quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jornal Raizonline nº 260 de 26 de Novembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Cinco anos de Raizonline


Jornal Raizonline nº 260 de  26 de Novembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Cinco anos de Raizonline

Chegamos hoje ao número 260 deste despretensioso jornal cultural que tem e teve sempre como objectivo servir de ponto de encontro a várias culturas dentro da geografia do português como base.

Já estivemos melhor em termos de abrangência geográfica em termos numéricos, porque quanto aos horizontes que se manifestaram desde logo nos primeiros números essa mantém-se praticamente inalterável.

Temos colaboradores de Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde, estes situados geograficamente nos países que lhes são próprios, tivemos colaboradores de S. Tomé e Príncipe, igualmente geograficamente situados e temos colaborações que nos vêm dos mais diversos pontos do Globo onde existem comunidades portuguesas: Suíça, Bélgica, Estados Unidos da América, Canadá, Macau - China, Tailândia e Grã Bretanha.

Cada uma destas origens das colaborações podem quase dividir-se em dois grupos: um que «fala tu cá tu lá» connosco e uma outra vertente que é a chamada vertente da saudade.

Esta última, a vertente da saudade, não se demonstra apenas pelas colaborações que aqui vão sendo colocadas, alguma sem identificação do local, mas também pelo número de visitas às nossas páginas.

Em rigor e se virmos o mapa (carregar aqui) que tem o mesmo endereço que está colocado nesta barra à esquerda, veremos que temos visitantes de todo o mundo, sendo raro o país que não tem visitado a nossa página, partindo do princípio de que onde quer que seja há sempre, pelo menos, um português ou alguém que entenda o português, uma vez que todas estas origens de colaborações (de saudade ou não) têm os seus leitores espalhados pelo mundo.


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JORNADA CREPUSCULAR - VIAGEM NO SEBASTIANISMO - Por Mário Matta e Silva


JORNADA CREPUSCULAR - VIAGEM NO SEBASTIANISMO - Por Mário Matta e Silva 

 Enfrento o crepuscular dos dias seguindo em jornada sebastiânica, numa procura incessante, não de um vencido, de um perdedor, de um desaparecido, mas de um herói, de um destemido, de um salvador, de um Messias, que procuramos.

Viajo nos trilhos do sebastianismo (meu último livro de Poemas, editado em Março passado, com o título «SEI QUE VOLTAS SEMPRE») que vêm de 1598 aos nossos dias.

Não me acompanham profecias, (Bandarra: «Muitos podem responder / E dizer: / Com que prova o sapateiro / Ou como isto pode ser? / Logo quero responder / Sem me deter. / Se lerdes as Profecias / De Daniel e Jeremias / Por estas o podeis ver.»- cerca de 1538-1541) nem vaticínios imperiais do Padre António Vieira, pós 1640: («Quando tiverem por certo / Perdida toda a esperança / Portugal terá bonança / Na vinda do Encoberto.») e muito menos presságios de Nostradamus.

 Não me conduzem os velhos apregoadores de mitos sebastiânicos, como Lope da Vega, Fernando de Errera ou Zorrilla, em Espanha, ou de um teatro inglês de Ernest Reeynoldas, e tantos outros.

Viajo sim num sacudir de marasmo e num grito de mudança para melhor. Viajo nos crepúsculos que trazem esperanças renovadas e nos enfeitam os olhos de matizados devires. Venho de longe, por estas linhas, trazendo mágoas, revoltas, ironizados descreres, e jogo-me em cada mensagem contra as injustiças, apontando os reveses da politica, amaldiçoando a insanidade em que vivemos.

Hoje trago o inconformismo que trouxeram noutras diferentes épocas, evocando o Desejado, os mensageiros da poesia, como João de Lemos, Luís Augusto Palmeirim, Guerra Junqueiro, António Nobre, Teixeira de Pascoaes, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, António Sardinha, Fernando Pessoa, José Régio, Vitorino Nemésio, António Manuel Couto Viana e muitos outros, que chegam até aos nossos dias.



compaixão - caridade - Por Maria Alvaro


compaixão - caridade - Por Maria Alvaro 

 Na dicotomia compaixão -caridade reside, a meu ver, toda a essencial diferença que define as diversas posições políticas. Os dois conceitos confundem-se nas mentes das pessoas, mas não têm muito semelhança um com o outro e podem, em termos políticos, determinar uma oposição abismal de conceitos.

 Muita gente pratica caridade sem qualquer compaixão. Eu sinto compaixão por quem convive comigo e não pratico, regularmente, caridade. Praticar caridade é exclusivamente o ato de ajudar o próximo, sem que envolva necessariamente o sentimento da identidade com o outro. Compaixão é a empatia com o sofrimento alheio.

 Para Schopenhauer, por exemplo, há uma ética da compaixão. Ele nisso aproximou-se do budismo e do cristianismo, pois que considerou que cada indivíduo é uma parte de uma UNIDADE. Todos seríamos UM, apenas separados na aparência.

Por um lado, na separação aparente, somos dominados por um egoísmo animal feroz (o homem é o lobo do homem). Por outro lado, se nos deixarmos levar espontaneamente pela nossa verdadeira identidade UNA, anulamos esse egoísmo e nos identificamos com o outro, sentindo por ele compaixão e amor no sentido mais universal. Tendo em vista essa anulação do egoísmo,


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Poesia de José Geraldo Martinez - DIVIDIDOS!; TENHO INVEJA...


Poesia de José Geraldo Martinez - DIVIDIDOS!; TENHO INVEJA...



DIVIDIDOS!



 Vão moça e moço nesta doce adolescência...
 O futuro tem belo esboço, na ilusão que alimentam!
 Os beijos ainda são de tutti-frutti ou menta...

Vão moço ou moça,
que o dia de sol se apresenta de
primavera vestido!
 Propício a perderem a réstia de inocência,
 com beijos quentes e atrevidos...

Segredos guardados para todo sempre,
 onde roubarão no amanhã algum sorriso!
 Nas lembranças do hoje ou em qualquer canção,
 quando adultos estiverem divididos...

Vão moço e moça,
 que os shopping centers estão coloridos!
 Com churros de doce de leite...
 Sorvetes a serem consumidos!

Beijos doces que esperam
 por bocas de pura paixão!
 Amores juvenis que não demoram,
 virarem chuva de verão!

Existem muros lá fora
que ainda aguardam um coração...
 E pecado menor a tantas loucuras,
 uma apaixonada pixação!

Um recado de amor ou
pingos de sangue com dor,
 uma flecha atravessando um coração...

Vão moço e moça que amanhã
 tudo será ilusão!
 Ainda que façam juramentos para
a eternidade...
 Quiçá parasse o tempo, seria bom,
 ontem tínhamos a sua idade!

Vão moço velho, moça velha!
 São lembranças que roubam sorrisos...
 Segredos guardados para todo sempre...
 Na realidade que nos acorda, divididos!

«poema dedicado aos meus filhos: Caio e Dênis»

«O amor é aquilo que é, livre,
 pois a liberdade é a essência do que Deus é,
 e o Amor é Deus expressado.»

(Neale Donald Walsch - Uma amizade com Deus)


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Menina Solta ao Sabor das Estações - Conto por Maria Petronilho


Menina Solta ao Sabor das Estações - Conto por Maria Petronilho 

 Para ir à escola, era preciso subir a montanha. Não havia caminho. A vereda mal se via, pois só era pisada aos domingos, quando a minha avó e a criada iam à missa. Desembocava enfim na estrada romana, larga, polida, ladeada por muros.

As vezes perdia-me por entre a erva esparsa. Sobretudo se avistava gafanhotos e me punha a persegui-los.
Bicho dando de esperto!
Fingia aceitar o jogo, de pulinho em pulinho; depois trocava-me as voltas, saltava às arrecuas e eu, que o tinha quase na mão, rodava, no seu instinto...

