sábado, 6 de dezembro de 2014

Coluna de Liliana Josué - Conto - QUANDO AS FOLHAS CAEM


Coluna de Liliana Josué - Conto - QUANDO AS FOLHAS CAEM 

O velho Manuel era um homem alto e pesado; olhos pequenos, ligeiramente rasgados e brilhantes, de tom pardo e vivos como os de uma criança.

Os cabelos brancos ainda se mostravam um tanto vaidosos do seu vigor, emoldurando graciosamente as aquelas faces bordadas de rugas.

 Suas mãos eram mapas de gelhas, salpicadas de largas sardas acastanhadas mas ainda com alguma destreza. As pernas é que já não tinham a agilidade de antigamente e os pés arrastavam ligeiramente pelo chão.

No entanto, o seu porte era ainda contornado de certa virilidade.

 Cansado de olhar as grandes vespas do jornal, pois a vista para pouco mais dava, levantou-se do puído sofá, outrora verde, adornado de outonais folhas castanhas, saindo em direcção ao jardim perto de sua casa.

 Enquanto caminhava lentamente, nesse fim de tarde, ouvia os pássaros num cântico murmurado de saudade pelos apetecidos dias de verão.

 Manuel sentou-se num banco de madeira pintado de verde, debaixo de uma grande amoreira. As folhas fustigadas por ligeira aragem, cantarolavam nostálgicas melodias de despedida, e num recato de fim de tempo caíam uma a uma, no seu amarelo envelhecer, enquanto se ofereciam dóceis , em tapetes macios, aos pés daquele homem.

 Na relva verdejante, bandos de crianças corriam e gritavam, como pássaros acabados de aprender a voar, no seu entusiasmo de brincadeiras que só a elas diziam respeito.




Banda «Os Magnatas» - L'amour Enterdit. - Por Se-Gyn


Banda «Os Magnatas» - L'amour Enterdit. - Por Se-Gyn 

 Andei publicando uns textos com o título de «Standards - as músicas que me balançam», falando de músicas que ouvi e, que por algum motivo ou outro, me impressionaram e guardei na memória. No último texto, fazendo um comentário da música «Je t'aime... moi non plus», fiz referência à banda de baile que existia em Turvânia / GO, que existiu até o começo dos anos 90.

«Os Magnatas» eram remanescentes de uma época em que toda cidade tinha lá a sua banda de baile - febre que começou lá pelos anos 60 e que só acabou com a chegada da animação de festas com som mecânico e, depois, o aparecimento da figura dos DJs e, enfim, o chamado «som automotivo».

Na última e mais duradoura formação, a banda tinha Braizão no baixo, Pelé nas guitarras, Paulão nos teclados, Tonho Baguá na bateria, todos egressos de outras bandas e histórias de vida.

 Pelé, veio de longe - havia uma lenda em torno de uma suposta participação sua na banda RC-9, antes de começar a ter problemas com o alcoolismo. Braizão andou longe, mas era da cidade. Tonho Doideira, era de Rio Verde/GO. E Paulão, se não me engano, também tinha nascido na cidade.

 Quando criança, eu e a turma gostávamos de passar na casa do Braz, voltando do banho no ribeirão dos Moleques, para ver os ensaios. Sempre estavam lá, no meio de um enrosco medonho de fios e tomadas, ensaiando música nova - ou velha (para corrigir certas mancadas, das quais vou falar daqui um pouquinho), entrementes os choques que levavam, tentando regular os amplificadores valvulados.



Natal - Texto de Maria Alvaro


Natal - Texto de Maria Alvaro

 Aí está vindo ele na sua longa viagem do Pólo Norte!!!...

Os Shoppings e as lojas de rua já estão engalanados, prontos para o receberem e lhe venderem os presentes que ele irá distribuir pelos que se governam na Vida muito bem... ou um pouco menos bem...mas que se governam, de alguma maneira...

Haja parangonas, árvores de luzes tremeluzentes e coloridas, enfeites variados de cor vermelha, branca, dourada ou prateada! Haja bacalhau e/ou peru! Não podem faltar o arroz, as passas e as lentilhas (para dar sorte!), empanadilhas e fatias douradas, vinhos, champanhes e todos os tipos de manjares dos céus! Haja azevinho!

Haja presépio, que o Menino Jesus já vai estranhando tanta árvore em sua substituição!...Haja música.. nas casas e nas ruas repletas de enfeites luminosos!

Haja Festa! E, sobretudo, haja familiares que estejam amistosos e bem humorados! Sim, porque este é um período propício a explosões depressivas em muita gente!....
 Ah, a festa da Família!!! O tradicional ritual religioso que é suposto comemorar o nascimento de Jesus, mas que, no entanto, hoje, responde, sobretudo, aos insistentes apelos do mercado, representando, na maioria dos lares ocidentais, pouco mais do que uma excitante troca de compras bem pagas, que o Papai Noel/Pai Natal, já cansado de tão longa jornada, delega confiante nas mãos dos familiares.

