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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Serões de Inverno - Escreve - António Afonso


Serões de Inverno - Escreve - António Afonso

 Para compreender melhor esta crónica, devemos situar-nos, em termos de tempo, nos anos 50 do século passado, num lugar remoto no Nordeste Algarvio, a rádio não era extensiva a todos, a televisão não tinha chegado e os outros meios de comunicação, alguns não tinham nascido.

 Ao final da tarde, ao regressarmos da escola, tínhamos de realizar tarefas que nos tinham sido confiadas previamente, como sejam: ir ao poço buscar água, alimentar os animais, preparar a lenha para alimentar a lareira durante a noite, etc. Conjugávamos então parcerias com os amigos e tudo se resolvia, airosamente, desta forma de ajuda mútua.

 Era à luz da candeia ou do Petromax, que iluminavam quase nada (por isso havia tantos meninos «curtos de vista»), que fazíamos os trabalhos de casa, auxiliados por os mais velhos que nos ajudavam na leitura de palavras esquisitas, problemas deveras bicudos, com várias casas decimais e torneiras que debitavam vários hectolitros por minuto e tanques com enormes capacidades, muito maiores que a capacidade mental de um aluno de dez anos. O meu preceptor era o António Miguel, rapaz metódico e aplicado que me tentava explicar aqueles enigmas.



domingo, 15 de setembro de 2013

A minha escolinha - Ensino Primário - Escreve: António Afonso

 
A minha escolinha - Ensino Primário - Escreve: António Afonso
 

Em Portugal, na última metade do século XIX a percentagem de analfabetos era aterradora, o que muito atormentava o espírito humanista do poeta e pedagogo João de Deus, por sinal, um algarvio, nascido em S. Bartolomeu de Messines.
 
Para inverter tal situação, ele criou um método simples de aprendizagem da Língua Portuguesa, o qual tomou o seu nome. Foi pai da Cartilha Maternal publicada em 1886,sendo instituída por decreto, no ano seguinte, tornando-se obrigatória nas escolas régias por alguns anos.
Com a implantação da Republica, na verdade, houve alguns avanços neste tipo de ensino, mas vieram entretanto anos muito turbulentos, que se reflectiram em todos os sectores, chegando mesmo ao encerramento de algumas Escolas do Magistério, onde se formavam os professores que futuramente iriam leccionar nas escolas.
 
Como já foi frisado, no A L, as escolas públicas funcionavam somente na sede dos concelhos e freguesias, onde o Concelho de Alcoutim estava incluído naturalmente, tendo ficado as restantes povoações simplesmente excluídas.
 
Nos grandes montes surgiam alguns professores particulares que leccionavam, a quem lhes pudesse pagar, e eram muito poucos; no monte da Barrada o mestre-escola era o – Manuel Sapateira e um outro creio de nome Armando.
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Migrantes e emigrantes - Escreve: António Afonso

 
Migrantes e emigrantes - Escreve: António Afonso
 

Todos aqueles que conhecem o Concelho de Alcoutim sabem que este é composto por terrenos muito acidentados, salvo excepção de uma língua de terra, que se estende desde os arredores de Martim Longo até às cercanias do Pereiro, a que designam de «chada ou também achada», onde o terreno é mais ou menos plano.
 
São montes, cerros e mais cerros a perder de vista, creio que todos eles paridos pela Mãe Natureza num dia de tempestade, fazendo lembrar um mar encapelado. Todos têm a sua própria designação: o cerro dos mouros, do marco, das perdizes, da raposa, dos barões e ainda um de cujo nome gosto particularmente, o do maniverso, talvez por ser pouco comum.
 
Ora deste tipo de orografia de montanha coberta de vegetação rasteira, composta de estevas e rosmaninhos sobressai aqui e ali uma moita de carrascos. Nos vales profundos correm cursos de água temporários, formando a rede hidrográfica. Em parte, todo este meio ambiente moldou os seus habitantes.
 
As influências do litoral eram bastante escassas devido à barreira natural e aos péssimos meios de comunicação por via terrestre quase inexistentes. As populações receberam também influências do seu vizinho Alentejo, essas tão presentes no seu dia-a-dia nos usos e costumes, como no vestir, andar, cantar, modo de falar e ainda nos hábitos alimentares, agricultura, pecuária, arquitectura, etc.
 