Quanto deviam rir-se os bichos!

Sabiam decerto que o meu intento não era comê-los, mas vê-los...Eram verdes, amarelos, eram grandes, minúsculos, tinham patas de mola e pontas bicudas, viradas...

As anteninhas diziam de longe:
- Vem, vem que cá te espero!... E eu ia – Plim! Saltava de caninha em caninha e eu, iludida, continuava.
- Vem, vem, que cá te espero!
Estendia a mão ligeira, o meu coração dava um salto e ele outro: Plim!
- Os grandes olhos no alto, brilhavam de tanto riso e os meus, quase choravam de desespero.
- Que idade teria eu?!

Media os anos, como se deve medi-los: pelo correr das estações. A primavera era linda! Tudo em flor! Cravos do monte, moitas amarelas e brancas de camomilas abertas, espreguiçando-se ao sol. Estevas de sete-chagas: flores imensas e brancas com uma dedada púrpura. Eu retirava as pétalas, delas retirava as pintas e depois mastigava-as, deliciada.


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Poesia de Virgínia Teixeira - Todos os poemas que escrevi com a mão cansada; Eu sou; Opera


Poesia de Virgínia Teixeira - Todos os poemas que escrevi com a mão cansada; Eu sou; Opera


 Todos os poemas que escrevi com a mão cansada

 

 Todos os poemas que escrevi com a mão cansada
 Os inúmeros sonetos que sufoquei na garganta dorida
 As sensações que escondi na solidão passada
 Todas as sílabas que gritei dentro da alma ferida,

Todos os instantes em que me permiti viajar
 Cada momento em que soube sinceramente sorrir
 Até ao ultimo floco de alegria que de mim conseguiu brotar,
 Até à seiva de prazer que de mim sou capaz de extrair,

Todo o meu Bem e o meu Mal, a negritude e a pureza,
 Equilíbrio para todos os que te desconhecem, incompreensível,
 Sentimento mágico de uma Harmonia sem qualquer delicadeza,

Antes um sentimento sem sentido, absolutamente invisível;
 Tudo te pertence, nada é meu, nada de mim brotou,
 Tu és a roda, o leme, o fundamento, tudo o que me gerou…


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Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - ANOITECER; A CAMINHO DO NORTE


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - ANOITECER; A CAMINHO DO NORTE
 

 ANOITECER

 

 Espreito quase ininterruptamente à janela,
 E para além de vestes abanadas pelo vento,
 Rostos desconhecidos,
 Não vejo nada.
 é um domingo qualquer,
 à espera de ti,
 E vedam-me a visão,
 Persianas envelhecidas,
 Paredes intransponíveis,
 Nuvens de poeiras esquálidas,
 Portas trancadas opacas.
 Neste domingo de horas curtas,
 Quase no fim,
 Ainda espero por ti.
 Espero por ti,
 Espreito à janela
 E apenas se me deparam paisagens mórbidas,
 Ou qualquer sonho inatingível.
 Apetecia-me o mar,
 O longe...
 Afaga-me a «Rosa em Botão»
 Do poema de Vinicius.
 O mar não me chamou,
 Partiu não me levou.
 O céu não me quis ver,
 Partiu sem me dizer.
 Havia uma palavra azul
 Que me estendia os braços,
 Que me levava pela mão,
 Que me beijava os dedos,
 Mas morreu.
 Morreu de sede,
 De fome,
 E de saudades do mar
 Que lhe afagava as raízes.
 Costumava falar-me de ti com carinho.
 A cada instante,
 Embrenhava-me na paisagem tranquila daquelas horas,
 E sonhava...
 Não sei porque espero por ti.
 Não sei porque espero por alguém...
 Ainda espreito à janela,
 E escorre dos vidros um silêncio negro,
 Como o negrume de minha ansiedade.
 Escrevo para ti,
 Porque não posso falar contigo.
 Minhas falas morreram,
 E foram com a enchente do rio,
 Na hora da tempestade.
 Escrevo para ti,
 Para estar mais perto de ti,
 Nesta hora de crepúsculo
 De pensamentos desnudos,
 Conscientes da verdade.

Cremilde Vieira da Cruz


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O gato preto - Conto de Daniel Teixeira



O gato preto - Conto de Daniel Teixeira 

 A Arminda vivia no décimo andar de um prédio cujo elevador se mantinha entaipado havia anos. Os condóminos, por razões que todos achavam certas, variavam nas suas objecções ao arranjo do mesmo, razões essas que me não cabe a mim desenvolver aqui. Aliás, nem moro lá - caso isso não tenha ficado subentendido até agora.

Apenas sou, no que à questão residencial se refere, visitante da Arminda e quando cheguei a casa dela desta vez estava não só derreado como estava irritado e sentia na pele da face agora crestada a falta do ar condicionado dos outros dias e aquela aragem pequena mas refrescante que o contínuo mandava do rés do chão rodando o botão para o lado do sinal mais por ser para mim.

 Era bom cliente, eu, naquele prédio e o porteiro sabia-o mas desta vez pareceu-me ausente não de corpo, porque ele estava lá, com a sua farda cheia de medalhas e galões à tropa, mas porque estava e não estava no seu posto.

 Ou seja, o corpo dele (e os galões e as medalhas) estavam lá plantados no sítio do costume, atrás de um balcão coberto a fórmica, mas o espírito, a alma, o sopro vital dele, aquela coisa que distingue as pessoas vivas das pessoas mortas, a respiração, o bafo, andavam nos limiares do coma, e acabei por apressar o passo no Hall.

Disse-me depois a Arminda que lhe tinha falecido um gato, um pretinho que frequentava o terceiro andar e que eu não devia conhecer porque ele nunca ia para as escadas mas eu disse-lhe que não senhor, que era capaz de ser aquele que eu tinha visto na última vez que lá tinha estado entre o primeiro e o segundo andar embora tivesse visto um gato preto como veria outro gato preto qualquer porque os gatos pretos são todos iguais.

 A Arminda disse-me então que sendo assim era bem provável que eu até o tivesse visto no dia da sua morte porque ele, o porteiro, tinha encontrado o seu corpinho desfalecido precisamente na zona do rés do chão, entre as caixas vazias de uma arrecadação.


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O passeio - Conto de Daniel Teixeira


O passeio - Conto de Daniel Teixeira


As coisas estavam a correr bem, pelo menos era assim que eu pensava e tudo levava a crer que nada de mau poderia acontecer.

O Fernando ia à frente, fazendo de batedor, a seu gosto e com algum prazer apesar do potencial perigo. O resto do pessoal vinha todo em fila indiana atrás de mim e eu por meu lado tentava seguir os sinais das pisadas das botas grossas do Fernando.

Era um hábito dele, andar sempre de botas tipo tropa, quase, se descontarmos uns cordões de aperto coloridos e em fiapos que ele se recusava a trocar por outros novos sob argumento de que aqueles lhe davam sorte.

Mas não era por causa dos cordões das botas do Fernando e por causa da sua fé neles que eu achava que se tudo tinha corrido bem até ali, tudo correria bem dali para a frente.

No bar da vilória onde tínhamos estado antes dissemos que queríamos ir por aquele caminho para a casa que tinha sido da mãe da Ilda, recentemente falecida, e aí foi- nos dito que talvez não fosse boa ideia.

Um velhote com cara de patriarca destacou-se na cadeira de uma mesa e de voz um pouco pastosa disse-nos que os caçadores furtivos espalhavam ratoeiras para caça grossa em locais que só eles conheciam e que por vezes perdiam os traços das suas sinalizações pelo que havia ratoeiras perdidas espalhadas um pouco por todo o lado.

