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sábado, 8 de novembro de 2014

Pensamentos a esmo sobre cães a esmo - John Steinbeck


Pensamentos a esmo sobre cães a esmo - John Steinbeck

Recolhido em Blogue Panorama de Pedro Luso de Carvalho


Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento de nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou sua percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu descansar um pouco sem ser perturbado por animais sorrateiros.

Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão «venatório» etc. e, finalmente, diz: «Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas». Quanta sabedoria havia aqui. O cãozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

 O cachorro em nossos dias, mudou de função. Claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para suas complicadas profissões, mas em nossa população total de cachorros estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, mas de longe a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou uma mulher. Uma plateia para os tímidos. Um filho para quem não tem filhos.


Leia este tema completo a partir de 12 de Novembro de 2014 carregando aqui

sábado, 11 de outubro de 2014

AUGUSTO DOS ANJOS – Poeta Singular - Por Pedro Luso de Carvalho (Blogue Panorama)


AUGUSTO DOS ANJOS – Poeta Singular -  Por Pedro Luso de Carvalho (Blogue Panorama)

 AUGUSTO DOS ANJOS nasceu no Engenho de Pau D’Arco, junto à vila Espírito Santo, Estado da Paraíba, no dia 20 de abril de 1884.

Aprendeu as primeiras letras com seu pai, advogado estudioso e dono de uma excelente biblioteca, na qual se encontravam obras de Darwin, Spencer e outros teóricos evolucionistas.

 Cursou o secundário no Liceu Paraibano e Direito em Recife. Essa graduação, no entanto, não lhe serviu como profissão, já que nunca exerceu a advocacia, por não ser essa sua vocação, mas, sim, o magistério. Lecionou literatura no Liceu Pernambucano, e, depois, já no Rio de Janeiro, foi professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Daí mudou-se para Leopoldina, no Estado de Minas Gerais, onde foi diretor de um grupo escolar.

 Diz-se que Augusto dos Anjos compôs os seus primeiros versos aos sete anos de idade. Mas o certo é que, mais tarde, a crítica chegaria a reconhecer ser ele o mais original dos poetas brasileiros, e de que poucos haverá, como ele, tão originais na língua portuguesa. E é bem verdade que, em vida, o poeta não pode sentir esse valor atribuído à sua poesia; esse reconhecimento só viria ocorrer anos mais tarde.

 Exemplo de que o reconhecimento da excepcional obra poética de Augusto dos Anjos parecia ter tido pouco significado na época em que fez, às suas expensas e com a ajuda de seu irmão, a publicação de seu livro «Eu», é contada por Francisco de Assis Barbosa, um dos mais importantes biógrafos do poeta:

 Dias depois de sua morte, ocorrida em Leopoldina, Orris Soares e Heitor Lima caminhavam pela Avenida Central e pararam na porta da Casa Lopes Fernandes para cumprimentar Olavo Bilac. O príncipe dos poetas notou a tristeza dos dois amigos, que acabaram de receber a notícia. – E quem é esse Augusto dos Anjos – perguntou. Diante do espanto de seus interlocutores, Bilac insistiu: Grande poeta? Não o conheço. Nunca ouvi falar nesse nome. Sabem alguma coisa dele? Heitor Lima recitou o soneto Versos a um coveiro. Bilac ouviu pacientemente, sem interrompê-lo. E, depois que o amigo terminou o último verso, sentenciou com um sorriso de superioridade: - Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.



Leia este tema completo a partir de 15 de Outubro de 2014 carregando aqui

sábado, 30 de agosto de 2014

A estrutura da bolha de sabão - Por Lygia Fagundes Telles


A estrutura da bolha de sabão - Por Lygia Fagundes Telles

 Recolhido no Blogue Panorama - Pedro Luso de Carvalho


 Era o que ele estudava. «A estrutura, quer dizer a estrutura» - ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso, porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. «A estrutura da bolha de sabão, compreende?»

Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal de minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque, se me afobava, o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe o canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? «A estrutura» - ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho, ô a paciência. A paixão.

 No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água, mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô, amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparência e membranas, condenado à ruptura.

 Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma. Foi simplesmente isso, pensei quando ele tomou a mulher pelo braço e perguntou: «Vocês já se conheciam?»

