Mostrar mensagens com a etiqueta Ilona Bastos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ilona Bastos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Olhares


PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Olhares 

 Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
 Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!

Encanta-me, claro, a folha amarelecida presa na orelha do cocker spaniel que me olha, inocente, sério, tão embrenhado no seu papel de cão felpudo e focinhudo, de longas orelhas e pêlo dourado! O seu olhar… e o seu olhar… tão ponderado e prudente.

O que era aquele olhar?
Era o de um ser inelutavelmente destruído?
Ou de alguém, ainda há pouco despertado de um pesadelo,
 que se concilia lentamente com a vida?
 Perguntou-me: «é para nós?»
 Acenei que sim e estendi os braços.


Leia este tema completo a partir de 10 de Dezembro de 2014 carregando aqui

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Poesia de Ilona Bastos- A Vinha e a Esperança; A chuva; Os Balanços do Vendaval


Poesia de Ilona Bastos- A Vinha e a Esperança; A chuva; Os Balanços do Vendaval

 

 A Vinha e a Esperança

 

 Agora, é a videira que se enche de parras e de uvas,
 que cresce, afoita, num reboliço de gavinhas,
 limbos, pecíolos, bainhas, e que se expande sobre o muro,
 galgando-o magnificamente, desafiando a rua,
 debruçando-se, viçosa, com seus cachos caprichosos,
 sobre os carros, as carrinhas e os apressados peões.
 Nada teme esta videira citadina, tão tranquilamente verde,
 tão essencialmente terra, água e sol, tão fiel a si mesma!
 .
 Pudéssemos nós, humanos, conhecer a nossa natureza,
 Interiorizá-la, assumi-la, vivê-la, expressá-la,
 independentemente do solo onde nascemos
 e dos obstáculos que a vida nos coloca,
 indiferentemente das modas e passageiras seduções.
 Seríamos o Homem na sua identidade perfeita,
 íntegro defensor do Amor, da Paz universal e do Bem.
 Tão natural nos seria sermos humanos como à vinha é ser vinha.
 .
 Na vinha encontro a plenitude, a beleza do ser.
 Enquanto os homens continuarem a plantar vinhas na cidade,
 alguma esperança haverá para o Mundo!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Inspiração ( I, II e III)


PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Inspiração ( I, II e III)

 

 Inspiração I

 

 A inspiração pode surgir de onde menos a esperamos: da simples folha de árvore, pousada sobre o empedrado escuro do passeio; da lagartixa que nos espreita da fresta do muro; das conversas e desabafos daqueles que por nós passam, tantas vezes alheados de tudo o que não seja o seu próprio mundo…

Daí a necessidade de estarmos atentos ao que acontece em redor. Isto é, se queremos entender a realidade e descrevê-la!

Certamente que a nossa atenção é parcial e direccionada. Se observamos a lagartixa – a sua cabecita esperta, listrada de verde, surgindo da pedra – ignoramos o comboio troante, que avança soberbo sobre a paisagem.

Se escutamos as conversas passantes, abstraímos da flor, que o vento arrancou, e veio pousar, desconsolada, no chão.

Mas, que fazer, se não podemos acompanhar simultaneamente tudo o que nos rodeia?



Leia este tema completo a partir de 5 de Outubro de 2014 carregando aqui

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos


O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos 

 Pode pensar-se, ou mesmo dizer-se, que o verde é simplesmente verde. Mas não é. Nunca o verde é simplesmente verde - é sempre complexamente verde.

Observem-se as nuances, as sombras, os brilhos. Os toques de veludo, de cetim, ou de serapilheira agreste. E como tudo se reflecte e nos atinge em incontáveis tons que nem o nosso mais minucioso olhar destrinça. E como nos tons se adivinham cheiros, mais ou menos silvestres, ou densos, ou ténues, ou voláteis. E como na sinuosidade das formas sentimos o gosto, doce ou amargo, ácido ou acariciante, desta Natureza em festa...

Poderia ficar, infinitamente, a escrever ou pensar sobre minudências irrelevantes, tais como os tons de verde no arvoredo, ou o seu aspecto pontilhado ou de pincelada larga impressionista, de surpreendente brilho ou elegância realista.