Chamou um indivíduo fardado, de chapéu com insígnias que apresentou como sendo o seu filho mais novo, guarda florestal, e disse que ele tinha deixado lá um pé, pois quando chegara ao hospital já nada havia a fazer senão acabar de cortar.

Como se pensasse que nós duvidávamos, e acertou, obrigou o moço, relativamente novo, a levantar a bainha esquerda das calças que mostrou então uma prótese, articulada um pouco acima do tornozelo.


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Poesia de António Cambeta - VENDAVAL; SAUDADES NO CAIS DEIXEI


Poesia de António Cambeta - VENDAVAL;  SAUDADES NO CAIS DEIXEI   


 VENDAVAL

 

 No meu pequeno, mas belo jardim
 entrou a tristeza
 o vendaval que assolou a região
 levou-me as belas flores
 as rosas negras, os crisântemos amarelos
 as orquídeas de âncora
 que eu tinha bem estimadas
 como um tesouro que Deus nos dá.

As plantei e tratei
 com paciência de bonzo
 numa tarde serena e luminosa
 de Maio

Diariamente
vigiava meu tesouro
 de orquídeas de âncora
 de Fá Mui e de tulipas

Visionava distante com se de um sonho
 se tratasse.
 De um sonho pleno de amor.

Viver o sonho que sonhei
 entre as orquídeas de âncora de meu jardim
 embriaga-me
 no seu perfume oriental
 das orquídeas de âncora.

Uma noite
 a tristeza
 entrou em meu pequeno mas belo jardim
 e com o vendaval da noite
 minhas orquídeas de âncora
 minhas rosas negras
 meus crisântemos amarelos
 foram levadas pelo vento.

Na manhã seguinte
 ao encontrar todo o meu tesouro
 desfeito, chorei lágrimas de sangue.
 no chão ainda pude ver uma orquídea de âncora
 tentar sobreviver foi só o que restou

De novo, com paciência de chinês
 tentarei fazer florir meu tesouro
 e o protegendo das intempéries
 irei fazer para que minhas orquídeas de ancora
 fiquem bem amarradas ao fundo da terra
 para que jamais as possa perder


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O DIA A DIA DOS BONZOS - Por: António Manuel Fontes Cambeta (Macau)


O DIA A DIA DOS BONZOS - Por: António Manuel Fontes Cambeta (Macau)
 

 Diariamente os bonzos tomam conta do mosteiro efectuando diversas tarefas entre elas cortar a relva, varrendo os aposentos e lavando as instalações, rezam e estudam os ensinamentos budistas. Os bonzos levantam-se por volta das 05.00 horas, um deles toma conta de acordar os restantes.

às 05.30 horas iniciam as suas rezas seguindo depois par o exterior do mosteiro, acompanhados por um noviço e iniciam o seu peditório pelas casas da redondeza, para isso vão munidos da sua tigela. Os fiéis sabem da hora em que os bonzos passam perto de suas casas e ali os aguardam para lhes oferecer alimentos, outros há que vão directamente ao mosteiro fazer as suas ofertas.

 Regressados ao mosteiros essas comidas recebidas são separadas pelos noviços e as espalham pelos pratos que depois irão servir ao bonzos como sua refeição. Os bonzos reúnem-se no Bot ou salão principal onde se encontra a imagem principal do Buda e ali aguardam que lhes seja entregue a comida, entretanto rezam agradecendo essa dádiva.

 Vários toques são dados num gongo anunciando que a comida está pronta para ser servida, é nessa altura que as noviças fazem a entrega da comida aos bonzos ou vão tomar a sua refeição no exterior do mosteiro.

Antes de comer os bonzos tornam a orar desta vez unindo as palmas da mão e inclinando o seu corpo até ao chão por três vezes dando graças, depois sim tomam a refeição comendo um pouco de tudo do que lhes é apresentado, respeitando deste modo os ofertantes.



Poesia de Arlete Deretti Fernandes - Poema da vida; Amigos virtuais


Poesia de Arlete Deretti Fernandes - Poema da vida; Amigos virtuais 


 Poema da vida

 

 Dia e noite, noite e dia,
Assim segue o ritmo da vida.
Buscas, delírios,
Dores, martírios.

Nesta curva da estrada
 A felicidade me esperou.
 O sonho virou realidade,
 Meu lar aqui se formou.

 Família, esposo e filhos,
Emoções tantas encontrei.
 Sucedem-se os dias,
 O sol, o verde, a chuva e as estações.

 Ali, as folhas que caem,
 Aqui, as folhas que brotam.
 O poema da vida
Escrito em um grande cartão.

 A infância, a adolescência,
 A juventude, a vida adulta.
«Nossos filhos não são nossos filhos,»
Como disse um dia Gibran .

 Como a árvore que plantei,
As sementes que vi brotar,
 Cresceram e seus caminhos
 Um dia foram procurar.

Hoje espero ouvir o telefone,
 O skipe, o Messenger, um email.
 Como não sentir saudades
 Do barulho das crianças?

Este ninho ficou vazio,
 Procuro-os por todos os cantos.
 Enquanto em meu jardim vejo
 Pássaros voando constantes.

Passam dias, meses e anos.
 Os rios correm para o mar,
 Lá fora o poema da vida
 Continua a se renovar.


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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Não é com as pernas que corremos (*) - Conto de Gociante Patissa


Não é com as pernas que corremos (*) - Conto de Gociante Patissa

Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

 Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem do tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

 Diz-se que quem nasce com a deficiência tem maior probabilidade de lidar com a baixa auto-estima do que aquele que a adquire depois de ter uma cosmovisão já construída. Na hipótese de ter sido, de facto, assim, Lumbombo não andava por aí a fazer da sua condição uma canção.

Para a família, ele nem era assim tão inútil. Passava o dia em casa e cuidava dos animais domésticos, muitas vezes usados como moeda de permuta com produtos da loja do único comerciante, português oriundo do Norte, segundo as más-línguas, sem fundos para a passagem de regresso à Europa.

 Romântico inconfesso, Lumbombo não sossegava enquanto não bolasse uma estratégia aparentemente desinteressada de atrair simpatia feminina. Foi então que aprendeu a esculpir pentes de madeira, ciente de ser a vaidade a primeira amiga de uma mulher. Nem foi preciso sequer um ano para o quintal do homem andar apinhado de beldades, perdoem-me aqui algum exagero.

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A CIDADE E AS SERRAS de Eça de Queirós - Por Arlete Deretti Fernandes


A CIDADE E AS SERRAS de Eça de Queirós - Por Arlete Deretti Fernandes 

 é sempre enriquecedor conhecer a Obra de um dos maiores escritores portugueses, Eça de Queirós.

 Seu romance «A Cidade e as Serras» traça um paralelo entre a civilização em que o escritor sempre vivera e a pureza rústica dos costumes que principiara a apreciar com as suas estadas na quinta do Douro, propriedade da família, depois da morte da sogra, a Condessa de Resende. Este livro, por seu idealismo pode fazer lembrar A Morgadinha dos Canaviais, de Júlio Diniz. O crítico Alberto de Oliveira é que sugere o paralelo.

 Este último romance de Eça impõem-se pelas belas descrições e as serenas evocações da serra portuguesa em contraste com os requintes de uma civilização que fizera de Jacinto o herói de «A Cidades e as Serras», «a primeira mentalidade nacionalista do romance português», segundo João Gaspar Simões.

 Eça pode ter castigado sua pátria, nas críticas que a ela fizera, mas exaltou-a após, esquecido de que o seu atraso só era benéfico para quem o podia usufruir no meio da riqueza, e para desfastio de um cansaço de civilização.

