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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

OS DENTES DO SOBA - Conto de Gociante Patissa


OS DENTES DO SOBA - Conto de Gociante Patissa

Em Outubro de 1945, um arrolamento extraordinário estava na iminência de ocorrer na Ombala de Tchiaia, capital de cinco aldeolas plantadas no cimo de montanhas vizinhas, que mais se pareciam com dedos de uma mão tentando tocar o céu: Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, hoje pertencentes à comuna do Sambo, município da Tchikala Tcholoanga, na província do Huambo.

 Ia ao rubro a ansiedade na Ombala, como de costume em véspera de arrolamento. Cada família procurava catanar a idade dos filhos, o que contribuiria na diminuição dos impostos, o mesmo acontecendo com o número de animais domésticos. Menos posses, melhor. O que restava fazer só dependia da visita do Chefe do Concelho, branco português conhecido por observar ao mínimo pormenor até mesmo os pelos de um porco.

Andava intrigado o Chefe do Concelho com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses. E de nada o convenceram as justificações das autoridades, que atribuíam tal azar ao aparecimento do dragão, que fora visto por poucos sobrevoando o caminho do cemitério.

 Era fenómeno raríssimo no meio rural, mas havia na aldeia uma mulher (chamada Kutala) em condições de dar conta do recado em matérias de recenseamento. Fora logo cooptada para o posto de secretária-tradutora-dactilógrafa da Ombala. Despachava diretamente o expediente com o Soba.

 Nascida doentia, Kutala vivera a sua adolescência sob os cuidados de missionárias, tendo com elas aprendido as práticas de dactilografia, costura, doméstica e o domínio da gramática portuguesa. Mas com o desabrochar dos seios e o surgimento de sonhos eróticos — que ela não sabia se gostava ou se odiava —, Kutala convenceu-se de não ter vocação para madre, optando por abandonar a residência. Não era de ser pretendida por qualquer um, dada a sua capacidade de análise crítica, embora não fosse cheia de «não me toques».




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Não é com as pernas que corremos (*) - Conto de Gociante Patissa


Não é com as pernas que corremos (*) - Conto de Gociante Patissa

Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

 Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem do tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

 Diz-se que quem nasce com a deficiência tem maior probabilidade de lidar com a baixa auto-estima do que aquele que a adquire depois de ter uma cosmovisão já construída. Na hipótese de ter sido, de facto, assim, Lumbombo não andava por aí a fazer da sua condição uma canção.

Para a família, ele nem era assim tão inútil. Passava o dia em casa e cuidava dos animais domésticos, muitas vezes usados como moeda de permuta com produtos da loja do único comerciante, português oriundo do Norte, segundo as más-línguas, sem fundos para a passagem de regresso à Europa.

 Romântico inconfesso, Lumbombo não sossegava enquanto não bolasse uma estratégia aparentemente desinteressada de atrair simpatia feminina. Foi então que aprendeu a esculpir pentes de madeira, ciente de ser a vaidade a primeira amiga de uma mulher. Nem foi preciso sequer um ano para o quintal do homem andar apinhado de beldades, perdoem-me aqui algum exagero.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A razão do Barriga na Sagrada Família - por Gociante Patissa


A razão do Barriga na Sagrada Família - por Gociante Patissa 

 Vou eu em manhã de intermitente sol pelas cercanias do Sagrada Família, no simples gozo de caminhar. Luanda, para turistas, ganha-se a pé. Tudo sobre rodas é lento, quase preso ao lugar. Até das árvores, as copas perderam a ginga, não se dá o vento a colher, vento que se converteu em sólido em obediência à malha gigantesca de edifícios. Não chove.

 E caminho no sentido oeste, digo caminhava. Não posso seguir, há sobre a calçada um destacamento da UGP - não que eu temesse armas, tão evidente que é o dom meu de anti-balas congénito, não é? Eh pá, é assim: os carabineiros estão bem no seu posto de trabalho, e não é de bom tom os importunar com «dá licenças»em meu dia de ócio, não é verdade? - Tenho de voltar ao quarto.

 Os quartos de hotel são iguais. Eu deles não gosto. Já nasceram impessoais. Escondo-me no aconchego cosmopolita de um livro, mas é por pouco tempo, felizmente. O companheiro de jornada convida para a caminhada, ao que anuo.