Certo que ninguém, senão eu, retiraria prazer dessas análises minimalistas e imprestáveis. Mas que fazer? Se tirar eu prazer, é já alguma coisa! A tantas tarefas me dedico que a ninguém dão prazer - nem a mim própria, que as executo pelo sentido do dever...


domingo, 29 de junho de 2014

Poesia de Ilona Bastos - NEVOEIRO; O POEMA QUE SE SEGUE; COMO SOA O POEMA


Poesia de Ilona Bastos - NEVOEIRO; O POEMA QUE SE SEGUE; COMO SOA O POEMA

 

 NEVOEIRO

 

 Lembrando uma paisagem escandinava
 Desenham-se, além dos vidros da janela,
 Os traços suaves dos ramos de pinheiro,
 Esbatidas manchas de quadro em aguarela,
 Por entre o esbranquiçado frio do nevoeiro.

 Também, mais próxima, desmaiada, a relva
 Se distancia, neutra, na densa neblina,
 E o fundo baço, que esconde o arvoredo,
Envolve o céu e a vida, em leve musselina.

 Só um vulto, esbelto, vem descendo, ledo,
 A longa escadaria, que o nevoeiro adoça,
 E uma gaivota livre, de asas prateadas,
Planando baixo, os seus cabelos roça.

 Agora, vejo as nuvens, rasas e molhadas,
 Correrem, junto à erva, em desfilada,
 Afugentando o véu, os seres, a quieta paz
 Desta atmosfera idílica, encantada.

 Soprando velozmente, vem o vento e faz,
 Agreste, forte, intenso, espantar a magia
 Do nevoeiro imenso, prenhe de mistério,
 Que a manhã cobriu, neste invernoso dia.

Então, no céu, o azul retoma o seu império,
 O sol inunda a relva, a rua, todo o parque,
 Regressam vozes, passos, gente radiosa,
 Da vida, a cor, o brilho, a infinita arte...

 E, na transparência pura, gloriosa,
 Desta pintura bela, perfeita em limpidez,
 Na Natureza rica, na vívida Criação,
 Esboça-se, com espantosa nitidez -

A imagem de Deus - sublime Revelação!

 Ilona Bastos 



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Prosa de Ilona Bastos - COR-DE-CHUMBO - Dulce


Prosa de Ilona Bastos - COR-DE-CHUMBO - Dulce

Sem precisar de se olhar no espelho compreendeu que novamente devia ter o aspecto de uma pessoa abatida: a tez baça e macilenta, os ombros fechados sobre o peito, os olhos piscos - como quem não vê -, o pensamento sem Norte.

 Puxou de um papel amarelo, quadriculado, e começou a escrever, em letrinhas tão minúsculas quanto o seu ego - inversamente proporcionais à sua vontade de gritar, bem alto, num desabafo universal. Se pudesse, pediria emprestado um megafone gigante e passear-se-ia pelas ruas como uma louca, berrando desesperadamente, libertando fios e fios de lágrimas que não acalmam - como num sonho ou num pesadelo.

 Com esforço, simulou um ar natural e deitou a mão ao telefone. Discou os números. Depois falou, combinou, em voz calma, quase embargada, quase espontânea. Mentalmente, pressentiu as fífias do seu discurso, mas riu para esconder o sofrimento, e desligou.

 Grande foi a ansiedade a tarde toda. Os minutos pareciam não querer passar, nem no relógio, nem no ar, onde se sentia uma dormência não habitual. E foi então que o telefone tocou e voltou a requerer a sua atenção.

Quando pegou no auscultador sabia precisamente o que iria ouvir: o desmentido da combinação anterior. E é claro, o encontro ficava sem efeito.

Leia este tema completo a partir de 10 de Maio de 2014 carregando aqui

segunda-feira, 24 de março de 2014

Prosa poética de Ilona Bastos - A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros


Prosa poética de Ilona Bastos - A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros


A escrita em mim


 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
 Mas, que fazer? E é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
 Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
 Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Poesia de Ilona Bastos - Consegues ouvir?; Amizade; Amigo

 
Poesia de Ilona Bastos - Consegues ouvir?; Amizade; Amigo    
 
 
Consegues ouvir?
 
 Shiuuu... escuta...
 Deixa-me ouvir o grasnar dos patos no jardim,
 o tocar da folha seca, caída da árvore, a chocar na laje,
 o murmurar das águas que brotam das fontes, risonhas,
 o cantar dos pássaros, a namorar, através dos ramos,
 o vozear das crianças, no relvado,
 o som diluído e vago da cidade, que ora soa a mar distante,
 ora guincha, alerta, no buzinar do trânsito,
 ora ruge, como leão, na passagem de um avião...
 