Estes os depositam charmosamente na base das árvores de Natal e, depois de uma ceia bem degustada e devidamente regada pelo néctar de Baco, passam a proceder à entrega dos lindos pacotes, que repousaram, até então, ansiosos pela chegada às mãos de seus destinatários.


Leia este tema completo a partir de 10 de Dezembro de 2014 carregando aqui

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Prosa Poética de Maria Petronilho - Olhinhos de água


Prosa Poética de Maria Petronilho - Olhinhos de água



A nuvem menina, que se condensara na fria alvorada, abriu os olhos de água e espreguiçou-se em respingos de alegria, fazendo brilhar arcos íris cada vez que um raio de sol nascente lhe tocava.

 Arremessou a capa branca de algodão e debruçou-se curiosa, lá do alto.

 Viu o chão cinzento e negro, até onde a vista alcançava.

 Boiava num azul límpido e fundo.

 Achou estranho o contraste entre a alegria lá no alto e a tristeza que avistara ao longe.

 Um menino muito loiro espreitava no horizonte, sacudindo a cabeleira fulgente, e ria, ria… a desafiá-la para brincar.

 Mas de cada vez que se aproximava, a nuvenzinha ia ficando mais pequena.

 Lembrou-se da escuridão que vira e sentiu muita pena.

 Chegou-se mais perto do chão, onde galhos moribundos lhe estendiam os braços, talos amarelos em clareiras na calvície tostada, espinhos…




Preferências vocabulares - Por Arlete Deretti Fernandes


Preferências vocabulares - Por Arlete Deretti Fernandes 

 Fato provado é que falando ou escrevendo deixamos transparecer a nossa preferência para certos vocábulos ou torneios de expressão.

Afirmou o cronista Francisco Pati no antigo CORREIO PAULISTANO, que «quando se escolhe a obra completa de um escritor para uma romaria às regiões do estilo, acabamos descobrindo predileções vocabulares que constituem ou acabam constituindo verdadeiros «cacoetes».

O jornalista estava a ler «OS POBRES» do grande escritor português Raul Brandão e achou-lhe uma elegante preferência pela palavra dedada, citando alguns exemplos que aqui escrevo:

Ao descrever um banco de hospital, diz que há nele «nódoas de sangue, dedadas de aflição e suor de desgraçados que se entranhou na madeira».

Outra questão: «De que ruínas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas trágicas?».

Mais este: «Só a morte ainda restava intata, sem dedadas na sua roupagem negra, com todo o seu mistério e toda a sua beleza».

O próprio Pati disse o porque da preferência: «A predileção explica-se pela sua arte de escultor. Raul Brandão vive, com efeito, a dar dedadas nos seus personagens, para acentuar-lhes a expressão das respectivas máscaras.»

Quem ouviu ou leu Dom Aquino Correia percebeu logo a sua preferência para certos modos de dizer que bem o caracterizavam dentre os demais escritores ou oradores. Eram muito frequentes nele, por exemplo, os ...que se me dá, os dir-se-ia, os em meio a, os em flor e outros.



 

Poesia de Ivone Boechat - Natal; Ceia de Natal; As velas do Natal


Poesia de Ivone Boechat - Natal; Ceia de Natal; As velas do Natal

 

Natal



No dia do Natal
 tudo amanhece
 exatamente igual;
 o céu espera
 que você acorde
 muito diferente;
 isto você alcança,
 sendo o maior símbolo
 de mudança:
 sendo luz,
 com o propósito
 de viver daqui pra frente
 de maneira tal
 que ao olharem pra você
 as pessoas se lembrem de Jesus.

(Amanhecer 4ª.edição)


Leia este tema completo a partir de 10 de Dezembro de 2014 carregando aqui

Poesia de José Carlos Moutinho - Navego em mim; Versos sem sentido; Anseios


Poesia de José Carlos Moutinho - Navego em mim; Versos sem sentido; Anseios

 

 Navego em mim

 

 São sombras, são murmúrios
 que me invadem o sentir
 num silêncio doce de afago,
 abraçam-me na minha solidão
 e aconchegam-se na minha alma!

Calam fundo as minhas palavras,
aquelas palavras esmorecidas
 pelas tardes vazias da minha vida,
 que perderam a voz da serenidade
 e se tumultuam em inquietudes,
 que só os luares dos meus anseios
 iludem com a utopia das estrelas!

Alvoradas das minhas Primaveras
 nascem pálidas, cansadas, sem sol,
 turvadas pela luz diáfana das quimeras,
 perdem-se nas maresias sem farol!

Navego em mim pelas veias do meu rio,
 fluxos vermelhos da minha essência,
 por vezes cálido, outros com muito frio,
 sou tenaz timoneiro da minha existência,
 desistir é fraqueza, continuar é desafio,
 encontrarei o remanso da minha resiliência

José Carlos Moutinho