Compreendo, perfeitamente, que a realidade na vila seria um pouco diferente, pela sua situação geográfica, situada junto a essa estrada líquida, que é o Guadiana e por ser o centro administrativo, com repartições públicas, Finanças, Registo Civil, Escolas, Farmácia, Celeiro, Correios, Serviços Camarários e Forças policiais de Fronteira. Aqui se desenvolveu, também, uma panóplia de serviços necessários à vida quotidiana.
 
 
 
 
 
 

domingo, 26 de maio de 2013

Blogue Alcoutim Livre - O monte dos Medronhais - Escreve António Afonso

 
 
Blogue Alcoutim Livre - O monte dos Medronhais  - Escreve António Afonso
 

Pequena nota:
 Não conhecia nada do Monte dos Medronhais e não me lembro de alguma vez ter lido algo sobre ele a nível das minhas pesquisas, nomeadamente no arquivo histórico camarário quando o consultei de 1986 a 1988 por deferência do então Presidente da Câmara, Manuel Cavaco Afonso.
 
Através das Memórias Paroquiais (1758) encontrei referência a alguns montes da freguesia de Martim Longo de que desconheço a sua existência e por esse motivo postei em 24.06.2011 Martim Longo, montes indicados nas Memórias Paroquiais (1758) e que não identifico, solicitando aos visitantes / leitores qualquer informação sobre o assunto. Até hoje, nunca me chegou qualquer informação sobre o assunto através do meu e-mail.
 
Gostei muito de ter aprendido com o nosso colaborador a existência deste monte tipo alentejano e o que escreve sobre ele são parâmetros que normalmente abordamos.
 Aqui deixo o meu obrigado ao António Afonso e pode ser que ele conheça algum dos montes que refiro na minha postagem de 24.06.2011.
 
JV
 
O ALCOUTIM LIVRE muito tem escrito sobre os montes do concelho, contudo, haverá um ou outro que escapou, por desconhecimento da sua existência.
 
Hoje irei falar sobre um pequenino Monte, perto de Martim Longo, «Os Medronhais». Este monte fica situado um pouco a Norte da sede de freguesia, talvez a dois quilómetros de distância, por um caminho de terra batida, em direcção ao Moinho do Ferreiro.
 
Visitei-o uma única vez, acompanhando um amigo, que me convidou. Teríamos cerca de doze anos e fomos levar uma cabra, cuja intenção era juntá-la ao rebanho para arranjar namorado; (chibato, bode) passada uma semana o animal voltou a casa e decorridos os cinco meses de gestação, passou à condição de mãe solteira e independente.
 
Recordo que o aglomerado possuía as casas de habitação, as instalações para os animais, nomeadamente ramadas, palheiro, forno, alguns currais e pocilgo. Num vale próximo havia uma pequena horta com um poço, que produzia água destinada ao consumo dos habitantes, animais e rega.
 
O monte foi construído numa zona alta o que permite uma vista panorâmica privilegiada sobre os campos outrora cultivados por vastas searas: aqui e ali nota-se o branco do casario de outros montes em redor, alguns deles pertencendo ao concelho de Mértola.
 
Despertou-me interesse escrever algo sobre ele, por vários motivos: Trata-se de um aglomerado rural unifamiliar, implantado numa herdade, típico dos montes do Alentejo. Certamente, desta forma, teriam nascido todos os outros montes de maior dimensão existentes no termo de Alcoutim; porém, este continuou isolado, tal como outros que conhecemos, nomeadamente o Monte dos Guerra que lhe fica próximo, as Bringueiras, o Vale do Gimão, A-Dos-Gagos e o Monte dos Matos.

Leia este tema completo a partir de 27 de Maio carregando aqui.