 Shiuuu... escuta...
 
 Consegues ouvir, também?
 
 Ilona Bastos
 
 
 
 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Prosa Poética de Ilona Bastos - O Presente e o Futuro

 
 
Prosa Poética de Ilona Bastos - O Presente e o Futuro 
 
Era jovem. Entrou em passo rápido, semblante sisudo, olhar no chão.
Do seu aspecto, tudo diziam as faces cavadas e pálidas, o cabelo à escovinha, a argola na orelha, a camisola larga de capuz caído.
 
Sentou-se e pareceu-me então que tremia. O seu discurso era hesitante. Tinha dificuldade em explicar o que o trazia, misturando assuntos, tecendo frases e ideias entrecortadas de pequenos soluços inaudíveis mas perceptíveis.
 
Pegámos na ponta da meada, separámos águas, as ideias tornaram-se mais claras, conversámos muito e às tantas confessava: eu falo pouco, não consigo falar.
 
E disse-lhe: mas agora está a falar, estamos a falar tão bem. E é bom termos quem nos oiça, e sentirmos que alguém está a seguir, connosco, o nosso percurso. Assim, quando temos menos ânimo – porque todos temos dias de menos ânimo –, há alguém que nos chama e nos volta a colocar no caminho certo.
 
Lemos, em conjunto, algumas frases difíceis de um documento sério. Recordei-lhe que no ler e no escrever, como no futebol ou em qualquer outra coisa, o que era importante era a prática, e ele concordou.
 
Preenchemos depois um impresso e falámos de como teria de instruí-lo e onde entregá-lo. Até dava jeito, o local, que já lá tinha uma visita programada para o dia 10.
 
 
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Poesia de Ilona Bastos - Dançante o meu olhar, que é Céu; Quando a noite está quente; Versos em fuga

 
Poesia de Ilona Bastos - Dançante o meu olhar, que é Céu;  Quando a noite está quente; Versos em fuga    
 
 
Dançante o meu olhar, que é Céu;

 As nuvens viajam no céu.
 São brancas, às ondas, redondas,
 São leves, etéreas, oblongas,
 São ledas, suaves, serenas,
 São velas, veleiro, singrando
 Cordato, no mar infinito.
 
O vento que sopra as encanta,
 O vento gentil as desmancha,
 O vento as estende, transforma,
 Subtil, envolvente, as seduz,
 E faz, desfazendo-as, ceder,
 Em gotas de água, sublime prazer.
 
 As árvores longínquas, frondosas,
 Verdes, brilhantes, harmoniosas,
 Ao jorro da chuva se animam,
 Ao sopro da brisa balançam,
 Bailarinas inspiradas, em aplauso
 Aclamadas pelos arbustos em flor.
 
E, dançante, o meu olhar, que é céu,
 Que é vento e chuva, árvore e flor,
 Pela sala voa, música vibrante,
 Os vidros atravessa, confiante,
 Se entrega à vista bela, além janela,
 Feliz, enfim, confunde-se com ela.
 
 
 
 
 
 

sábado, 27 de julho de 2013

Poesia de Ilona Bastos - CINZA E PRATA; SE TU SOUBESSES...; CAMINHOS

 
Poesia de Ilona Bastos - CINZA E PRATA; SE TU SOUBESSES...; CAMINHOS
 
 CINZA E PRATA
 
De cinza e prata
é esta visão invernal
De céu pesado, frio estático,
Rígidas construções metálicas,
Arvores esqueléticas.
 
Sabemos que existe gente
Nos pisos em open space
Destes edifícios altos,
Desumanos na escala
E argêntea aparência.
 
Sabemos que corre seiva
Verde, fresca, viva,
No interior destes troncos
Finos, despidos,
Com a aparência da morte.
 
De cinza e prata
São os nossos medos
E os nossos sonhos.


Leia este tema completo a partir de 29 de Julho carregando aqui.

