domingo, 5 de outubro de 2014

Jornal Raizonline nº 256 de 5 de Outubro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - 5 de Outubro a quanto obrigas


Jornal Raizonline nº 256 de  5 de Outubro de 2014 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - 5 de Outubro a quanto obrigas

Para quem não sabe uma vez que  temos leitores em várias partes do Mundo (ver aqui o mapa global) que podem conhecer o português mas não esta parte da história de Portugal, hoje, dia do fecho deste edição, comemora-se, até à meia noite, o Dia da Implantação da República em Portugal.

Sumariamente, ao festejar-se a implantação da República festeja-se o final do Regime Monárquico ao qual eram e são apontados diversos defeitos e muito poucas virtudes. Se descontarmos os períodos em que a Monarquia conquistou território aos mouros, deu - ao que se diz - novos mundos ao mundo, lutou contra a dominação estrangeira, se desfez dela, deixou sangue espalhado pelos quatro cantos do mundo, plantou a cristandade por aqui e por ali (coisa que é sempre discutida nas metodologias utilizadas) enfim... se descontarmos estes e mais alguns aspectos considerados positivos, o resto, que é bastante, são só defeitos que lhe são assacados.

Na verdade, esta coisa de se ser Rei (ou Presidente) por herança de sangue não é propriamente uma coisa muito boa, convenhamos, porque e também como se sabe no melhor pano familiar pode cair a nódoa.

Na República, nesta República que vivemos hoje nada disso se passa: os filhos não herdam os postos dos pais embora seja cada vez mais restrito o número de famílias cujos filhos têm acesso aos tais invejados postos.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Um encontro casual ao almoço - Crónica (Do arquivo) de Gociante Patissa


Um encontro casual ao almoço - Crónica (Do arquivo) de Gociante Patissa

No Lobito, contam-se aos dedos os restaurantes que sobreviveram à segunda república. O calar das armas e a transição para a abertura do mercado abalaram economias e hábitos de consumo. De sorte que, quando a paz não mais precisar da guerra para se autodefinir, os humanos ter-se-ão transcendido a si próprios, digo eu.

 As cidades são árvores que mantêm a essência enterrada, enquanto galhos, folhas e frutos vão e vêm. O centro do Lobito resume-se a duas ruas, a de entrada e a de saída, entre o bairro da Caponte e a Zona Comercial. Só depois da Colina da Saudade se cruzam para o Compão, a sul, à procura do bom pescado da Kabaia, ou para a ponta da Restinga, a norte, onde a cidade se liberta na língua da praia, em geral para tirar proveito da escuridão que o lugar regala aos casais.

 O Gunga-Bar (cujo nome provém do Umbundu «ongunga», sino) fica na rua de saída, resistindo a quaisquer infortúnios, sendo um deles, o mais pesaroso, a morte do proprietário por acidente rodoviário, há coisa de três anos. Guardo na memória a cena da moça que tiramos do sono, às duas da manhã, em finais da década de 90 do século vinte, para nos servir bebidas, numa breve fuga aos preços da discoteca ali perto. O restaurante prestava-se ao desafio de servir vinte e quatro horas por dia, muitas vezes à luz de poucas velas entre uma falha e outra da energia geral, não dispondo de uma simples fonte alternativa.

 Tem rosto moderno mediano, o que só pode ter contribuído para maior fluxo de clientes. E é um restaurante pequeno e fechado, rendido a essas irreverências ocidentais de igualdade entre classes, onde o cliente chega, como qualquer outro, serve a variedade que der, põe o bolso a falar com a balança e ocupa a mesa. Só depois vem o garçon para o que se quer beber.


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Poesia da Mário Matta e Silva - Smile; Culpas; Idosa Indolência


Poesia da Mário Matta e Silva - Smile; Culpas; Idosa Indolência

 

 Smile

 

 Num rosto suave há uma ternura
 Que se alimenta do tempo
 E na pele certa frescura
Rosa-pálido vincando nos lábios
 Esse brando ar de entrega e candura.
 Andam prantos pelo vento
 Sequiosos de amarguras
 Tão pardos e tão tensos de lamentos
 Movendo-se pela multidão
 Em gestos vagos de arrependimento.
é no radioso festival da primavera
 Que tudo canta e tudo encanta
 Em jardins onde o amor desespera
 Nas pétalas de cores garridas
 E em cada sonho ou quimera.
 Ah. mas eu quero o sorriso num semblante enternecido
 Feito de paixão, de encantos, de beleza
 E de nuvens de perfume no palpitar diluído
 Na singeleza desbravando os tons da Natureza
 Com níveas faces e um cântico ao meu ouvido.