Sabia muito bem que nunca tínhamos nos visto mas gostava dessas frases acolchoando situações, pessoas. Estávamos num bar e seus olhos de egípcia se retraíam, apertados. A fumaça, pensei. Aumentavam e diminuíam até que se reduziram a dois riscos de lápis-lazúli e assim ficaram. A boca polpuda também se apertou, mesquinha. Tem boca à-toa, pensei. Artificiosamente sensual, à-toa. Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim. Mistérios, eu disse e ele sorriu, nos divertíamos em dizer fragmentos de ideias, peças soltas dum jogo que jogávamos meio ao acaso, sem encaixe.




quarta-feira, 28 de maio de 2014

FRANZ KAFKA – Um Cruzamento - Por Pedro Luso de Carvalho




FRANZ KAFKA – Um Cruzamento - Por Pedro Luso de Carvalho 

 FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Kierling, perto de Viena; foi enterrado no Novo Cemitério Judaico de em Praga.

 Até esse ano, Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte.

 Sobre o talento criativo de Kafka, manifestaram-se, após esses vinte anos de sua morte, nomes importantes da literatura de vários países:Aldous Huxley, André Gide, Hermann Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros.

 W.H. Auden, poeta inglês: «se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Shakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria».

George Steiner, renomado ensaísta: «Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época».

O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, «Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka».

Tânia Franco Carvalhal, diz que Kafka, Proust e Joyce representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo.

 Albert Camus afirma que o segredo de Kafka encontra-se na contradição e surpreende nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.

 Jorge Luis Borges, que traduziu parte da obra de Kafka, como O processo e Metamorfose, fala sobre as duas ideias, as duas obsessões que regem a obra de Franz Kafka: a subordinação e o infinito; sendo a sua maior virtude a invenção de situações intoleráveis, o que justifica a primazia de seus contos sobre as novelas longas.



sábado, 17 de maio de 2014

J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica - por Pedro Luso de Carvalho


J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica - por Pedro Luso de Carvalho 

 O famoso recluso J. D. Salinger antes de dedicar-se à literatura passou rapidamente pelas universidades de Nova York e Columbia. Depois que retornou da Segunda Guerra Mundial suas histórias foram publicadas regularmente pela revista The New Yorker; com isso tornou-se bastante conhecido, principalmente nos Estados Unidos. Escreveu um único romance, «O apanhador no campo de centeio», um clássico da adolescência (1951); e os contos e novelas curtas, Nine stories (1953); Fanny and Zooey (1961); Carpinteiro, levantem bem alto a cumeeira (1963); Seymour: Uma Apresentação(1963).

 Em quatro dos cinco livros de Salinger, figuram como personagens principais e recorrentes a Família Glass, constituída por Buddy (alter ego de Salinger), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey Glass, todos irmãos. A novela Franny & Zooey, que está dividida em duas partes, e está destinada a um público sem qualquer envolvimento com o profissionalismo literário, a quem dedica o seu livro: «Se ainda resta um leitor amador no mundo – ou alguém que simplesmente leia por ler -, peço a ele ou a ela, com indizível afeição e gratidão, para dividir a dedicatória deste livro em quatro com minha mulher e meus filhos».

J. D. Salinger tornou-se um escritor de sucesso popular. Estudantes de níveis inferiores do meio acadêmico colocaram-no em alto pedestal; no entanto, intelectuais de gosto literário mais sofisticados desprezavam o escritor. No seu conto Seymour: An Introduction (Seymour: Uma Apresentação), em 1963, Salinger manifesta-se sobre a aristocracia intelectual da época, chamando-a de «uma nobreza de orelhas de lata». E quando outro livro seu, Franny and Zooey passou da New York para o livro, abriu-se uma janela para que essa aristocracia fizesse sua contestação, como adiante se verá.


quinta-feira, 3 de abril de 2014


ANTON TCHEKHOV - Mestre do Conto - Por : PEDRO LUSO DE CARVALHO

Escrever sobre Anton Pavlovitch Tchekhov, um dos escritores mais importantes da narrativa ficcional do género conto, de todos os tempos, poderia parecer pretensão demasiada caso o ato de escrever sobre ele não se constituísse em homenagem ao génio da história curta, como de fato se constitui esse preito.