 Pelo caminho, uma agradável surpresa, a primeira: chega ao fim a lacuna deixada há dias pelo par de calçado convencional para os dias de ofício. Sapato com o mínimo de estética e ao mínimo preço. Ufa!, para alguma coisa vale a insubordinação dos vendedores ambulantes aos fiscais da Câmara e respectivo código de postura.



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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Crónica de Gociante Patissa - COMO COLHER A SEMENTE


Crónica de Gociante Patissa - COMO COLHER A SEMENTE 

 Um ano depois, ficamos a saber, já com aquela inofensiva – sem deixar de ser sádica – alegria, que a ministra tinha sido exonerada. As razões à volta do facto eram-nos irrelevantes (mas explico lá mais adiante porquê).

Hoje, visitei a residência sede da Rádio Ecclesia (agora Diocesana), na cidade de Benguela, junto do Bispado, como não fazia há seis anos. Foi preciso algum esforço para disfarçar os sorrisos de nostalgia, no mínimo, para não ser tomado por visitante emparvecido, como se arrisca quem esbanja alegria sem contextualizar os vizinhos. Foi como se um balão do tempo me fizesse mergulhar nos bons anos de convivência. Nomes, momentos e jocosidades brotaram. Depois veio a noção de ausência, como que a escorregar entre os dedos. O tempo tem das suas: um dia aproxima-nos, noutro manda-nos para hemisférios desencontrados e com isso o desgaste dos afectos.

2004. Uma inusitada empatia unia-nos, quando o normal seria, provavelmente, nos vermos como rivais, uma vez concorrentes. Uns mais dotados que outros, havia também os que precisavam mais do emprego que outros, mas nada estragava o bom humor. Eramos cerca de dez jovens, anónimos por assim dizer, durante três meses de triagem para redactores - repórteres - noticiaristas, no contexto da iminente abertura da Ecclesia em Benguela (que acabou por não acontecer, por imperativos legais no consulado do ministro Hendrick Vaal Neto. Ainda hoje, está por sair a licença de emissão).


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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um encontro casual ao almoço - Crónica (Do arquivo) de Gociante Patissa


Um encontro casual ao almoço - Crónica (Do arquivo) de Gociante Patissa

No Lobito, contam-se aos dedos os restaurantes que sobreviveram à segunda república. O calar das armas e a transição para a abertura do mercado abalaram economias e hábitos de consumo. De sorte que, quando a paz não mais precisar da guerra para se autodefinir, os humanos ter-se-ão transcendido a si próprios, digo eu.

 As cidades são árvores que mantêm a essência enterrada, enquanto galhos, folhas e frutos vão e vêm. O centro do Lobito resume-se a duas ruas, a de entrada e a de saída, entre o bairro da Caponte e a Zona Comercial. Só depois da Colina da Saudade se cruzam para o Compão, a sul, à procura do bom pescado da Kabaia, ou para a ponta da Restinga, a norte, onde a cidade se liberta na língua da praia, em geral para tirar proveito da escuridão que o lugar regala aos casais.

 O Gunga-Bar (cujo nome provém do Umbundu «ongunga», sino) fica na rua de saída, resistindo a quaisquer infortúnios, sendo um deles, o mais pesaroso, a morte do proprietário por acidente rodoviário, há coisa de três anos. Guardo na memória a cena da moça que tiramos do sono, às duas da manhã, em finais da década de 90 do século vinte, para nos servir bebidas, numa breve fuga aos preços da discoteca ali perto. O restaurante prestava-se ao desafio de servir vinte e quatro horas por dia, muitas vezes à luz de poucas velas entre uma falha e outra da energia geral, não dispondo de uma simples fonte alternativa.

 Tem rosto moderno mediano, o que só pode ter contribuído para maior fluxo de clientes. E é um restaurante pequeno e fechado, rendido a essas irreverências ocidentais de igualdade entre classes, onde o cliente chega, como qualquer outro, serve a variedade que der, põe o bolso a falar com a balança e ocupa a mesa. Só depois vem o garçon para o que se quer beber.