 O romance «A Cidade e as Serras» foi publicado em 1901, um ano após a morte do seu criador, Eça de Queiroz, o mais importante escritor realista português (1845 - 1900). Trata-se de uma obra semi-póstuma, onde 65 por cento do escrito chegou a passar pelo crivo do romancista. Com a sua morte, Ramalho Ortigão revisou e não alterou o enredo, que tinha sido originado no conto «Civilização».


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domingo, 23 de novembro de 2014

Pequena análise sobre um texto publicado por José Varzeano no Blogue Alcoutim Livre - Por Daniel Teixeira



Pequena análise sobre um texto publicado por José Varzeano no Blogue Alcoutim Livre - Por Daniel Teixeira

Introdução: Gostaria de esclarecer que o José Varzeano, entretanto infelizmente falecido, fez várias recolhas sobre etnografia e antropologia social no Concelho de Alcoutim e que eu, motivado por afinidades familiares e por recordações dos tempos passados naquelas terras e daquelas gentes colaborei no seu Blogue que, para quem não sabe, é uma verdadeira enciclopédia da específica ruralidade da Serra Algarvia.

Abaixo coloco o link do texto que aqui comento tendo por base um ponto que me fez ficar um pouco curioso. Há muito pouco trabalho publicado sobre usos e costumes nupciais e aquilo que se pode ler sobre o assunto tem de se ir encontrando em pequenas referências em contos e romances.

Uma parte substancial deles são escritos por médicos deslocados para esses locais, que aproveitam assim a sua estadia para descrever da melhor forma hábitos e costumes que por força da sua profissão vão percebendo. Este texto que refiro foi também escrito por um médico.

Já tinha lido, igualmente neste Blogue do falecido José Varzeano, um despique entre candidato a noivo e pais da noiva, um costume que na altura em que foi recolhido estava já em vias de ficar em desuso e que era cantado pela troupe e pelo noivo numa forma já bastante galhofeira.

Tratava-se de um processo de tese e antítese, em que o pai da noiva carregava defeitos sobre o noivo e sobre a sua capacidade de constituir família no que se refere às suas qualidades de trabalho e haveres, o que o candidato a noivo rebatia coadjuvado pelos seus apoiantes, acabando tudo numa confraternização conjunta.

Por outro lado tinha também já lido no mesmo blogue o final de um costume que durante tempos se praticou por aqueles lados e que se prendia com um hábito da noiva dizer «não» na altura em que era perguntada pelo padre se aceitava «aquele homem como seu legítimo esposo», saindo depois os noivos e os convidados da Igreja para voltarem minutos depois para a devida e completa cerimónia já com o «sim» de ambos. Este último costume foi cortado por um padre que chegado de novo não estava ao corrente do costume e se recusou a completar a cerimónia na sua segunda fase.


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Poesia de João Furtado - Ao entardecer o quadro continua; Meu nome na infância


Poesia de João Furtado - Ao entardecer o quadro continua; Meu nome na infância

 

 Ao entardecer o quadro continua

 

 Ao entardecer na Ilha bela e maravilhosa
 Tu e eu… Eu e tu contemplávamos o sol
 Peguei-te na mão e via-te amor orgulhosa
 Enquanto o Astro Rei escondia atrás do farol

 Cansados resolvemos entrar na água… na praia
 Entrelaçados e cheios de sonhos beijávamos
 A sombra da noite não reduzia a nossa alegria
 Não tínhamos nada além da vida e dos sonhos

 E também tínhamos a água tépida do mar
 Onde a natureza confundia a sua sublime energia
 Com o nosso forte e único deseja de amar
 Como era bela a certeza que amanha era outro dia

 Mas era mais um dia para o nosso amor se vibrar
 Saímos da água e sentamos ao pé do coqueiro
 A Natureza falava mais tudo parecia silenciar
 Perante o nosso amor tão nobre e tão verdadeiro

 A natureza nocturna acordava ávida de amar
 E nós curiosos e amantes contemplávamos a noite
 O mar não se cansava de os nossos pés molhar
 E eu não cansava de falar do futuro tal um vidente

 Hoje veio a idade mas não levou o desejo de sonhar
 Vemos os nossos frutos os mais velhos são pais
 E sorrimos para os netos, um a rir e outro a chorar
 Ao entardecer o quadro continua cheio de animais

 Praia, 18 de Novembro de 2014

 João Furtado

http://joaopcfurtado.blogspot.com

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Noites Cromáticas 1 - Recolhido em «as Leituras de Madame Bovary»


 Noites Cromáticas 1 - Recolhido em «as Leituras de Madame Bovary»

Picnic no Parque de Alvalade: há muito tempo, que não me deitava na erva a desfrutar do banho da luz da lua. Não percebia os corpos, ouvia apenas as vozes, deliciada e imaginava as rostos dos que não conhecia. Longe do som do mal, dos passos que ecoam fortes e solitários nas igrejas fechadas e húmidas. Percebo a quietude da natureza, das árvores nos passeios, das ervas daninhas nos intervalos das pedras de calçada, à espera de um intervalo nosso para recuperar o que lhe furtámos. Clamo em silêncio por uma oportunidade de vingança do verde.

 Alfama: alguns whiskies e vou vendo as caras que conheci no escuro. Caras menos enigmáticas do que as imaginei. Olhos mais alucinados do que supusera.

 Regueirão dos Anjos: sento-me ao lado de um homem, vestido com todo o rigor de Africa. Converso com ele. Fantasio-o um xamã. Diz-me coisas profundas, para ter cuidado com o presente. Lê a desordem na palma da minha mão. Depois sento-me num sofá, ao lado de um espanhol que encontrara noutra noite no LX Factory e que não se recordava da conversa que tínhamos tido. Na outra noite, estava há horas aos beijos com uma rapariga.

Quando saí da disco, continuavam cá fora. Na minha ingenuidade não me contive, aproximei-me, pedi desculpa pela interrupção, mas queria saber se aquilo era amor. Queria saber se o amor ainda pode existir nestes tempos. Ele tentou manobrar a questão, a rapariga respondeu de imediato, que não, que não era amor. Ele pareceu desapontado com a resposta. Perguntei então se era sexo. Ela respondeu que não, que era qualquer coisa entre amor e sexo.


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O ORACULO - Conto / Crónica de João Furtado


O ORACULO - Conto / Crónica de João Furtado

 Foi o Gregório quem levou aquele livro, o copo e um dado, recordo como se fosse hoje, por duas razões. Uma porque o dado era de fundo vermelho e pontos brancos, a cor que fazia lembrar o equipamento do Benfica. A outra razão é a rivalidade entre mim e o livro, para todos o livro dava uma resposta sonhadora, menos eu. Definitivamente, o «ORACULO DE NAPOLEAO» não quis nada comigo.

 Chegou como uma novidade lá em casa, era o livro da sorte e todos queriam saber a sua sorte. Desde as minhas irmãs até o meu pai, mesmo ele que era pouco dado as novidades ficou entusiasmado. Todos queriam saber o que seria seu futuro.

Pegavam no copo, colocavam o dado dentro do copo, agitavam o copo em movimento giratório enquanto proferiam a frase que o Gregório nos ensinou que era «Oráculo de Napoleão, Oráculo de Napoleão, diga-me….». Num movimento rápido embarcavam o copo sobre a mesa. Viam qual o número que coube a sorte e no livro, procuravam a resposta. As perguntas eram as que previamente se viam no livro.

 As minhas irmãs, a minha mãe e o meu pai ficaram todos satisfeitos com as respostas obtidas e estavam ansiosos para continuarem o jogo. Pelo menos estavam a viver uma vida de ilusão por algum momento.

Chegou a minha vez e queria que eu me despachasse o mais rápido possível, para continuarem a perguntar. Todos tinham mil perguntas a fazer e queriam a resposta.

