quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O João e a Filó - Conto de Daniel Teixeira


O João e a Filó - Conto de Daniel Teixeira 

Os dentes dele batiam de uma forma que o assustava, mas era sempre assim. Não era porque estivesse muito frio, de facto a sala estava sempre bem aquecida, naquela temperatura ideal para um dia de inverno, tinha-o sentido quando se despira e quando a enfermeira abrindo a porta um pouco, sem olhar muito para ele, lhe tinha perguntado se já estava despido.

Sim, estava! Disse com uma resposta rápida, como se tivesse receio que ela entrasse mesmo e visse o seu corpo, um pouco magro, mas de qualquer forma não excessivamente magro para a sua idade jovem.

Tenho de comer mais dizia muitas vezes mas o apetite faltava-lhe e agora estava ali, numa consulta, porque a sua mãe tinha dito ao médico que não compreendia porque é que ele estava naquele estado como se o estado dele fosse alguma coisa de grave.

Fui sempre assim, dizia ele tantas vezes à mãe, e ao pai que também lhe ralhava e que achava que havia coisas que ele não devia fazer porque era demasiado fraco. Deixa que eu levo – dizia-lhe o pai quando se tratava de carregar algo mais pesado na loja, pronunciando este deixa que eu levo como se ele fosse um inútil ou estivesse num processo pronunciado de decadência, ele que tinha quinze anos, mal feitos.

O médico dissera que não devia ser nada mas que era melhor ver acrescentando um misterioso nunca se sabe…nunca se sabe como (?) ele não era Médico (?) deveria saber pois então (!!)…mas não sabia e tinha-o mandado tirar uma radiografia aos pulmões, outra radiografia, mais uma radiografia, que raio de coisa, dizia para si mesmo: eu não estou doente nada, só não tenho tanta fome assim e faria uma vida normal se não fosse a mãe estar sempre com o come rapaz ou o pai com aquelas tiradas parvas do deixa que eu levo até nos embrulhos pequenos porque estavam carregados de ferragens e isso era muito pesado para mim, pelo menos era o que o pai dizia.


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PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Olhares


PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Olhares 

 Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
 Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!

Encanta-me, claro, a folha amarelecida presa na orelha do cocker spaniel que me olha, inocente, sério, tão embrenhado no seu papel de cão felpudo e focinhudo, de longas orelhas e pêlo dourado! O seu olhar… e o seu olhar… tão ponderado e prudente.

O que era aquele olhar?
Era o de um ser inelutavelmente destruído?
Ou de alguém, ainda há pouco despertado de um pesadelo,
 que se concilia lentamente com a vida?
 Perguntou-me: «é para nós?»
 Acenei que sim e estendi os braços.


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ALEXANDRE O’NEILL E O SURREALISMO - Por Liliana Josué


ALEXANDRE O’NEILL E O SURREALISMO - Por Liliana Josué 

 MOVIMENTO SURREALISTA

 Não se podem estabelecer datas rígidas em relação ao desenvolvimento humano, seja qual for a perspectiva. As viragens rápidas , quanto a mim, não existem, pois qualquer estudioso do seu desenvolvimento não consegue fazer cortes radicais. Há sim evoluções menos ou mais rápidas, assim sendo, a passagem do Realismo/Futurismo para o Surrealismo aconteceu com alguma brevidade mas a seu devido tempo.

Considera-se o início do Movimento Surrealista com o francês André Breton e o Manifesto Bretoniano em 1924, extinguindo-se em 1969, dando-se desta forma inicio a outro novo ciclo cultural intitulado Pós-Modernismo.

Em Portugal surge mais tardiamente com António Pedro. Para alguns estudiosos é determinante o ano 1942 com a obra do mesmo intitulada «Apenas uma narrativa»; outros valorizam o ano de 1947 com a formação do Grupo Surrealista de Lisboa, cujos fundadores foram: António Pedro, José Augusto França, Cesariny, Alexandre O’Neill e outros. Começaram por se reunir na pastelaria Mexicana, mas o local de encontro de maior destaque para os surrealistas foi o café Gelo.
 Em 1960 este movimento foi considerado extinto



ALEXANDRE O’NEILL

 Nasceu em Lisboa a 19 de Dezembro de 1924 e faleceu em Lisboa a 21 de Agosto de 1986.
 Teve antepassados irlandeses mas era filho de António Pereira de Eça e O’Neill , tendo como profissão bancário e de Maria da Glória Vahia de Castro, dona de casa.
 Em 1944 fez o primeiro ano da Escola Náutica de Lisboa, mas devido à sua miopia não lhe será concedido o certificado marítimo. Não continuou os estudos tornando-se quase um autodidacta .



Poemas de Sá de Freitas - COMO SINTO UM ADEUS; HEI DE ENCONTRAR; LUTES


Poemas de Sá de Freitas - COMO SINTO UM ADEUS; HEI DE ENCONTRAR; LUTES

 


 COMO SINTO UM ADEUS

 

 O adeus é prenúncio de ansiedade
 Que surgirá nascida de uma ausência...
é princípio de angústia... é evidência
 De prantos que virão com intensidade.

 O adeus é um sentir de vacuidade,
é o interromper de uma convivência,
é um padecer com a triste permanência,
 Da grande dor que traz uma saudade.

 O adeus é esperança de um retorno;
é sensação terrível de abandono;
é temor do que inda não surgiu.

é apreensão que a alma mortifica;
 Sonho de também ir, para quem fica;
 Vontade de regresso à quem partiu.