 
 

 

domingo, 21 de julho de 2013

Prosa Poética de Ilona Bastos - Fauna & Flora: SONHOS; MANSAMENTE

http://static.blog4ever.com/2011/04/481789/artfichier_481789_1712386_201301262959376.jpg
Prosa Poética de Ilona Bastos - Fauna & Flora: SONHOS; MANSAMENTE 
 
Lá em baixo, na calçada, junto à torre vizinha, era um tufo de belas folhas verdes, onde se escondia uma flor lilás. Uma campainha, certamente. E tão harmonioso era o conjunto que sorri, pensando: «Já ganhei o dia!».
O cão aproveitou para urinar em cima.
 
Mais adiante, há um pequeno jardim, em frente à antiga papelaria. Colocaram letreiros, para vender ou arrendar as instalações, mas não têm tido sucesso. Sem dúvida, por causa da crise.
 
No início, passando pelas largas vitrinas batidas pelo sol, sonhava edificar ali a minha obra. Acreditava que o espaço seria ideal para um ginásio – as bicicletas e outros aparelhos voltados para o jardim, os raios solares a colori-los de tons dourados.
 
Para completar o conjunto, haveria também um estabelecimento de café e venda de comida para fora. E, claro, uma livraria - tabacaria, onde poderia comprar-se boa literatura, blocos e lápis para escrever e desenhar. Mens sana in corpore sano.
 
Não sei porquê, o sonho esbateu-se e morreu. Passou a interessar-me somente o jardim, que o cão rodeia, cheirando minuciosamente o gradeamento. De quando em vez alça a perna ou agacha-se. E suspiro de alívio, conduzindo o animal até casa. Missão cumprida!
 
 
 
 

 

O PRIMEIRO DIA - Crónica de Ilona Bastos - Graça

http://static.blog4ever.com/2011/04/481789/artfichier_481789_1712386_201301262959376.jpg
O PRIMEIRO DIA - Crónica de Ilona Bastos - Graça   
 
Um mar de processos cobria as secretárias, donde emergiam, parecendo boiar à deriva, os monitores dos computadores e as cabeças dos funcionários.   Uma vaga de papel branco e cartolina azul suave galgara mesmo o parapeito da janela, através da qual se avistava a cidade, longínqua.  
 
A senhora simpática, de cabelo curto e óculos, levantou-se e avançou, com deferência. Alheia aos sorrisos mal disfarçados dos colegas, guiou-a através do corredor, junto aos guichets, ultrapassou o guarda-vento, atravessou o hall de entrada, penetrou na zona reservada e, finalmente, deteve-se junto à porta de um gabinete, que abriu.  
 
Com um baixar de cabeça agradeceu a delicadeza da senhora simpática, de cabelo curto e óculos, que se inclinava, numa vénia.   «Bem-vinda, Senhora Doutora! Este é o gabinete que lhe foi atribuído. Agora volto para a secretaria... Se desejar alguma coisa...»   «Obrigada. Se precisar, eu aviso.»   Em poucos segundos desvaneceu-se a imagem da funcionária e do corredor, apenas restando, em primeiro plano, a porta de madeira escura, fechada.  
 
Voltando-se, deu alguns passos, progredindo em território estranho, excessivamente ocupado.   Sobre o chão frio, erguiam-se uma secretária, duas cadeiras, um pequeno armário rectangular, uma mesinha de apoio e inúmeras pilhas de processos com capa de cartolina azul celeste.   Também pelos móveis se apinhavam dossiers, livros, um telefone empoeirado e mais montanhas de processos.
 
Pairava sobre o relevo desordenado do aposento uma pesada camada de ar, que lhe pareceu irrespirável porque também ela impregnada de pó e, se possível, de papel, até ao tecto alto e sujo, até ao candeeiro frio, de lâmpadas fluorescentes, até às janelas subidas, de armazém, encostadas ao tecto, não deixando entrar a luz nem a brisa, mas tão somente a suspeita de uma humidade insidiosa e de uma chuva persistente...  






domingo, 16 de junho de 2013

Poesia de Ilona Bastos - Retrato do meu amor; Não me esqueças; O que escrevo

http://static.blog4ever.com/2011/04/481789/artfichier_481789_1712386_201301262959376.jpg
Poesia de Ilona Bastos - Retrato do meu amor; Não me esqueças; O que escrevo
 
 
 Retrato do meu amor
 
Olho o teu rosto jovem e audaz,  
Fito os teus olhos ternos, meigos,  
Que a verdade contam sem receios.
Penso em ti, longe de mim, tão só,
Vejo-te em sonhos, olhando em paz  
O verde molhado dos outeiros…
 
Toco-te a boca, que cerras, sem falar,  
Miro-te o queixo, erguido, valoroso.  
Sei-te distante, na estrada, a rodar  
Veloz na chuva, que tomba sem repouso.
 