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domingo, 21 de setembro de 2014

EXCERTOS DO CONTO «SAPALO E A AVENIDA DO QUASE» - por Gociante Patissa


EXCERTOS DO CONTO «SAPALO E A AVENIDA DO QUASE» - por Gociante Patissa 

«— Tá ver bem, chefe? — Sapalo assegurava o contacto visual, de sorriso a destacar a brancura dos dentes. A testa tinha a cor da barba, tal era a graxa. — Acho que preciso de uma consulta, um dia. — já éramos dois a achar que sim, mas calei ao que seria o motivo, aguardando que completasse a ideia. — Oiço muito a chuva.

«Muito» queria dizer demasiado. Dava que pensar. A estiagem deixara de ser notícia, esgotadas as esperanças de honrar o crédito de campanha. Pássaros e roedores tinham-se ocupado do milho da primeira sementeira, pelo sol esterilizada. A outra metade, oh impotência, mal dava para cobrir as mesas de funji até à estação de chuvas seguinte, no curto defeso entre Maio e Setembro. Entretanto, Sapalo, só mesmo ele, segredava-me que ouvia o som da chuva, bastando-lhe fechar os olhos.

 No compasso de espera do Sapalo, que fumava o seu cigarro, debatia minhas noções, sentado, em silêncio, no carro. No outro dia, um, aquele sim quase louco — digo quase porque, com inusitado sentido de liberdade —, quebrou uma qualquer garrafa e com o mesmo automatismo atingiu uma testa, a dele próprio, para em jacto de sangue deixar sua marca sobre o passeio de cimento.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Português tem de dialogar! - Texto de Gociante Patissa


O Português tem de dialogar! - Texto de Gociante Patissa

A convite do Semanário Angolense, na pessoa do seu director, contribuí com um artigo na edição que assinala os 800 anos da língua portuguesa.

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

 Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

 Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa.


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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Crónica de Gociante Patissa - AS PARTIDAS DO ELISEU


Crónica de Gociante Patissa - AS PARTIDAS DO ELISEU 

 A pior das partidas que nos pode alguém chegado pregar é, certamente, partir.

Eliseu Mondi Pedro Figueiredo confunde-se com a língua inglesa, à qual viria a dedicar duas décadas de auto-didactismo, chegando a dar aulas no terceiro nível dos Bambus na Catumbela, onde residia, e mais tarde no católico Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), no bairro da Caponte, Lobito, onde veio a residir. O extrovertido, criativo e brincalhão Mr. Elisha (pronunciado /elitsha/) abraçou o inglês por influência do irmão mais velho, dos poucos tradutores benguelenses no contexto de emergência, resultante do fracasso eleitoral de 1992, a época dourada da ONU e demais agências internacionais de caridade.

Já na sexta classe, dava o Eliseu nas vistas pelo vício das contagens em voz alta, qual récita a Shakespeare, pelos corredores da escola Comandante Dangereux, na Catumbela. E pregava bwé de partidas aos colegas, eles que mal sabiam o que era o verbo «To Be». De sorte que quando o conheci na sétima classe, onde começava o ensino de inglês antes de surgir essa coisa chamada de reforma educativa, foi com o inevitável receio de lidar com ele, pois era reinante o espírito de competição entre os falantes. A empatia foi à primeira vista!
 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O mestre que disso não passava - Texto / Crónica de Gociante Patissa


O mestre que disso não passava - Texto / Crónica de Gociante Patissa

«Os mestres mentem, todos eles. O pedreiro não entrega no prazo acordado; o mecânico tem sempre uma desculpa; o canalizador, tirando proveito da semelhança nas três primeiras sílabas, faz-se canalha perfeito; o electricista é outro a quem é arriscado confiar, tão arriscado como seria pôr a mão no fogo pelo ladrilhador ou pelo pintor, enfim... Será que devo mesmo voltar à escola para o mestrado?», lia-se.

Lágrimas molhavam o sorriso do velho Jornal (que por acaso caminhava para a terceira idade). Acabava de abrir o envelope, mas mantinha escancarada a caixa postal 208. Tinha o estranho hábito de só trancar a portinhola depois de lida a carta, como se, por eventual desgosto, conseguisse devolver a correspondência com o gesto mecânico de enfiar o papel e girar a chave em tácito gesto de «assunto encerrado!»

