sábado, 31 de maio de 2014

Jornal Raizonline nº 251 de 31 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Fazer o que se pensa saber fazer


Jornal Raizonline nº 251 de  31 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - Fazer o que se pensa saber fazer

Neste nosso mundo aqui virado para a Internet, existe uma quantidade substancial de pessoas que fazem aquilo que pensam saber fazer: uns fazem poesia, outros crónicas, contos e todo um rol de actividades relacionadas com a arte, que é ao fim e ao cabo aquilo que nos interessa aqui e motiva essencialmente a existência deste jornal.

O projecto Raizonline, para quem está lembrado, nasceu tendo como objectivo principal reunir um grupo diversificado de pessoas que se interessassem pelo plano cultural, independentemente da sua origem nacional, havendo como factor de entendimento entre todos a língua portuguesa.

Nem de outra forma poderia ser, segundo o entendimento da altura, uma vez que língua portuguesa funcionaria, (e funciona), como factor de ligação na plataforma mais imediata que se consegue neste nosso mundo plural da lusofonia.

Evidentemente que o universo da lusofonia se  estende muito para além do factor língua comum: há vivências que são comuns ou que não o sendo entram com alguma facilidade maior nos nossos entendimentos. Lê-se bem uma história ou um poema  venham eles de Angola, de Cabo Verde ou do Brasil, etc.

Com maior ou menor apetência talvez seja até mais fácil entender outras vivências marcantes noutros países, servindo-nos da nossa universalidade dentre deste campo da lusofonia. Quanto maior ela for, essa universalidade, maior será, em termos lógicos, a facilidade como se entende, ainda que com palavras e dizeres diferentes, aquilo que nos é dito por um qualquer quadrante desta tal de lusofonia.

E neste aspecto, sem querer menorizar outros quadrantes lusófonos, parece-me que Portugal e o Brasil têm, neste plano, uma grande vantagem. No caso de Portugal, a sua posição privilegiada (pela história) de país charneira investe bem, ou relativamente bem, nos falares (escreveres aqui) de quase todo o mundo lusófono. O Brasil, por ser o maior país onde se fala português, com maior número de falantes em português, igualmente está, na minha opinião, habilitado para uma boa prestação nesta questão do entendimento comum (na lusofonia). 



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Poesia de Virgínia Teixeira - Veneno ; Eclipse; A minha casa sonhada


Poesia de Virgínia Teixeira - Veneno ; Eclipse; A minha casa sonhada


Veneno



Tantas lágrimas derramadas num tempo já ido
 Fluidas num rio de sal e angústia, lamacento de traição
 Rio que corria revoltado e feroz, de mim condoído
 Ferida de morte por um punhal afiado com desilusão…

E, ao nascer do Sol, o rio começou lentamente a secar
E no pântano viu-se nascer uma singela flor de esperança.
Os passos ficaram mudos na fuga e pensaram parar
 E os raios ardentes acenderam a centelha voraz da aliança

 Na lama da Razão ficou enterrado o punhal odiado
 Encoberto, mas tão real quanto a desilusão que restou…
E ao anoitecer, quando a Lua do seu sono despertou,

O rio voltou a brilhar ao luar com um laivo esverdeado,
De veneno puro, que se impregna devagar e profundamente,
Para os laços dourados do amor macular, eternamente…

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Poesia de Xavier Zarco - poemas da minha rua ; uma redondilha de 2009 ; há dias em que o verso se derrama


Poesia de Xavier Zarco - poemas da minha rua ; uma redondilha de 2009 ; há dias em que o verso se derrama

 
poemas da minha rua

 

 Mais um da série «poemas da minha rua»ou será «poemas para a minha rua»? Vou pensar no assunto!

 que se lixe o poema a poesia
 até este que se escreve
 se poema for
 agora que saio
 enquanto ela dorme
 quarentona e eu miúdo de vinte anos
 que se lixe só penso não no corpo
 fácil
o dela e também o meu
 entregue após dois dedos
 de conversa
 e um copo bebido à pressa
 no boémia
 quarta-feira à noite
 ali à sé velha
 mas nos beijos da infância trocados
 por rebuçados
 aí sim
 que não se lixe o poema
 a poesia
 a magia de ousar de arriscar
 de ser no fundo feliz
 aproximar-me do que sinto
 ser a felicidade
 porque um só beijo desses mesmo que
 falhado porque só na face
 me levaria ao colo madrugada
 fora ladeira acima
 até ao cume de santa clara
 com um sorriso tipo sol nascente
 mesmo que
 como cantava o outro ao sol poente
 fosse patrocinado
 por uma bebida qualquer

 Xavier Zarco



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Poesia de Sylvia Beirute - Desejo infinitesimal ; Exercícios para os olhos ; Correspondência


Poesia de Sylvia Beirute - Desejo infinitesimal ; Exercícios para os olhos ; Correspondência



Desejo infinitesimal



 {que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
 poder reproduzir clandestinamente a explicação
 da conclusão do desejo infinitesimal?}
 {que horas eram quando a razão de espírito
 substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
 no dia que dilui
 na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
 o silêncio com princípios aleatórios?}
 {que horas eram quando deixaste que a alma
 somasse corpos e subtraísse outros?}
 {que horas eram quando viver era deixar morrer
 e a solidão incomunicável?}
 {que horas eram quando o tempo acabou?
 que horas eram?}

 Sylvia Beirute

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Quinta feira da Espiga ou da Ascenção - Soledade Martinho Costa - Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV


Quinta feira da Espiga ou da Ascenção - Soledade Martinho Costa - Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV

O dia da Ascensão ou dia da Ascensão do Senhor, tem lugar quarenta dias após o domingo de Páscoa. Designado, popularmente, por quinta-feira de Espiga, comporta praxes e tradições que assumem carácter universal. A mais comum está ligada ao ramo de espiga, com «poderes de virtude benfazeja», que se colhe neste dia pelos campos, constituído por espigas de trigo (abundância de pão), tronquinhos de oliveira (que simbolizam a paz), papoilas (a alegria), malmequeres brancos (a prata) e malmequeres amarelos (o ouro) – sempre em número ímpar em relação a cada um destes elementos.

Colhido o ramo, de preferência entre o meio-dia e a uma hora, devem rezar-se, conforme manda o preceito, três ave-marias e três pais-nosso (Beira Litoral). Em certas zonas do Alentejo, respeitando-se o sacralismo desse momento, considerado o espaço mais benéfico, colhem-se cinco espigas de trigo, cinco folhas de oliveira e o maior número possível de flores silvestres brancas e amarelas. Enquanto se procede à recolha, rezam-se cinco ave-marias, cinco pais-nosso e cinco gloria patri, «para nesse ano haver em casa trigo, azeite, ouro e prata».

Em Orca (Beira Baixa) e nas localidades ao redor, o dia da Espiga leva também o nome de dia da Marcela ou dia da Marcelada. Por isso se canta: «Eu venho da Marcelada / venho de colher marcela/ lá dos campos da Idanha / daquela mais amarela.»

O ramo de espiga guarda-se dentro de casa, na cozinha ou na sala, por vezes atrás da porta ou junto de uma imagem religiosa, aí se conservando, servindo de talismã, com «virtudes de protecção e esconjuro», até ao ano seguinte, altura em que é substituído por um novo ramo.


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Poesia da Mário Matta e Silva - Cântico à Musa ; Vim de longe


Poesia da Mário Matta e Silva - Cântico à Musa ; Vim de longe

 

 Cântico à Musa

 

 Desprendi os teus cabelos
 Onde semeaste o perfume
 Deitei-te perto do lume
 Num canapé feito d’estrelas
 Ofereci-te jóias e conchas
 E todas as coisas belas
 Em vapores de maresia
 Caiu a noite é fim de um dia
 Claro, calmo, ensolarado
 E deslumbrado viajei contigo
 No pensamento arejado
 Com o tempo como inimigo.
 Com teus olhos me fitando
 Tão coloridos, tão sensuais
 E no teu corpo as volúpias
 Do sangue se misturando
 No peito arfante e terno
 Numa entrega delirante
 Contigo escrevo e canto
 Meiga e suavemente
 Tu não me foges da mente
 E enquanto me ofereces encanto
 Com versos e pétalas teci
 A Musa que há em ti.

 15 de Maio de 2014

 Mário Matta e Silva


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Poesia de Pedro Du Bois - INCIDENTAL; OBVIEDADE; ANO CIVIL


Poesia de Pedro Du Bois - INCIDENTAL; OBVIEDADE; ANO CIVIL



INCIDENTAL



A mulher cruza a peça
 em direção ao corredor interno.
 Sua perna falseia a verdade
 da caminhada. Os pés
 desistem da cena. A mulher
 desaparece no vão da escada.

