quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos


O VERDE DA MATA - Prosa poética de Ilona Bastos 

 Pode pensar-se, ou mesmo dizer-se, que o verde é simplesmente verde. Mas não é. Nunca o verde é simplesmente verde - é sempre complexamente verde.

Observem-se as nuances, as sombras, os brilhos. Os toques de veludo, de cetim, ou de serapilheira agreste. E como tudo se reflecte e nos atinge em incontáveis tons que nem o nosso mais minucioso olhar destrinça. E como nos tons se adivinham cheiros, mais ou menos silvestres, ou densos, ou ténues, ou voláteis. E como na sinuosidade das formas sentimos o gosto, doce ou amargo, ácido ou acariciante, desta Natureza em festa...

Poderia ficar, infinitamente, a escrever ou pensar sobre minudências irrelevantes, tais como os tons de verde no arvoredo, ou o seu aspecto pontilhado ou de pincelada larga impressionista, de surpreendente brilho ou elegância realista.

Certo que ninguém, senão eu, retiraria prazer dessas análises minimalistas e imprestáveis. Mas que fazer? Se tirar eu prazer, é já alguma coisa! A tantas tarefas me dedico que a ninguém dão prazer - nem a mim própria, que as executo pelo sentido do dever...


Numa aldeia na montanha - Conto de Daniel Teixeira


Numa aldeia na montanha - Conto de Daniel Teixeira 

 Era um aldeia algures por Deus e pelos homens colocada no topo de um monte que ficava no topo de uma montanha. Os Tempos, Deus e os homens tinham mantido aquela aldeia tão isolada durante tantos dos últimos anos que eram agora nenhuns os contactos que aquela gente tinha com as gentes das aldeias mais próximas, estas também colocadas por Deus e pelos homens no topo de outros montes que ficavam noutros topos da montanha.

 Apenas, e de quando em vez, e quando Deus e o Vento ajudavam, se ouvia, sempre ao longe, muito ao longe, o tocar dos sinos das Igrejas: por vezes era ao Domingo, era o dia das Missas, outros dias, sem dia nem hora marcada, eram os dobres de finados que soavam, tilintando uma morte, lá longe, muito ao longe, mesmo muito ao longe, ou cá perto, dentro da pequena aldeia.

 Os caminhos, íngremes, pedregosos e talhados nas encostas pelas botas grossas dos homens, pelas rijas tamancas das mulheres e pelo casco dos animais eram difíceis de percorrer e eram longos, aqueles caminhos, eram mesmo muito longos e aquilo que se via, aquela horta além, aquela árvore ali, aquele pasto ao fundo, e que pareciam ficar logo ali, nunca ficavam mesmo logo ali, onde a vista os via, era sempre mais longe, tinha sempre mais caminho a percorrer, havia sempre um caminho que parecia estender-se cada vez mais e mais à medida que se o pisava.


Leia este tema completo a partir de 31 de Agosto de 2014 carregando aqui

árabes e judeus, aqui - Texto / Crónica de Cecílio Elias Netto


árabes e judeus, aqui - Texto / Crónica de Cecílio Elias Netto 

 A harmoniosa convivência entre árabes e judeus em Piracicaba impede-nos de entender a estupidez do fratricídio no Oriente Médio.

A história humana – contada pelos chamados livros sagrados – foi e continua sendo escrita com sangue e discórdias. O Deus monoteísta – de judeus, cristãos e islamitas – causa muito mais espanto por sua cólera do que pela misericórdia. Pelo menos, para mim. Desde o Eden, as coisas são complicadas. Criando o homem, Eva e Adão, eis que, por uma desobediência, os expulsa do paraíso. Coitados, cuja única culpa foi a de serem humanos.

 E os conflitos seguem em frente: Caim mata Abel; os filhos de Noé brigam entre si. E Abrahão – pai da nova fé – é testado de uma maneira brutal, quase inacreditável. Deus ordena que ele mate o próprio filho, Isac, que se tornaria Jacó. Por que isso? Para assustar o velho Abrão, para judiar dele? E esse mesmo Abrão que, sem qualquer piedade, expulsa o filho Ismael, gerado por sua amante Agar, a escrava? Por capricho e ciúme de Sara, que gerou Isac, Abrão divide a sua própria carne e divide a humanidade. Isac, o judeu, é irmão de Ismael, o negro filho da escrava Agar. E ambos são semitas, descendentes de Sem. Desde o início, pois, a luta é fratricida.

Uma história complicada e penso ser melhor não escarafunchá-la muito, para não nos perdermos em perplexidades e confusões. Abrão tenta matar o próprio filho, Deus não socorre Jesus, que lhe pede socorro ao ser crucificado. Que pai humano pode entender essa loucura divina? Vai daí que, pelo visto, até hoje a história continua complicando-se, na estupidez familiar entre árabes e judeus. E na chamada Terra Santa. E em todo aquele universo oriental onde a história judaico -cristã - muçulmana começou. Quem se lembra que Abrão nasceu em Ur, onde está o Iraque?



terça-feira, 2 de setembro de 2014

JARDIM MANUEL BIVAR - Faro - Texto de Lina Vedes


JARDIM MANUEL BIVAR - Faro - Texto de Lina Vedes


 Conhecido, vulgarmente, pelo Jardim da Doca, era vivo e barulhento com imensa gente, crianças, jovens e adultos a procurá-lo para agradáveis convívios.

Os farenses, nas horas de lazer, enchiam o Jardim andando nele às cotoveladas, aos encontrões, conversando e rindo uns com os outros, indo e vindo desde o monumento a João de Deus até ao coreto.