Nas minhas mãos já sinto o teu cabelo,  
O teu olhar me envolve com ardor,  
Em pensamento é meu o teu calor.  
Para mim vens, quilómetros correndo,
A tempestade vences, percorrendo  
A distância que separa o nosso amor.
 
Leia este tema completo a partir de 17 de Junho carregando aqui.
 
 

domingo, 19 de maio de 2013

Poesia de Ilona Bastos - MEU CANTO; COMO SOA O POEMA; O ESCREVER DA POESIA

 
Poesia de Ilona Bastos - MEU CANTO; COMO SOA O POEMA; O ESCREVER DA POESIA
 
 
 
MEU CANTO
 
 Só neste meu canto é que eu me encontro,
 E em nenhum outro mais que possa se inventar.
 Procurar-me, para quê, noutro lugar?

 
Só desta voz eu oiço a lhana fala,
 De um jeito longo, encadeado, quase prosa
 Que eu não sei calar, muito que tente.

 
COMO SOA O POEMA
 
 Não soa o poema ao criador.
 Irrompe do fundo de nenhures,
 Pensamento luminoso, súbito,
Na brancura do papel a derramar.

 
Não soa em alta voz a poesia.
 Pois é ideia ágil, forte e clara,
 é passo vivo ou mesmo galopante,
 Que o braço move e leva pelo ar.

 
 Não soa como som, já que é mais luz,
 Corrente descendente até à mão,
 Vaivém audaz do lápis no papel
 Furor intenso e débil a criar.

 
O ESCREVER DA POESIA
 
 Não sei se escrevo poesia
 Ou se a poesia me escreve.

 
é presunção, decerto, julgar-me criadora,
 Chamar poesia a estas palavras
 Que debito, desajeitadas e frouxas,
 Nas brancas páginas de um caderno.

 
 Maior presunção, ainda,
 Acreditar que meus actos desconexos,
 Pensamentos e gestos perplexos,
 Encerram em si a poesia, o motor
 Gerador do meu viver.

 
Leia este tema completo a partir de 20 de Maio carregando aqui.
 
 

 
 

Prosa Poética de Ilona Bastos - VER CLARO - Anna

 
Prosa Poética de Ilona Bastos - VER CLARO - Anna
 
Com decisão súbita, pragmática, avançou para a secretária e debruçou-se sobre o bloco. Caneta em riste, corpo curvado, desenvolveu frenéticas contorções na superfície do papel. Afastou-se, depois, olhando o emaranhado de letras e palavras desenhadas. Esplêndido. Para começo não estava mau. Três ou quatro frases perfeitamente fulgurantes.
 
Deu um pulo na cadeira, atirando com a esferográfica. Exuberante, apanhou a mala, de um rasgo. Da porta, acenou adeus aos processos e aos outros, quase esvoaçante. Pela escada (pois o elevador avariara-se, à custa de tanta monotonia transportar), de degrau em degrau, fez-se à rua.
 
Da entrada avistou o mar empedrado do passeio. Logo após, a corrente electrizante dos automóveis. Além, a paisagem da aventura: o céu, aberto até ao horizonte, as nuvens a afastarem-se, empurradas pelo vento, a uma velocidade vertiginosa.
 
«Claro!», pensou. Era necessário atravessar a rua e, da outra margem, vigorosamente, acenar a um táxi. Depois, lá dentro, a magia do imprevisto...
«Para onde? Diga!». Uma cabeça de contornos vagos, o pescoço rude, engelhado, o cabelo algo oleoso.
 Do discurso, confuso, tudo ou nada se podia concluir:
 
«Desejo ir para a Africa, onde há crianças e adultos a sucumbir à fome, às doenças e à guerra. Quero despojar-me destas roupas, e das lianas que na cidade me tolhem os passos. Decidi tudo dar aos outros, desde a minha insegurança, timidez e imperícia, aos meus gestos de carinho, de ternura, de sede de paz... Compreende, tudo isso é necessário libertar, fazer vibrar... Porque a vida é assim, o que não pode deixar de ser... Também quero ir para o Tibete. Pois se vou, quero ir até aos limites extremos. A ausência daquele que vai tomar café à esquina é absolutamente igual à daquele que escala montanhas, mochila às costas, em alturas colossais, buscando a paz e o infinito. Não acha? Se posso ter tudo, porque hei-de ter nada?»
 