 Espada em punho o homem
 acompanha a cena. A lâmina
 trespassa seu braço. As mãos
 tremem o aço oxidado. O sangue
 inunda o vão da escada.

 Outra mulher leva nas mãos o pano
 de limpeza e o balde. Ajoelhada
passa o pano no vão da escada.

 Espreme o pano dentro do balde.
O balde transborda na mulher
 desaparecida e no braço
 do homem oxidado
na temperada espada.

 (Pedro Du Bois, inédito)


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Poesia de Sergio António Meneghetti - Porta da vida; Na Vinha Do Mestre


Poesia de Sergio António Meneghetti - Porta da vida; Na Vinha Do Mestre

 

 Porta da vida

 

 Nova aurora se inicia
 O que era latência
 Hoje principia
 Agora é existência
 Vem através deste anjo bom
é a porta da vida e do bem
 Esta que tem este dom
 Esta que o amor sempre tem
 Que ser maravilhoso
 Que não importa a situação
 Que acolhe o humilde ou orgulhoso
 Que nos ensina a sermos irmãos
 Admirável ser que não descansa
 Admirável mulher companheira
 Admirável ser que nos dá confiança
 Admirável mulher, que nos acompanha a vida inteira.
 Esta porta viva da vida
 Esta forma de amor e perfeição
 Esta amada e sofrida
 Esta que esta dentro do nosso coração
 Mãe que nos gera existência
 Mãe na paz ou na guerra
 Mãe que nos ama com paciência
 Mãe extensão Divina na terra.

 Sergio Antonio Meneghetti



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BARCAS E BARCOS NA DOCA - Texto de Lina Vedes


BARCAS E BARCOS NA DOCA - Texto de Lina Vedes 

 Na década de 40 e princípios da de 50, as vias de comunicação terrestre eram insuficientes havendo ainda o inconveniente da Serra do Caldeirão ser uma verdadeira barreira quase intransponível. Para reforçar esse défice recorria-se ao transporte marítimo de pessoas e cargas.

 Na Rua Conselheiro Bívar, conhecida por Rua do Chiado, existiam escritórios de intermediários, que negociavam a utilização de barcos de carga que transportavam cortiça, toros de madeira, sal, seiras de figos secos, alfarroba triturada e o seu caroço…
E é fácil imaginar o decorrer dessa situação, banindo a realidade actual, retirando os edifícios do Hotel Eva, Capitania e a Rodoviária.

 Teríamos um descampado de terra batida com imensos carros de besta, aguardando o frete, com o cheiro característico dos excrementos dos animais e o burburinho de homens, cuidando deles, excitados e com a esperança de ganhar o dia.
 Ao longo da manhã o barulho adensa com a chegada de carroceiros trazendo mercadorias, que são despejadas ali, perto das barcas, em frente da Alfandega e transferidas para elas pelos estivadores.

 O vaivém é permanente com a intervenção reguladora dos intermediários e do guarda-fiscal que tudo examina. Há uma guarita situada no local de transbordo e uma outra perto dos bombeiros.
 Na doca, acostados, encontram-se barcos e barcas.
 As barcas, sem motor, só transportam as mercadorias para além da barra, local onde são esperadas por navios fundeados.

 Os barcos, motorizados e com velas, deslocam-se para Lisboa, Porto, Viana do Castelo, para Espanha e Huelva, Algeciras, Chiclana e para Marrocos a Casablanca, Tanger, Safi…



AS CILHAS - Crónica /Texto por Daniel Teixeira


AS CILHAS - Crónica /Texto por Daniel Teixeira  

 Por vezes posso dar a impressão que partilho daquela ideia citadina de que os montanheiros trabalham pouco (ou quase nada, nalgumas afirmações) porque quando vamos a uma aldeia ou Monte um pouco antes da hora do almoço e logo depois desta hora os encontramos normalmente sentados nos poiais das suas casas, ou no caso também nos poiais das tabernas, isto sobretudo no Verão que é quando o pessoal se aventurava a andar por lá de carro.

Os caminhos de terra batida eram muitas vezes autênticos lagos no Inverno, a visão do estado da estrada por debaixo do lençol de água era necessária e não a havia e era frequente entre covas e pedras haver uma porradas valentes na parte de baixo do carro que mesmo blindados não chegavam para as encomendas. Ainda amolguei uma dessas chapas uma vez, mesmo indo a passo de boi e era uma chatice maior porque não havia material para as endireitar (prensas) provisoriamente e acabavam por ficar a ferir as partes interiores do material mais sensível que essas chapas tinham por função proteger.

Por isso, e não só, no meu caso, as viagens eram feitas sobretudo em período fora das chuvadas o que apanhava muitas vezes o pino do Verão e era então que encontrávamos o pessoal todo abrigado da calma, à sombra ou mesmo dormindo a sesta o que podia ter lugar em qualquer lado que não nos entortasse muito as costas. Os poiais eram o supra sumo da soneca, com largura a jeito e comprimento a gosto, com as mãos atrás da cabeça a fazer de travesseiro era uma categoria mesmo.

Bem, como já escrevi noutras crónicas o pessoal nestas alturas levantava-se extremamente cedo, por vezes faziam-se a caminho ainda de noite de forma a chegar ao alvorecer às hortas e quando se chegava lá ou pelo caminho tinha-se oportunidade de sentir e ver por vezes uma variedade grande de bicharada «exótica», desde os fugidios coelhos aos não menos assustadiços furões. Para cobras ainda era cedo mas havia por lá autênticas pitons que embora não estivessem ali senão a tratar da sua vida eram um pouco assustadoras e bem camufladas nas suas cores que quase as pisávamos.

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Macacos e gente - Por Cecílio Elias Netto


Macacos e gente - Por Cecílio Elias Netto 

 Acho estranho alguém se ofender por ser chamado de macaco. Pois, em tempos tão cruéis, macaco é que deve se ofender se for chamado de gente, de certa gente.

 Não creio que a questão – ainda em nível universal – seja de preconceito. Pelo contrário, acredito seja falta de conceitos. Jamais teria, eu, a audácia de escrever a respeito dos profundos significados de conceito. Digamos – superficialmente como cabe a um cronista de jornal – seja, o conceito, um signo, uma marca, a essência da coisa. Seria mais ou menos assim: uma coisa não pode ser de modo diferente daquilo que é. Logo, abacaxi não pode ser banana.

 A referência a frutas não foi acidental. Pois estamos em momentos tão malucos que jogamos todas as frutas numa mesma cesta, misturando maçãs, peras, abacates, bananas, uvas, mangas – não mais sabendo aquilo que é o quê. E, na vida em sociedade, acontece o mesmo: vale tudo, não se sabe quem é quem, a diferença entre valor e preço, entre moral, imoral e amoral. Ora, faltando conceitos, é estupidez falar-se em preconceitos. Em especial, em relação ao chamado ser humano, ignorantes que nos tornamos do conceito e do significado de humano.

 Chamam-se pessoas de vaca, de cadela, de égua, de cavalo, de veado, de porco, de cachorro, de burro. E, também e obviamente, de macaco. Mas o homem não percebeu, ainda, que os conceitos se perderam ou se confundiram na bagunça geral. Falar-se, hoje, por exemplo, em «vida de cachorro», é referir-se a uma vida privilegiada, leve, fácil, feliz. Pois cães e gatos – em alguns setores da sociedade – estão mais bem protegidos e cuidados do que milhões dos antes chamados «seres humanos», transformados em rebotalhos incômodos, descartáveis.




FRANZ KAFKA – Um Cruzamento - Por Pedro Luso de Carvalho




FRANZ KAFKA – Um Cruzamento - Por Pedro Luso de Carvalho 

 FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Kierling, perto de Viena; foi enterrado no Novo Cemitério Judaico de em Praga.

 Até esse ano, Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte.

 Sobre o talento criativo de Kafka, manifestaram-se, após esses vinte anos de sua morte, nomes importantes da literatura de vários países:Aldous Huxley, André Gide, Hermann Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros.

 W.H. Auden, poeta inglês: «se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Shakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria».

George Steiner, renomado ensaísta: «Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época».

O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, «Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka».

Tânia Franco Carvalhal, diz que Kafka, Proust e Joyce representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo.

 Albert Camus afirma que o segredo de Kafka encontra-se na contradição e surpreende nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

 Jorge Luis Borges, que traduziu parte da obra de Kafka, como O processo e Metamorfose, fala sobre as duas ideias, as duas obsessões que regem a obra de Franz Kafka: a subordinação e o infinito; sendo a sua maior virtude a invenção de situações intoleráveis, o que justifica a primazia de seus contos sobre as novelas longas.