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Comentários sobre as publicações


Comentários sobre as publicações


Ao longo dos tempos temos ido guardando os comentários que são colocados no nosso Blogue de Comentário com a intenção de colocar no jornal uma vez que, por aquilo que sabemos, alguns dos autores comentados nem sempre têm a oportunidade de ir ao Blogue ver esses comentários. Aqui deixamos mais uma remessa:


Pedro Du Bois deixou um novo comentário na sua mensagem «Poesia de Pedro Du Bois - INCIDENTAL; OBVIEDADE; A...»:

Como sempre, caríssimos, gratíssimo pela divulgação. Coloquei o link em meu blog. Abraços e bom final de semana. Pedro.

 Publicada por Pedro Du Bois em RAIZONLINE NOTICIAS a 30 de Maio de 2014 às 18:08


Virgínia Teixeira Antunes MSc deixou um novo comentário na sua mensagem «O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira»:

Texto com uma poesia muito própria, muitos «ditos»nos «não ditos».

Publicada por Virgínia Teixeira Antunes Sc em RAIZONLINE NOTICIAS a 4 de Junho de 2014 às 05:51

 Ilona Bastos deixou um novo comentário na sua mensagem «Poesia de Daniel Teixeira - I; II; III»:

Caro Daniel, Que bela Poesia! Emerge, da beleza das suas palavras, das suas imagens e mensagens, uma luz vivíssima e tranquila que dá gosto observar, ler e reler, aprofundar. Gostei muito. Um abraço, Ilona

 Publicada por Ilona Bastos em RAIZONLINE NOTICIAS a 8 de Setembro de 2014 às 09:06

Antonio Carlos deixou um novo comentário na sua mensagem «Sortido de Anedotas - Recolhidas na Net»:

Gostei imenso. Muito boas.

Publicada por Antonio Carlos em RAIZONLINE NOTICIAS a 10 de Outubro de 2014 às 06:17


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O Jogo Sério ou a pantomina do amor - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


O Jogo Sério ou a pantomina do amor - Texto recolhido em «As Leituras de Madame Bovary» 

 O Doutor Glas deixou-me muito curiosa sobre a obra de Hjalmar Söderberg, pelo que fiquei muito alegre quando soube na Feira do Livro que a Relógio d’Agua tinha acabado de publicar outro livro do autor.

O Jogo Sério é, nas palavras de Henning Mankel, «uma história de amor que não envelhece. Mantém-se tocante, evocativa e vívida». A história de Arvid e Lydia insere-se numa tradição comum daquilo que se chama a novela do adultério. Mas mais uma vez, temos de olhar para além das aparências em Söderberg. Ao contrário de Madame Bovary ou Anna Karenina, aqui ninguém morre por amor. A visão deste amor extraconjugal – o mais apto à codificação romântico porque externo ao contrato racional do casamento – não conserva qualquer vestígio de tragédia.

Arvid e Lydia nunca se comprometem de facto um com o outro. O jogo sério que ambos jogam é o da pantomina do amor, nenhum representando de forma exemplar. Tudo é banal e todos enganam todos. «Enquanto se beijavam, ele pensou: isto é apenas um gesto de cortesia exigido pela situação.»Quando a mulher de Arvid lhe pergunta se ele ouviu dizer alguma coisa, é impossível não suspeitar dela também. Tem razão a figura do escritor Rissler quando afirma que uma personagem construída a partir de Lydia é artificial. Neste jogo sério todos são artificiais, embora insistam em mimetizar o humano.

 Hjalmar Söderberg é talvez um autor que, à falta de um melhor termo, se poderia chamar pós-moderno. Não na forma obviamente, pois a sua prosa conserva a elegância e coerência narrativa do século XIX, mas na solução pós-romântica que as suas histórias encontram.


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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Jornal Raizonline nº 259 de 12 de Novembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Ainda a minha memória da Literatura Africana


Jornal Raizonline nº 259 de  12 de Novembro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Ainda a minha memória da Literatura Africana

Durante muitos anos procurei na minha memória...a memória do nome do autor de um romance que na minha juventude terá sido um dos primeiros romances que considerei erótico, não no sentido quase pornográfico que lhe é dado hoje, mas naquele sentido capaz de interessar um rapaz de 12/14 anos despontado na puberdade e vivendo numa sociedade dos anos 60/70 onde tudo o que subia além da normalidade envergonhada era considerado proibido ou de leitura não aconselhável.

Sabendo o que sei hoje penso que não terá sido na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que consegui obter esse livro e lembro-me que ele era mesmo meu, comprado talvez pela beleza da capa, onde o desenho de uma jovem negra aparecia junto a uma palmeira ou um coqueiro. A foto abaixo é de uma edição diferente (2ª neste caso) porque me lembro perfeitamente da palmeira ou do coqueiro.

Recentemente, e refazendo algumas leituras perdidas durante anos, lembro-me que nesse tempo adorava a literatura africana, que embora com fortes laivos de colonialismo, e muitas observações um pouco discutíveis sobre os hábitos e costumes dos indígenas, acabavam na sua essência por me fornecer o fantástico africano que era o que mais me cativava.

Os escritores que conhecia eram aqueles escritores africanos que tinham formação académica feita em Portugal o que para mim atenuava um pouco este tipo de perspectiva colonial ou semi-colonial paternalista, mas reparava muitas vezes que, talvez por causa da censura ou mesmo por necessidade de obter leitores muitas vezes os factos de cada escrito eram narrados numa perspectiva que era preciso mentalmente ratear.



A razão do Barriga na Sagrada Família - por Gociante Patissa


A razão do Barriga na Sagrada Família - por Gociante Patissa 

 Vou eu em manhã de intermitente sol pelas cercanias do Sagrada Família, no simples gozo de caminhar. Luanda, para turistas, ganha-se a pé. Tudo sobre rodas é lento, quase preso ao lugar. Até das árvores, as copas perderam a ginga, não se dá o vento a colher, vento que se converteu em sólido em obediência à malha gigantesca de edifícios. Não chove.

 E caminho no sentido oeste, digo caminhava. Não posso seguir, há sobre a calçada um destacamento da UGP - não que eu temesse armas, tão evidente que é o dom meu de anti-balas congénito, não é? Eh pá, é assim: os carabineiros estão bem no seu posto de trabalho, e não é de bom tom os importunar com «dá licenças»em meu dia de ócio, não é verdade? - Tenho de voltar ao quarto.

 Os quartos de hotel são iguais. Eu deles não gosto. Já nasceram impessoais. Escondo-me no aconchego cosmopolita de um livro, mas é por pouco tempo, felizmente. O companheiro de jornada convida para a caminhada, ao que anuo.

 Pelo caminho, uma agradável surpresa, a primeira: chega ao fim a lacuna deixada há dias pelo par de calçado convencional para os dias de ofício. Sapato com o mínimo de estética e ao mínimo preço. Ufa!, para alguma coisa vale a insubordinação dos vendedores ambulantes aos fiscais da Câmara e respectivo código de postura.



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A Flauta Mágica - Conto Infanto / Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)


A Flauta Mágica - Conto Infanto / Juvenil de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz) 

 Era um barulho ensurdecedor na capoeira e ninguém sabia porquê.
 - Có, có, ró, có, có, có,
 có, có, ró, có, có, có,
 có, có, ró, có, có, có...
 O Senhor Pinto, já cansado de ouvir tanto barulho, saiu de casa e foi até à capoeira, que era ao fundo da quinta.

Estava uma noite péssima, e chovia torrencialmente. O vento abanava as árvores e, mal o Senhor Pinto se descuidou, virou-se-lhe o guarda-chuva e ficou molhado que nem um pintainho, mas nem por isso deixou de ir à capoeira, para tentar por termo à guerra que lá existia.