 18 de Setembro de 2014

Mário Matta e Silva


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Poesia de Marcos Loures como Tenesmo Telencefálico - Racismo Divino ; Não poderia mesmo conceber; A vida se transcorre em turbulências


Poesia de Marcos Loures como Tenesmo Telencefálico - Racismo Divino ; Não poderia mesmo conceber; A vida se transcorre em turbulências 

 

 

 Racismo Divino

 

 Da estéril companheira, um certo idoso,
 Aguarda por decênios, seu herdeiro,
 Um fato tantas vezes corriqueiro,
 E sei quanto louvável, prazeroso.

Porém da negra escrava, certo dia,
 Os Gametas gerando um novo ser
 Que pudesse trazer algum prazer
 Marcara a sua face em alegria.

Porém se por acaso ou por milagre
 A velha clara, Sara procriara,
 E embora em fantasia louca ou rara,

O vinho se refez de algum vinagre.
 A imagem delirante se desperta
 E a negra prole, o velho enfim deserta.

MARCOS LOURES


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE - in Memórias da Ilha - Por Manuel Fragata de Morais


EXERCICIOS MENTAIS E SENILIDADE - in Memórias da Ilha - Por Manuel Fragata de Morais

Ao chegarmos à média idade, notamos que começamos a esquecermo-nos de pequenas coisas, pequenos acontecimentos e situações e entramos em parafuso, preocupados com a nossa memória que já não mais responde aos comandos tradicionais.
 E uma reacção primária e normal, todavia se pararmos para pensar um pouco, cedo chegaremos a uma conclusão óbvia; a de que a memória, tal como o corpo, sem exercício, não funciona de maneira adequada e começa a mirrar, a tornar-se esparsa e espaçada.

 O tema de hoje ocorreu-me ao pensar nos 86 anos que minha mãe em breve celebrará, e nos 81 anos que o meu querido amigo e confrade no esgrimir de palavras e ideias, o nosso Uanhenga Xitu, aliás de Agostinho Mendes de Carvalho ou, melhor dito, seu nome de kimbundu, celebrou há dias, com muito carinho de todos nós.

 Ambos são pessoas activas e envolvidas, a minha mãe não tanto quanto o ti Mendes nas mesmas lavras, claro. Mas nas dela, é um prazer ver, desde que a memória não lhe seja muito solicitada. Se não, o caso vira prazeroso para todos nós, por ela não se dar por achada,


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PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Inspiração ( I, II e III)


PROSA POETICA POR ILONA BASTOS - Inspiração ( I, II e III)

 

 Inspiração I

 

 A inspiração pode surgir de onde menos a esperamos: da simples folha de árvore, pousada sobre o empedrado escuro do passeio; da lagartixa que nos espreita da fresta do muro; das conversas e desabafos daqueles que por nós passam, tantas vezes alheados de tudo o que não seja o seu próprio mundo…

Daí a necessidade de estarmos atentos ao que acontece em redor. Isto é, se queremos entender a realidade e descrevê-la!

Certamente que a nossa atenção é parcial e direccionada. Se observamos a lagartixa – a sua cabecita esperta, listrada de verde, surgindo da pedra – ignoramos o comboio troante, que avança soberbo sobre a paisagem.

Se escutamos as conversas passantes, abstraímos da flor, que o vento arrancou, e veio pousar, desconsolada, no chão.

Mas, que fazer, se não podemos acompanhar simultaneamente tudo o que nos rodeia?



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Poesia de Abilio Pacheco - mixórdia de maio - para o dia das mães


Poesia de Abilio Pacheco - mixórdia de maio - para o dia das mães




maio
 madres, Maria e mulheres
 nubens, grinaldas de laranjeiras
 bocas, primaveras de trópico:
 olhos atônitos de cheiros
 pele plena de luzes e cores

como por ordem na idéia
 e dizer coisa com coisa
 se maio me mixordia?



Umbroso

I
 Saio desse morto com algo dele que é meu
 e deixo nele algo meu que lhe pertence.
 Pouco importa o que deixo
 mas o que prendo à força na mão gauche.



II
 Saio desse morto levando na mão sinistra
 um punhado do que nos é comum
 e sigo por um corredor ocre de ocaso.
 A destra vazia, a outra cerrada;
 O morto, olvido, jaz! é passado!
 mas o punho penso é presente.



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