Mantenho ainda o gosto de meditar, discorrendo placidamente, sentada num banco do Jardim da doca, olhando, ou antes, saboreando os fins de tarde, com os lindos «pores de sol» sempre diferentes e belos.
 O Jardim da cidade era também procurado para encontros profissionais (trabalhadores e empregadores), marcando-o como um verdadeiro «centro de emprego».

Nele, junto do coreto, do Aliança ou do Largo das camionetas, homens honestos de fracos recursos, peças fundamentais no xadrez social da vida (na época) procuravam contratos de trabalho ocasional. Eram trabalhadores independentes, solicitados para pequenos arranjos domésticos ou outros serviços.

Normalmente eram educados, de falas mansas, respeitosos, dispostos ao trabalho fora de horas, incluindo domingos, e mal recompensados do esforço. Creio firmemente, que história não é só o desfiar árido de acontecimentos relatados pelos compêndios, de forma cronológica. Os compêndios realçam o papel desempenhado pelos grandes senhores, esquecendo às vezes os operários que são a base da sociedade.
 História é mais do que isso!

Impõe-se o dever de realçar o factor humano e todo o legado deixado por homens iguais a nós, que doutros homens o receberam. A evolução das coisas e dos tempos não contém mistérios, somos nós os condutores dos factos, seremos nós a trabalhar para as gerações vindouras.


Leia este tema completo a partir de 31 de Agosto de 2014 carregando aqui

Coluna de Poetas - Carlos Fragata: Tentativa Falhada; Cremilde Vieira da Cruz: Teu nome; Edvaldo Rosa: Lembranças de um grande amor...; Maria de S. Pedro: Num qualquer por de sol; Se Gyn: adjetivos


Coluna de Poetas - Carlos Fragata: Tentativa Falhada; Cremilde Vieira da Cruz: Teu nome; Edvaldo Rosa: Lembranças de um grande amor...; Maria de S. Pedro: Num qualquer por de sol; Se Gyn: adjetivos



TENTATIVA FALHADA

 


 Quis fazer um poema que falasse
 De carinho, de esperança, de bondade,
 Mas vejo neste mundo tal maldade
 Que não fiz nada que se aproveitasse!...
 Quis mentir, falar bem da Humanidade,
 Mas a pena, como se adivinhasse,
 Não queria, por muito que tentasse,
 Aceitar a mentira por verdade.
 Praticamos o mal a cada instante...
 O ser humano rouba, fere, mata,
 Sem respeito nenhum p'lo semelhante!
 De que serve tentar cobrir com prata
 Ou enfeitar com falso diamante
 Algo que vale menos do que lata?...

 Carlos Fragata




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Poesia de Sergio Antonio Meneghetti - Existem Gerações; Sobra? Obra!


Poesia de Sergio Antonio Meneghetti - Existem Gerações; Sobra? Obra!

 

 Existem Gerações

 

 Existem gerações que fazem a história
 Existem gerações que param na história
 Existem gerações que complicam a história
 Existem gerações que completam a história
 Existem gerações que constroem a história
 Existem gerações que pintam a história
 Existem gerações que esculpem a história
 Existem gerações que melodiam a história
 Existem gerações que humanizam a história
 Existem gerações que impulsionam a história
 Existem gerações que apenas navegam na história
 Existem gerações que pensam na história
 Existem gerações que maculam a história
 Existem gerações que iluminam a história
 Existem gerações que mudam o curso da história
 Existem gerações que sobrevivem na história
 Existem gerações que acreditam na história
 Existem gerações que se perdem na história
 Existem gerações que se eternizam na história
 Existem gerações que se separam na história
 Existem gerações que nem sabem da história
 Existem gerações que transmitem a história
 Existem gerações que só contam a história
 Existem gerações que esperam da história
 Existem gerações que agora devem assumir e deixar a sua marca positiva na história.

 Sergio Antonio Meneghetti 19/08/2014



Leia este tema completo a partir de 31 de Agosto de 2014 carregando aqui

Poesia de Mário Matta e Silva - NO SONHO DO BEM - ME - QUER ; GEOGRAFIA DO MEDO; NOS MURMURIOS DA HARPA


Poesia de Mário Matta e Silva - NO SONHO DO BEM - ME - QUER ; GEOGRAFIA DO MEDO; NOS MURMURIOS DA HARPA

 

 NO SONHO DO BEM-ME-QUER

 

 Vou na amplitude da tarde
 colher a vastidão das planícies
 ofuscar-me nos brilhos do sol
 derramar por aí o meu próprio eu
 tão insolente e tão irrequieto
 no extravasar desse imenso rol
 de deusas e de musas que caem do céu
 aos trambolhões, em queda-livre
 sobre o amontoado de fantasias
 que vou construindo sem regras
 nem preceitos, nem esquadros
 dicionários, guias, mapas ou tratados
 mas que guardo para mim ao fim dos dias
 que se vêm misturar ao sono perturbado
 para que nessas planícies feitas
de libertinagem, tenha por companhia
 essa luz uniforme e cálida do dia
 com os seus matizes e os seus perfumes
 prenhes de papoilas e mal-me-queres
 ensopados de ácidos estrumes
 com raiva depositados no ventre terra
 e a partir dela desabrocha a natureza
 tão meiga, tão generosa, tão aveludada
 que tanto se deseja e tanto se quer
 pelo restolho árido de cada madrugada
 febril a mitigar a sede em riacho puro
 até que pela noite ribombe e escuro
 num sonho morno feito de bem-me-quer.

5 de Agosto de 2014