Do discreto guichet, a funcionária dos CTT (que o falecido velho Cimuku decifrava, com saudável malandrice, como sendo Continua Tudo Torto) via tudo, no silêncio que exigia o amontoado de emoções, quiçá, contraditórias. Abrir ansiosamente o apartado ao tilintar do porta-chaves, levar o correio ao peito, lacrimejar, gestos vagarosos. Era sempre um pequeno evento cada visita do velho Jornal aos Correios. Era semanal. Mudavam-se os selos, as datas dos carimbos de entrada e saída, mas dois elementos eram inalteráveis: o remetente e o receptor.


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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Quanta distância nos separa do que nos falta? - Texto / Crónica de Gociante Patissa


Quanta distância nos separa do que nos falta? - Texto / Crónica de Gociante Patissa

 O bar perdeu parte de sua graça sem a Edna, a atendedora mais experiente. Cansou-se. Há lá empregadas novas. Alguns clientes vivem a falta de rapidez e domínio dos seus hábitos de consumo. Só mesmo um livro para atenuar a impaciência, ou então ter Internet no telemóvel. Pois é, o móvel anda cada vez mais armado em que «pode tudo».

E por falar no super poder do telemóvel, fomos abordados – mais a mim do que ao colega de serviço com quem fui almoçar – por uma moça que queria ajuda para emprego. Não que lhe faltasse trabalho, mas essencialmente porque, em suas próprias palavras, não aguenta mais. Dentre os vários factores para a ruptura, destacou-se o facto de não ser permitido falar ao telefone durante as oito horas de serviço, de segunda à sexta-feira. Você já imaginou?, indagava, incrédula da sua própria sorte, a rapariga.

 Por acaso, não me posso queixar. O meu emprego, longe do gosto e vocação, não proíbe o uso de telemóveis, exceptuando a tácita deontologia nas horas de pico. E de facto, o telemóvel dá para o tudo inenarrável em termos criativos e de comunicação. Só não deixei de sentir um choque – ingénuo, reconheço – ao confirmar como, à velocidade do banal, o telefone do bolso evoluiu para instrumento de escuta. Se antes receávamos que alguém, algures nas telecomunicações, ou contra-inteligência, monitorava a nossa privacidade, hoje basta um simples software compatível ao sistema andróide para gravar telefonemas. Enfim… Se Benguela é a segunda capital (de facto) angolana, e como tal tão exposta à «era digital», o típico citadino com um aguçado «bicho» de se exprimir não escapa à tendência de alistar a comunicação nas altas rubricas do seu orçamento.



segunda-feira, 24 de março de 2014

ASSINAR NO LOBO - Crónica de Gociante Patissa


ASSINAR NO LOBO - Crónica de Gociante Patissa

Alguém asseverou certo dia que «do imposto e da dívida, o ser humano não se livra».

Com tudo o que há de discutível nas frases feitas, parece ser inquestionável a fatalidade que a citação supra encerra, bastas vezes faísca para o azedume nas relações humanas. Devíamos mesmo emprestar dinheiro? Mas, do lado oposto, vem a questão: e se fôssemos nós a precisar? A resposta seria seguramente um evasivo «depende do caso».

Como já abordado, há uma correlação entre a dívida e o conflito no sistema de valores dos Ovimbundu. Vamos aos adágios: «Pesinsa panyãle ongolo, pukamba panyãle ofuka»(o joelho dá cabo da esteira, a dívida dá cabo da amizade) e, ainda, «olevalisa eye onjaki»(quem empresta é o conflituoso). Como a dialéctica é lei, temos a expressão «walevalisa wasolekisa»(Quem empresta reserva), só usada quando o final é feliz.

 Qualquer dia surgirá uma lenda a explicar quem foi o primeiro caloteiro mundial. Até lá, continuamos a ser esse universo representativo, com os ingénuos (vítimas da sua sensibilidade ou dimensão humana), os que nunca erram (devem, fingem que esquecem ou dizem não gostar que se lhes cobre, mas exibem bens mais caros do que o valor devido), bem como os honestos (raros). Há ainda os avalistas (por cuja credibilidade uma terceira parte obtém crédito). E é nesta última classe que nos atemos hoje.

 Ora, estamos em finais da década de 90 do século 20, com o mercado de trabalho difícil, tendo em conta a instabilidade política e militar. Pouco investimento do sector privado, baixos salários na função pública, o maior empregador de todos os tempos. E o mês dura uma eternidade, quando se ganha pouco. A dívida passa a ser o meio-termo.