O veículo pôs-se em andamento, o olhar do motorista, astuto, espantado, erguido para o espelho retrovisor. Depois, soou uma música, inesperadamente calma:
 
 
 
 

 
 

sábado, 20 de abril de 2013

Prosa Poética de Ilona Bastos - A obra-prima

 
Prosa Poética de Ilona Bastos - A obra-prima 
 
O escultor levou dezoito anos a criar a sua obra-prima.
 Ergueu-a a partir do nada, ou seja, utilizando o material simultaneamente mais básico e mais complexo que se pode imaginar.
 
Ao longo dos anos fê-la crescer, dedicando-lhe os momentos mais inspirados do seu tempo, do seu desvelo, do seu carinho.
 
 Quantas noites não passou sem dormir, desencantando soluções para as dificuldades que a obra lhe suscitava! Quanta alegria não o invadiu, ao reconhecer ter acertado nas opções feitas em cada etapa da sua construção! Quantas lágrimas não chorou ao imaginar, por vezes, que o objecto do seu enlevo poderia não atingir o destino que lhe fora traçado!
 
Quanto sofrimento, quanta felicidade, quanta angústia, quanto alívio não lhe causou essa ambiciosa obra, cuja finalização, pensava, lhe traria a compensação e o total reconhecimento pelo esforço despendido…
 
Lateralmente – pois o escultor tinha que ganhar a sua vida – concebia pequenas estatuetas em barro, que vendia em feiras do artesanato e lojas para turistas. Como oleiro, das suas mãos nasciam cântaros e jarros de belíssimas formas e elegantes linhas, encanto dos apreciadores que nelas vislumbravam ânforas gregas ou romanas e sonhos de longínquas ilhas plantadas num mar de azul intenso, coberto de céus com nuvens alvíssimas pincelando extensões grandiosas até ao horizonte.
 
Quando interrogavam o escultor acerca da sua obra-prima - à qual o próprio se referia, amiúde, como sendo de importância fundamental -, este sorria, feliz, respondendo vagamente: «A minha obra está à vista de todos!».
 
Dezoito anos volvidos, o criador deu a obra por concluída. Não que o desejasse, é verdade - na sua ânsia de perfeição, poderia continuar ad eternum a modelá-la, retocá-la, acarinhá-la.
 
 
 

 
 

Conto de Ilona Bastos - Em direcção ao futuro…

 
Conto de Ilona Bastos - Em direcção ao futuro…
 
Olhando a mulher sentada, abatida, diante de si, a advogada pondera se é possível receber-se o mais duro de todos os golpes e continuar-se optimista, reconstruir-se a vida e seguir-se em frente, carregando o conhecimento proveniente da experiência amarga, mas avançando sem azedume, corajosamente, em direcção ao futuro…

Aquela mulher que a encara do outro lado da secretária, de rosto branco crescentemente tingido de manchas avermelhadas à medida que vai contando o drama da infidelidade do marido, é uma mulher bela. Vista na rua, trajando roupas elegantes - o passo enérgico dos quarenta anos, o cabelo pintado de castanho acobreado, ondeado e bem penteado -, parecerá jovem e feliz.
 
E, contudo, encontra-se à beira de perder o emprego, tal a impossibilidade de se concentrar nas funções que lhe estão atribuídas. As filhas culpam-na (ou simplesmente abandonam-na) neste transe que desde há alguns meses se abateu sobre a família. A raiva, o furor, a ira, o desespero, a mágoa, a amargura, assomam-lhe alternada ou concomitantemente à face, enquanto expõe impetuosamente o seu caso.

A advogada concorda com a cliente – por empatia, para lhe fazer a vontade – aceitando que a sua questão é de difícil resolução. Mas para ela não é, na realidade.

Trata-se de uma clara situação de adultério, de violação dos deveres conjugais, de incumprimento da obrigação de fidelidade, e a senhora pode muito simplesmente instaurar uma acção de divórcio contra o marido que a atraiçoa. Basta-lhe decidir.

Mas a mulher revolve-se entre dúvidas, fúrias e desamor. Fala e chora. Gesticula muito com as mãos. Os seus dedos, bruscos, cortam o ar e esmagam-se violentamente sobre uma folha de papel maculado por uma escrita vulgar, traçada a esferográfica azul, prova triste e inexorável da sua irremediável fatalidade.