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

OS DENTES DO SOBA - Conto de Gociante Patissa


OS DENTES DO SOBA - Conto de Gociante Patissa

Em Outubro de 1945, um arrolamento extraordinário estava na iminência de ocorrer na Ombala de Tchiaia, capital de cinco aldeolas plantadas no cimo de montanhas vizinhas, que mais se pareciam com dedos de uma mão tentando tocar o céu: Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, hoje pertencentes à comuna do Sambo, município da Tchikala Tcholoanga, na província do Huambo.

 Ia ao rubro a ansiedade na Ombala, como de costume em véspera de arrolamento. Cada família procurava catanar a idade dos filhos, o que contribuiria na diminuição dos impostos, o mesmo acontecendo com o número de animais domésticos. Menos posses, melhor. O que restava fazer só dependia da visita do Chefe do Concelho, branco português conhecido por observar ao mínimo pormenor até mesmo os pelos de um porco.

Andava intrigado o Chefe do Concelho com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses. E de nada o convenceram as justificações das autoridades, que atribuíam tal azar ao aparecimento do dragão, que fora visto por poucos sobrevoando o caminho do cemitério.

 Era fenómeno raríssimo no meio rural, mas havia na aldeia uma mulher (chamada Kutala) em condições de dar conta do recado em matérias de recenseamento. Fora logo cooptada para o posto de secretária-tradutora-dactilógrafa da Ombala. Despachava diretamente o expediente com o Soba.

 Nascida doentia, Kutala vivera a sua adolescência sob os cuidados de missionárias, tendo com elas aprendido as práticas de dactilografia, costura, doméstica e o domínio da gramática portuguesa. Mas com o desabrochar dos seios e o surgimento de sonhos eróticos — que ela não sabia se gostava ou se odiava —, Kutala convenceu-se de não ter vocação para madre, optando por abandonar a residência. Não era de ser pretendida por qualquer um, dada a sua capacidade de análise crítica, embora não fosse cheia de «não me toques».




A Santa e a Leitoa - Crónica / Causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS


A Santa e a Leitoa - Crónica / Causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

Prequeté, prequeté, prequeté!. E a charrete subia a rua principal.

Na boléia, mascando um pedaço de bom fumo goiano, ia o Souza, legítimo africano de quatro costados. Pouco abaixo de seus pés, entre as rodas murchas do pneu careca e à sombra, ia o Viajante; um querido e legítimo canino puro-sangue tomba-latas. Vez ou outra alguém gritava para ele: - dia Souza!, ao que ele apenas murmurava um «dia» de muito mau grado.

 O Souza trazia na parte traseira da charrete, enrolada dentro de um saco de aniagem, a Neguinha; uma leitoa que foi criada dentro de casa, junto com os gatos e os cachorros da casa do Souza. Pois é, a pobre da Neguinha estava indo para o sacrifício, ou seja estava sendo doada pelo Souza ao Padre Tito, vigário de Passa - Tempo, sendo a pobre uma das prendas que seriam rifadas na quermesse. Três quartos de hora depois, e novo prequeté, prequeté, prequeté... .

 Na boléia o Souza, olhos cheios de lágrimas a responder: «dia»', entre uma cusparada e outra , e entre um esfregar de olhos e outro. O Souza estava chorando!.

Todos em Passa - Tempo gostavam do Souza, e ao vê-lo chorando, perguntavam-se: o que teria acontecido?. Parou a charrete na venda dos Signorini, e depois de meia garrafa da branquinha, contou para a platéia formada de compadres e o vendeiro, a razão do choro. Foi o seguinte o que contou o Souza:


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Fofocar é mesmo uma grande arte! - Texto de Miriam de Sales Oliveira


Fofocar é mesmo uma grande arte! - Texto de Miriam de Sales Oliveira 

«Eu tenho uma grande arte: eu firo, duramente, aqueles que me ferem...»
Rubem Fonseca

Será que todos fazem, todos gostam, todos praticam? Será que tem coisa melhor que a vida dos outros? Meu pai dizia que é pecado fofocar, mas, é divertido. Uma fofocazinha de vez em quando apimenta aqueles tediosos jantares em família, é muito salutar numa igreja – entre um padre -nosso e outro – e, na política então, nem se fala, ou melhor, fala-se a todo momento.

 Por que faz sucesso? Porque assim você tem a ilusão de estar vivendo a vida do outro, principalmente se o outro é uma celebridade e você, o piolho no rabo do cachorro vira - lata. Então, vamos fofocar? E é uma sensação tão agradável, parece que a gente se apodera da vítima, ao mesmo tempo em que se vinga da sociedade madrasta que a transformou numa «personagem»enquanto lhe deu, no palco da vida, o papel de zé-ninguém.
 _ Vamos espalhar, logo, essa fofoca, pois amanhã pode ser mentira e não ter mais graça.

 Fofoca é o nome engraçado de mexerico, maledicência, fuxico, bisbilhotice, mau – caratismo, más línguas e, muitas vezes, um sinónimo de inveja.
 _ Se não posso ser como ele, vou desmoralizá-lo!

 Mas, esse comportamento de lavadeira, chamado fofoca, só vai adiante porque, ouvidos semelhantes ao do fofoqueiro se comprazem em ouvir e espalhar. Asa pessoas ouvem e espalham sem se preocupar em conferir a fonte como fazem os bons jornalistas.
 A indústria da fofoca acabaria num piscar d’olhos se o ouvinte chegasse até a vítima e dissesse:
 _ Olha, estão espalhando esse mexerico sobre você, quero ouvir a sua versão.
 Pronto, acabava ai. Ou não?



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