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Nação Coragem ou a foto de Sérgio Guerra - Crónica de Gociante Patissa

    
 
Nação Coragem ou a foto de Sérgio Guerra

Crónica de Gociante Patissa

 

«(...) Inusitado, porém, era o impulso com que o visitante se sentava diante do televisor, a seguir ao telejornal, para acompanhar o programa Nação Coragem.

Milhares de pessoas engrossavam diariamente as filas orientadas pela produção do programa, em Luanda, cada com a foto do familiar desaparecido e uma tocante mensagem. Vinha gente do norte, do centro, do sul, enfim, de subúrbios inimagináveis, vinham também esperanças da diáspora. Resistiam à fome e ao cansaço das horas que antecediam a gravação do Ponto de Encontro. Umas vezes, Veremos explodia de alegria diante da tela, contagiado por mais uma reunificação familiar. No entanto, também se davam desencontros ou, na mesma proporção, infelizes certezas de que A ou B já não está em vida, depoimentos de cortar o coração! E ele não resistia, derretia-se em lágrimas.

E enquanto assistiam…

— Mano Veremos, eu admiro bué o teu amor por esta miúda, a sério! é de dar varizes no coração… E se ela aparecesse, já esposa de outro homem?

— Amigo Perdido, estou em crer que as pessoas têm o direito de reaver, com a chegada da paz, o que a guerra lhes roubou.

— Acho que não me satisfez a resposta…

— Espero ter de volta a mulher. Acho que a paz é isso. Senão, um gajo acaba por se sentir um veterano da ironia do próprio Deus. Seria demais… é isso…

— Ya, estou a ver. No fundo, o que move as pessoas não é tanto dos actos infelizes, mas a sua própria impotência perante estes(...)»
 

sábado, 24 de agosto de 2013

Sobre o livro Não Tem Pernas o Tempo, de Gociante Patissa: «apenas breves considerações» - Por Cristina Galhardo Amado,

 
Sobre o livro Não Tem Pernas o Tempo, de Gociante Patissa: «apenas breves considerações» - Por Cristina Galhardo Amado,
 
Benguela 14 Agosto 2013 - Retirado de Angola, Debates & Ideias de Gociante Patissa
 
Penso que o teu Não Tem Pernas o Tempo, que devorei com agrado em pouco tempo (repartido por duas noites antes de dormir), tem mais características de novela que de romance, não só ou sobretudo pela extensão, mas mais pelo ritmo narrativo, pouca descrição, pouco aprofundamento psicológico das personagens.
 
O narrador facilita, pela sua necessidade (que revejo como influência das narrativas orais), o trabalho ao leitor, como se dispusesse de um tempo algo limitado para contar a sua estória.
 
Na tua passagem para um género narrativo mais extenso e complexo, de certo modo, pelo número de personagens, situações, linha temporal e espacial, creio que foste muito bem sucedido, conseguiste dar consistência à narrativa, tecendo bem as tramas, indo buscar os fios soltos, para os colocar no sítio justo, no tempo justo. O ritmo é fluído, acelerado, mas constante, o que nesta dimensão mais curta, achei importante, funcionou bem.
 
Penso que estás em busca da tua voz narrativa na prosa, mais do que na lírica. E contudo, a tua melhor prosa é a lírica. Não, não significa de modo algum que escrevas tão somente poesia. A tua melhor prosa é liricamente cantada. E é  muito notório no final do livro. O último capítulo distingue-se, naturalmente, de todos os anteriores. E é ali que te movimentas, que comunicas com mais beleza.


Leia este tema completo a partir de 26 de Agosto carregando aqui.





 



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Uso de castigo físico na escola, uma batalha perdida pelo professor ? - Crónica de Gociante Patissa

 
Uso de castigo físico na escola, uma batalha perdida pelo professor ? - Crónica de Gociante Patissa
 
A sociedade benguelense vê-se obrigada a retomar a reflexão sobre a eficácia dos métodos de disciplina no contexto escolar, concretamente na relação professor - aluno. O professor pode ou não bater na criança?
 
A polémica cresce de tom em função da reputação das partes. Num lado está o encarregado de educação Paulo Talaia, também árbitro da primeira divisão angolana de futebol «Girabola». Já noutro, relucta a professora Mariana Ricardo, de 52 anos de idade e três décadas de docência.
 
