. Dançavam muito, até Pasquale não agüentar mais e jogar-se numa poltrona.

 No dia seguinte Pasquale dirigiu-se ao armazém, distante de sua casa. Passou antes no bar. Tinha que tomar um vinho para afogar as lembranças de sua pátria que para trás deixou ainda criança.

 Depois de certo tempo, saia para a rua e fazia seu teatro com uma garrafa de vinho à mão:

- Per Baco! Viva l´ Itália! Viva Garibaldi!



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Canções do Ceguinho - Recolha e adaptação de Raizonline


Canções do Ceguinho - Recolha e adaptação de Raizonline

 As «Canções do Ceguinho» foi uma actividade cultural (sub-cultural para alguns) que quase caiu no esquecimento - embora haja ainda quem se lembre dos folhetos vendidos e cantados por cegos em mercados e romarias. Esses cegos, que se faziam acompanhar por uma concertina ou um bandolim, cantavam histórias de uma violência tão real que parecia inventada. Ao mesmo tempo vendiam folhetos que continham os versos e algumas ilustrações a condizer.

 Muitas vezes eram ajudados pela mulher ou por uma criança que estendia a mão à caridade. Outras vezes eram apenas acompanhados por um cão. Os folhetos inscrevem-se na tradição da literatura de cordel e são preciosos documentos sobre um quotidiano feito de violência: sangue, faca e alguidar.

Vem de muito longe a memória dos cegos papelistas que, por mercados, feiras e romarias, apregoavam casos estranhos, sucessos inauditos, virtudes hagiográficas e relatos noticiosos, às vezes prognósticos e adivinhações.

Tirando partido do lugar de sapiência e justeza que ao cego se atribui, anunciavam matéria oscilante entre a mistificação e a informação, entre a crendice e o pitoresco informativo, entre os casos conhecidos e as tragédias de folhetim, por vezes ao som rouco do harmónio ou da rabeca. 





Crónicas do Oriente - Por: António Cambeta - Macau / Tailândia


Crónicas do Oriente - Por: António Cambeta - Macau / Tailândia

 O primeiro português a chegar à zona de Macau 500 anos atrás chamava-se Jorge Alvares.

A chegada dos portugueses no Sudeste da China

 O primeiro português a chegar e visitar o Sudeste da China foi Jorge Alvares, em 1513. durante a Era dos Descobrimentos iniciada pelo Infante D. Henrique (O Navegador). Ele levantou um padrão com as armas de Portugal no porto de Tamau, localizado numa ilha vizinha de Sanchuão (ou Sanchoão), na foz do Rio das Pérolas, perto de Macau.

A esta visita seguiu-se o estabelecimento ilegal e provisório na área de inúmeros comerciantes portugueses, construindo edifícios de apoio em madeira que depois iriam ser destruídos quando os comerciantes, acabados de fazer os seus negócios, partiam. Os portugueses ainda não eram autorizados a permanecer, obtendo somente o estatuto de visitante.

 Em 1517, Fernão Peres de Andrade, o chefe de uma expedição portuguesa com destino à China, conseguiu negociar com as autoridades chinesas de Cantão a entrada do embaixador português Tomé Pires a Pequim e o estabelecimento de uma feitoria em Tamau. Mas, devido às atitudes bárbaras de Simão de Andrade (ele construiu uma fortaleza em Tamau e começou a atacar os barcos chineses), Tomé Pires foi preso e morto pelas autoridades chinesas de Pequim e o Imperador chinês proibiu o comércio com os portugueses.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Carla - Conto de Marcelo Torca


Carla - Conto de Marcelo Torca 

 Eu só me lembro de dois barulhos secos, e a minha mão ficar vermelha, logo em seguida, o meu pai cai ao chão, pedi para se levantar, mas ele estava morto.

Hoje tenho dezoito anos, e dez já se passaram, estou nesta clínica psiquiátrica para fazer tratamento, ainda não consegui recuperar dos traumas acometidos na infância, o meu nome é Carla, e sou paciente do Dr. Mário Alves, por sinal um grande psicanalista, com ele estou conseguindo dar certos avanços, com esforço estou recuperando, estou cursando a oitava série, e finalmente acredito estar conseguindo aprender e controlar os meus instintos.

Dei vários problemas na escola, minha mãe precisou conversar com quase todos os professores meus, sem falar com os diretores de escola.

Ao entrar na sala do médico, comecei a me preparar para mais um dia de questionamentos e revelação de um passado, de certa forma, assustador, pois aconteceu quando era criança, e de forma violenta.

Ao expor ao doutor as minhas lembranças, começava a chorar, e ele com toda calma, aos poucos foi me consolando e pedindo para falar sobre o meu passado.

Lembrei da morte de meu pai, eram dois homens, cobravam dele o serviço não realizado e por isso o assassinaram, mas nunca entendi o motivo, e neste dia, onde faço dezoito anos, chegou o momento da revelação dos fatos.

Aos poucos o psicanalista foi revelando, sabia da profissão dele, o meu pai era funcionário público, trabalhava na área contábil de uma cidade do Paraná, trabalhava na área da contabilidade da prefeitura e foi preciso acobertar um grande desfalque de dinheiro, este estava sendo desviado, na compra de veículos para a prefeitura, para cada comprado, a concessionária emitia uma nota de três, e isso tinha de passar pela contabilidade, mas Roberto, pai de Carla, ameaçou denunciar, e antes de o fazer foi assassinado, a única testemunha era eu, mas não conseguia me lembrar dos rostos dos bandidos, e o crime estava sem solução, nunca tinham encontrado sequer um suspeito.

Com a insistência e persistência do Dr. Alves, aos poucos as lembranças iam aparecendo, quase como mágica, mesmo assim era doloroso. 




UM CONTO PARA PENSAR ! - José Geraldo Martinez


UM CONTO PARA PENSAR ! - José Geraldo Martinez 

 Anos e anos era assim ...Henrique tratava a perna de dona Aurora com todo carinho. Tudo muito normal se não fosse Henrique um jovem ainda de trinta anos, vivendo num mundo consumista e com todas as mordomias tecnológicas desta era.