Comentários sobre as publicações


Comentários sobre as publicações

Ao longo dos tempos temos ido guardando os comentários que são colocados no nosso Blogue de Comentário com a intenção de colocar no jornal uma vez que, por aquilo que sabemos, alguns dos autores comentados nem sempre têm a oportunidade de ir ao Blogue ver esses comentários. Aqui deixamos mais uma remessa:

 ACASBLOG deixou um novo comentário na sua mensagem «O Direito e o Avesso - Crónica de José Pedreira da...»:

Crônica dura, cruel, humana, verdadeira e necessária.
 Que bom, meu amigo, que você tenha fotografado as imagens com os olhos de artista e escritor que és!
 Parabéns por mais esta «fotografia da humanidade».
Um abraço,

 ACASBLOG deixou um novo comentário na sua mensagem «O Ipê que não queria ser Poste - Texto de Antônio ...»:

Correção das coordenadas da localização do poste que floriu, ou da árvore que se recusou a ser poste: 8º47´24" S e 63º52´44" W.


Virgínia Teixeira MSc, MBPsS deixou um novo comentário na sua mensagem «Os meus fantasmas - Conto de Virgínia Teixeira»:

Muito obrigada Cremilde Vieira da Cruz, fico feliz por lhe ter proporcionado um bom momento de leitura. Beijinho

Cremilde deixou um novo comentário na sua mensagem «Poesia de Arlete Piedade - AMANHECER; A NOITE!; MO...»:

Belos poemas, querida amiga Arlete Piedade. Grande beijinho
 Cremilde


terça-feira, 27 de maio de 2014

O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira


O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira 

Ali, à minha frente, havia um cavalo preto que rodava. Depois veio um pequeno cão que ladrou correndo desde o portão todo verde escuro da casa amarela. E ali ficou ladrando, perto do cavalo preto. Indiferente, na sua majestade, pensei eu, ficou o cavalo.

 E eu pensando o que o cavalo não poderia pensar: o que representará para um cavalo um cão pequeno que ladra? Nada, um pequeno cão ladrando a um cavalo não deve representar nada porque não há nada para ele lhe poder representar: o que interessa ao cavalo é a sua quase mecânica do pastar e aquele resfolgar reflexo que afasta o cão poucos metros cada vez que ele irrompe.

 Era lustroso o pescoço do cavalo. O pescoço e o dorso e o cavalo todo brilhavam sob o sol já fraco do entardecer. E as suas crinas eram lindas. Pareciam ondas brilhando no claro escuro do vento derramando-se sobre o seu pescoço e a sua testa. Era um belo cavalo, sim senhor, era mesmo um belo cavalo.

 Era ainda cedo para o cavalo, sei que era cedo, porque os cavalos que pastam recolhem-se ao por do sol e aquele era sempre recolhido ao por do sol. A rapariga vinha, punha um cabresto de corda no cavalo, arrancava a estaca, enrolava a corda à volta da estaca e saltava para o dorso do animal. Mas era cedo para ela vir e talvez já não fosse assim tão cedo para mim.

 Quase todos os dias a via, calças azuis, botas de feltro, quadris bem modulados e uma blusa ligeira que me fazia adivinhar-lhe os bicos dos seios. De andar resoluto, compenetrada, nunca olhava para cima, para mim. E eu tanto olhava para ela.

 Ali, atrás de mim e em nossa casa, a Cynthia esforçava-se para se despachar e o telemóvel não parava de ir tocando: uma, duas, três, cinco, dez vezes, talvez, ou mesmo mais. Iamos a um jantar de amigos, e cada um deles ou delas marcava o ponto telefonicamente. Acho que o faziam várias vezes, cada uma delas ou cada um deles. Eu só ouvia a voz da Cynthia, por vezes abafada, por vezes nítida e o bater dos seus sapatos no soalho.



A solidão dos idosos - O Lugar - Por Maria José Vieira de Sousa


A solidão dos idosos - O Lugar - Por Maria José Vieira de Sousa

Recolhido em Livres Pensantes

 Quando voltou ao salão de convívio teve pela primeira vez consciência plena da segregação etária que as novas gerações estavam a impor. O convívio e a coabitação intergeracionais estavam, efectivamente, em processo de regressão, senão mesmo em declarada extinção.

 O quadro com que deparou nessa manhã, naquele salão, impôs-lhe abruptamente a dolorosa assunção dessa realidade chocante que nunca se dispusera sequer a formalizar.

 O Lugar era a morada de uma só geração: a geração dos velhos.

 Apesar do conforto discreto que a decoração emprestava ao salão, sentia-se no ar o silêncio frio e mudo da tristeza que enferma a solidão.

 Estariam aí cerca de quinze pessoas. Algumas estavam confortavelmente sentadas em cadeirões reclináveis junto a uma grande televisão que estava ligada com o som no mínimo, quase inaudível. Outras, que teriam problemas locomotores, estavam acomodadas em cadeiras de rodas perto das grandes portas envidraçadas que davam para o terraço. Entre elas, distribuíam-se mesas intercaladas com jornais e revistas. No canto direito, oposto ao da televisão, havia duas mesas de jogo: uma com um tabuleiro de xadrez e a outra com baralhos de cartas. Ambas estavam vazias.

 Dois grandes sofás de cabedal castanho completavam o «decors» do salão , onde dormitavam ostensivamente duas senhoras com os cabelos brancos muito alisados. Pelas semelhanças do porte pareciam irmãs gémeas, já que era impossível ver os rostos que estavam pendidos sobre o peito .

 No terraço, existiam algumas cadeiras de madeira forradas com grossas almofadas amarelas e foi lá que conheceu o único casal do Lugar: os Lacerda.

 Estavam sentados em frente de uma pequena mesa, onde havia sido colocado um tabuleiro com duas chávenas de chá. Falavam um com o outro olhando para o jardim. Assim que deram pela sua presença, o Dr. Lacerda levantou-se e convidou-a a sentar-se numa cadeira vaga da mesa.



segunda-feira, 26 de maio de 2014

Coluna de Manuel Fragata de Morais - OS SONHADORES ( in Memórias da Ilha - Crónicas )


Coluna de Manuel Fragata de Morais - OS SONHADORES ( in Memórias da Ilha - Crónicas )

Há quem afirme que os sonhadores são os salvadores do mundo, talvez porque ao escutarmos as mais belas músicas, ao lermos os mais belos livros e poemas, ao nos revermos nas mais maravilhosas pinturas, ao tentarmos entender as mais engenhosas profecias e a sabedoria universal, cheguemos à conclusão que tudo isso é possível porque houve e há gente que sonhe.

E acho que isso é um facto, as realidades, os avanços conseguidos nas sociedades, são e serão fruto do sonho de alguém que soube acreditar em si mesmo e partiu para a labuta, para a concretização do seu desejo, da sua visão, da ânsia do querer. Todas as grandes descobertas foram chamadas de loucuras, ou tidas sem futuro prático, mesmo as mais recentes como o automóvel o que, fazendo um parêntese, me faz recordar uma pequena fábula, quando começaram a aparecer as primeiras máquinas automotoras, em que o burro, feliz, anunciava ao cavalo o seu fim, o homem não mais iria depender dele para a locomoção.

«Se eu me tornarei indispensável como cavalo, não sei o que será de ti como burro.»

«Ora, meu amigo, tu poderás ser dispensado, mas burros sempre os haverá!»

Foram esses sonhadores que nos deram a nossa essência. Sem esses visionários, ainda se acreditaria que a terra é plana, que não havia um Universo e sabe-se lá o que mais. Jesus Cristo não seria hoje o que é. Buda nunca teria penetrado o mundo que concebeu. Cristóvão Colombo nunca teria chegado ao novo continente, não obstante os seus desígnios serem comerciais e de direcção oposta, porque a força impulsionadora, para além das correntes marítimas, foi o sonho pela aventura, pela crença de que do outro lado daqueles mares, certamente algo o esperaria.

Todavia, os sonhos são os espinhos da roseira e não foi sem propósito que o Cristo foi coroado com uma coroa deles. A maior parte dos grandes sonhadores pagou caro pela sua visão de um outro mundo, pela sua crença e fé numa outra ideia, pela proposta de uma alternativa. Grandes sonhadores, como Moisés, como Ghandi, embora seguidos, foram maltratados pelos que os seguiam, pois a natureza humana é invejosa e, assim, as suas gerações os sacrificaram, de uma maneira ou de outra.
 