Na manhã de sexta-feira, dia 1 de Abril (dia das mentiras), menos de dez minutos após ter sido alertado ao telefone, o cidadão encontra a filha de 13 anos sendo fisicamente castigada pela professora, na Escola da Nossa Senhora da Conceição «Colégio das Madres». Não se contendo, teria também partido para a agressão física em defesa da filha.
 
Instantes a seguir, as partes foram acudidas pela direcção escolar, mas a violência estava ainda longe de acabar. No mesmo dia, os filhos da professora espancaram o suposto agressor da mãe.
 
A polícia foi chamada, no âmbito de brigada escolar, e tomou algumas medidas, que se vieram a revelar ineficazes, pois os filhos da professora visitaram o suposto agressor da mãe, no início da noite de ontem, causando-lhe ferimentos e lesões de ordem física. O que se segue é o jogo da sardinha, cada uma das partes puxando a brasa para a sua, com laivos de dramatismo e tentação de negar factos óbvios.


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domingo, 7 de julho de 2013

Cemitério é lugar para fazer publicidade? - Crónica de Gociante Patissa

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Cemitério é lugar para fazer publicidade? - Crónica de Gociante Patissa
 
Ultimamente vimos observando com inusitada frequência o surgimento (ou adopção?) de manifestações que têm tanto de estranhas como de infelizes, que marcam as cerimónias fúnebres, usadas para simbolizar a dor de familiares e amigos do ente -querido «roubado» pela morte.
 
Se na verdade nenhuma sociedade é estática, também não é mentira que o elemento morte esteve sempre na base de muitos mitos e manifestações culturais, religiosas, políticas, militares, enfim, de todo o tipo.
 
A prática «que está a bater» agora é o uso de camisolas (T-shirts) brancas com a foto do (da) falecido (a) e os mais nobres desejos. Para lá vai ficando aquela prática do uso do trajo negro. Bom, até aí, nada de estranhar! A questão prende-se com o tipo de mensagem que se vai passar e reflectir sobre os custos que tal impressão acarreta, considerando que no mercado local a média é USD 10 por camisola.
 
Muito recentemente, encontrávamo-nos envolvidos num cortejo cujo destino era o velho cemitério da Catumbela, situado na comuna com o mesmo nome. E, ao portão, o arco de pessoas mais chegadas, entre parentes, irmãos de igreja, amigos e colega, vestia-se predominantemente de branco. Curiosos aproximamo-nos até notar o seguinte: na parte frontal vinha a foto dele e o nome.
Na parte posterior vinha em letra preta o texto «Descanse em paz» e em tamanhão ligeiramente superior e em letra azul o nome da empresa para qual trabalhou «Grupo tal...».
 
 
 
 

 
 

sábado, 8 de junho de 2013

Quando já não há tutano para dançar sozinho - Crónica de Gociante Patissa


Quando já não há tutano para dançar sozinho - Crónica de Gociante Patissa
 
O atractivo não era grande coisa para cair na noite, como se diz cá na banda, mas a companhia valia mesmo a pena! Aguardava-nos, na Restinga do Lobito, uma noite de música electrónica para comemorar mais um 25 de Maio, Dia do Continente Africano.
 
Eram quase das duas da manhã quando demos os braços à fita, não sem antes passar por uma outra esplanada à beira-mar com música ao vivo. Como já há muito não ia a uma farra como tal, tomou-me súbito receio ao notar que o porteiro era um jovem com nome de carro, célebre pelas brigas e cadeias. Mais a mais, era afinal para se ir trajado a africano, o que não era bem do jeito que eu estava. As damas que iam connosco, sim, estavam lindas e a preceito. De qualquer modo, havia lá dentro muito mais gente de calções e cuecas jeans do que propriamente em trajo africano.
 
Compradas as fitas, o porteiro, o tipo que guardava na memória pelo génio briguento, dá-nos as boas vindas. Uf, que alívio! Pelo menos mais de cem pessoas faziam o máximo possível para abanar as nádegas e ziguezaguear ao compasso do Afro - house, pop Afro e algum ku - duro.
 
Os altifalantes cuspiam incontáveis decibéis a céu aberto, certamente impedindo a vizinhança de dormir. Muito cigarro, bebida alcoólica, mas também muito refrigerante e água mineral em consumo pelos convivas, na sua maioria jovens e adolescentes (um equilíbrio saudável, a meu ver. Não vi, e ainda bem, movimento que denunciasse tráfico ou consumo de droga pesada. Não que me iluda de todo, mas o facto de não se dar a ver ao nível da banalidade já não é um mau sinal).



domingo, 26 de maio de 2013

O papel do Multicaixa na Prevenção de Conflitos - Crónica de Gociante Patissa

 
 
O papel do Multicaixa na Prevenção de Conflitos - Crónica de Gociante Patissa
 
Benguela cidade anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de quatrocentos anos de existência. Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no facebook).
 
Vai daí Janota dar um salto ali pelas bandas da Se Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.
 
Em coisa de minutos Janota tinha uma rapariga, expedita vendedora de orgasmos simulados, e um canto para o labor e o sabor, não sem antes ficar claro o preçário. A menina fê-lo chegar à China por alguns instantes. Ora, completada a viagem, surgia um tipo de conversa mais ou menos imprevista para aquele segmento de negócio:
 
- E agora, como vamos fazer. Posso pagar com cartão? – indagava o saciado enquanto calçava as meias antes de botar a calça.
 
A rapariga olhou para ele, como quem diz, caramba!, está aqui um espertalhão. Antes mesmo que ela emitisse uma palavra, o cliente continuou justificando-se:


Leia este tema completo a partir de 27 de Maio carregando aqui.


 



sábado, 11 de maio de 2013

Posso ou não escrever sobre o Amor? - Crónica de Gociante Patissa

 
Posso ou não escrever sobre o Amor? - Crónica de Gociante Patissa 
 
Já em posse do bruto que daria corpo ao meu livro de estreia, o editor deu-me a ler algumas obras literárias, gramáticas e antologias para captar conceitos, forma e espírito da poesia. Intrigou-me um conselho que desaconselhava principiantes a escreverem sobre o amor, de tão explorado que o tema vem sendo por grandes escritores.
 
Sobre o amor já vivi, também eu, tudo o que me poderia surpreender. Já enganei, já fui enganado. Já conquistei, já fui venerado. Já enchi litro de lágrimas, não duvido que tenha causado o mesmo a alguém. Já levei corrida (a que mais marcou foi a da cunhada de uma miúda de Benguela que conheci quando aos 16 anos eu trabalhava como fotógrafo numa barraca da praça da Catumbela; era bonita, voz grossa, e trocamos alguma carícia periférica, até o dia em que me meti no autocarro para ir ter com ela ao bairro Alda Lara.
 
Foi correr de verdade e nunca mais olhar atrás, o nome dela é tudo quanto restou. Cheguei a desejar morte à minha algoz – sei que não devia, embora não ignore que que amor e morte, efectuada ou prometida, não andam muito distantes). Como é claro, também já fui herói, e é nessa última condição que me atenho hoje.
 
Certo dia, de bucho devidamente satisfeito, meu amigo e eu cuidamos de esfregar as mãos com petróleo (querosene?) para abafar a inconveniência do perfume da lombula (ou lambuda, para aqui aportuguesar a boa sardinha) grelhada, difícil que estava naquela noite achar o pedaço de sabão mais próximo. Cumprindo a rotina, fizemo-nos à parada, ao longo da estrada Kalumba - Catumbela, caprichando no vocabulário para cair na graça de novas raparigas na sanzala ou, no mínimo, consolidar namoricos.
 
Caminhávamos aleatoriamente pela noite escura, que se fazia mais escura pela ausência, não já da energia eléctrica, mas sobretudo de meninas que deviam ter muito trabalho doméstico a seguir ao jantar. Não seria a primeira noite de desencontros, estávamos cientes, bons dias viriam, ou não tivesse a semana sete dias e noites.
 
Chamou a nossa atenção algo a que chamaríamos de discussão, se não passasse de monólogo. «Vou-te sepultar… na sepultura», retinia um tipo que mal conhecíamos. Aproximamo-nos. A diferença de idade entre nós e o trio em certa medida equivalia a uma geração diferente. «Eu vou-te sepultar… na sepultura. Eu sou baiano. Eu sou muito baiano», dizia. Será os baianos (natural de Baia Farta) sepultavam fora de sepulturas? Bom, teria de consultar livros de arqueologia e antropologia mais tarde, que urgia mesmo era salvar o mano que conhecíamos. Este, na típica ambivalência, tentava uma «recaída» com a ex-namorada, não que ela não fosse cúmplice, só que, para seu azar, o rival se antecipara na recolha de informações relevantes sobre si (nome e fenótipo).
 
 
 
 
 

 

domingo, 28 de abril de 2013

Nota solta: Quem dita o que se lê em Angola? - Crónica de Gociante Patissa

 
Nota solta: Quem dita o que se lê em Angola? - Crónica de Gociante Patissa
 
Voltei ao mercado «Kero» do Lobito no dia 16/04/13 para um breve olhar sobre o sector do livro, mais concretamente na componente de escrita criativa. Meu interesse foi olhar para os preços de capa e principalmente saber quais são as principais chancelas editoriais. Recordo que, numa nota recente, referi-me ao preço convidativo em dois livros com edição portuguesa, sendo 390 Kwanzas o de crónica (autor português), e 890 Kwanzas o romance (autor latino-americano), ambos com mais de cem páginas.
 
A presente indagação foi motivada pelo que ouvi de vários agentes, escritores e editores em Luanda, que lamentavam a resistência da parte de quem gere livrarias e mercados quando o assunto é a consignação de livros editados em Angola. Porque será? Para escritores, como eu, com pouco menos de seis anos de afirmação, trata-se de um fenómeno complexo, e qualquer opinião arrisca-se ao apriorismo. Não podendo, por questões logísticas, visitar as livrarias e mercados na capital, que alegadamente secundarizam o material nacional, continuei a observação na província de Benguela.
 
A presente reflexão assume que a qualidade gráfica é equiparada, dado o avanço tecnológico de tipografias que operam em Angola, e ainda considerando haver editoras que recorrem ao Brasil e Europa. Então onde está o problema? Preços? Não parece ser de todo isso determinante, já que a moda é entre mil a quatro mil Kwanzas.
 
No «Kero», a Nzila é a única chancela nacional, que por sinal não é tão Angolana assim, depois que o sócio local vendeu as acções e o projecto se tornou apêndice do gigante grupo editorial português, Leya. Em uma hora a ler páginas de detalhes, constatei que o monopólio engloba as editoras Caminho, Casa das Letras, Texto Editores, ASA, Caderno e a Don Quixote. Minoria esmagadora recai para Estrela Polar e Porto Editora. No âmbito da Leya encontrei disponível um punhado de autores angolanos: Pepetela, Luandino Vieira, Luis Fernando, José E. Agualusa, e dois nomes que me escapam.
 
 
 
 

 

domingo, 7 de abril de 2013

Só me resta desconfiar da intenção das frutas - Crónica de Gociante Patissa

 
Só me resta desconfiar da intenção das frutas - Crónica de Gociante Patissa
 
Foi de uma nutricionista que ouvi há alguns anos que «mais importante do que os ingredientes são os nutrientes». Encantou-me o que a rima encerra, passando desde então a fazer pequenos exercícios mentais à hora de comer ou beber, tendo em conta o teor do açúcar, gordura e afins.
 
Acontece entretanto que, desse exercício, costumam resultar trapalhadas comprometedoras. Hoje por exemplo, numa festa pelo baptizado da filha de uma pessoa amiga, foi com agrado que me deparei com uma jarra de vidro cheia de limonada. Para não restarem dúvidas, estavam presentes porções de limão. Qual cão de Pavlov, minhas glândulas não cabiam em si. Ora, conhecendo as vantagens daquele citrino para a saúde, cuidei de encher um copo, bem cheio mesmo!
 
«Essa limonada tem um paladar esquisito. Parece limonadas de Israel, que se dizem naturais quando são de fábrica», recorri ao companheiro ainda a meio do primeiro gole.
 
«ó sócio, cuidado, isso não tem álcool?», advertiu.
 
«Será? Deixa dar mais um gole».
 
E nesse instante percebo que de facto era um líquido da cor da limonada, recheado de limão, mas alcoólico.
 
«Isso é caipirinha, é bebida de meninas na discoteca, ou daqueles que começam agora a beber», esclarecia ele.
 
Estava eu ali à vista de tantos convivas, de copo cheio, sem saber como me livrar dele. Lá tive de sair e entornar atrás da árvore do pátio, que me perdoe a natureza se o capim morrer.