Criado em berço nobre, onde os pais mantinham um conglomerado de usinas de álcool. Assim mesmo insistia em cuidar da perna de dona Aurora que padecia com uma ferida exposta e nunca cicatrizada. A paciência do rapaz e o carinho que tinha para com a velha, causava indignação na família, até então ocupada com suas agendas sociais e nada filantrópicas, muito embora julgavam-se religiosos e cristãos, não perdiam uma missa domingueira.

Dona Aurora , na verdade, uma velhinha sem família e que vivia sozinha após o falecimento de seu Agenor, humilde sapateiro de uma pequena periferia. Os anos se passaram e por ironia do destino, Henrique foi pego de surpresa com a notícia de que estaria com uma doença grave, degenerativa e que aos poucos o faria inválido, em estado quase vegetativo.

Não demorou e lá estava ele entregue a uma cama aos cuidados de enfermeiras. A mãe seguia a sua vida na mais alta sociedade local e procurava esconder das pessoas o problema do filho pois, aquilo a envergonhava. O pai, por sua vez, cuidava das empresas e das amantes, além das viagens que fazia à Europa constantemente e da mesma forma ignorava o filho.

Em virtude do mal cheiro pela enorme quantidade de feridas que brotavam pelo seu corpo (escaras) , pelo longo período que ficava deitado e do trabalho que dava a doença de Henrique, as enfermeiras não suportaram e assim a cada dia se tornava mais difícil encontrar alguém para cuidar do rapaz.


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VIVA AOS BARRIGUDINHOS ! - Conto/Crónica de José Geraldo Martinez


VIVA AOS BARRIGUDINHOS ! - Conto/Crónica de José Geraldo Martinez

 Ainda outro dia recebi um e-mail bastante interessante, para não dizer confortante, com relação aos barrigudinhos. Como pertenço ao clube e sendo fiel a ele, achei de certa forma importante repassar ao grande números de associados anônimos deste Brasil a matéria bastante interessante da Psicóloga, especialista em sexologia e terapias de casais, Carla Moura!

Dentre outras coisas, ela elogia toda classe de «gordinhos» e diz mais : «Você nunca verá um homem barrigudinho tirando a camisa dentro de uma boate e dançando como um idiota, em cima do balcão . Também não será informada sobre quantas calorias tem no seu copo de cerveja, porque eles não sabem e nem se importam com essa informação».

Você nunca irá ouvir um : ah, amor, «Quarteirão é gostoso, mas você podia provar uma MacSalad com água de coco». A lista de vantagens segue e se fosse enumera-las o «barrigudinho» com seu opositor «tanquinho», daria um livro de duzentas páginas.

 O clube logo caiu na festa! Não demorou a ligar amigos que há muito não via e no meio deles até um bicão querendo ser gordinho e mostrando a barriga com uma hérnia de umbigo gigante! Assim não vale! Tem que ser barrigudinho legítimo, com selo de qualidade e tudo!

 Vai uma dica para a mulherada que desejar encontrar o seu gordinho: facilmente encontrado nas barracas de pastéis das feiras, nos estádios de futebol e os mais caseiros, em seus sofás no domingo, após uma suculenta macarronada com frango! Vestimenta típica: bermuda, camiseta sem manga, chinelinho havaiana ( virou moda), tênis e os mais conservadores com sandálias. 




Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho


Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho



 Chegaram em carroças.

Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.

E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.

As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.

Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.

Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.

Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.

Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.

A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:

- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.

Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.

Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Jornal Raizonline nº 254 de 21 de Setembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Verão a quanto obrigas - III


Jornal Raizonline nº 254 de  21 de Setembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Verão a quanto obrigas - III

Não tenho tido muito tempo disponível para me dedicar à minha crónica habitual e agora, acabada que é a desculpa do Verão e dos afazeres próprios da altura, que aqui foram repetidos por duas vezes, tenho de repetir-me mas desta vez apenas quanto ao parágrafo inicial deste texto.

Na verdade, para além do tempo que é necessário para se fazer uma Crónica que mereça tal nome, é preciso também ter  um assunto para desenvolver nessa mesma crónica. Assuntos não me faltam, mas na sua grande parte requerem pesquisa e confirmação de alguns dados que como se lamenta acima requerem um tempo que não me tem bafejado.

Não é porque as coisas estejam diferentes de outras alturas em que me deparei com a mesma situação ou com uma semelhante, mas na verdade sinto mesmo pouca vontade de estar a fazer textos à flor da pele, quando na verdade eles ficariam bem melhores (e aceitáveis, na minha opinião) se tivessem esses tais elementos para recolha dos quais não encontro tempo.

Assim, o tempo (e a falta dele) sendo um elemento importante como todos reconhecerão tem-me levado a tentar debruçar-me sobre dois temas que posso aqui aflorar, embora eles sejam diversos e fiquem prometidos para serem completados em modo crónica - rascunhada, mas com seriedade e coerência suficiente, num futuro próximo. Na semana próxima falarei do outro assunto ficando-me esta semana pela minha primeira preocupação.

E a questão é saber (e desenvolver) porque razão as Lendas Das Mouras Encantadas exploram de uma forma exaustiva aquilo que a Presidente da Assembleia da República tornou quase popular: ou seja, o famoso «inconseguimento».


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Poesia de José Carlos Moutinho - Vento da serra; Deserto de um sonho


Poesia de José Carlos Moutinho - Vento da serra; Deserto de um sonho

 

 Vento da serra

 

 Porque me assobias ó vento da serra
 Se não me trazes boas novas d’alem,
 Se dissesses que não há mais guerra,
 Seria o teu soprar, recebido por bem.