Série : Eu e Paderne - A NOSSA FORMA DE ESTAR… - Texto de João Brito Sousa


Série : Eu e Paderne - A NOSSA FORMA DE ESTAR… - Texto de João Brito Sousa

Anda carecida de ética a nossa forma de estar ou de nos relacionarmos. A sociedade deverá ter um comportamento ético, seja, deve colocar em prática, uma maneira de ser respeitável, possuindo um carácter consubstanciado em atitudes que tenham em conta, princípios e valores tidos como credíveis. A existência de ética ou não, na nossa maneira de estar, deriva da forma muito ou pouco correcta como nos comportamos em sociedade..

Vem isto a propósito, de algumas medidas tomadas pelo Governo, que mesmo parecendo de teor, no mínimo deselegante, os nossos dirigentes não se ensaiaram nada para as colocar em prática. Igualmente fizeram os responsáveis Europeus, o que torna a deselegância generalizada.

 Afinal em que ficamos? Poderemos nós, os vulgares cidadãos votantes, confiar nas personalidades governantes, que, nos respectivos Países cada um de nós elegemos? Aparentemente, não podemos.

 O que se passa neste momento no nosso País, em particular e na Europa em geral, é uma actuação dos líderes que deixam muito a desejar, porque da sua actuação resultam, aparentemente, elevados benefícios para determinadas elites e graves prejuízos para a classe trabalhadora, que é a ferramenta indispensável para a recuperação de qualquer economia.

 O candidato a Presidente, Piririca, apresentou-se na campanha eleitoral no Brasil, com o seguinte slogan «COM PIRIRICA, ISTO PIOR NAO FICA». Ora, este homem, que não sabe escrever (num ditado deu 9 erros em 10 palavras) ao apresentar esta máxima, está a querer dizer, que, no seu entendimento, a dimensão do mal estar sofrido pelas populações, está directamente ligado a uma má governação, que na sua, não dependia nada do facto do Presidente ter ou não ter diploma conferido pela Universidade. Os que têm passado e que continuam a passar pela Presidência, possuindo esse tal diploma, não garantiram fazer melhor do que ele, analfabeto.

Auguste de Saint-Hilaire - equívocos de interpretação da realidade colonial do interior do Brasil - Texto de Se Gyn


Auguste de Saint-Hilaire - equívocos de interpretação da realidade colonial do interior do Brasil - Texto de Se Gyn 

 Conversando com colegas sobre coisas da cultura de Goiás, chegamos acidentalmente a declarações de Auguste de Saint-Hilaire, sobre a população da província de Goyaz, no início do século XIX no seu «Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goyaz - 1º volume».

Admirável e esperto naturalista (colhia e enviava acobertadamente espécies medicinais da flora do cerrado para Martinica e Caiena, territórios franceses nas Antilhas), sou da opinião de que foi de uma incapacidade atroz, quando descreveu a população humana e os costumes do interior do pais.

Do que viu em Goiás, por exemplo, registrou , entre outras, com alguma empáfia e má vontade, que as goianas eram feias, que os homens eram vadios, as cidades eram pútridas e, que as famílias, que as pessoas eram tão pobres que «comiam de mão» e, que as famílias se enfurnavam nas zonas rurais distantes, fugindo da agrura da sobre taxação de impostos.

Provavelmente, meias verdades.

Saint-Hilaire viu uma realidade que não soube compreender nem retratar: o momento precioso em que o ciclo do ouro estava sendo sucedido pelo ciclo agro-pecuário e o impacto que isto gerava na população e cidades do interior.



domingo, 25 de maio de 2014

Poesia de Edvaldo Rosa - ACALANTO...; PINTURA...


Poesia de Edvaldo Rosa - ACALANTO...; PINTURA...

 

ACALANTO...



Tem horas que nem é preciso tanto,
 Um olhar, como se fosse pouco,
 Uma palavra, uma só,
- não precisa ser prece, nem canto,
 Para nosso espírito acalentar!
 Tem horas, como agora, que basta ser visto entre tantos,
 Como se ser olhado, já fosse ser abraçado,
 E um ósculo rápido, viesse secar o nosso pranto
 E nossas dores espantar!
 Nessas horas, como agora,
 amaina a tensão do corpo,
 o pensamento voa como por encanto,
 e nós, homem e mulher já feitos,
 somos como dantes, rebentos ao peito,
 nos braços quentes de nossas mães,
 ou dentre amigos queridos, irmãos escolhidos,
 com suas almas adolescentes, ou nem tanto,
 a nos acalentar...
- As primeiras com seu amor sem precedentes,
 E os amigos, com suas potencialidades por desabrochar!
- E o acalanto de quem amamos?
 Entre mistérios e descobertas, sob véus,
 sobre amarrotadas cobertas?
 Esse não existem palavras que definam seu encanto...
 Somente sentindo tal acalanto,
 para somente depois, dormir e sonhar,
ou ainda senti-lo mais um tanto, e mais, e mais...

 Edvaldo Rosa
 23/04/2014


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Um Holocausto Brasileiro - Por Vítor Afonso


Um Holocausto Brasileiro - Por Vítor Afonso

Recolhido em «O Homem que sabia demasiado»

Acaba de ser editado em Portugal um livro de uma jornalista brasileira, Daniela Arbex, sobre um tema de grande perturbação social, histórica e psicológica: um genocídio de 60 mil brasileiros ocorrido durante décadas num... manicómio.

Chama-se «Holocausto Brasileiro»e nele conta-se que milhares de crianças, mulheres e homens foram violentamente torturados e mortos, no Brasil, no hospital de doenças mentais de Colônia, em Barbacena (Minas Gerais), fundado em 1903.

A maioria foi internada sem diagnóstico de doença mental: eram meninas violadas que engravidaram dos patrões, homossexuais, epilépticos, mulheres que os maridos não queriam mais, alcoólicos, prostitutas. Ou simplesmente seres humanos em profunda tristeza. Sem documentos, sem roupa e sem destino, tornaram-se filhos de ninguém.

Os internados bebiam água do esgoto. Comiam ratos. Morriam ao frio e à fome. Eram exterminados com electrochoques tão fortes, que toda a cidade ficava sem luz, por sobrecarga da rede. Os bebés eram roubados às mães logo à nascença. Nos períodos de maior lotação, morriam 16 pessoas por dia dentro dos muros do Colônia.

Ao morrer, davam lucro. Os cadáveres eram vendidos às faculdades de medicina. Quando o número de corpos excedia a procura, eram decompostos em ácido, no pátio, diante dos pacientes. Os ossos eram comercializados. Nada ali se perdia. Excepto a vida. O hospício de Colônia só foi transformado em verdadeiro Centro Hospitalar Psiquiátrico em 1980.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Jornal Raizonline nº 250 de 20 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - O Mundial no Brasil



Jornal Raizonline nº 250 de  20 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - O Mundial no Brasil

Não quero mostrar-me expert nestas coisas e muito menos mostrar saber mais que os brasileiros sobre a sua própria psicologia individual e social, mas atendendo a que o Se Gyn começou neste número uma fiada de crónicas sobre o Mundial de Futebol, desta vez no Brasil, tal como tinha feito na edição anterior em relação ao Mundial na Africa do Sul, juntei alguns pontos que já vinha coleccionando sobre aquilo que se passa e faz debruçado sobre esta questão.

Se bem me lembro quando foi da Africa do Sul os receios eram mais que muitos, nomeadamente em questões de segurança das pessoas e bens, mas talvez porque não fosse altura de crise mundial pronunciada, não me lembro de ter havido grandes protestos no que se refere a gastos para concretização do evento.

Ora, como todos ou quase todos os portugueses sabem porque foi aqui organizado o Europeu em 2004, em termos financeiros estes eventos, por princípio meio e fim não se auto-financiam nunca. Pode haver essa ambição, pode idilicamente falar-se nessa possibilidade, mas mesmo que isso acontecesse, por mera hipótese académica, ficam sempre os estádios «a mais» construídos a conservar e alimentar que custam fortunas mensais.

No nosso caso temos pelo menos dois «elefantes brancos» consumidores ad aeternum: um em Leiria e um outro aqui mesmo onde vivo, o Estádio do Algarve, que tenho a «felicidade» de poder ver todos os dias da minha varanda. Ora a questão que se coloca sempre, e colocava-se tanto em relação a Portugal como em relação à Africa do Sul, assim como se coloca em relação ao Brasil e todos os outros anteriores é a de se saber se cada país respectivo está ou não em condições financeiras e estruturais a nível social para comportar este tipo de eventos.