 



quinta-feira, 28 de março de 2013

Blogue Alcoutim Livre - José Varzeano - O mestre azeiteiro (fazedor de azeite) - Escreve António Afonso

 
Blogue Alcoutim Livre - José Varzeano - O mestre azeiteiro (fazedor de azeite) - Escreve António Afonso
 
No Nordeste Algarvio a oliveira era uma árvore quase sagrada! Tal como na Grécia Antiga, pois, no perímetro da Acrópole sempre existiu e existe, um exemplar desta espécie. Há fortes razões para o Homem lhe dedicar tanta estima. Ela lhe concede sombra, alguma lenha, as azeitonas, que serão preparadas, de conserva, britadas, retalhadas, pisadas sempre presentes na mesa do Alcoutenejo; além disso, da transformação dos seus frutos se extrai o precioso azeite, utilizado na culinária, outrora alimentava as candeias, servia para oferecer a quem não o tivesse de colheita e ainda como oferenda à Senhora das Candeias ou à Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Freguesia.
 
Paralelo com esta árvore só encontrei em Africa, certo dia, um nativo em Moçambique me confessou que o Coqueiro é para nós a árvore de Deus! Porque dela tudo aproveitamos, a sombra, as folhas que cobrem as nossas casas, a madeira para vários fins, os frutos tão importantes para a nossa alimentação e não só.
 
Nós tínhamos algumas oliveiras centenárias herdadas dos nossos avós, o meu pai sempre que encontrava um zambujo, logo procedia á enxertia, caso obtivesse sucesso, na época própria o transplantava para local definitivo; passados alguns anos já dava frutos, mas continuava a ser designado por  «oliveiro» até ser de maior idade.
 
A Terra gira nos seus movimentos de rotação e translação, o tempo passa, deixando a sua marca, quer nas pessoas, quer nos seus modos de vida.
 
Nos últimos cem anos, muitas profissões existentes no meu concelho, algumas nem conheci, desapareceram simplesmente e outras estão em risco disso. Irei enumerar umas quantas:
o alvetário (profissional que tratava os animais),
o vedor (profissional que indicava o local onde existia água no subsolo),
albardeiro, o sapateiro, o azeiteiro, o latoeiro, o retratista, o dentista ambulante, o capador, o roupeiro, o maioral «zagal», ferrador, o ferreiro, o oleiro, o almocreve, o ganhão, o limpador, a tecedeira, a boleira, a caiadora, a costureira, a ceifeira, o cesteiro, o tendeiro, o vendedores ambulantes (o ti Januário, o ti Zé Guerreiro, o ti Feliciano o ti Pano Cru), moleiro, o endireita, o cesteiro, o pedreiro de pedra solta, etc.
 
 
 
 

 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Blogue Alcoutim Livre - António Afonso - Serões de Inverno

 
Blogue Alcoutim Livre - António Afonso - Serões de Inverno
 
Para compreender melhor esta crónica, devemos situar-nos, em termos de tempo, nos anos 50 do século passado, num lugar remoto no Nordeste Algarvio, a rádio não era extensiva a todos, a televisão não tinha chegado e os outros meios de comunicação, alguns não tinham nascido.
 Ao final da tarde, ao regressarmos da escola, tínhamos de realizar tarefas que nos tinham sido confiadas previamente, como sejam: ir ao poço buscar água, alimentar os animais, preparar a lenha para alimentar a lareira durante a noite, etc. Conjugávamos então parcerias com os amigos e tudo se resolvia, airosamente, desta forma de ajuda mútua.

Era à luz da candeia ou do Petromax, que iluminavam quase nada (por isso havia tantos meninos «curtos de vista»), que fazíamos os trabalhos de casa, auxiliados por os mais velhos que nos ajudavam na leitura de palavras esquisitas, problemas deveras bicudos, com várias casas decimais e torneiras que debitavam vários hectolitros por minuto e tanques com enormes capacidades, muito maiores que a capacidade mental de um aluno de dez anos. O meu preceptor era o António Miguel, rapaz metódico e aplicado que me tentava explicar aqueles enigmas.

Os trabalhos eram feitos em ardósia (pedra preta, com um caixilho de madeira de cantos arredondados), escrevíamos com giz, ou na falta dele, fabricávamos nós os próprios lápis com taliscas do Barranco da Corte (Xisto foliáceo), só posteriormente passávamos tudo a limpo para o caderno.

Devo acrescentar, que esta pedra, que vos falo, não é mais que um antepassado do célebre computador Magalhães. Ainda hoje, quando as crianças me pergunta a idade eu respondo dizendo-lhe que sou da idade da pedra. – Então o tio é «muita» velho!