 Uiva vento, uiva e afasta todos os males,
 Para que este mundo se torne melhor,
 Que no teu eterno voar jamais te cales,
 Pois a alegria com paz tem outra cor,

 Por favor vento, peço-te que me fales
 De beleza e encanto e também de amor.
 Sussurra-me no teu ventar refrescante,
 Já que não consegues acabar os conflitos,
 Fala-me da tristeza daquela tarde distante
 Quando ela partiu calada por falsos ditos,

Fala-me do sentir e do seu sorriso inebriante,
Faz da tua força, brisa que acaricie sem atritos.
 Porque não me respondes agora ó vento
 Que da serra desces arrogante e assustador,
és turbilhão que torna tudo em tormento
 Sem te compadeceres sequer, com danos e dor

 E insistes em soprar alheio ao sofrimento
 De quem neste mundo só pensa em ter amor.
 Vem calmo e dócil ó vento, que de longe vens,
 Chega de agressões e amuos, acalma-te agora,
 Fala-me ao ouvido se na verdade, noticias tens
 Daquela linda mulher que um dia se foi embora.

 José Carlos Moutinho




POEMAS DE JORGE VICENTE - 1. ; 2.


POEMAS DE JORGE VICENTE - 1. ; 2.



 1.

O espelho ínfimo
 cai sobre os cordões flácidos
 das árvores.

 Ouço o canto virgem dos pássaros
 E adormeço o meu olhar.
 Meço as suas palavras
 Por entre os meus dedos.

 Calo-me e sossego-me.

 Quem sabe Deus não é apenas
 Uma marioneta puxada pelas
 Andorinhas.


Poesia de Liliana Josué - COMUNIDADE EDUCATIVA


Poesia de Liliana Josué - COMUNIDADE EDUCATIVA

 

 Como se iniciou um novo ano lectivo aqui deixo a minha homenagem a todas a Escolas e Agrupamentos escolares. Este poema foi-me solicitado por um desses Agrupamentos.



 COMUNIDADE EDUCATIVA

 

 Nobre Escola
 favo de trabalho, educação e carinho
 comunidade viva de esperança e ideais
 que tem sempre na lembrança
 a função educativa.
 Ensinar é a missão dos bravos
 missão dos que trazem no peito
 a esperança de mudança.

 Começo por vocês
 persistentes Colaboradores da Secretaria
 vossa vida é um rosário de nomes datas, canseiras
 (numa assimetria injusta de avaliações).




Realidade fictícia - Conto de João Furtado


Realidade fictícia - Conto de João Furtado 

 Não consigo escrever. Vivo este vazio sempre que termino um conto e quero começar a escrever outro. E à  minha volta é o nada. Nada me sai da cabeça para o papel. A febre que sinto enquanto coloco no papel as minhas ideias mais ou menos formadas se esvazia rapidamente.

Sinto uma paz interior, o mesmo que se sente após o orgasmo. E a mesma vontade de continuar e não poder. Já fui ao computador várias vezes, mas abro, jogo uma ou duas partidas do «solitário», ganho e perco, volto a levantar-me, após fechar o computador, nada sai mesmo, nada de nada. Esforço a memoria faço o filme da minha vida passar vertiginosamente desde o meu nascimento até hoje. Faço projecção para um futuro incerto de mil maneiras, mas nada. Tudo em mim é informe e vazio. Não resta nada a fazer senão esperar.

 Posso passar assim algumas horas ou mesmo dois ou três dias. Sem nada poder fazer, brinco com a minha netinha. Deixo ela fazer-me de bebé, o que ela adora. Com o seu pouco mais que um ano, ela adora me dar de comer, me mandar abrir a boca, para ver se tenho algo de errado nela. Ela coloca-me coisas, como a caneta electrónica, na boca, para me repreender. Ou seja o que lhe faço, ela me faz com todo o prazer.

 Imagino a historia que gostaria de contar, as palavras me faltam, estou na fase do vazio completo, deixo de ter capacidade de imaginar. A minha mulher fala comigo e eu nem ouço. Ela repete e torna a repetir, eu continuo longe, no mundo de ninguém. Ela me repreende dizendo que devemos estar mais presentes neste mundo. Eu nem ai, bem, para dizer a verdade, sempre preferi o meu mundo.

 Vem à mente o quanto sou prejudicado por viver num mundo só meu, mas agora mais do que nunca estou no meu mundo. Lembro com tristeza que tenho sido escada para muita gente subir no meu trabalho. Mas que a possibilidade de subir é para mim escassa, isto porque preciso ser deste mundo. Aproveitar as oportunidades, saber ser um pouco engraxador.


«Cidade de Prazeres» - Ilustração Portugueza, 1908 - Texto e imagens de João Botas in Macau Antigo


«Cidade de Prazeres» - Ilustração Portugueza, 1908 - Texto e imagens de João Botas in Macau Antigo

«Não é a embriaguez brutal do occidente, é ainda a forma hypocrita de gosar núma nuvem de fumo o que sem ella ninguém pode obter. As maiores loucuras, mulheres correndo nuas como n´um paraizo novo por entre árvores de sombras bellas e roseiraes sem espinhos, de agradável perfume, os sue lábios abertos para beijos, os seus braços sôfregos de se enlearem; é o amor em toda a sua subtileza divina e em todo o seu final bárbaro.

 Sonhos de glórias em que o homem é Deus n´um céu para elle feito, em que a sua côrte são as maiores belezas da terra, em que basta um gesto para derruir um mundo.

Foi isto o que Kouong Tsen revelou aos seus discípulos ao fumar a seiva da papoula vermelha do delírio, foi isto o que se tornou logo vulgar, para ser d´ahi a pouco um dos mais ricos commercios d´essa China mysteriosa. Logo cahiu da grandeza d´uma religião nas casas de venda, e em Macau, como de resto onde há chinezes, embora lhes prohibam por editos tremendos esse goso, sempre hão-de existir os logares de luxo e de asco onde se fuma o opio e onde se sonham delicias.



domingo, 21 de setembro de 2014

Vitalinas e Galos de São Roque - Por Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


Vitalinas e Galos de São Roque - Por Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.

E tira o pó, Vitalina,
 Bota o pó, Vitalina,
Môça velha não sai mais do caritó

(cantiga popular)

Certas coisas da infância, vividas numa fazenda de café no Brasil, eu não esqueço. Uma delas era o fato de que os patrões, vez ou outra, «convocava» uma moça dentre as colonas da fazenda, para servi-los na capital, como empregada doméstica. Estava em marcha a formação de mais uma vitalina, ou galo de São Roque:

A)- Como dizia acima, este evento era encarado como «oportunidade de ouro» para tais moças, uma vez que aos olhos dos pais de tão «sortuda» moçoila e aos dela, principalmente; aquela era a única chance que tinham para evitar trabalhar o resto da vida puxando a enxada nas plantações de subsistência ou nas colheitas de café ou cana.