Uns mais, outros menos, tenho quase a certeza, sem estar totalmente a par, que cada um deles despendeu dinheiro na realização do evento que em teoria poderia ser aplicado noutras coisas mais urgentes e prementes: saúde, educação, emprego...enfim um rol grande de prioridades antecedentes que se colocavam desde logo como matéria de estudo profundo. Mas nenhum deles, que eu saiba, vacilou e avançou sempre com algum orgulho para essa forte chamada de atenção que é a realização de um evento futebolístico de grande porte.


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O furto da Japona. - Crónica de José Pedreira da Cruz


O furto da Japona. - Crónica de José Pedreira da Cruz 

 A meteorologia alertava que nos próximos dias o frio iria ser de doer nos ossos e que por precaução todos teriam que se prevenir com roupas adequadas para tal. E foi nesse clima de grande preocupação que Renilda se acorreu ao crediário e lá deixou uma dívida com a aquisição de uma japona: como assim eram chamadas as jaquetas dos anos oitenta.

 Pois bem, até ai nada de anormal, porém, no terceiro dia de uso da bendita japona Renilda se descuidou e deixou que uma das mangas se descosturasse. Visto o lamentável incidente ela levou sua preciosa peça para que sua vizinha Mary a costurasse. Mary deixou seus afazeres e se pôs a ajudar sua prezada vizinha.

- Ficou novinha – disse Renilda cheia de satisfação –, quanto te devo?
- Nada! Deixa isso pra lá! Foi só um servicinho de nada! – respondeu-lhe Mary acrescentando: mas que japona linda, né? Olha quantos zíperes e quantos bolsos que ela tem! E é mesmo confortável e, também, muito linda!



 Renilda se enchia de orgulho e contentamento e foi embora resolvida a guardar sua japona num lugar bem seguro, dizendo a si mesma: - ela me custou uma grana e só irei vesti-la num dia muito especial! E a escondeu bem no fundo de um baú.

 O inverno rigoroso se foi amenizando, e Renilda, por fim, se esqueceu da japona, pois não mais tinha tanta necessidade de se aquecer.


Rir, de quê? - Texto de Miriam de Sales Oliveira


Rir, de quê? - Texto de Miriam de Sales Oliveira 

 Um professor ensinava aos alunos que a hiena é o único animal de quatro patas que ri.
 Surpreso, o aluno perguntou:
-Professor, um animal horripilante, fedorento e que vive comendo merda, ri de quê!?
 Vocês não acham que essa conversa se encaixa muito bem ,no Brasil?

 Afinal, rimos muito,gargalhamos bastante, vivemos felizes como um pinto no lixo,mas, temos, mesmo, motivo pra tanta felicidade?

 Voltamos ás intrigas palacianas e ás guerrinhas paroquiais ,das quais tanto gostamos,porque é ano eleitoral e ninguém quer perder o direito de continuar afundando o país.Então, partimos para a fofoca e a intriga, nossa diversão favorita.

 Este ano, certamente,não falaremos de aborto, nem de crenças religiosas, porque temos que nos preocupar com a economia,o PIB mais baixo que a reputação de Asdrúbal,que, afinal não trouxe o trombone, mas,o bisturi, laqueando a mulherada para evitar a superpopulação na terra,como o famoso personagem de «Inferno»,o Best – seller de Dan Brown.

 Nosso maior orgulho, a Petrobrás,que o nacionalista Vargas queria manter fora dos tentáculos imperialistas, está,novamente sob especulação, não se sabe para atender a quais interesses.

Poesia de Xavier Zarco - A Zeca Afonso; à Graça Soares; hoje sérgio bebi a certeza


Poesia de Xavier Zarco - A Zeca Afonso; à Graça Soares; hoje sérgio bebi a certeza


A Zeca Afonso

 

 os que comem tudo andam por aqui
 zeca voam nas noites e nos dias
 do poema concreto que é a vida
 no poema em que o belo se reduz
 ao horário a cumprir pelos que não
 têm nada por vezes penso o como
 se esquecem do poema da cantiga
 que não dizem nem cantam têm medo
 que a migalha de pão que o seu suor
 amassou se enamore pelo bico
 dos que voam nas noites e nos dias
 e não habite a mesa que os aguarda
 por vezes zeca sinto que perderam
 a semente que espártaco deixou
 sentindo-se felizes no sofá
 vendo o que só aos outros acontece
 sequer sentem que os próximos são eles
 e como riem riem zeca escuto
 os que andam por aqui e tudo comem

 Xavier Zarco


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Poesia de Sylvia Beirute - Poemoterapia; Açúcar - Matéria; Conoscenza


Poesia de Sylvia Beirute - Poemoterapia; Açúcar - Matéria; Conoscenza   

 

 Poemoterapia

 

 este poema não é este poema.
 este poema é sobre os efeitos secundários
 deste poema.
 assim, saberás guardar um segredo
 se souberes guardar um silêncio,
 andarás pela matriz
 como se fosse a inteireza
 do epílogo.
 um outro sujeito poético
 evocaria o arranjo
 e a sombra.
 a mim só me permito alertar
 para o lustro do arranjo
 e o uso da sombra,

e mandar todos os neuropoemas
 para poemoterapia.

Sylvia Beirute



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O mestre que disso não passava - Texto / Crónica de Gociante Patissa


O mestre que disso não passava - Texto / Crónica de Gociante Patissa

«Os mestres mentem, todos eles. O pedreiro não entrega no prazo acordado; o mecânico tem sempre uma desculpa; o canalizador, tirando proveito da semelhança nas três primeiras sílabas, faz-se canalha perfeito; o electricista é outro a quem é arriscado confiar, tão arriscado como seria pôr a mão no fogo pelo ladrilhador ou pelo pintor, enfim... Será que devo mesmo voltar à escola para o mestrado?», lia-se.

Lágrimas molhavam o sorriso do velho Jornal (que por acaso caminhava para a terceira idade). Acabava de abrir o envelope, mas mantinha escancarada a caixa postal 208. Tinha o estranho hábito de só trancar a portinhola depois de lida a carta, como se, por eventual desgosto, conseguisse devolver a correspondência com o gesto mecânico de enfiar o papel e girar a chave em tácito gesto de «assunto encerrado!»

Do discreto guichet, a funcionária dos CTT (que o falecido velho Cimuku decifrava, com saudável malandrice, como sendo Continua Tudo Torto) via tudo, no silêncio que exigia o amontoado de emoções, quiçá, contraditórias. Abrir ansiosamente o apartado ao tilintar do porta-chaves, levar o correio ao peito, lacrimejar, gestos vagarosos. Era sempre um pequeno evento cada visita do velho Jornal aos Correios. Era semanal. Mudavam-se os selos, as datas dos carimbos de entrada e saída, mas dois elementos eram inalteráveis: o remetente e o receptor.


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A Política Do Dia - Poema e Texto de Natália Correia - Retirado do Blogue Livres Pensantes


A Política Do Dia - Poema e Texto de Natália Correia - Retirado do Blogue Livres Pensantes

 

 A Política Do Dia

 

 Hoje a vida tem o sorriso
 dentífrico dos candidatos
 e pelas ruas nos aponta
 o céu em múltiplos retratos

 céu não póstumo ou merecido
 em cruel sala de espera
 mas entre parêntesis de fogo
 festiva véspera de guerra.

 Teor de montras a vida
 com democrático amor
 a todos deixa gozar
 sua dose de consumidor.

 Publicitária a vida faz
 sua campanha eleitoral:
é entrar meus senhores, quem dá mais
 por princípios que não têm final?

 Televisor férias de verão
 tira a vida do seu discurso
 e um partido providencial
 que nos domestica o urso.

 Popular a vida é toda
 pétalas de apertos de mão.
 Que meus versos me salvem
 de cair nesse alçapão!

 Natália Correia, in «A Mosca Iluminada» (1972), in «O Sol Nas Noites e O Luar Nos Dias», Círculo de Leitores, Março de 1993



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domingo, 18 de maio de 2014

A chave está aqui - Texto de João Brito Sousa


A chave está aqui - Texto de João Brito Sousa 

 O tempo passa e, a chegada de cada dia, ao seu fim, quererá dizer que é um dia a menos que nos fica para desfrutarmos, no âmbito da contabilidade social de cada um de nós.

E é bom não esquecer, que o nosso stock pessoal, em termos de dias de vida, é limitado. Entretanto, vivemos os dias ou passamos pelos dias. Enquanto temos saúde, esse pormenor importante que é o «ter saúde», deveria ser estimado e preservado, mas, muitas vezes fica em segundo ou terceiro lugar na tabela das nossas preferências.

A bebedeira está primeiro quando temos saúde em pleno, dizia e quase tudo o que fazemos vai no sentido de a perdermos. Apesar disso ser importante em termos colectivos, em abono da verdade, é assunto que não me diz muito directamente respeito, já que tenho a minha responsabilidade pessoal, que é da minha vida e saúde, cuidar.

E não tenho a certeza se sou detentor de conhecimentos intelectuais suficientes que me ajudem a cuidar dela. Apenas, pela simples razão de não haver um modelo geral de vida a seguir, nem estabelecido nem testado, havendo, isso sim, o modelo de vida particular de cada um, que, cada um, por sua vez cria e a ele se adapta, fruto da educação que dos Pais e da Escola recebeu, ou dos autores que leu, enfim …

A partir destes conhecimentos, que recebeu e cultivou, o cidadão terá de estabelecer e balizar o seu comportamento ou modo de actuação, que, curiosamente, vai ser aprovado ou não pelos outros. Esse, que sou eu, não conta para nada e valho, socialmente, o que os outros acharem que valho. O que de certa forma é estranho mas parece-me evidente.

Eu, por exemplo, que vivo só, num quarto alugado com pátio como gosto de dizer, por vontade própria, diga-se, faço o que me apetece dentro daquilo que a minha consciência me permite e dentro do meu espaço alugado. Quando saio dos meus aposentos, fecho a porta e ponho o pé na calçada, entro na cidade e aí começa uma outra vida, pautada por regras e princípios gerais, tacitamente aceites por todos (eu incluído) e que delas/deles, somos todos conhecedores, o que, por isso, vai exigir a todos o seu cumprimento pleno.


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Poesia e Prosa Poética - Cremilde Vieira da Cruz - Sedutor (Poema) - Ausência (Prosa Poética)


Poesia e Prosa Poética - Cremilde Vieira da Cruz - Sedutor (Poema) - Ausência (Prosa Poética)

 

 Sedutor

 

 elevaste-te
 no céu
 o céu
tornou-se
 vermelho
 e o mar
 e eu
 e nós
 o barco
 navegava
 vermelho
 sorria
 nos conduzia
 o amor
 a maresia
 o encanto
 a cor
 que nos
deste
 SOL

 2014/03/04

 Cremilde Vieira da Cruz



Crônicas da copa de 2014 - I - aquela alegria que nos foge agora... - Por Se Gyn


Crônicas da copa de 2014 - I - aquela alegria que nos foge agora...  - Por Se Gyn

Era uma situação que, de tão esquisita, parecia engraçada: um país que não tinha boa escola, bons serviços de saúde, garantia de segurança pública, nem nada - tudo por fazer ou refazer. Mas, alguém inventou que a Copa do mundo de 2014 seria no Brasil - sabe como é, uma vitrina para mostrar a pujança do país, que entrara num ciclo virtuoso em todos os setores, no período que se seguiu à redemocratização do país.

Parecia estupendo. De esfregar as mãos. E é claro que, para ser vitrine, o país teria que se superar - o que era um desafio quase antropológico, considerando tudo (inclusive os governos de plantão). No lugar da malandragem, compromisso; em vez de improviso, competência; substituindo o oportunismo, o foco nos dividendos da copa.

Ante tais premissas, não haveria erro, o país projetaria uma imagem positiva e moderna ao mundo, o que, por sua vez, atrairia atenção, respeito e investimentos. Investimentos governamentais? «Não, não!», diziam, tudo seria viabilizado através de parcerias e participação da iniciativa privada. Inclusive para construir um estádio no Ceará que depois, correria o risco de ficar desperdiçado? Oxe! E o preço? coisa próxima de 10 bilhões de reais, muito pouco, perto do dividendo esperado.

O paraíso - Copa do Mundo no Brasil, alegria geral e reeleição! Estava tudo certo - tudo calculado...

E veio a realidade. E veio o choque decorrente. A coisa seria tocada pelos administradores públicos brasileiros, com o dinheiro dos contribuintes. Quase trinta bilhões torrados nas obras. Suspeitas de mutretas de toda natureza. Atrasos. Improvisação geral. Projetos deixados pela metade (o que é o ideal para muita gente, pois vai gerar retrabalho e mais contratações depois do evento).

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Verdades - Conto/Crónica por Jorge Sader Filho


Verdades - Conto/Crónica por Jorge Sader Filho 

 Talvez ela fosse a única moça que lia no parque. O livro era agradável.
 Talvez ela fosse a única que lia, enquanto mães e crianças brincavam. Brincar é bom. A pessoa sai do seu cotidiano chato, acorda, limpa-se e vai para a primeira refeição.

 Dizem que o hábito faz o monge.
 Faz mesmo. O costume diário nos dá um ritual, mas é bom pensar no que temos em energia. Os que escrevem, pintam, ou exercem qualquer outra atividade, não sabem mais sobreviver sem ela.
 São tantos que não podem viver sem transmitir as suas convicções que de modo algum podemos fazer uma espécie da detestável censura.
 A Internet é um mundo. Aparecem aqui todo tipo e espécie de gente, uns com talento, outros tentando.

 Na verdade, em literatura, ninguém nasce com o talento de Machado: é preciso força, estudo e trabalho. Sem isso, nada feito.
 Alheia a estas verdades, ela continuava lendo. O livro era Escolha seu Sonho. Não parecia estar escolhendo sonhos, prestava atenção demais. Uma estudante de Letras? Uma iniciante na literatura?

 Só ela possuía a resposta, e ninguém perguntou nada. Cabelos castanhos, soltos, cortados Chanel. As poucas vezes que levantou a cabeça foi para olhar um canário que, como adivinhando o empenho na leitura fazia o fundo musical. Era bonita, sem a menor dúvida.

 Quem gosta de frequentar parque, aproveitar a sua frescura e calma, está acostumado a ver estas cenas, que parecem saídas de um quadro impressionista.

 Gostei tanto de ver a cena bucólica e com um certo mistério que resolvi escrever sobre o que assisti numa bela manhã de um dia luminoso.




sábado, 17 de maio de 2014

Até amanhã, Camaradas - In: Cineclube de Faro


Até amanhã, Camaradas - In: Cineclube de Faro 

 Joaquim Leitão, Portugal, 2005, 192 m, M/12

 SINOPSE

 Portugal, 1944. Num país oprimido pela ditadura, há quem resista e se organize para mobilizar o povo para a luta pelo pão e pela liberdade. Mesmo que isso lhe possa custar a prisão, torturas, ou até a vida. Pessoas como Vaz, Ramos, António e Paula militantes e funcionários do Partido Comunista, que desenvolvem a sua acção na clandestinidade, reorganizando o Partido nas zonas dos arredores de Lisboa e do Ribatejo, ao mesmo tempo que preparam uma grande jornada de luta, com greves e marchas contra a fome.


 FICHA TECNICA

 Realização: Joaquim Leitão
 Argumento: adaptado da obra homónima de Manuel Tiago (pseudónimo de Alvaro Cunhal), Luís Filipe Rocha
 Montagem: Pedro Ribeiro
 Interpretação: Gonçalo Waddington, Paulo Pires, Lonor Seixas, Marco D´Almeida
 Origem: Portugal
 Ano: 2005

 Duração: 192m

«…o avental todo sujo de ovo.» - Por Cecílio Elias Netto


«…o avental todo sujo de ovo.» - Por Cecílio Elias Netto 

 Para idosos, a orfandade de mãe é ainda mais dolorosa. A saudade de um colo onde se abrigar torna-se necessidade.

 Um fradezinho santo – velho confessor de doentes e moribundos – contava-nos da agonia final dos enfermos. E dizia que – nos últimos momentos e se ainda podiam balbuciar algo – eles diziam, quase todos, uma só palavra: mãe. E ele, o fradezinho, nunca conseguiu saber se era alegria do reencontro ou um apelo final, um pedido de ajuda e de socorro.

 Não ousaria, eu, opinar a respeito desse momento final misterioso e solitário de nós, humanos. No entanto, penso em mim mesmo, imaginando-me naquele último instante mágico. Como seria se eu, então, ainda pudesse ver algo ou algo falar? Ver, penso que já vi – ou foi um delírio? – quando minha mãe nos deixou. Médicos haviam-na declarado inconsciente, finalmente derrotada pelo câncer contra a qual lutara durante quase dois anos. Haviam-lhe previsto apenas três meses de vida. Tanto ela amava vida que dominou a morte por todos aqueles longos e longos meses.

