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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Grupos Corais - Tempo de mudar de rumo - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro

 
Grupos Corais - Tempo de mudar de rumo - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro
 
Os poderes assistem impávidos e praticamente indiferentes à delapidação , ao apagamento e até mesmo ao aviltamento do património mais rico desta terra e da nossa gente. Falta-lhes claramente a consciência da importância que o cante tem como elemento socialmente agregador , parecem estar destituídos da noção do valor que é inerente à expressão vocal do nosso povo, mostram-se alheados do seu estado e também dos cuidados que deveria haver para tornar mais sólida essa nossa matriz cultural .
 
Não planeiam , não projetam e por isso não executam nenhuma estratégia de valorização do cante . Não buscam encontrar com os protagonistas medidas a adotar no sentido do favorecimento da afirmação da moda . Recusam-se a dar um tratamento ao cante que tenda a projectá-lo para o nível de prioridade cultural primeira .
 
Assim , aos Grupos não é conferido estatuto artístico e quando para eles olham , mesmo sem desdenhar, nunca lhes conferem importância em termos orçamentais ou logísticos e muito menos no que respeita à consideração e ao afeto que lhes deviam merecer.
 
Qualquer Grupo Coral supera em numero de elementos, em entrega, em atuações e em representatividade o plantel do grupo de futebol local , mas a todos é fácil constatar quais os apoios que anualmente estão reservados a um e a outro. Enquanto assim for , e só deixará de o ser quando a atual atitude for modificada , uns são atletas , vedetas, campeões e os outros são os coitados que cumprem um quase dever de arrastar consigo o peso duma tradição a que só às vezes e quando dá jeito importa lembrar e enaltecer.
 
Também por isso , a participação ou a simples identificação com o fenómeno bola é querida e invejada , sendo, ao invés, a motivação pelo cante progressivamente arredada das preferências da nossa gente ,em particular, da juventude .
 
 
 
 
 
 

domingo, 30 de junho de 2013

Cante Alentejano - A evolução do Conceito - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro

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Cante Alentejano - A evolução do Conceito - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro  
 
Longe vai o tempo em que o cante acontecia a cada esquina, era o bate certo nas tabernas e a companhia das gentes ao longo de cada jornada.
 
Fluía tão naturalmente como se respirava e era um modo de expressão dos sentimentos, tão verdadeiro, como o próprio olhar. Tanto cantavam os ranchos labutando nas herdades, como se armava o terno nas lavouras atrás do arado ou se assobiava a moda tocando um rebanho.
 
Em conjunto, cantavam muitos, na solidão, cantava um só.
 
Mas a realidade sócio cultural específica, onde nasceu e ganhou raízes a nossa tradição vocal, transformou-se, profundamente, com a mecanização da agricultura e deixou de existir, por completo, com o abandono dos campos e o gradual apagamento do ruralismo.
 
A partir do início da década de setenta, a prática do cante reduziu-se, quase em exclusivo , às atuações dos grupos corais e praticamente, só dentro deles, tem sobrevivido o costume de se cantar à alentejana .
 
Com exceção destes nichos de culto pela moda, onde ainda se repetem as letras, se veneram as sonoridades e se perpetua o cancioneiro, hoje subsiste apenas uma vontade morna de se ouvir cantar, ocasionalmente e por pouco tempo, pese embora o facto de estarmos perante uma riqueza nossa em vias de ser considerada património imaterial da humanidade.
 
A ligação profunda do cante às agruras da vida dos camponeses, provocou, desde a sua origem, uma clivagem nítida , entre quem cantava a moda e os demais que dela mantinham ( e mantêm), um determinado distanciamento de resguardo.
 
E foi este estigma, esta marca do ferrete social que ao longo dos anos, tem desviado da prática do cante as classes mais favorecidas e aqueles que por via da sua ascensão individual, cuidam de apagar, ou ao menos disfarçar, as marcas da sua génese camponesa.
 
Só isto justifica que ora os nossos grupos corais padeçam tanto da falta de vozes e que numa semana, numa qualquer vila do Alentejo, seja possível constituir um coro polifónico com dezenas de elementos.





sexta-feira, 17 de maio de 2013

Abre-te ó Campa Sagrada! - Texto e recolha de Daniel Teixeira. Autores referenciados.

 
Abre-te ó Campa Sagrada! - Texto e recolha de Daniel Teixeira. Autores referenciados.
 
Aqui há algum tempo deparei-me com a frase em título inserida num dado contexto, referida por grupos e pelo cante Alentejano. Contudo, se for verdade que a cultura «é aquilo que fica» sempre achei que já tinha visto esta expressão num outro contexto, bem diferente daquele que me aparecia no cante alentejano, só que não conseguia lembrar-me onde, embora tivesse como referência de base a cultura adquirida por via escolar.
 
Demorei a ter tempo para fazer este texto com alguma base substante (por exemplo um dos textos que virá referido à frente tem 685 páginas) e não contente com isto procurei (e ainda não encontrei) referências da literatura clássica, nomeadamente as tragédias gregas.
 
Claro que há uma «ligeira» e bem ligeira analogia com o milagre de Cristo a Lázaro (levanta-te e caminha) mas aqui e pela tradição oral não há milagre, pelo menos de forma directa. Ou seja, a «campa sagrada» não se abre...mas fica sempre alguma coisa que pode ser entendida como sendo uma solução humanamente possível e aceitável.
 
A campa sagrada tem duas vertentes oralizadas: uma, que parte de uma história de amor entre amantes e outra que tem por base uma história de amor de um filho por sua mãe. No primeiro caso são cerca de 250 versões, algumas com pequenas ou insignificantes alterações, que foram agrupadas por Almeida Garrett sob Pseudónimo em «Lyrica» de João Mínimo [pseud. de Almeida Garrett], que acrescenta, para além do título de «Romance de Bernal e Violante» a referência ao facto deste ser Imitado de uma cantiga popular antiquíssima e no mesmo estilo. O subtítulo é «Bernal Francês».
 
Assim, apanhei as primeiras quatro versões que estão contidas na Tese de Doutoramento abaixo identificada e procurei tirar as minhas ilações sob este aspecto «da campa sagrada» em território do amor entre casais. Faço resumo da parte que interessa, ou seja, aquela que contém a campa sagrada.