A escolha final era da «mulher do patrão», que muitas vezes tinha até dificuldade na escolha, dado o grande número de pretendentes.

A escolha, em geral se dava para a mais jovem ou para a mais bem apessoada. Via de regra, ser mais jovem e mais bonita eram qualidades tidas como essenciais. Ato contínuo, o fazendeiro chamava o colono, pai da moça escolhida e assegurava a este que faria de tudo pela filha do colono, sendo para ela um verdadeiro pai, ou padrinho.

A menina, ou pequena escrava, como queiram, a quem a Lei ??urea da Princesa Isabel nunca soube nem teve ciência, passa a chamar seu «protector» de padrinho e sente por ele uma enorme gratidão.

Essa pequena escrava que o patrão do pai pegou para «criar», transformando-se numa mártir doméstica: faz todo o trabalho duro da casa. Sempre é ela a primeira a acordar a última a ir dormir. Não há serviço, por pior que seja, que não solicitem a ela que o faça. Muitas vezes tem para dormir um velho e surrado catre ou até uma rede armada num canto da despensa, o mais escondido possível das visitas importantes ou conhecidos da boa sociedade. 



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EXCERTOS DO CONTO «SAPALO E A AVENIDA DO QUASE» - por Gociante Patissa


EXCERTOS DO CONTO «SAPALO E A AVENIDA DO QUASE» - por Gociante Patissa 

«— Tá ver bem, chefe? — Sapalo assegurava o contacto visual, de sorriso a destacar a brancura dos dentes. A testa tinha a cor da barba, tal era a graxa. — Acho que preciso de uma consulta, um dia. — já éramos dois a achar que sim, mas calei ao que seria o motivo, aguardando que completasse a ideia. — Oiço muito a chuva.

«Muito» queria dizer demasiado. Dava que pensar. A estiagem deixara de ser notícia, esgotadas as esperanças de honrar o crédito de campanha. Pássaros e roedores tinham-se ocupado do milho da primeira sementeira, pelo sol esterilizada. A outra metade, oh impotência, mal dava para cobrir as mesas de funji até à estação de chuvas seguinte, no curto defeso entre Maio e Setembro. Entretanto, Sapalo, só mesmo ele, segredava-me que ouvia o som da chuva, bastando-lhe fechar os olhos.

 No compasso de espera do Sapalo, que fumava o seu cigarro, debatia minhas noções, sentado, em silêncio, no carro. No outro dia, um, aquele sim quase louco — digo quase porque, com inusitado sentido de liberdade —, quebrou uma qualquer garrafa e com o mesmo automatismo atingiu uma testa, a dele próprio, para em jacto de sangue deixar sua marca sobre o passeio de cimento.

Poesia de Pedro Du Bois - Banho; Música; Pano


Poesia de Pedro Du Bois - Banho; Música; Pano    


 Banho

 

 O banho
 envolve
 o corpo
 em espumas
 a água retira o excesso
 do dia e recompõe o noturno
 incenso do perfume.

O corpo repete
 em rito de coragem
 a secagem no suave
 contato da toalha.

A água em filetes sobre o piso
 retém da impureza o dia
 amedrontado.

(Pedro Du Bois, inédito)



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sábado, 20 de setembro de 2014

SEGREDOS DO ALGARVE - Texto de Lina Vedes


SEGREDOS DO ALGARVE - Texto de Lina Vedes


A partir de 1947 comecei a frequentar a escola primária da Sé de Faro, situada na parte velha da cidade, na Rua Rasquinho.

 Todas as tardes, de bata branca, obrigatoriedade escolar, saía de casa perto do Largo da Palmeira carregando a pasta com o lanche, sebenta, o livro único de leitura, uma caixa de madeira com tampa deslizante onde guardava o lápis de escrever, borracha e caneta de aparo.

 Num desses anos de escola primária, a professora D. Maria Pires e suas estagiárias, lançaram a turma na descoberta do Algarve.Cada uma de nós, individualmente ou em grupo, teria de encontrar motivos para amar não só a nossa cidade, como todo o Algarve.

 A proposta de trabalho, inovadora para a época, foi tão bem lançada que de imediato toda a turma vestiu a capa de detective/investigador e partiu à descoberta dos encantos secretos da província algarvia.Com alguma orientação fomos colocando, aos poucos no devido lugar, as peças do puzzle Algarve. Todos os trabalhos seriam «passados a limpo» para folhas de cartolina, com letra bem legível e desenhos bem executados e bem pintados
 .
 Fariam parte do nosso «jornal de parede».
Nessa tarefa nada foi esquecido.
 Descobrimos que desde Sagres a Vila Real de Santo António, desde a serra ao mar, o torrão algarvio era pitoresco e encantador, com os costumes puros da sua gente comunicativa, que fala cantando desconhecendo as asperezas da vida, abençoados pelas dádivas da Natureza.

 Como pertença deste paraíso, chamado Algarve, constatámos possuir um clima ameno, um céu azul intenso rutilante de estrelas, um sol fonte de luz e calor, um solo matizado inebriante de aromas, um mar cálido azul a espreguiçar-se pelas finas areias douradas ou moldando, com os seus embates, os rochedos da costa.


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O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira


O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

Havia um cavalo pastando e um velho sentado numa pedra olhando o cavalo.

Havia também os dois netos do velho e um pequeno prado murado e com muitas pedras soltas musgadas. Parecia um prado tão velho quanto o velho. Ou talvez mais. Eu sempre o conheci assim, aquele prado e aqueles muros meio derrocados.

Poderia ter perguntado ao velho quanto velho era aquele prado e aquela cerca que o cercava quase por completo. Porque havia uma parte do muro que arrendava dois finos troncos cruzados que o velho certamente levantava e baixava para fazer entrar de manhã cedo e fazer sair à tarde, já quase noite, o cavalo.