 Revezávamo-nos em sua vigília. E aquela noite foi a minha vez. Fiquei ao lado dela, na penumbra, vendo-a imóvel como se dormisse. O fiapo de vida revelava-se na leveza da respiração. Ela estava bela, abatida mas bela. E acontecia conforme ela desejara, que tanto pedira: «Não permitam que o seu pai me veja feia…» Eles se amavam tanto que minha mãe queria estar sempre bela para ele. Ao longo de suas vidas em conjunto, ela acordava antes para se arrumar, compor-se ou recompor-se, para que meu pai não a visse amarfanha. Vaidosa até o último instante.



J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica - por Pedro Luso de Carvalho


J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica - por Pedro Luso de Carvalho 

 O famoso recluso J. D. Salinger antes de dedicar-se à literatura passou rapidamente pelas universidades de Nova York e Columbia. Depois que retornou da Segunda Guerra Mundial suas histórias foram publicadas regularmente pela revista The New Yorker; com isso tornou-se bastante conhecido, principalmente nos Estados Unidos. Escreveu um único romance, «O apanhador no campo de centeio», um clássico da adolescência (1951); e os contos e novelas curtas, Nine stories (1953); Fanny and Zooey (1961); Carpinteiro, levantem bem alto a cumeeira (1963); Seymour: Uma Apresentação(1963).

 Em quatro dos cinco livros de Salinger, figuram como personagens principais e recorrentes a Família Glass, constituída por Buddy (alter ego de Salinger), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey Glass, todos irmãos. A novela Franny & Zooey, que está dividida em duas partes, e está destinada a um público sem qualquer envolvimento com o profissionalismo literário, a quem dedica o seu livro: «Se ainda resta um leitor amador no mundo – ou alguém que simplesmente leia por ler -, peço a ele ou a ela, com indizível afeição e gratidão, para dividir a dedicatória deste livro em quatro com minha mulher e meus filhos».

J. D. Salinger tornou-se um escritor de sucesso popular. Estudantes de níveis inferiores do meio acadêmico colocaram-no em alto pedestal; no entanto, intelectuais de gosto literário mais sofisticados desprezavam o escritor. No seu conto Seymour: An Introduction (Seymour: Uma Apresentação), em 1963, Salinger manifesta-se sobre a aristocracia intelectual da época, chamando-a de «uma nobreza de orelhas de lata». E quando outro livro seu, Franny and Zooey passou da New York para o livro, abriu-se uma janela para que essa aristocracia fizesse sua contestação, como adiante se verá.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

And if it is not love then it's the bomb, the bomb... - Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


And if it is not love then it's the bomb, the bomb... - Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»

Depois de muitos dias intensivos de estoicismo apercebi-me que continuo extremista. Depois de ter dedicado alguns anos à investigação afincada do projecto hedonista, tomando o prazer e o riso como missão, retornei a Lisboa com a minha revolução sexual concluída, as finanças arruinadas e com os nervos algo descompensados.

Há este problema de fundo com a via do êxtase: toma-se o momento presente como absoluto e tudo o resto vai colapsando. Mas é preciso ter a coragem de destruir, já dizia o Stirner, e não lamento os dias esbanjados.

 Decidi então experimentar o outro extremo, a atitude estóica, ocupando os dias a ler, a trabalhar e a cozinhar. Resultado: tornei-me uma dona- de -casa com alguns laivos intelectuais e aprendo a persistir e a contrariar a minha inquietação. A coisa corre bem. Mas chego à conclusão que a doutrina do meio-termo enunciada por Aristóteles é a mais acertada.

Desde que me conheço que desprezo a palavra «moderação»mas a minha aprendizagem revela-me que é preciso ir por aí para viver bem, ou viver menos mal. Ao clamor tchekhoviano «é preciso trabalhar!», é preciso adicionar «é preciso conhaque!» Em nome da saúde mental, é preciso ter horários para servir o dever narcóticos e horários para desatinar e descompensar: é tudo, com efeito, uma questão de dosagem.





domingo, 11 de maio de 2014

Jornal Raizonline nº 249 de 10 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - E cá vamos andando...


Jornal Raizonline nº 249 de  10 de Maio de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - E cá vamos andando...

Cá vamos andando, neste número um pouco mais devagar que nos outros anteriores, porque sai com algum tempo de atraso mas as razões chamadas de pessoais e familiares são, para mim, a partir de dado grau de gravidade bem mais importantes do que os calendários.

Temos neste número uma colecção mais curta mas qualitativamente bem alicerçada de trabalhos e com riscos de esquecer alguém atrevo-me a apontar por agora o sector da poesia e da prosa poética onde vamos ganhando alguns pontos qualitativos.

Temos, felizmente, poetas bons, poetas que são de facto poetas e não meros fazedores de versos e rimas e nesse campo temos ido amealhando ao longo dos tempos um número razoável de colocações que por vezes não são mais porque para além do tempo que é necessário também é preciso que eles escrevam, em primeiro lugar, e que nos metam os seus trabalhos ao acesso.

Já tenho escrito aqui que me sinto pouco vocacionado para andar a captar trabalhos em páginas pessoais de pessoas que para o jornal têm escrito porque nalguns casos sinto, talvez por complexo, que as pessoas têm alguma reticência para mim desconhecida em publicar os seus trabalhos na nossa ligação no Facebook ou mesmo em enviarem-nos esses mesmos trabalhos.

Exceptuam-se neste caso os colaboradores que desde longa data têm tido esta forma de nos facultarem os seus trabalhos. 

Assim volto a repetir aquilo que venho dizendo: coloquem no Facebook (Raizonline ou Portal Raizonline) o que acharem que deve ser publicado neste jornal que esse tipo de atitude facilita-me muito a vida e afasta peremptoriamente o já referido meu complexo.


Leia este tema completo a partir de 10 de Maio de 2014 carregando aqui




Poesia de Pedro Du Bois - NASCER; CAPAZ; FAUNO


Poesia de Pedro Du Bois - NASCER; CAPAZ; FAUNO    



 NASCER

 

 Conhece do mar a correnteza
 a força a cor e as ondas
 restabelece com o ar relação de força
 ao planar o objeto e contar o espaço
 em velocidade no desfazer a terra
em pedaços loteados nos alicerces
 das casas altas: reanima o corpo
 sob o estupor da música
 e se deixa ficar: a vida é a mesma
 desde quando gerado.

(Pedro Du Bois, inédito)





E é sempre assim - Conto de Daniel Teixeira


E é sempre assim - Conto de Daniel Teixeira 

 Desde sempre que pensei que as coisas iam ficar por ali. Aliás desde o primeiro minuto que interiormente já pensava isso. Quer dizer, eu já a conhecia um pouco, muito pouco, é certo, mas sabia que havia uma diferença grande entre nós.

 Talvez não fosse assim tão grande, essa diferença, afinal e talvez fosse eu mesmo que a fizesse grande. Talvez tenha sido assim tal como as coisas se passam nos dias das nossas vidas quando nem sequer queremos desejar uma coisa que sabemos não poder vir a ter.

O processo para mim é simples, ou é fácil de explicar e é quase evidente que eu o reconheça, o processo. Colocamos essa coisa que não podemos ter muito longe do nosso alcance para não vir a desejá-la e para não sofrermos por não a ter.

Era isso que eu pensava dela, ou era assim mesmo que eu pensava e por mais voltas que tivesse dado às minhas ideias sobre ela dificilmente teria pensado que as coisas não tivessem ficado por ali, quer dizer por ali onde eu as tinha colocado: ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre a forma como alcançá-la.

 Depois, bem, depois, passado já bastante tempo de nos conhecermos as coisas deram uma volta, ou mesmo duas, se quisermos. Não sei exactamente como as coisas se foram passando e como o tempo conseguiu influir, mas houve um dia, aquele dia, em que as nossas distâncias diminuíram. E é por isso que eu disse acima que talvez tenha havido duas voltas porque acho que a nossa ideia se aproximou, convergiu, vinda de dois sentidos. De mim e dela.

 Foi quase por acaso acho eu, talvez estivéssemos os dois precisados um do outro, ou cada um de nós de um outro. E o que se seguiu foi muito rápido.

Muito rápido mesmo foi aquele passo de proximidade e convergência.

Estivemos envolvidos durante toda a tarde e durante toda a noite: fomos dois rios sedentos de foz, duas cascatas deslizantes em murmúrio, dois corpos em reencontro, duas almas sobrevoando-se.


A morte do Mário - Conto / Crónica de Daniel Teixeira


A morte do Mário - Conto / Crónica de Daniel Teixeira

Sentir medo é uma coisa natural que quase ninguém reconhece ter ou ter tido. Sentir aquele medo muito forte, aquele medo que nos persegue, aquele medo que nos não dá descanso é mais raro acontecer, mas acontece ...e eu soube disso, tive contacto com esse mesmo medo era ainda uma criança.

Esta história que eu não deveria contar tem muito poucas palavras. Dizem que o medo é um sinal interior nosso, uma defesa, um alarme, assim como a dor quando dói e dizem que tudo isso nos faz falta. Certo, até aí eu aceitei sempre.

Mas sempre me perguntei se o medo nos faz falta assim, se o medo nos faz falta desta forma, quando o medo para além do seu próprio peso arrasta o remorso por se ter tido medo.

O «Marinho» era um dos vários filhos de uma família daquelas que agora se diz ser uma família abaixo, (muito abaixo mesmo), do nível da pobreza. Era miserável, naquele outro tempo e sê-lo-ia agora também, não interessa qual o termo que se use porque a miséria não tem dicionário.

O pai do «Marinho» metia-se muito nos copos - era naquele tempo em que havia tabernas como hoje há snack bares - e a família era talvez também por isso uma desgraça completa.

Todos, menos a senhora Maria, que era quem tentava fazer alguma coisa daquela família. Pouco conseguia, embora se esfalfasse a trabalhar, vendendo ocasionalmente leite de porta em porta, nesse tempo, fazendo limpezas, sendo muito querida pelas senhoras da classe média que lhe lastimavam a sorte, enfim...era uma boa senhora.

Ainda tenho gravados os seus gritos de dor quando lhe meteram o filho no caixão de madeira simples pintada de negro, pintada a pincel, o caixão «social» da altura: «Querem meter o meu menino nesse lugar tão escuro...» gritava e isso faz-me sempre lembrar o irmão dele quando chegou ao pé de nós atropelando as palavras: «O meu irmão...desapareceu...caiu nas funduras!»

E este termo funduras faz-me lembrar por sua vez o negro do caixão e as palavras da senhora Maria: «Querem meter o meu menino nesse lugar tão escuro!»


O Dr. Silva Nobre e o meu braço partido - Texto de Lina Vedes


O Dr. Silva Nobre e o meu braço partido - Texto de Lina Vedes

Data – Maio de 1948
 LOCAL – CASA DO ALENTEJO, situada, na altura, na Rua Baleizão, num 1º andar, por cima da SALCO – Sociedade Algarvia de Combustíveis.

 Aconteciam, nesse local, encontros semanais de alentejanos, residentes em Faro. Como «penetra»e vizinha, partilhava, por hábito, dos convívios dos nascidos no Alentejo.

 Com gente da minha idade, a brincadeira consistia em escorregar no soalho encerado. Dava balanço com uma corrida e tentava equilibrar-me, deslizando pelo chão. Já tinha determinada técnica e considerava-me campeã, pois aguentava-me mais tempo que os outros.

 Sucedeu, talvez por excesso de confiança, correr, lançar-me como se os sapatos fossem patins, mas por motivo imprevisto, estes travaram repentinamente, obrigando-me a saltar e cair desamparada. Por instinto, devo ter esticado o braço esquerdo. Oiço um estalo, levanto-me de imediato, e vejo o braço com algo, a sobressair sob a pele. Com a mão direita componho o «defeito» e fico pressionando o pulso, parando com a brincadeira.

 Alguém reparou na minha atitude, encolhida a um canto, assustada, com receio da reprimenda. Chamam a mãe, que me leva de imediato ao hospital, que ficava junto da Igreja da Misericórdia, em frente ao Jardim.

As portas estavam fechadas, tanto a principal como as laterais. A todas, minha mãe bateu, mas não se abriram.Chega outro doente com urgência e os batuques nas portas duplicaram. Junta-se gente a refilar, pelo procedimento habitual das freiras.



 

A ETERNA PROCURA - Prosa poética de Joaquim Nogueira


A ETERNA PROCURA - Prosa poética de Joaquim Nogueira 

«… avanço na direcção certa ainda que não saiba o caminho, mas avanço… não me deixo ficar a olhar para a vereda que já percorri… avanço em frente, passo a passo, com cuidado mas com força e determinação… não são os meus pés que caminham mas a minha alma, o meu sabor de caminhar e o meu saber de que o estou a fazer… avanço porque quero… porque espero… porque sei que vou encontrar… o que quer que seja ou qualquer que seja o meu destino, a minha meta, a minha linha de chegada (a linha de partida já se esvaiu da minha memória), eu sei que a recompensa está lá… seja ela minúscula ou enorme…

mas não é o seu tamanho que me move… mas sim o ter de ser… o querer, o amor, o desejo de amar… o caminho mais nobre, mais salutar do ser humano: amar!… vou sem olhar para trás… afasto os escombros dos prédios destruídos da guerra que se travou dentro e fora de mim ao longo dos anos e que foram ficando ali à minha frente porque nada pode ficar para trás… não devemos olhar para trás, não, mas tudo o que passou vai connosco na nossa caminhada… é preciso, pois, afastar o entulho, o pó, as pedras aguçadas que nos cortam o ser e continuar a correr…


Arroz do Céu - Por Irene Fernandes Abreu - Recolhido no Blogue Valium50


Arroz do Céu - Por Irene Fernandes Abreu  - Recolhido no Blogue Valium50 

 Esta, é uma metáfora perfeita da condição social de muitos emigrantes que trabalham por esse mundo fora...

 A história narra o quotidiano de um emigrante de leste, cujo trabalho é o de limpar o lixo, que vai caindo nos respiradouros do Metro de Nova Iorque.

 Este limpa - vias, trabalhava há muitos anos no Metro, sempre de olhos no chão e sem saber uma palavra de inglês, sujeitava-se no seu dia a dia, tal como uma toupeira, a trabalhar nos escuros respiradouros, a picar papéis, varrer milhões de pontas de cigarros, raspar das plataformas as pastilhas elásticas, limpar as latrinas e ainda espalhava desinfectantes, polvilhava as vias com um pó branco, encolhendo-se contra a parede negra, sempre que o colega da lanterna gritava – «lá vem o comboio!»

Sempre de olhos baixos, como quem nada espera do Alto. A vida dele vinha toda do chão imundo e viscoso. Nem sequer olhava para a ténue claridade que entrava pelos respiradouros.

 Mas na superfície, a todo o comprimento da fachada da Igreja de S. João Baptista, os respiradouros do Metro formavam uma longa plataforma arrendada. Por lá são muito frequentes os casamentos, onde o arroz chove em cima dos noivos, à saída da cerimónia, com grande estrago de alegria e depois das cerimónias, o arroz é varrido para dentro das grades, resvalando para dentro do subterrâneo, caindo pelo respiradouro aos milhares, que o limpa - vias a princípio, varria com o outro lixo.

 Mas um dia, o nosso homem, que achava estranho esse fenómeno, matutou de onde viria tanto arroz? Um arroz limpo e polido, que brilhava como pérolas. Desconhecia aqueles ritos, no casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma…



Maria de Olhão - Por João Brito Sousa - A MINHA HOMENAGEM


Maria de Olhão - Por João Brito Sousa - A MINHA HOMENAGEM 

O livro Maria de Olhão, agora trazido à estampa em edição da Câmara Municipal de Olhão, poderá ser considerado, respeitosamente, como um Manual de Instruções sobre a vida, onde cada um, à sua maneira, poderá retirar os ensinamentos que precisa ou julga necessários, para conseguir um comportamento equilibrado e sobretudo justo, na sociedade onde se insere.

 Maria de Olhão, em minha opinião, foi uma mulher de excepção, que merece a minha homenagem e todo o respeito e penso que deve igualmente merecer a mesma coisa de todos os olhanenses. Por aquilo que fez em favor de todos.

 O mais curioso, é que baseou a sua conduta, no meu entendimento, claro, em quatro ou cinco pormenores de simples aplicação no dia a dia: trabalho, sentido de justiça apurado, poder de observação e sobretudo coragem.

 Maria de Olhão tinha grande facilidade na aprendizagem das letras e de tudo o resto. Por isso, utilizando o seu arguto poder de observação e também o seu sentido de justiça, comentava na comunicação social ou em que lugar fosse, as anormalidades que se lhe deparavam e exigia a reparação dessas situações, que julgava incorrectas.
Corajosamente.

 Foi sempre assim desde criança, pronta para ajudar os outros naquilo que pudesse e julgasse razoável, começando até por ajudar a mãe nas lides domésticas e dizendo não, noutras circunstâncias, quando era caso para isso.