sábado, 4 de maio de 2013

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XLIX - Por Daniel Teixeira - Histórias possíveis pouco confirmadas

 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XLIX - Por Daniel Teixeira - Histórias possíveis pouco confirmadas
 
Como se sabe, Alcaria Alta não é uma povoação fronteiriça e mesmo agora com as melhores estruturas rodoviárias não é fácil ir de Alcaria Alta a Espanha, mas havia, curiosamente, muitas histórias que me eram contadas relacionadas com Espanha.
 
Como já tenho dito o meu avô dedicou-se à actividade de contrabando em pequena e para mim inocente medida, mas no seu caso eu acho que ele sempre foi um andarilho, naquele sentido de procurar sempre coisas diferentes e para conseguir isso tinha de se deslocar a sítios diferentes.

Não se pode dizer que tenha corrido muito no sentido actual, até porque naquele tempo correr muito era andar para aí num raio de cinquenta ou setenta quilómetros: tinha uma série de profissões base, desde tosquiador a cardador, a pastor, a lavrador, a ceifeiro, a podador, a comerciante, a contrabandista, trabalhador braçal em estradas e caminhos de ferro, enfim, não devo esgotar aqui todas as artes que ele exerceu, mas dou uma ideia que qualquer uma delas, se excluirmos a semi - sedentária de tratar das suas terriolas, implicava deslocação.
 
Normalmente as herdades do Alentejo no caso da ceifa, os montes em redor para tosquiar e cardar, a serra de Tavira para o comércio das panelas de barro, a zona de Castro Marim a Alcoutim para trabalhar na estrada, e já mais no litoral para trabalhar nos caminhos de ferro, na instalação das linhas e todo o conjunto de coisas que isso implicava, desde trabalhar de picareta a carregar carris.

Sem que se possa tomar como exemplo este caso único é preciso acrescentar que o meu avô não era caso único. Normalmente deslocavam-se grupos para um lado e outro, para uma profissão ou outra no sentido de conseguirem complementar aquele pouco que a terra lhes dava, embora eu sempre tivesse a sensação que nunca faltava comida, coisa que parece ser comum ou normal em zonas rurais de todo o mundo, se excluirmos aquelas que sofrem efeitos constantes de secas.
 
Poderia não haver bifes mas havia pão, queijo, chouriça, morcelas, cozidos de couve, grão, nacos de presunto e toucinho, ovos, ervas aromáticas, ervilhas, favas, batatas, enfim...ainda sinto o cheiro dos cozidos de couve portuguesa a abobrarem à rés das brasas na panela o dia inteiro.

Talvez a zona nordeste algarvia estivesse, em termos da globalidade que atrás referi, numa zona limiar entre as zonas de seca e as zonas com chuvas regulares, e por vezes excessivamente abundantes, mas este tipo de alternância sazonal fomentava a migração de proximidade, o aproveitamento de algumas obras públicas que necessitavam de mão de obra não qualificada, o trabalho nas minas, enfim, se formos contar hoje por aquilo que sabemos raro é o filho da terra que por lá se ficou a seguir aos anos 60 o que singularmente quer dizer que as alternativas migratórias de proximidade existentes deixaram de produzir o efeito esperado.
 
 
 
 

 
 

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