Podia ter perguntado a idade daquelas pedras ali assim colocadas e talvez ele me soubesse responder. Mas o velho estava absorto, pensava naquelas coisas que os velhos pensam e cofiava o bigode e remexia o solo com o seu grosso cajado.

Não sei no que os velhos pensam quando estão assim absortos mas achei melhor não lhe perguntar nada e deixei que ele continuasse a pensar no que pensava.

Os dois netos dele, esses não tiveram o meu cuidado, eram crianças e as crianças nem sempre resguardam os tempos de pensamento de cada um e eu sei isso porque já fui criança, já tive filhos que foram pequenos e um dia, se calhar terei também netos como os dois netos do velho.

Os miúdos tagarelaram um pouco entre si e eu percebi que eles iam fazer uma pergunta ao velho: esticaram o pescoço como se quisessem ficar mais próximos do velho e disseram: «Avô!! Hoje é que o cavalo vai morrer?»

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Carta - Prosa poética de Joaquim Nogueira


Carta - Prosa poética de Joaquim Nogueira 

 ...a carta que escrevo aqui e agora é o que «eu»sinto e penso da vida e não «serve»para todos...

não há respostas definitivas e únicas para todos nós... vivemos num mundo de desafectos em vez de vivermos num de afectos... vivemos num mundo onde o sentirmo-nos bem com a nossa própria identidade é já tão difícil que usamos estas identidades «falsas»para podermos falar e ouvir...

já nos falta a «coragem»de enfrentarmos os outros, de olharmos os olhos uns dos outros e dizermos a quem estiver na nossa frente o que sentimos, o que pensamos, o que queremos, o que temos, o que podemos ser e, principalmente, o que podemos dar...

a vida já vai longa para mim e já vivi muito e quase tudo o que um homem pode viver... passei de tudo um pouco e os anos foram-me tornando «duro» e um pouco «sóbrio» perante as bebedeiras da vida...

a vida não é fácil e tudo o que a vida nos dá é pouco porque queremos sempre mais e melhor... passamos a vida a lutar por um lugar ao sol e esquecemos o quanto bom é refrescarmo-nos numa sombra... passamos o tempo a «querer», passamos o tempo a «desejar», passamos o tempo a «ter», a «possuir», a «querer ter ainda mais»... esquecemo-nos de dar!... e, um dia, ficamos de mãos vazias e ficamos sem nada e lamentamos termos ficado sem tudo o que havíamos tido... que desgraça enorme... perdi tudo, inclusive o amor!... tudo o que tínhamos se foi... e passamos a ser uns eternos infelizes!...


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

«FELIZES PARA SEMPRE» UMA OVA! - Por Marcelo Pirajá Sguassábia


«FELIZES PARA SEMPRE» UMA OVA! - Por Marcelo Pirajá Sguassábia 

 O sujeito dá vida à gente, cria aquela história maravilhosa, diz que todos viveram felizes para sempre, põe um ponto final e se arranca. Nunca mais volta para ver o que aconteceu depois às suas indefesas criaturas, no mundo do faz-de-conta.

Ora, quem põe filho no mundo tem responsabilidades a honrar. Como é que pode um autor se comprometer com a posteridade e colocar sua credibilidade em jogo, fadando seus personagens a um destino cor-de-rosa sem dar a eles meios para isso? Felizes para sempre, essa é boa...

 Vejamos o drama do Prático, o porquinho precavido que construiu a casa de tijolos. Como o conto de fadas tinha que terminar logo, o suíno se viu forçado a correr com a obra e uma semana depois a casinha tinha infiltração, três grandes rachaduras que iam do chão ao teto e um fiscal da prefeitura todo dia batendo na porta, atormentando o proprietário por causa do Habite-se.

Tão logo tomou conhecimento do infortúnio, o lobo voltou à casa e nem precisou soprar para que viesse abaixo. Em dois minutos já estava com os três leitões debaixo do braço. Pôs Cícero para engordar no chiqueiro, Heitor foi alocado nos afazeres domésticos da casa avarandada do malvado e Prático foi obrigado a travestir-se de veado e ganhar a vida com ofícios pouco familiares, entregando ao lobo todo o michê do dia. 



Ana - Conto de Daniel Teixeira


Ana - Conto de Daniel Teixeira 

 Por vezes a gente lê ou ouve histórias e acha que as coisas se podem passar assim como se conta nas histórias. E por vezes também sabemos que as coisas não se passam assim e que não poderiam nunca passar-se assim, mas que é bom acreditar que as coisas se passam daquela forma que ouvimos ou lemos.

Acho que é bem melhor acreditar que as coisas se passam como as pessoas dizem ou escrevem nas suas histórias. Muito melhor, mesmo. Podemos dizer que era bom que se passasse assim, que as coisas fossem assim tal como nos dizem ou como lemos.

E podemos também dizer que ainda bem que as coisas não se passam assim como lemos ou ouvimos quando não gostamos. Mas as coisas, todas as coisas, equilibram-se sempre, porque há sempre um equilíbrio.

Quando isso tem lugar, quando não gostamos daquilo que ouvimos ou lemos dizemos para nós mesmos que as coisas deveriam passar-se de uma outra forma, daquela forma que nós gostaríamos que se passassem.

E então ficamos a gostar da nossa ideia sobre a forma como as coisas se deveriam passar. E desta nossa ideia já gostamos e esquecemos que ouvimos ou lemos aquela coisa de que não gostámos. Assim é que as coisas se passam, sempre, acho eu.

Comigo acontece isso sempre e não me lembro de alguma vez não ter gostado de uma história. Acho que só agora, há pouco tempo, comecei a duvidar disso, de que gosto de uma história, contada ou imaginada, sempre.

Bem, o que eu digo é que por vezes não é da história que foi contada ou lida que eu gosto, mas sim da história que eu imaginei contrariando a outra história.