Quando lá chegou, ficou todo arrepiado, porque aquilo era um pandemónio; desde penas pelo ar, peles arrancadas, pernas partidas, havia tudo que lhe desagradava. Muito zangado, entrou na capoeira, mas por mais que gritasse para se fazer ouvir, as galinhas não o ouviam e continuavam aos pulos, picando-se umas às outras com o seu có, có, ró, có, có ensurdecedor.

O Senhor Pinto, furioso, sem conseguir aquietar as galinhas que além de se picarem umas às outras, ainda o picavam no meio daquela confusão, saiu, voltou a casa e disse à mulher:
 - Oh mulher, não sei que hei-de fazer! As galinhas estão todas loucas e não consegui sossegá-las. Vai lá tu, que és mais paciente e talvez consigas alguma coisa.


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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Admiração - Texto de Maria Alvaro


Admiração - Texto de Maria Alvaro

«Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar»
Simone de Beauvoir

Com excepção sobretudo do Amor materno, mas também do fraterno, filial, de amizade ou de amor/empatia pelo próximo, julgo que nenhum tipo de amor entre casal resistirá com facilidade a uma ausência do sentimento de admiração.

 Como Simone de Beauvoir afirma, o mundo «não seria habitável» se não conseguíssemos encontrar num outro uma estrutura física e psicológica que nos suscitasse encantamento. A admiração pode existir sem amor, mas creio que o amor não subsiste sem admiração.

 Quando a admiração é exclusivamente física, ela e o amor ficam mal calçados, uma vez que o aspecto físico se deteriora com o tempo. Se for de caráter psicológico, intelectual ou espiritual, essa admiração pode vir a ser reforçada com o tempo...

 Admiração é, na minha opinião, o seio que alimenta o amor. Estão incluídos nela os ingredientes reforçadores do respeito, do sentimento de extremo interesse pela diferença e pela estranheza em relação a nós próprios, do sentimento de certa pequenez da nossa parte perante a (parcial) grandiosidade do/a parceiro/a, do desejo de proximidade e toque, da permanente contemplação e busca pelo que nos agrada nesse ser, da alegria e orgulho de constatar algo que lhe dá destaque face aos restantes, do desejo de fusão nessa (para nós) preciosa receita de joalharia humana e, finalmente, da vontade de também ser mutuamente admirado e amado por esse ente querido.


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Corpo/Espírito - Texto de Liliana Josué


Corpo/Espírito - Texto de Liliana Josué 

 Há sempre o reflexo dos nossos passos em cada esquina, mas nem sempre em cada esquina que viramos o cérebro acompanha os passos, vai noutra direção, naquela que os pés não atingem.

 O espaço cerebral é sempre amplo demais comparativamente às ruas que percorremos com os nossos pés, mas os nossos pés tornam-se cada vez mais reflexo, e vamos com ele sem nos importarmos saber para onde. Então os caminhos deixam de ser os que pisamos com os pés passando a ser aquilo que o reflexo percorre. Neste momento surgem vastas avenidas debruadas a flores e muito coloridas, onde não entra a menor sombra. Só luz, calor e harmonia.

 Os pés continuam a pisar chão duro, frio e escuro por entre vielas, cais tristes ou calçadas de infortúnio. As mãos seguram a esperança colhida nas largas avenidas e perfumam-se nos aromas libertos pelo encanto. Por vezes, fraternais, têm de suspender a leveza desse estado para dar algum consolo e amparo aos pés calejados e feridos de tanto caminhar em direção a lugares estreitos e pouco estruturados . Elas afagam-nos, tratam-nos, tentam dar-lhes alento ingloriamente. Depois soltam-se voltando às suas avenidas arejadas e solarengas.

 O corpo balança entre infortúnios e alegrias. Tem necessidade dos pés para o conduzir e das mão também para o proteger e afagar.
 Os olhos tudo observam numa negligência de espectadores enquanto a boca se ri escarninha daquilo que os olhos lhe dizem.


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Poesia de Virgínia Teixeira - Maré; Vendaval; O meu caminho…


Poesia de Virgínia Teixeira - Maré; Vendaval; O meu caminho…



Maré

 

 Nosso amor é um poema inacabado,
 Uma voz calada contra vontade
 Uma maré que não se revolta no seu curso,
 Uma esperança arrancada pela raiz.

 Nosso amor é um sonho mal delineado,
 Um castelo erguido no nada
 Que o vento arranca com uma brisa suave

 O nosso amor é o som de crianças,
 O cheiro de flores colhidas há pouco
 O brilho de um olhar apaixonado
 O sorriso que nasce do peito

 Nosso amor é o cheiro que falta,
 O sabor que não conhecemos
 A sede que nos guia um para o outro

 O nosso amor é uma estrada com fim à vista,
é o esquecimento e a lembrança eterna
é uma demência doce demais...

 Nosso amor é uma solidão menos só.


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Poesia de Pedro Du Bois - A direção do vento; Paixão; Ir


Poesia de Pedro Du Bois - A direção do vento; Paixão; Ir


A direção do vento
 

 Corta os pés pelas mãos retira
 a direção do vento altera a altitude
 da montanha e se desfaz em gelo
 liquefeito bebe o entardecer
 Nada ergue em honras descobertas
Cata o pão amassado e ao demônio
 deseja boa sorte Esfacela a conversa
em retorno e emudece a parede
a caricatura desce do pedestal
 e se enfurna em sossego
Antecipa o feriado esquece
no presente o lamento Caça
as mãos pelos pés e se endireita
 ao chamado do sexo em razões
 desenfreadas Avança no estupor
 do disparo e acomoda o corpo
 ao espaço.

(Pedro Du Bois, inédito)


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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Poesia de Liliana Josué - PROFESSORES (1) - PROFESSORES (2)


Poesia de Liliana Josué - PROFESSORES (1) - PROFESSORES (2)

 

 PROFESSORES (1)

 

 Senhor professor diga lá
 O que tem para me ensinar
 Eu sou pequenino, não vá
 Dar-me a «estrina» e «basar».

Preciso do seu colo amigo
 E goste de brincar comigo
 Minha criança encantadora
 Professor é isso que pedes
 é estender-te a mão protetora

E poder sentir que a mim cedes
 Todo o teu querer entender
 O jogo, dar e receber
 Ah! Professor é ser assim?
 E muito mais doce criança
 Uau, vai gostar sempre de mim?

Sim, de ti vem toda a esperança
 Esperança… o que quer dizer?
 (quer dizer)
 Que o mundo pode renascer!

Liliana Josué


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Poesia de Mário Matta e Silva - Caprichos do Sol e da Lua; Vibrações


Poesia de Mário Matta e Silva - Caprichos do Sol e da Lua; Vibrações

 

 Caprichos do Sol e da Lua

 

 Quando nas asas das borboletas o sol espreita
 Abre-se a madrugada com perfume a hortelã
 Ouvem-se os rouxinóis no seu afã
 Mostram-se as papoilas numa pintura perfeita
 E no charco salta a esverdeada rã.

 Quando interrompido o sonho num arfar baixinho
 Há efusivas esperanças na canção do dia
 Enchem-se as nuvens de branda fantasia
 O azul do céu tem suave carinho
 E a aragem fustiga-nos em suave harmonia.

 Quando a tarde cresce em tons de framboesa
 Tudo se refresca no ondular da maré
 Cada raio de sol é demonstração de fé
 Rodopiam folhas bailando na natureza
 E as árvores robustas resistem de pé.

 Quando o crepúsculo se esgueira lentamente
 Trás um cantar solene, franco, dominador
 E vai num abraço despedir-se do sol com amor
 Um amor rubro, perverso, pungente
Depositando a noite nas pétalas de cada flor.

 Quando a noite se instala traz um manto escuro
 Numa prece de esperança, num trinado de alento
 Rejubilando a lua, paixões do momento
 E no brilhar das estrelas, eu poeta, procuro
 O renovar do dia de que me alimento.