Sendo assim, sinto-me à vontade para falar um pouco da sua vida e obra, começando por L. N. Tolstoi, o grande literato russo autor do épico Guerra e Paz, dos extraordinários romances Ana Karenina e Ressurreição, e do excepcional conto A Morte de Ivan Ilitch, que afirmou ter sido superado por Tchekhov como escritor na técnica da ficção, e por ter ele criado novas formas de escrever.

A vida de Tchekhov pode ser contada com maior ênfase a partir dos sacrifícios pelos quais passou quando criança, quando trabalhava por horas seguidas no armazém de seu pai, dormindo pouco e vendo sua saúde debilitar-se. Do seu pai lembrava-se das noites em que obrigava aos seus filhos a participar de cânticos e ofícios religiosos e da escravidão no armazém.

Até a idade de dezanove anos Anton Tchekhov viveu na cidade de Taganrog, pacata localidade no sul da Rússia, onde nasceu no ano de 1860. Após ter concluído o Liceu mudou-se para Moscou, três anos depois que sua família havia se mudado para a capital russa; aí passou a morar com a família numa casa velha desprovida de qualquer conforto, sem um único quarto, e localizada num dos bairros mais pobres da cidade.




 

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

ALBERT CAMUS - Romances & Contos - Por Pedro Luso de Carvalho (Blogue Panaroma)


ALBERT CAMUS - Romances & Contos - Por Pedro Luso de Carvalho (Blogue Panaroma)
 
Além da sua obra filosófica, Albert Camus escreveu romances, contos, ensaios e peças para o teatro. Também foi jornalista brilhante. Como não é recomendável escrever textos muito longos neste espaço, optei pelos seus romances e contos. Quanto ao Camus teatrólogo possivelmente falarei em outra ocasião. Lembro, apenas, que o escritor dizia que a obra teatral era «o mais alto dos gêneros literários».
 
Inicio, pois, pelo último romance publicado após a morte de Camus, qual seja, O Primeiro Homem. Essa obra tem como centro os acontecimentos na Argélia, dos anos 30-40, e como personagem central Jacques Cormery, que outro não é que o próprio autor. No livro, Camus conta sua própria história. Começa pela sua infância, junto de sua mãe e de seus sete irmãos. Com estes, compartilhava a casa de sua avó, no bairro popular de Belcourt, em Argel.
 
Em razão de sua condição de pobreza, tudo levava a crer que as perspectivas de o menino Albert Camus ver mudada tal condição eram diminutas, pois todos os fatos conspiravam contra ele, como o de viver num país pobre, e politicamente dominado pela França (a Argélia foi colônia da França entre os anos de 1830 a 1962); de ter perdido seu pai com apenas um ano de idade; Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, na Argélia (cidade de Mondovi, distrito de Constantina). Mas, contrariando esses fatos, Camus cursou a Universidade de Letras na Argélia, e, com apenas 22 anos escreveu «Direito e Avesso», o seu primeiro ensaio, e, ainda, em Argel realizou seus primeiros trabalhos jornalísticos; em 1936, quando contava com 26 anos , mudou-se para Paris, onde desenvolveu toda sua obra.
 
O romance O Primeiro Homem, no qual Camus conta a pungente história da sua infância e a memória do seu país, não chegou a ser concluído em razão da sua morte, aos 47 anos de idade, ocorrida no dia 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, no trajeto da cidade de Sens para Paris, quando um furo no pneu do carro em que viajava, em alta velocidade, dirigido por seu editor Marcel Gallimard, sofreu o trágico acidente..
 
Essa obra, cujos manuscritos foram encontrados sob as ferragens do carro acidentado, foi editada na França em 1994, pela Editions Gallimard; nesse mesmo ano a Editora Nova Fronteira publicou a obra no Brasil, com tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luíza Newlands Silveira.
 
Embora O Estrangeiro e A Peste sejam os romances mais importantes de Camus, O Primeiro Homem veio ocupar um lugar de singular importância no conjunto de sua obra ficcional, não apenas pela força de sua narrativa, com o estilo que o distingue dos demais escritores, mas, principalmente, por se constituir em importante legado histórico, dando-nos a conhecer, agora, fatos relacionados com a sua trajetória de vida.