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LER - Por Maria Àlvaro


LER - Por Maria Àlvaro 

«Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.»
Fernando Pessoa 

 Sempre tenho tido esta sensação. Ler é permitir deixar-se levar por uma pessoa, uma única pessoa... A forma de Livro dá uma impessoalidade ao que está escrito que facilita a TENDENCIA para se aceitar como inegáveis as afirmações nele expostas. Não há um visível interlocutor humano com suas hipotéticas falhas. Não há o estímulo do rebate, ainda que o possamos conceber em pensamento. Pensar sem o retorno verbal e oportuno do opositor enfraquece a visão e a vontade do leitor .

 Ainda que eu adore ler e tenha fundamentado toda a minha formação cultural na leitura, tenho que concordar com Fernando Pessoa. O Livro propicia ao leitor a sensação de Verdade impessoal e, por isso, com características absolutas, quase divinas e inquestionáveis. Por essa razão, é requisito fundamental de um bom Ensino Escolar treinar leitores no sentido de manterem a necessária distância, de forma a conservarem uma capacidade crítica apurada e não se deixarem envolver demasiado pelo que lêem.

 O leitor pode e deve ler com espírito crítico. Ainda assim, eu acredito que haja maior facilidade de convencimento no processo da leitura do que num diálogo real. O leitor está a sós consigo mesmo e apenas com as verdades do escritor. Não é despertado para a realidade concreta da pessoa do outro. Ocorre, assim, um processo tipo hipnose. 




A menina e a metralhadora - Texto de Cecílio Elias Netto


A menina e a metralhadora - Texto de Cecílio Elias Netto

 Quando crianças – estimuladas pelos pais – aprendem a atirar com metralhadoras, descortina-se o sombrio futuro da humanidade.

 Lenda ou realidade, passou à história a resposta de Einstein, a um jornalista, a respeito de guerras. Foi logo após o término da II Guerra Mundial. O repórter ter-lhe-ia perguntado como, em sua opinião, viria a acontecer a Terceira Guerra Mundial. A resposta de Einstein, surpreendente, aterradora: «A Terceira eu não sei. Mas a Quarta será com arco e flecha». Verdadeira ou não, a previsão ainda é válida.

 Desgraçadamente, a história da humanidade continua sendo escrita pela história das guerras. A paz entre os povos acontece em intervalos tão fugazes que quase não importa. Sendo já veterano jornalista – e muito tendo caminhado na vida – estou entre as testemunhas de que, desde a II Guerra Mundial, não houve paz no mundo.

Guerras continuaram pipocando de um lado e de outro. Terminado o horror contra o nazismo, veio a Guerra Fria, vieram as guerras na Coreia, no Vietnam, na Africa, no Oriente Médio, no mundo todo. Revoluções, golpes militares e políticos, ditaduras.

 Qualquer estudante de política internacional sabe que o mundo apenas encontra algum equilíbrio quando houver a bipolaridade de poder, um grupo de nações equilibrando-se diante do grupo contrário. A hegemonia do poder – como ocorre agora com os Estados Unidos, após o desaparecimento da União Soviética – é a implantação da tirania. E a multipolaridade – muitos poderes espalhados e contrapondo-se entre si – cria a desordem.




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Mulherzinhas - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Mulherzinhas - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary» 

 Constatei recentemente que me comporto com os livros como uma mulherzinha. Um de cada vez, nada de promiscuidades.

A relação exclusiva intrigou-me. Nunca fiz da fidelidade estandarte e confesso, sem qualquer orgulho ou pudor, que atraiçoei várias ideias e amantes apenas pelo doloroso prazer de trair (quem precisar de instruções neste prazer, procure-os n’ A Insustentável Leveza do Ser e preste redobrada atenção à personagem Sabina).

Porquê então um só livro de cada vez à cabeceira? Por que razão quando um livro me aborrece jamais o troco temporariamente por outro? A este propósito recordo a leitura difícil d’A Educação Sentimental do Flaubert, uma leitura carregada de tédio, como convinha ao tema, que suportei estoicamente. No final, a teimosia foi recompensada e o livro tornou-se um dos meus favoritos. A monogamia é assim: às vezes compensa, outras não.

Iniciei Anna Karénina, ocupada por estes pensamentos. Embora desejasse consumar a leitura para poder ter um veredicto estético, a beatice do Tolstoi aborrecia-me profundamente. Além disso, noite após noite via gorada a minha expectativa de encontro com a Karénina, incapaz de lhe sentir a carne, propositadamente mantida à distância pelo pince-nez do narrador. Estavam portanto reunidas as condições ideais para que a putaria começasse.

E começaram assim que as reflexões agrárias de Lévin me arrefeceram. Ansiosa, corri novamente para os braços de Salinger, contente por encontrar em Franny e Zooey ar puro e um velho problema conhecido: como viver bem com uma inteligência cortante? Desta feita, ao contrário do que sucedeu com Hamlet e com toda uma galeria de personagens desfeitos pelo pensamento, voltei com uma resposta, que não o corriqueiro binómio anestesia/entretenimento.





 

Poesia de Virgínia Teixeira - Narciso bravio ; Nevoeiro


Poesia de Virgínia Teixeira - Narciso bravio ; Nevoeiro

 

Narciso bravio

 

 Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
 Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
 Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
 Prado frio e triste de terra quase estéril, seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
 E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…


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Lendas Algarvias - A Moura do Ameixial - (Recolha da Redacção na Net)


Lendas Algarvias - A Moura do Ameixial - (Recolha da Redacção na Net)

 A lenda, retirada da obra «As Mouras Encantas e os encantamentos do Algarve» de Ataíde Oliveira, refere-se a um sítio, próximo do sítio Pego dos Cavalos, designado precisamente Sítio da Moura.

«Diz a lenda que semanas depois da expulsão dos mouros, passou por aquele sítio um rapaz de vinte anos, filho de abastado proprietário daquela freguesia. Viu ele sentada à beira do caminho uma formosa mulher, alva como a espuma do mar, e de cabelos fartos e tão louros que pareciam madeixas de ouro. A mulher formosa costurejava (costurava) tendo ao seu lado uma tesoura de ouro.
 O rapaz quedou-se pasmado para a mulher e para a tesoura.

Então ela, sorrindo-se agradavelmente para o mancebo, perguntou-lhe:
- De qual gostas mais?
 O rapaz mostrou não compreender a pergunta.
- Sim, repetiu ela, de qual gostas mais: de mim ou da tesoura?



Poesia de Xavier Zarco - Uma ode alcaica; Todo o tempo do mundo cabe em verso,


Poesia de Xavier Zarco - Uma ode alcaica; Todo o tempo do mundo cabe em verso,


 

 Uma ode alcaica

 Não chore a morte de Icaro. Não creio
 Que morte assim mereça o vosso pranto.
 Talvez nenhuma morte
 Necessite de lágrimas.
 Talvez, mas que sei, Dédalo, da perda.
 Pouco mais do que ouvi da boca de outros,
 Mas isso não me impede
 De dizer o que penso.
 A sua morte é vero hino à vida,
 à suprema vontade de viver,
 Que antes morrer tentando
 Que viver desistindo.

Xavier Zarco




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Jornal Raizonline nº 254 de 31 de Agosto de 2014


Jornal Raizonline nº 254 de  31 de Agosto de 2014
COLUNA UM
Daniel Teixeira
Verão a quanto obrigas - II
 
Viver numa zona muito procurada por turistas tem as suas vantagens e tem as suas desvantagens. Não é para me gabar (sendo algarvio e aqui vivendo) mas quando chega o período de Verão as coisas complicam-se em termos de disponibilidade de tempo.
 
São por vezes os familiares emigrados que escolhem precisamente esta altura do Verão para fazerem a sua visita anual, conjugando tempos com o período de Natal, por vezes amigos que se encontram depois de longas ausência (nossas ou deles) , enfim, tudo isto para dizer que se no número anterior a desculpa pelos atrasos do jornal ficaram á conta do Mundial de Futebol no Brasil e que este número acaba por ser justificado no seu atraso pelas razões que foram aventadas logo acima.


Poesia de Sherpas (Manuel Xarepe) - ... mas... as crianças...


Poesia de Sherpas (Manuel Xarepe) - ... mas... as crianças...

 
 ... mas... as crianças...

 

… pequenito que, vai sorrindo,
 dando primeiros passos na vida,
 pendurado do braço do pai,
 lá vai, lá vai,
 hesitante,
 quase caindo,
 vai seguindo,
 vai sorrindo,
 sem saber para onde vai,

 segurança relativa,
 pai,
 que vai conseguindo ser pai,
 futuro incerto,
 no dia que se segue,
 não tão longe, ainda perto,
 rotineiro,
 emprego preso por um fio,
 salário curto,
 pouco dinheiro,

 passa a vida num minuto,
 cresce o filho,
 regride o pai,
 pendurado que vai,
 passo hesitante,
 começo do que s´esvai,
 esperança tão distante,

 inocência que sorri,
 ao invés do pai que o arrasta,
 cabisbaixo, tão tristonho,
 alegria que soa a desgraça,
 amargura que s´adensa,
 enquanto caminha, enquanto pensa,
 não sonha, mais s´afasta,
 tanto chora,
 vai, não vai embora,
 sombria hora,
 negritude que o vai cobrindo,


(...)


Poesia de Ivone Boechat - Perdoe seu filho; Seja melhor do que o seu pai; Todo pai é adotivo


Poesia de Ivone Boechat - Perdoe seu filho; Seja melhor do que o seu pai; Todo pai é adotivo


Perdoe seu filho



Quem amou o pai como devia,
 ou quem, em vida, reconheceu
 no grande camarada
 a importância que ele tinha,
 durante o longo trecho da via
 na jornada?

Quem abraçou o pai, como podia,
 ou quem demonstrou a ele
 o grande amor que merecia,
 quando o amparava
com a própria mão,
 no dia-a-dia?

Seja então o pai quase perfeito,
 perdoe seus filhos pelos erros
 de omissão!

Ivone Boechat


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Ver e ouvir - Crónica de Daniel Teixeira


Ver e ouvir - Crónica de Daniel Teixeira

 

 Eu sei que não é muito próprio estar sentado num café, ou em qualquer lugar, e ouvir a conversa que se passa entre os habitantes da mesa ao lado. Deve-se fazer ouvidos de mercador, de um mercador de silêncios, deve-se fazer de conta que não se ouve, mas ouve-se na mesma e as palavras ditas logo ali ao lado entram-nos pelo espírito dentro, sentam-se na cadeira da nossa existência e lá conquistam o seu lugar cativo.

 Em certo sentido acabamos por fazer parte da conversa que se passa ao nosso lado, se disso não formos distraídos por outras coisas que consideramos mais importantes, emitimos interiormente aprovação ou desaprovação sobre aquilo que é narrado e criamos a nossa opinião.

De meros ouvintes, consoante o teor e o interesse da conversa, passamos a ser actores nela, só que seremos sempre actores passivos. Ou pelo menos é desejável que assim seja...

 Não se tendo passado num café o que vou contar a seguir, quero mostrar como é fácil, por vezes, passar-se de espectador a actor e em certo sentido apropriarmo-nos do próprio palco.


Vem-me à memória agora um filme do Joselito «Coração de Ouro» que eu vi no defunto Cinema de Santo António, em Faro, que apresentava uma cena em que o na altura jovem Joselito vinha, já noite, após ser abandonada à sua sorte ao que me lembro, de uma travessia longa de dias de um território deserto, tropeçando com o cansaço, cheio de sede e fome e encontrou um cowboy que à volta de uma fogueira assava no espeto aquilo que parecia ser um coelho.



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos


O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos 

 Pode pensar-se, ou mesmo dizer-se, que o verde é simplesmente verde. Mas não é. Nunca o verde é simplesmente verde - é sempre complexamente verde.

Observem-se as nuances, as sombras, os brilhos. Os toques de veludo, de cetim, ou de serapilheira agreste. E como tudo se reflecte e nos atinge em incontáveis tons que nem o nosso mais minucioso olhar destrinça. E como nos tons se adivinham cheiros, mais ou menos silvestres, ou densos, ou ténues, ou voláteis. E como na sinuosidade das formas sentimos o gosto, doce ou amargo, ácido ou acariciante, desta Natureza em festa...

Poderia ficar, infinitamente, a escrever ou pensar sobre minudências irrelevantes, tais como os tons de verde no arvoredo, ou o seu aspecto pontilhado ou de pincelada larga impressionista, de surpreendente brilho ou elegância realista.

Certo que ninguém, senão eu, retiraria prazer dessas análises minimalistas e imprestáveis. Mas que fazer? Se tirar eu prazer, é já alguma coisa! A tantas tarefas me dedico que a ninguém dão prazer - nem a mim própria, que as executo pelo sentido do dever...


Numa aldeia na montanha - Conto de Daniel Teixeira


Numa aldeia na montanha - Conto de Daniel Teixeira 

 Era um aldeia algures por Deus e pelos homens colocada no topo de um monte que ficava no topo de uma montanha. Os Tempos, Deus e os homens tinham mantido aquela aldeia tão isolada durante tantos dos últimos anos que eram agora nenhuns os contactos que aquela gente tinha com as gentes das aldeias mais próximas, estas também colocadas por Deus e pelos homens no topo de outros montes que ficavam noutros topos da montanha.

 Apenas, e de quando em vez, e quando Deus e o Vento ajudavam, se ouvia, sempre ao longe, muito ao longe, o tocar dos sinos das Igrejas: por vezes era ao Domingo, era o dia das Missas, outros dias, sem dia nem hora marcada, eram os dobres de finados que soavam, tilintando uma morte, lá longe, muito ao longe, mesmo muito ao longe, ou cá perto, dentro da pequena aldeia.

 Os caminhos, íngremes, pedregosos e talhados nas encostas pelas botas grossas dos homens, pelas rijas tamancas das mulheres e pelo casco dos animais eram difíceis de percorrer e eram longos, aqueles caminhos, eram mesmo muito longos e aquilo que se via, aquela horta além, aquela árvore ali, aquele pasto ao fundo, e que pareciam ficar logo ali, nunca ficavam mesmo logo ali, onde a vista os via, era sempre mais longe, tinha sempre mais caminho a percorrer, havia sempre um caminho que parecia estender-se cada vez mais e mais à medida que se o pisava.


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árabes e judeus, aqui - Texto / Crónica de Cecílio Elias Netto


árabes e judeus, aqui - Texto / Crónica de Cecílio Elias Netto 

 A harmoniosa convivência entre árabes e judeus em Piracicaba impede-nos de entender a estupidez do fratricídio no Oriente Médio.

A história humana – contada pelos chamados livros sagrados – foi e continua sendo escrita com sangue e discórdias. O Deus monoteísta – de judeus, cristãos e islamitas – causa muito mais espanto por sua cólera do que pela misericórdia. Pelo menos, para mim. Desde o Eden, as coisas são complicadas. Criando o homem, Eva e Adão, eis que, por uma desobediência, os expulsa do paraíso. Coitados, cuja única culpa foi a de serem humanos.

 E os conflitos seguem em frente: Caim mata Abel; os filhos de Noé brigam entre si. E Abrahão – pai da nova fé – é testado de uma maneira brutal, quase inacreditável. Deus ordena que ele mate o próprio filho, Isac, que se tornaria Jacó. Por que isso? Para assustar o velho Abrão, para judiar dele? E esse mesmo Abrão que, sem qualquer piedade, expulsa o filho Ismael, gerado por sua amante Agar, a escrava? Por capricho e ciúme de Sara, que gerou Isac, Abrão divide a sua própria carne e divide a humanidade. Isac, o judeu, é irmão de Ismael, o negro filho da escrava Agar. E ambos são semitas, descendentes de Sem. Desde o início, pois, a luta é fratricida.

Uma história complicada e penso ser melhor não escarafunchá-la muito, para não nos perdermos em perplexidades e confusões. Abrão tenta matar o próprio filho, Deus não socorre Jesus, que lhe pede socorro ao ser crucificado. Que pai humano pode entender essa loucura divina? Vai daí que, pelo visto, até hoje a história continua complicando-se, na estupidez familiar entre árabes e judeus. E na chamada Terra Santa. E em todo aquele universo oriental onde a história judaico -cristã - muçulmana começou. Quem se lembra que Abrão nasceu em Ur, onde está o Iraque?



terça-feira, 2 de setembro de 2014

JARDIM MANUEL BIVAR - Faro - Texto de Lina Vedes


JARDIM MANUEL BIVAR - Faro - Texto de Lina Vedes


 Conhecido, vulgarmente, pelo Jardim da Doca, era vivo e barulhento com imensa gente, crianças, jovens e adultos a procurá-lo para agradáveis convívios.

Os farenses, nas horas de lazer, enchiam o Jardim andando nele às cotoveladas, aos encontrões, conversando e rindo uns com os outros, indo e vindo desde o monumento a João de Deus até ao coreto.

Mantenho ainda o gosto de meditar, discorrendo placidamente, sentada num banco do Jardim da doca, olhando, ou antes, saboreando os fins de tarde, com os lindos «pores de sol» sempre diferentes e belos.
 O Jardim da cidade era também procurado para encontros profissionais (trabalhadores e empregadores), marcando-o como um verdadeiro «centro de emprego».

Nele, junto do coreto, do Aliança ou do Largo das camionetas, homens honestos de fracos recursos, peças fundamentais no xadrez social da vida (na época) procuravam contratos de trabalho ocasional. Eram trabalhadores independentes, solicitados para pequenos arranjos domésticos ou outros serviços.

Normalmente eram educados, de falas mansas, respeitosos, dispostos ao trabalho fora de horas, incluindo domingos, e mal recompensados do esforço. Creio firmemente, que história não é só o desfiar árido de acontecimentos relatados pelos compêndios, de forma cronológica. Os compêndios realçam o papel desempenhado pelos grandes senhores, esquecendo às vezes os operários que são a base da sociedade.
 História é mais do que isso!

Impõe-se o dever de realçar o factor humano e todo o legado deixado por homens iguais a nós, que doutros homens o receberam. A evolução das coisas e dos tempos não contém mistérios, somos nós os condutores dos factos, seremos nós a trabalhar para as gerações vindouras.


Leia este tema completo a partir de 31 de Agosto de 2014 carregando aqui