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sábado, 24 de novembro de 2012

Coisas de «fazer bem», de «fazer mal» - Autoria e Fonte: Cecílio Elias Netto (A Província - Piracicaba) - Viver vive-se vivendo (10)

 
Coisas de «fazer bem», de «fazer mal» - Autoria e Fonte: Cecílio Elias Netto (A Província - Piracicaba) - Viver vive-se vivendo (10)
 
Neste início de século XXI, há, ainda, quem acredite em benzedeiras, benzeções, simpatias. Pode-se, então, imaginar como tenha sido naqueles já distantes anos 40, 50, até mesmo os 60 do século passado. Eram crenças que – diante do pragmatismo e da racionalidade fria que tomou conta do mundo – parecem bonitas.
 
Isto é: que, sendo lembradas e revistas, revelam a verdadeira beleza de um jeito, de um estilo de viver. Ora, todas as gerações falaram de tempos anteriores, que seriam melhores do que os do presente. Sempre foram melhores. Pois as dores são esquecidas e ficam quase que apenas as lembranças cada vez mais doces, como se a doçura delas aumentasse com o tempo que passa.
 
Piracicaba foi uma cidade de doçuras, um mundo onde crenças, superstições, lendas, mentiras contadas por gente adulta às crianças, histórias de carochinha e da beira-rio acabaram criando um universo por assim dizer mágico. Podia-se ir em busca do pote de ouro com a certeza de encontrá-lo. Eram tempos de parteiras, de benzedeiras, de rezadeiras.
 
Uma das mais famosas e respeitadas, em meados do século passado, foi, com certeza, dona Carolina Martins, a Carolina Benzedeira, também conhecida como Carolina do Inácio. Ela benzia verrugas, nó de tripa, vermes, lombriga, fazia partos, orientava as mulheres sobre higiene, saúde, prevenção de doenças.
 
Aqueles eram tempos, também, de coisas que «faziam bem» e de coisas que «faziam mal». Dona Carolina sabia de todos esses segredos e mistérios da vida. Havia coisas que «faziam bem» e ninguém, no entanto, falava delas. Namorar, por exemplo.
 
Sempre foi bom namorar, «fazia bem», mas os pais sonegavam a informação aos filhos, especialmente às filhas. «Fazia bem» comer banana com aveia. E «fazia bem» o insuportável óleo de fígado de bacalhau – a odiada Emulsão de Scott – que os pais, para horror das crianças, nos enfiavam boca a dentro. Uma colher de Emulsão de Scott, ainda que «fizesse bem» martirizava as crianças. E ai de quem vomitasse! Pois teria que tomar outra dose.
 
 
 Leia este tema completo a partir de 26/11/2012
 
 
 

 

domingo, 21 de outubro de 2012

Superstições e crendices do caipira paulista - Autoria e Fonte: Cecílio Elias Netto (A Província - Piracicaba)

 
Superstições e crendices do caipira paulista - Autoria e Fonte: Cecílio Elias Netto (A Província - Piracicaba) 
 
Superstições, crendices e benzeções que ainda existem entre os paulistas do interior.
 
 Os moradores das grandes cidades talvez não saibam o que seja picumã. Os caipiras do interior sabem. Picumã são fios de teia de aranha enegrecidos pelo fogo, fios de fuligem negra, nome que se estendeu, também, à fuligem de fogões de lenha, ciscos de cana queimada, etc.
 
 Se o homem urbano desconhece picumã, há que se imaginar o que pensaria ele diante de uma mistura de picumã com teia de aranha. Para que serve? Caipiras sabem: é um excelente remédio para curar feridas… E mais: ainda há quem sugira, às parturientes, essa estranha pomada para aplicar no umbigo dos recém-nascidos.
 
 São superstições, crendices, benzeções que, mesmo nos tempos de uma propalada «aldeia global» e com todos os recursos das mais sofisticadas tecnologias, ainda existem entre os paulistas do interior. Em Piracicaba, apesar das grandes transformações tecnológicas, até famílias tradicionais mantêm superstições e crendices que se transmitem de geração a geração.
 
 Da fecundação
 
As práticas dessas superstições, nas tradições populares paulistas, vão-se transformando, agora acrescidas das crendices de outras regiões brasileiras, fruto dos grandes surtos migratórios. No entanto, estudiosos do folclore paulista – como Amadeu Amaral e Alceu Maynard de Araújo – fizeram o registro de muitas delas. As da fecundação, por exemplo. O problema é abusar-se das fórmulas. A isso, dá-se o nome de «abusão», que pode fazer mal ou complicar a vida de quem abusa.
 
O caboclo tem remédios que diz serem seguros desde para fecundar até para auxiliar no nascimento. Contra a esterilidade:
 
1.Se a mulher não tem filhos, o caipira procura uma anta macho, caça-a, arranca-lhe o órgão genital e põe o couro do dito cujo órgão para secar. Depois de seco, faz-se uma infusão desse couro e dá-se para a mulher estéril beber durante alguns dias;
 
 2.Na véspera de S. João, deixa-se um copo d´água ao relento, no qual se deve lançar uma clara de ovo. No dia seguinte, a mulher estéril vê a figura que se formou na água e, se for de gente, sorve o líquido devagarinho, durante três dias.