 13 de Outubro de 2014

Mário Matta e Silva


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O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira


O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira   

 O homem espreitou pela porta entreaberta e perguntou ao senhor do balcão se havia algum café suspenso que ele pudesse tomar e este respondeu-lhe que não havia nenhum café suspenso mas que ele podia arranjar. Ele que entrasse, disse-lhe.

A pastelaria estava vazia e o senhor que estava atrás do balcão e que limpava copos com um pano branco perguntou então ao homem que tinha já entrado se ele não queria outra coisa, talvez uma sandes e um galão, disse.

 Ele disse que sim, o homem, disse que agradecia. Não lhe disse, nem iria dizer a ninguém que não fosse um mendigo como ele e se isso calhasse em conversa, que era já o quarto café que pedia nos estabelecimentos da zona e que até ali não tinha encontrado nenhum café suspenso.

Agora tinha ali a sorte de lhe sair uma oferta de uma sandes e um galão em vez de um só café, como buscava, o que era bem melhor, conforme também tinha dito o senhor que estava atrás do balcão. E era verdade, certo que era verdade.

O facto de ser aquele o quarto estabelecimento onde perguntava por um café suspenso, era coisa para ele pensar para si mesmo ou para falar com outros amigos mendigos se calhasse a jeito porque estas e outras coisas menos boas os mendigos não dizem a ninguém que não seja mendigo.



domingo, 9 de novembro de 2014

Sortido de Anedotas - Recolhidas na Net


Sortido de Anedotas - Recolhidas na Net

 Premonição

 Um homem vai ao quarto do filho para lhe dar boa noite e repara que o miúdo está a ter um pesadelo.
 O pai acorda-o e pergunta-lhe se ele está bem.
 O filho responde que está com medo porque sonhou que a tia Susana tinha morrido.

 O pai garante que tia Susana está muito bem e manda-o de novo dormir.
 No dia seguinte a tia Susana morre.
 Uma semana depois, o homem volta ao quarto do filho para lhe dar boa noite.
 O miúdo está novamente a ter um pesadelo, e desta vez diz que sonhou que o avô tinha morrido.
 No dia seguinte o avô morre.

 Uma semana depois, o homem vai de novo ao quarto do filho para lhe dar boa noite.
 O miúdo está novamente a ter outro pesadelo. Desta vez o filho diz que sonhou que o pai tinha morrido...
 O pai garante que está muito bem e manda-o de novo para a cama.
 No dia seguinte ele está apavorado. Tem certeza de que vai morrer.
 Sai para o trabalho e conduz com o maior cuidado para evitar um acidente. Não almoça com medo de veneno; evita as pessoas, com medo de ser assassinado, tem um sobressalto a cada rua...

 Ao voltar para casa, ele encontra a esposa e diz:
- Meu Deus... Tive o pior dia da minha vida!
 E ela responde:
- Realmente parece que hoje o diabo anda à solta, imagina que hoje de manhã, o nosso canalizador foi atropelado aqui na rua e morreu!

 Conclusão: Há momentos em que ser cornudo não é um problema, é um alívio.


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Dia da Pátria - Texto de Ivone Boechat


Dia da Pátria - Texto de Ivone Boechat


 Brasil, seus filhos hoje aqui estão, de mãos dadas, vibrantes, com toda a força que a união encerra, nessa mistura de raças, nessa grandeza de pensamentos.

Meu Brasil, é preciso traçar seu perfil nos versos do poeta brasileiro, rimar sua beleza, cantar seu ritmo, sonhar ao som de suas maravilhosas cascatas: viver, um só ideal, uma só bandeira, uma só canção de liberdade.

A natureza buscou todas as flores ao orvalho das auroras e transformou neste jardim; tapete verdejante destas lindas terras. Nesta apoteose de cores, cantamos em uníssono o seu hino, numa demonstração de fé, de contemplação e de paz. Estamos conscientes da importância inaudita da integração de forças.


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A segunda vez que tentei fazer a Primeira Comunhão - Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano.


A segunda vez que tentei fazer a Primeira Comunhão - Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano.

 Era um sábado incomum. Há um bom tempo eu estava às voltas com os preparativos para a minha primeira comunhão. Durante muitos dias se discutiu se eu deveria usar uma roupa branca ou azul marinho. Finalmente chegaram à conclusão que só deveriam resolver no momento da compra.

Para se fazer a compra tinha que se ir para a cidade, e para se ir até a cidade, desde a fazenda em que vivia era necessário passar por uma verdadeira via sacra. Tínhamos que tomar o caminhão dos bóias frias que zarpavam da fazenda muito cedo, por volta de três e meia da manhã.

O caminhão nos deixava próximo da cidade, mas não ia dentro da cidade. Dali, tínhamos que esperar o ônibus que vinha da cidade vizinha que nos levava até o «comércio» da cidade, onde minha roupa da primeira comunhão me esperava. Só de pensar ficava excitado. E de tão excitado, não dormi.

Muito antes do galo do terreiro cantar, sim porque na minha terra o galo é tido como um relógio pois canta em horas determinadas; eu já estava de pé.

Lavar o rosto, botar uma roupa de passeio pentear os cabelos e escovar os dentes nunca tinham sido atividades tão prazerosas.

Embarcamos no caminhão no local e momento determinado; e eu me sentia orgulhoso de ser o centro das atenções. Quando, finalmente, o caminhão nos deixou no local previamente conhecido, eu ainda estava bem disposto. Foi então que aconteceu algo, que marcou minha vida.

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Poema de Roseli Busmair e Arlete Piedade - EU DEIXEI DE CHORAR


Poema de Roseli Busmair e Arlete Piedade - EU DEIXEI DE CHORAR


 EU DEIXEI DE CHORAR



Deixei de chorar
 Já não choro
 Pois já chorei de mais
 E demais senti as minhas lágrimas
 Correrem nas lavras do meu rosto
 Que hoje as lágrimas
 Já habituadas a escorrerem
 Rosto abaixo
 A caminho da lagoa
 Que aos meus pés formaram
 Elas as lágrimas
 Sem eu desejar
 Nem querer
 Já saem e caminham
 Rumo a lagoa
 Aos meus pés
 Sempre e sempre e sempre
 Que sinto
 Por mil razões
 A necessidade de chorar
 E resisto
 E não choro
 Só as minhas lágrimas
(...)

 


O Menino e o Executivo - Texto de Irene Fernandes Abreu - Blogue Valium 50


O Menino e o Executivo - Texto de Irene Fernandes Abreu - Blogue Valium 50

 Mesmo que não possas acabar com o sofrimento dos outros, só o facto de te importares, irás diminuí-lo.

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bastante afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns problemas de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são. Pedi uns filetes com arroz, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, não é?

 Abri o meu portátil e apanhei um susto, quando ouvi aquela voz baixinha atrás de mim:
- Senhor, não tem umas moedinhas?
- Não tenho, menino.
- Só uma moedinha para comprar um pão.
- Está bem, eu compro um.

Para variar, a minha caixa de entrada estava cheia de e-mails. E fico distraído a ver poesias, as fotografias engraçadas que um amigo mandou, rindo-me com as piadas malucas que outro amigo me mandou. Ah! Estes sites têm várias dos anos 80, são bem agradáveis e...
- Senhor, peça para colocar margarina e queijo aqui no pão, por favor.



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sábado, 8 de novembro de 2014

Poesia de Marcos Loures como Tenesmo Telencefálico - NUAS MELODIAS; OCASOS; ALBORES


Poesia de Marcos Loures como Tenesmo Telencefálico - NUAS MELODIAS; OCASOS; ALBORES

 

 NUAS MELODIAS

 

 Dançando nas esferas e nas ruas
 As nuas melodias e os sonhos,
 Que fazem de meus olhos mais risonhos
 E em plenas alegrias; continuas.

 As Ruas e destinos são festejos
 Realejos dos meus tempos de criança
 Quem me dera se todos os desejos
 Realizassem por certo uma esperança

 Mas...nada; estou assim muito feliz,
 Sabendo que virás ao fim do dia.
 O brilho dessa vida, sempre quis.

 Buscando novamente, um aprendiz,
 Revivendo invadindo a poesia
 Trazendo, ao fim da vida, uma alegria!

 MARCOS LOURES


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Boneca de Tripas - Conto Recolhido em «As leituras de Madame Bovary»


Boneca de Tripas - Conto Recolhido em «As leituras de Madame Bovary»

Não fui uma criança alegre. Fui uma adolescente fabulosa, entusiasmada e enérgica, mas enquanto criança fui uma menina triste, metida comigo mesma em contas misteriosas. Não sei bem porquê. Gostava de estar sozinha, achava as meninas da minha idade imaturas e não gostava que me despertassem da minha reclusão.

 Recordo um Agosto, passado na casa de praia dos meus pais, com a minha tia, o seu marido, os meus primos e o meu irmão mais novo. Os meus pais e o meu irmão mais velho tinham ficado na vida de adultos isenta de longos verões. Eram dias angustiantes e quentes, em que me sentia sufocada por não poder entregar-me aos vícios da solidão, obrigada a conviver em grupo e a encontrar alegria no modo vigente de ser uma criança saudável. Sentia a falta de mim e da minha casa sem os estranhos a mim.

 Recordo os dias passados na praia de Odeceixe, como dias de orfandade, de desligamento. Dias inteiros a chapinhar na água de biquíni vermelho. Vermelho órfão. Nem no meu irmão Miguel, o companheiro fiel da minha infância, encontrava o conforto da ligação, o refúgio terno da minha solidão.

 Como naquela tarde solarenga em que ambos nos deliciávamos nas travessuras habituais, desafiando a paciência dos deuses com arrogância e eu me magoei ao saltar sobre um ferro. Em cheio no pipi. Uma dor aguda, violenta. E eu a fugir, a escapar-me para um canto para tocar a minha falha. A mão a voltar cheia de sangue. Vermelho vivo. A consciência súbita da natureza violenta, obscena da beleza. Como uma bofetada seca, isolada. A súbita percepção de que era feita de sangue. E a tristeza, breve e marcante, de não poder partilhar com o meu leal companheiro, o meu irmão de sangue, a dor daquela mancha. Vermelho imperfeito.


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Meu Henrique querido - por Cecílio Elias Netto


Meu Henrique querido - por Cecílio Elias Netto


Ele foi uma das mais doces e generosas pessoas com quem convivi. Não houve, em Piracicaba, quem não amasse Henrique Spavieri. O homem bom morreu de dor.

Morte e luz

A de Henrique Spavieri foi morte anunciada. Mais dramaticamente ainda, morte generosamente desejada por seus amigos, que não mais suportavam ver aquele todo e injusto sofrimento. Os últimos anos de vida de Henrique abalam crenças, convicções, credulidades. Pois foram tão amargos e doloridos, tão realmente injustos pela visão humana que – mesmo aos que têm fé – é quase impossível pensar em desígnios de Deus.

Há muito, nesse sofrimento de Henrique, da purgação de Jó. Como pode alguém tão generoso, tão decente, tão bom, tão cordial ser vítima de tamanhos sofrimento e injustiça?

Sabemos, os mais próximos de Henrique – que somos muitos, desde as velhas e heróicas batalhas em O DIARIO – não ter sido, ele, levado pela enfermidade física, que o câncer não foi a causa de seu fim, mas o efeito.

Henrique Spavieri começou a morrer de tristeza, de amargura, da insuportável angústia da injustiça que foi corroendo-o dia a dia. Antes de ser atingido no corpo, Henrique foi ferido na alma. Ferimento mortal. Sem piedade. Sem qualquer compaixão.

O grande fotógrafo, o extraordinário profissional, o generoso homem viu sua história ser tratada como um chinelo usado e imprestável que se joga fora. Para um novo mundo de crueldades, Henrique Spavieri – uma criatura enriquecedora de todos de quem se aproximou, de tudo a que pertenceu – foi considerado apenas um objeto descartável.


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A minha Tia Dionísia - Texto de Daniel Teixeira


A minha Tia Dionísia - Texto de Daniel Teixeira

A minha tia Dionísia foi uma personagem peculiar em muitos sentidos: foi a primeira da irmandade a «debandar» de Alcaria Alta. Sempre a conheci como sendo cozinheira como métier principal, embora houvesse alguma polivalência sempre nestas coisas.

 Ela tinha um dom mesmo no que se refere à cozinha: fazia o tal arroz solto, daquele mesmo solto bago a bago e isto num tempo em que a qualidade do arroz não era tão refinada como hoje. E doces nem se fala: arroz doce era o meu preferido, embora houvessem outras coisas também mais sofisticadas como ovos moles, nuvens (de claras de ovos) com canela por cima, as empanadilhas com batata doce, gila ou abóbora, enfim... Para uma montanheira criada a cozidos de couve e grão soube adaptar-se muito bem a novas realidades.

 No que se refere à cozinha era quase uma mãos largas, gostava mesmo daquilo, de cozinhar, de ver as pessoas satisfeitas...mas era uma sovina no resto.

Durante uns quantos anos dei mensalmente à minha Tia parte do dinheiro que ganhava em Lisboa e para o recuperar quando me quis vir embora foi um verdadeiro drama: tinha-o na Caixa a prazo, era meu não havia problemas, mas só mo entregava quando acabasse o prazo (cinco anos salvo erro). Só mo deu quando eu parti para França, «ao salto» e tive sério receio que ela ainda quisesse ir discutir o preço da passagem com o clandestino passador.


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Pensamentos a esmo sobre cães a esmo - John Steinbeck


Pensamentos a esmo sobre cães a esmo - John Steinbeck

Recolhido em Blogue Panorama de Pedro Luso de Carvalho


Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento de nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou sua percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu descansar um pouco sem ser perturbado por animais sorrateiros.

Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão «venatório» etc. e, finalmente, diz: «Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas». Quanta sabedoria havia aqui. O cãozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

 O cachorro em nossos dias, mudou de função. Claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para suas complicadas profissões, mas em nossa população total de cachorros estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, mas de longe a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou uma mulher. Uma plateia para os tímidos. Um filho para quem não tem filhos.


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Hai-cais - Soin; Reikan; Moritake; Ryusui; Issa; Anónimo; Chiyo; Issa


Hai-cais - Soin; Reikan;  Moritake; Ryusui;  Issa; Anónimo; Chiyo; Issa

 

Soin

 

 A vida? Simples borboleta
 agitando-se na relva...
 Como ela é delicada!

 

 Reikan

 

 As flores de amendoeira?
 Mais belas do que os meus versos:
 Alvas borboletas sem palavras.

 

 Moritake

 

 Uma flor caída
 voltando ao ramo? Oh, não!
 Uma simples borboleta branca.


COLUNA POETICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço


COLUNA POETICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço

 

Que o vento me levante!

Docemente
 me eleve
 acima de toda a pena
 na sua diáfana
 asa
 proteja
 da dor salgada
 entranhe
 no azul profundo
 leve
 as cinzas magoadas
 na busca
 de nuvens brancas
 onde
 repouse a fronte
 adormeça e acorde
 sossegue
 de onde volte
 renascida
 para cantar a ternura
 e
 saudar a primavera
 na luz que a todos afaga,
 aspergindo amor na Terra!


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