A mulher confessa-se. Não se sente preparada para um processo litigioso. Não encontra, em si, coragem para confrontar o marido. Mas não aguenta, por mais um dia que seja, manter a situação tal como há longos e penosos meses se arrasta. E, então, debate-se, grita e chora…Quer agir e parece-lhe não conseguir sair do mesmo sítio.
 
 
 

 
 

domingo, 17 de março de 2013

 
Poética de Ilona Bastos - Houve um tempo...; Quando a noite está quente; Versos em fuga 
 
Houve um tempo...
 
 Houve um tempo em que o tempo não tinha fim.
 Percorriam-no jogos, corridas e risos pelo jardim,
 Ou as rodas de uma dança de criança, de um triciclo,
 Um ciclo de fitas animadas, livros de contos de fadas,
 Baladas, romances de príncipes e princesas encantadas…
 
Houve um tempo de inocência, em que a aventura
 Sorria, espreitando, em cada esquina, e era ventura
 As pistas descobrir, e do mistério desvendar a solução,
 Na convicção de quem é vencedor na luta pelo bem
 E tem, em si, a ambição de ser gigante - ser alguém!
 
Quando a noite está quente
 
 Quando a noite está quente
 e o coração saciado de amor,
 sentada para escrever,
 a música a ditar o meu sentir,
 é poesia que me sai das mãos,
 como renda preciosa
 ou bordado mimoso,
 como doce apetecível
 ou afago carinhoso.
 
Os sons longínquos
 não perturbam a paz,
 e o sono brando do cão,
 amável companhia,
 é conforto e tranquilidade.
 
Versos em fuga
 
Afastam-se, voando,
 as palavras em verso
que na noite murmuro
 (incessante balbucio, por
 entre sonhos turbulentos).
 
Digo e repito as ideias
 pois temo perdê-las.
 Retenho detalhes,
 decoro-lhes formas
 de oração a não esquecer.
 
 Pela manhã, estou só,
 desse canto, o que ficou?
 Vagas impressões
 de ladainha abandonada
 pelas trevas, pelo vento…
 
 
 
 
 

 

domingo, 3 de março de 2013

Conto de Ilona Bastos - A Comissão para a Realidade

 
Conto de Ilona Bastos - A Comissão para a Realidade 
 
sem revolta nem encantamento
 Elaine
 ....... Conduzida à sala de paredes brancas e luminosas, aguardava-me do outro extremo da mesa de reuniões um estranho grupo composto por três homens. Aparentavam o aspecto bizarro que eu não poderia ter deixado de antecipar: o do meio - que me pareceu hierarquicamente superior aos outros - exibia longas barbas negras e cabelo comprido, atravessado no topo por uma larga e reluzente careca; o da direita ostentava uma esplêndida cabeleira loira, encaracolada; e o da esquerda era completamente ruivo, numa tonalidade eufórica, quase irreal.

Em frente a cada um deles, solenes placas em madeira esculpida exibiam os nomes daquelas extraordinárias personagens: Sabrab, que era o chefe, Oriol e Oviur. O semblante de todos mostrava-se grave, mas levemente suavizado pela minha presença.

«Sente-se! », convidou Sabrab, evoluindo a mão num gesto elíptico sobre a mesa.

Puxei da cadeira de pinho claro, sentei-me e fiquei a olhá-los vagamente, concentrada no barulho dos automóveis e dos pássaros para além janela.

«Diga! Diga, então!» - começou o chefe, denotando ligeira ansiedade. «Não temos tempo a perder. Diga-nos tudo o que sabe sobre a realidade!»

Fitei-os com algum espanto.

«Como sabem o que eu sei?»- perguntei, simplesmente. Ainda se fosse noutro dia! Se fosse ontem, por exemplo, algo lhes poderia adiantar sobre o assunto. Hoje, contudo, era completamente impossível dar satisfação a semelhante pedido!

Baixando a cabeça, distraí-me com o pensamento de que seria interessante pousar a mão esquerda sobre a mesa, esticar o braço direito num gesto perfeito, trazer a caneta colocada adiante, e aproveitar para desenhar calmamente algumas letras sobre o papel. Repeti, quase num murmúrio, erguendo a cabeça: