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terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Criação do Mundo - Lenda Indígena (Brasil)


A Criação do Mundo - Lenda Indígena (Brasil) 

 Os índios Carajás, no princípio do mundo, viviam dentro do furo das pedras. Não conheciam a Terra. Eram felizes e tinham a eternidade, vivendo até avançada velhice, só morrendo quando ficavam cansados de viver.

 Um dia, os Carajás decidiram abandonar o furo das pedras, na esperança de descobrir os mistérios da Terra. Apenas um deles, por ser muito gordo, não conseguiu passar pelo furo da pedra, ficando nele entalado.

 Na Terra, que trazia uma escuridão sem fim, os índios percorreram todos os lugares. Descobriram frutos e comidas. Compadecidos do companheiro que ficara entalado no furo da pedra, levaram-lhe os mais saborosos frutos e um galho seco. Ao ver aquele galho seco, o índio entalado observou:

«O lugar por onde vocês andam não é bom. As coisas envelhecem e morrem. Veja este galho, envelheceu. Não quero ir para um lugar onde tudo envelhece. Vou voltar. E vocês deviam fazer o mesmo!»

E o robusto carajá voltou para dentro da pedra. Os outros continuaram a percorrer a Terra, que se encontrava nas trevas. Um menino carajá, junto com a amada, percorria a Terra em busca de alimentos. Como não havia luz, a amada sangrou as mãos nos espinhos, quando colhia frutos. O menino, na escuridão, comeu mandioca brava.


Leia este tema completo a partir de 5 de Outubro de 2014 carregando aqui

domingo, 30 de junho de 2013

Lenda da Moura de Milreu - Introdução e recolha de Daniel Teixeira

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Lenda da Moura de Milreu - Introdução e recolha de Daniel Teixeira 
 
Introdução: As lendas que metem mouras encantadas têm alguns aspectos que se repetem. Varia o local, varia uma parte do enredo, mas de uma forma geral e sendo feito um estudo mais aprofundado poderíamos chegar à conclusão que a quantidade de pontos comuns entre lendas é tão elevada que seríamos forçados a aceitar que estas lendas advêm de uma fonte ou mais que uma fonte comum. Facto este que não se passa exclusivamente com as lendas das mouras encantadas, diga-se.
 
Quem fez as recolhas ou quem recita as ditas lendas de uma forma geral dá um relativamente pequeno ênfase à parte que as podia diferenciar, o enredo, ficando-se muitas vezes apenas pelo «encantatório» sabendo, como é claro, que este por vezes sustenta, quando ditas isoladamente, as referidas lendas.
 
Normalmente e analisando as lendas em termos psicológicos mais aprofundados, sem que sejam exaustivos (faltará fazer isso um dia) o encantamento das mouras tem lugar com uma intenção bem determinada que é a de impedir que as mesmas mouras sejam objecto quer de sevícias da parte dos cristãos conquistadores quer a impedir em casos amorosos que a união entre as duas religiões se processe por via de um casamento, e isto vale tanto para mouras encantadas como para «príncipes» mouros encantados.
 
Uma vez que as lendas, estas lendas, são feitas e contadas por cristãos, devemos entender que existe, pelo menos, um forte cunho de rejeição cristã a esta possibilidade embora o enredo (curto) acabe por atirar as culpas da impossibilidade de concretização dos amores à acção do «vizir», que, estranhamente, tem sempre poderes mágico - encantatórios.
 
Um dia falarei mais aprofundadamente sobre esta questão (temos cerca de 40 lendas publicadas neste jornal) e por hoje apresento uma história, a Lenda da Moura do Milreu, que está bastante desenvolvida (nesta apresentação) em termos literário - narrativos.
 
 
 

 
 

domingo, 12 de maio de 2013

HORA MINGUADA - Conto / Crónica de João Furtado

 
HORA MINGUADA - Conto / Crónica de João Furtado 
 
A Maria chorava a morte do filho. Foi uma coisa inesperada. Ele estava bom, não tinha nem uma pequena dor de cabeça. Que podia esperar que a morte o surpreendesse de repente? Menino saudável e cheio de vida. Os seis meses de vida eram prova disto, nunca tinha ido com ele ao hospital.
 
Gordo e forte, o rapaz era na verdade um poço de saúde, dava e vendia saúde. Não era de espantar que todos os vizinhos gostavam de o ter nos braços e orgulhosamente o exibir como troféu. Todos os vizinhos gostavam dele inclusive a Fulana.
 
A Fulana era a visita diária. Todos os dias, ela estava a bater a porta, mesmo as doze horas em ponto. Se fosse hoje, ela, a Maria a conjurava e não a deixava entrar, nem por todo dinheiro do mundo, mas foi há anos e ela ainda estava inexperiente. A Fulana lhe apanhou desprevenida com a pouca idade e experiência, acontece a todos.
 
Ela havia vindo a pouco tempo de Fogo com apenas 15 anos. Era o primeiro filho. Ela e o marido eram de Fogo. Nascidos e criados lá, como podia saber que a Fulana era o que era? Não é que não foi avisada, mas não acreditou. A mulher do filho da Fulana havia alertado a Maria pelo perigo da visita da sogra, a Fulana, mas a Maria não acreditou. Coisas da sogra e da nora.
 
Agora tinha a sua frente o corpo frio e hirto do filho. O rosto sereno e quase sorridente, tal um anjo contrastava com os pingos de sangue que saia pelo nariz, marca inequívoco da razão que fez o João Manuel partir para o paraíso.
 
Como poderia a Fulana, vizinha mais próxima e que mais vez lhe visitava ignorar tamanha desgraça e não aparecer nem para dar uma palavra de conforto? Como poderia, com tanta gritaria e lamentações?
 
 
 
 
 

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Lendas da «Costureirinha» - Introdução de Daniel Teixeira, Textos e vídeo recolhidos

 
Lendas da «Costureirinha» - Introdução de Daniel Teixeira, Textos e vídeo recolhidos
 
As lendas (ou a lenda) da costureirinha, embora faça sobretudo parte do universo feminino, entrou na minha infância através de sigilosas conversas entre costureiras ou simplesmente conversas entre quem não sendo costureira de profissão ou labor caseiro tinha uma máquina de costura em casa.
 
Poderá considerar-se uma lenda semi-urbana acompanhando assim a distribuição geográfica deste equipamento. Embora fosse de acreditar que a costureirinha apenas visitava as casas que tinham apetrechos e máquinas de costura, também se acreditava que ela na sua busca visitasse aquelas casas que não tinham tais equipamentos, acontecendo que os ruídos que eram atribuídos à sua presença e à sua deslocação / visita  seriam assim mais familiares e relacionáveis nos casos em que se verificava a existência de uma máquina de costura.
 
Por aquilo que me lembro a sua  presença (imaginada) não era propriamente motivo de um terror profundo: não se lhe atribui a realização de qualquer mal, embora nas referências memoriais que tenho não fosse nada cómodo ouvir o trepidar da máquina durante a noite ou parte dela. Não conheço também referência a mezinhas ou rezas para o seu afastamento.
Será pois uma lenda (com variantes) sobre um sobrenatural relativamente inofensivo.
 
 Primeira versão:
 
«A lenda da costureirinha» que durante muitos e muitos anos foi história contada entre gerações e que hoje já quase caiu no esquecimento.
 
«Entre as crenças que algum dia existiram no Baixo Alentejo, a da costureirinha era uma das mais conhecidas. Não é difícil, ainda hoje, encontrar pessoas de alguma idade, e não tanta como isso… que ouviram a costureirinha. O que se ouvia, então?
 
 Segundo diversos testemunhos, ouvia-se distintamente o som de uma máquina de costura, das antigas, de pedal, assim como o cortar de uma linha e até mesmo, segundo alguns relatos, o som de uma tesoura a ser pousada. Um trabalho de costura, portanto. O som trepidante da máquina podia provir de qualquer parte da casa: cozinha, quarto de dormir, a casa de fora, e até mesmo de alpendres.
 
De tal modo era familiar a sua presença nos lares alentejanos que não infundia medo. Era a costureirinha.